terça-feira, 28 de junho de 2011

Como se eu soubesse escrever!

A Eva promove no seu blogue um “Concurso de Escrita Criativa”. Como regra única, o tema a concurso deverá ter como título o nome de um dos seus blogues. Opto pelo que está ali em cima e pode ser visitado indo-se por aqui. Não sendo obrigatório que o trabalho seja original recorro, para participar, a um texto já publicado no Conversas Daqui e Dali.

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Assinatura reconhecida

Pelo caminho se meteu. Ao fundo, deu com uma casa meio acubatada, duas tábuas a darem ares de porta. Forçou a abertura, sem o conseguir. Caiu-lhe em cima uma tabuleta. Leu o que escrito estava, em linhas meio enviesadas: “aqui vive Deus, em recolhimento, meditando, não entre.”

Obedeceu.

Três dias depois voltou à estrada. Caminhou pelo primeiro desvio. Deu com um portão de ferro, de cadeado franqueado. “ Reino do demo”, leu numa chapa chamuscada e meio amolgada, “faça o favor de entrar”.

Rejeitou o convite.

De regresso a casa, pôs-se a cismar. Assim ficou sete dias inteiros. Ao oitavo, voltou às andanças, por um carreiro de poeiras, desta feita. Uma vida depois parou. Sacudiu o pó, limpou os olhos. Aquilo não era cubata, nem casa, nem nada de parecido, era só um sítio com um letreiro, de luz aos tremeliques, dizendo: “Aqui vivemos os dois. Entre.”

Entrou.

Numa mesa a levitar, estavam, Deus com o bordão de peregrino no bolso, e o demo, tridente à cinta, a jogar xadrez. Nos intervalos de cada jogo, antes das peças realinhadas, Deus tentava moldar um pedaço de barro. O demo batia com o sílex nos chavelhos, a ver se deles tirava a faísca para atear o tridente. Palavras não as largava o silêncio.

De confusão se encheu. Voltou para trás. Em casa uma vez mais imaginou, com tenacidade. Findo o torvelinho do pensamento tornou ao sítio do letreiro, que já lá não estava. Caída no chão, apenas uma parra gatafunhada.

“Ele ganhou, mas batotou. Voltarei mais tarde. Quero a desforra. Assinado – demo.”

Ao dobrar da folha, numa das esquinas, estava aposto o carimbo: “Assinatura reconhecida por Deus.”

Ficou sem saber que destino dar aos seus pensares perturbados.

Muita vida depois, foi de novo ao letreiro. Encontrou-o, despido de dizeres, de luz apagada. Claridade, apenas a do tecto brumaceiro descido da Lua, chegando para os ver. Um sem o bordão de peregrino, outro despojado do tridente. O primeiro de testa enrugada e barbas longas, o segundo de chavelhos caídos. Ambos envelhecidos, mas continuando, em silêncio, de olhos pregados no xadrez.

(Este texto foi publicado em 11 de Janeiro de 2010. Peço aos meus amigos, visitantes e leitores que me desculpem a reedição.)

8 comentários:

acácia rubra disse...

Se alguém o sabe fazer és tu.

E na perfeição!

Lindo o teu texto. O prémio é teu. Entrego-to.

Beijo

Gisa disse...

Que texto!!
Adorei!
Um grande bj

Mz disse...

E que bem que escreve.

ematejoca disse...

EXCELENTE!!!
UMA HISTÓRIA QUASE UNIVERSAL.

Filoxera disse...

Eu até lhe agradeço a reedição, amigo Carlos.
Mais um texto fabuloso! Adoro quando a sua criatividade dá em brincar com as letras; saem-lhe sempre histórias lindas e místicas.
Um beijinho sorridente.

folha seca disse...

Caro Caro Albuquerque
Acabei de ler o comentário que deixou no meu post de 2ª Feira. Não respondi individualmente, dado que havia vários comentários optei por uma resposta colectiva.

Mas queria agradecer o ter-me dado a conhecer um blog e o seu post que não tinha lido na primera edição. Uma forma séria ( com algum humor ou talzes ironia) de olhar para a realidade.
Abraço

Malu disse...

Carlos, meu amigo, sabe escrever histórias como ninguém e sempre deixa em cada um de nós um certo sentimento de inquietude e reflexão.
Abraços

Eva Gonçalves disse...

Pensei que já tinha agradecido a participação, mas pelos vistos, ainda não tinha, ou o comentário não chegou! Estou a reler os textos e é que vi que não tinha comentário...:) Ora, muito obrigada por ter aderido à iniciativa. O Júri está reunido para decidir que é o vencedor, mas não há ainda unanimidade :)) beijinho