quinta-feira, 16 de junho de 2011

Meditação

O senhor cardeal-patriarca de Lisboa disse, e a tv transmitiu: “É preciso contenção na contestação social, para não acontecer como na Grécia.”

Depois foi ao seu sermonário e de lá veio com uma recomendação de ordem política: “também a oposição tem que ser responsável.”

Desviei, por instantes, o olhar da tv para ver se me tinha enganado. Provavelmente, ouvira um banqueiro ou outro qualquer mandante do dinheiro. Mas, não. Era mesmo o senhor cardeal-patriarca de Lisboa!

Sabe-se quem quer, e a deseje como disfarce, uma contestação de estimação, amansada e açaimada, não vá o diabo tecê-las. Longe estava de imaginar que o senhor cardeal-patriarca de Lisboa fizesse parte do grupo. Acreditava eu que, neste momento em que o País atravessa um momento difícil, o senhor cardeal-patriarca de Lisboa, como pastor de um grande rebanho, tivesse palavras de alento, esperança e confiança para as suas ovelhas, e não as mandasse baixar as orelhas e fixar a boca no capim seco e desnutrido que lhes querem dar a comer, ou que, pelo menos, se deixasse estar no silêncio…

O senhor cardeal-patriarca de Lisboa, de tão rico sermonário, sabe, por certo, que foi sempre através da contestação incontida, mas justa e justificada, que, através dos tempos, se obtiveram os avanços e as melhorias sociais, no já longo caminhar do homem pelo trilho da Humanidade.

Não duvido que o senhor cardeal-patriarca de Lisboa saiba que se Afonso Henriques não tivesse contestado, de forma incontida, sua mãe, Portugal hoje não existiria. O mesmo sucedeu com Camões. Não fora a sua contestação incontida, ao mar revolto, e não teríamos Os Lusíadas.

Sabe, por certo, o senhor cardeal-patriarca de Lisboa, que se as mulheres não tivessem saído para a rua, contestando, de forma incontida, a sociedade que as oprimia e as tratava como seres inferiores, destinadas a não passarem de parideiras e donas de casa, não teriam conquistado, por exemplo, o direito ao voto.

Muita da contestação é errada? Não tenho qualquer dúvida. Mas certezas tenho, porque elas me chegam do que a Historia nos diz, que é sobre a prática análise do erro que se constrói algo de novo e melhor.

Julgo que o senhor cardeal-patriarca de Lisboa deveria meditar sobre o seu sermonário, tendo em conta que o dinheiro é para servir e não para ser servido.

4 comentários:

acácia rubra disse...

Carlos, e faço minhas as tuas palavras.

Beijo

Antonio Saramago disse...

Realmente ouvem-se coisas do arco da velha e os senhores da Igreja andam a meter o pé na argola.

Agulheta disse...

Amigo Carlos! Sempre atento e certeiro nas palavras,que partilho inteiramente.Quando as batinas da igreja bem meter nariz onde não deviam,sempre ouvimos disparates...este foi infeliz.
Beijinho bfs

Maria João disse...

Porque haveremos de silenciar, quando nos foi dada voz para dizer onde e quando a vida nos doí?
Contestação e rebelião são coisas diferentes. Calar ainda é consentir e, quem saberá da injustiça se os gritos ficarem submersos na garganta enquanto sangram?

Um abraço