sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Recordar Saramago (II)

“…Diz-se que o mal não atura, embora, pela fadiga que traz consigo, pareça às vezes que sim, mas o que nenhuma dúvida se tem, é não durar o bem sempre. Está um homem em suavíssimo torpor, ouvindo as cigarras, não foi a comida fartura, mas um estômago avisado sabe encontrar muito no pouco, e além disso temos o sol, que também alimenta, eis senão quando ressoa a corneta. Se estivéssemos no vale de Josafá mandávamos acordar os mortos, assim não há outro remédio que levantarem-se os vivos…”

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“…Deitaram-se. Blimunda era virgem. Que idade tens, perguntou Baltasar, e Belimunda respondeu, Dezanove anos, mas já então se tornara muito mais velha. Correu algum sangue sobre a esteira. Com as pontas dos dedos médio e indicador humedecidos nele, Blimunda persignou-se e fez uma cruz no peito de Baltasar, sobre o coração. Estavam ambos nus. Numa rua perto ouviram vozes de desafio, bater de espadas, correrias. Depois o silêncio. Não correu mais sangue.
Quando, de manhã, Baltasar acordou, viu Blimunda deitada a seu lado, a comer pão, de olhos fechados. Só os abriu, cinzentos àquela hora, depois de ter acabado de comer, e disse, Nunca te olharei por dentro…”

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“…Além da conversa das mulheres, são os sonhos que seguram o mundo na sua órbita. Mas são também os sonhos que lhe fazem uma coroa de luas, por isso o céu é o resplendor que há dentro da cabeça dos homens, se não é a cabeça dos homens o próprio e único céu…”

(Extractos de Memorial do Convento)

8 comentários:

acácia rubra disse...

"o céu é o resplendor que há dentro da cabeça dos homens, se não é a cabeça dos homens o próprio e único céu…”

Uma grande obra para ler e reler.

Beijo

ematejoca disse...

Confesso, que nunca li o Memorial do Convento, embora todo o mundo me diga que é uma obra prima.

3 dos livros do Saramago foram-me oferecidos por familiares.
1 comprei-o eu na Feira do Livro do Porto há 4 anos.
2 li-os em alemão, e pertenciam à Biblioteca Municipal de Düsseldorf.

Na próxima segunda-feira, dois dos meus blogues vão também recordar Saramago.

A minha antipatia por ele, claro que não é como escritor. A razão é de tal maneira ridícula, que se a confessasse, enterrava um espeto na minha própria carne.

Marilu disse...

Meu querido amigo, mais um texto muito interessante...tenha um lindo final de semana...Beijocas

Carlos Albuquerque disse...

acácia rubra
Sem dúvida!

Marilu
Obrigado!
Bom fim-de-semana, também para você.

Carlos Albuquerque disse...

ematejoca
Não entenda as minhas palavras com conselho (quem sou eu para os dar?!), mas apenas como sugestão - leia o Memorial. Julgo que dará o tempo por não desperdiçado.
Na próxima semana irei espreitar os seus blogues...
Quanto à razão de que fala, porque há-de ela ser ridícula? A razão, quando é nossa, é apenas isso, a nossa razão, sem que a envolvamos com adjectivos.

Agulheta disse...

Amigo Carlos!Sei que estou em falta com os amigos em visitas,mas sei também que estão comigo no meu coração e nas horas piores...obrigado pelas palavras.Quando o tempo dá gosto bastante de ler,o memorial do convento nunca li,mas neste pequeno texto(passagens) do mesmo e como gosto de Saramago,irei ler...muito trabalho!.
Beijinho bfs Lisa

Rogério Pereira disse...

Meu Querido Apóstolo,

Cheguei tarde aqui, retardado pela enternecida imagem do primeiro aniversário do meu neto. Mas julgo vir a tempo de comentar que estas suas transcrições cumprirão o seu designio:
Não deixar cair no esquecimento as palavras necessárias, num tempo em que o preço do pão aumenta...
(este seu pão, pão da alma, custa apenas o esforço de um gesto seu, na esperança da multiplicação dos pães)...

Lá irá ser citado, na minha "Homilia Dominical"

Abraço Amigo

Filoxera disse...

Lembro-me...
:-)
Beijinhos.