segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Do Mwata

Avistou-a, no lado de lá da rua, ao sair do restaurante. Braços nus, uns, alçados, a quererem afastar uma nuvem que, pairando num céu mortiço, tapava o sol, assim lhe pareceu; outros abraçando-se. Foi vê-la de perto. Apesar de despida ela estava altiva. Passou-lhe as mãos pelo corpo rugoso. Os dedos detiveram-se num pequeno inchaço, mais macio que o resto em redor, parecendo uma lágrima que, vertida de cima, por ali tinha parado, porventura já sem forças para se deixar cair até ao solo.
Alguém lhe disse ter ela sido podada há pouco. Intoleráveis e intolerantes, os homens despojaram-na da liberdade de crescer como queria.
Já no carro, voltou a olhar para ela, juntando à certeza de que a terra grita, uma outra: as árvores choram.
Mas, ao contrário dos homens, dos de outrora, dos de agora, e, por certo, dos próximos, que insistirão em caminhar por passos velhos, o choro das árvores não verte nem o ódio, nem a maldade, tão pouco a vendeta. Unicamente uma dor que não se sente, se não ouve, apenas se vê.
Quis com aquela árvore falar. Não o conseguiu. Lembrou-se, então, das lianas das árvores da sua África. Quando cortadas, embora magoadas, jorram a água da vida, deixando que os sequiosos com ela se dessedentem. Depois, as árvores saram, e delas outras lianas persistem no nascimento.
Na Primavera irá procurar a árvore do outro lado da rua do restaurante. Encontrá-la-á, certamente, com os braços vestidos de verde, dada à tarefa de os florir. Crescendo, não como ela desejaria mas, apesar disso, com altivez, não se deixando vencer pela intolerância. Continuará a existir, orgulhosa da simplicidade do seu viver, não se furtando a abrigar sob a sua sombra quem dela precisar, não interrompendo a passagem do luar pelos seus ramos.

8 comentários:

Filoxera disse...

Além de seres vivos, as árvores são parte da paisagem, embelezam-na e ainda nos fornecem oxigénio.
Saibamos respeitá-las.
Um beijinho.

Dulce disse...

Há pessoas que, olhando para uma árvore, veem apenas a beleza e o frescor que ela representa. Outras há que não veem mais que o lucro que poderão obter com sua derrubada. Há ainda as que, indiferentes, parecem nem ve-la... Mas há pessoas, especiais, raras, que olham para uma árvore e lá encontram toda uma história de vida, que com ela tecem circunstâncias e momentos de encanto... E que oferecem aos amigos, como um presente, um post como este, Carlos.
Muito obrigada por este momento.
Beijos

Fê-blue bird disse...

Meu amigo dou-lhe os parabéns, escreveu um texto muito bonito e comovedor:
"Unicamente uma dor que não se sente, se não ouve, apenas se vê."

Lembrei-me desta frase pertencente à peça As Árvores Morrem de Pé :

"Morta por dentro, mas de pé, de pé, como as árvores" que foi dita quase no final pela fabulosa actriz Palmira Bastos.

beijinhos

folha seca disse...

Caro Carlos Albuquerque
Tenho o Privilégio de viver no meio das arvores. Tenho até uma centenária ou quase.
Quantas vezes converso com elas e de repente vejo-lhes personalidade própria. As arvores não se vergam...assim pudessemos dizer dos homens. Claro que "há sempre quem resista"
Obrigado por este texto
Abraço

maria teresa disse...

Eu deixo-as crescer quase de um modo "selvagem" no jardim do meu Refúgio, sou "dona" de 7 (talvez sejam elas as minhas donas).
Fui eu que as plantei o que me enche de orgulho...
Este texto seu, meu amigo, é uma maravilhosa ode à ÁRVORE!
Abracinho meu!

Maria João disse...

Carlos

" ..uma dor que não se sente, se não ouve, apenas se vê."

Eu acrescentaria, e mesmo não se vendo, se sabe que existe porque se pressente no silêncio.

Mesmo que não deixem as árvores crescer na amplitude que é da sua natureza, jamais elas desistirão de serem árvores, enquanto a seiva lhes levar, da raiz até aos ramos, a esperança do verde das folhas.
Se algum dia a raiz, não mais suportar a intolerância da poda, permanecerá , morrendo, como sempre viveu: De pé, porque alta viverá eternamente, quem assim viveu com dignidade.

E cheio de dignidade é este seu olhar de gente que se sabe na natureza das árvores.

Um enorme abraço, meu amigo

Malu disse...

Seu último parágrafo é absoluto, Carlos.
Realmente as árvores são MÃES, grandes MULHERES da VIDA.
Abraços, meu amigo

Brown Eyes disse...

Carlos vim deleitar-me com a tua escrita e deparei-me com esta grande homenagem à árvore, onde se sente a alma de um africano e o coração de um humanista. Beijinhos