sexta-feira, 28 de maio de 2010

Do Mwata Milagre



No baú das memórias guardo o sabor exótico e único do tamarindo. Também lá está esta história que me contou o Mwata Milagre.


Sementes mágicas

A árvore, ali medrada, é o tamarindeiro que vive no quintal dela.
O tronco, largo na base, estica-se depois lá para cima, onde volta a inchar com uma corcova rugosa a dizer que muita idade já ela andou. Ninguém lhe conhece o tempo que leva de vida, mas há registo na tradição oral dos negros mais velhos, expulsos para as sanzalas à medida que a cidade crescia, que a árvore já ali estava quando construíram a vivenda, ajardinaram e vedaram o quintal, sem que mãos humanas a tivessem plantado. Da corcunda rasgam-se, encarquilhados ao princípio, esguios e lisos depois, os dois primeiros galhos. Um deles, atirado para fora dos terrenos da residência, a pousar numa sebe de buganvílias vermelhas. Ambos, e os restantes que crescem por cima deles, com os ramos pejados de milhares de pequenas folhas verdes, quase transparentes, onde tecelões e pardais fazem ninho, enchendo os entardeceres de trinados ao desafio e chilreios desafinados com grande restolho à mistura, e muitos tamarindos com que ela se delicia quando já estão mucefes, que o mesmo é dizer-se bem maduros.
As sementes das vagens, negras e brilhantes, guarda-as num frasquinho de cristal, oferta de Paulo, revestido por fina renda de prata assente numa base de corindo lapidado, emanando mil raios faiscantes quando a luz lhe toca, ou refractando-a nas cores do arco-íris. Só as mais adelgaçadas, com o formato de um pequeno coração, não em rigor, mas com a fantasia e imaginação que ela põe à solta sempre que olha para coisas de que gosta. Ainda que o não sejam, diga-se, os olhos dela vêem-nas assim. São raras. Recolheu apenas três, até agora.
A empregada em casa de Ingrid, uma luba do Kasai, meio amestiçada, ao que se supõe fruto de uma ligação de antepassados com pombeiros (como eram conhecidos os portugueses que se dedicavam ao tráfico de escravos, na terra da família dela), falou-lhe algumas vezes daquelas estranhas sementes de tamarindo.
Contou-lhe a luba, que se chama Lila: minha mãe me disse para guardar sementes como esta (mostrava-lhe uma que trazia pendurada ao pescoço por um cordão de couro de javali). Nos fazem mulher. Nos trazem um homem de viver sempre com ele e ter filhos. Tem que ser três, mesmo mais. As árvores delas tem poucas na minha terra. Apanhei só uma, quando era pequena, no terreno dos tios da minha mãe. Lá, tem um pau de tamarindo. A menina quando encontrar guarda bem. Minha mãe me disse, as sementes de tamarindo, quando uma virgem lhes apanha dá coração no homem que vai ser dela para toda a vida. Faz-lhe aparecer ele. Pode dar as sementes nele, também, assim ele não esquece. Eu, não vou ser mulher de homem da vida toda. É assim, tenho só uma semente de tamarindo!....
Ingrid ouviu a história, cada vez que a luba Lila a ela voltou, com um sorriso condescendente: No que ela acredita!
Mas a verdade é que, vá-se lá perceber isto, sempre que olha para as sementes aconchegadas no frasquinho de cristal, Ingrid vê Paulo sorrindo-lhe!

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Pedido de Namoro

("Namoro" - Almada Negreiros)

Descobre-a ao vencer uma quina da vida. Cruzam-se. Busca-lhe os olhos. Pisca-lhe um.
Ela sorri.
Destro e rápido, vindo por caminho a direito, o absoluto do amor ciranda à volta deles, enlaça-os, colhe-os, suga-os como o vórtice de uma lanterna mágica, sem que um e outro o saibam ainda, embora aqui tenham chegado com suspeitas de que tal lhes iria acontecer.
À noite, no quarto, debruça-se sobre a secretária de madeira escura, cujo aspecto deixa perceber ser mais metida na idade do que ele.
Arreda livros e papéis.
Retira da gaveta um lápis e um bloco de apontamentos.
Passa rápido o olhar de um extremo a outro do tecto, a rascunhar uma ideia. Trá-la, e à descoberta, para baixo.
Espreitando-se-lhe por cima do ombro, avista-se o que acaba de escrever.
- Vamos viver?
Parece-lhe bem.
Enrola o papel em canudo. Passa-lhe um elástico, resguardando-o de aberturas despropositadas. Guarda-o debaixo da almofada da cama, local oculto, inteiramente seu durante o sono.
Na manhã seguinte, extrai do encosto de dormir as duas palavras e o ponto de interrogação. Retira-lhes o atilho. Com eles segue para a quina onde se cruzaram. Ela surge, sorridente de novo. Dá-lhe o papel. Ela lê. O rosto ilumina-se-lhe com reflexos prateados. Vêm-se-lhe rubores, brilhos alegres a bailarem-lhe nos olhos. Guarda o papel sob o decote da blusa. Sabe-lhe bem, a um sentir nunca experimentado. A seda da face avermelha-se. De toda a parte de si, e de fora, chega-lhe um calor a enchê-la, a apoderar-se dela.
Responde-lhe com os lábios mais recortados do que é costume:

- Sim, vamos viver.

E dá-lhe uma flor em forma de coração.

(Como dizia o Poeta - Vinicius de Moraes)

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Os meus selos

Hoje é dia de mimos. Tempo para postar mais alguns dos selos que recebi.

Oferecido pela Maria Teresa (Beijinhos embrulhados). Exemplo a seguir?! O selo traz quatro requisitos. Satisfaço-os.

1- Citar dois defeitos
- de nascença: sou teimoso. Adquirido: fumo.
2- Citar duas qualidades
- sou solidário e fraterno
3- Indicar uma música que seja ou esteja a ser a trilha sonora da minha vida
- a trilha sonora da minha vida tem sido o bater do meu coração, que não é de ferro.
4- Por fim uma frase que eu use como mantra
- se mantra quer aqui significar oração, qualquer que seja, não uso. Não oro.


Este chegou-me da Teresa (Os meus óculos do mundo) e da Helga (Planícies da memória). Às duas agradeço tamanha gentileza. Devo:

1. Enumerar 3 Sonhos
- amanhã não haverá crianças a chorar de fome e de medo;
- os pedófilos serão extintos;
- a Humanidade desaprenderá a palavra guerra;
2. Enumerar 3 pecados/tentações
Transgressões de preceitos religiosos não serão, certamente, porque não ando por aí. Tentações são-no, de facto!
- o cigarro, o pastel de nata e o vinho tinto.

3. Comentar no blogue criador do selo
- como certeza, apenas esta: comentarei nos blogs que mo ofereceram.

A ematejoca diz ser o meu um blog clássico! Obrigado, amiga de longe. Que tudo continue bem aí por Düsseldorf. Quer ela que eu diga qual é a minha flor preferida e refira uma mezinha caseira. Pois bem:
- rosa vermelha;
- xarope de cenoura. Faz bem a tudo, até à mania de que aquilo cura todas as maleitas!





sábado, 22 de maio de 2010

Flores murchando



Escrito a dois

(A Maria João e eu)

Foi no regresso de férias.

Noventa quilómetros antes de chegar a casa, mais metro menos centímetro, saímos da auto-estrada. Decidíramos passar pela cidade à beira Sado, que não víamos há muitos anos. Numa das esplanadas da avenida dando para o rio pedimos dois cafés e uma água fresca. Ali estávamos, descansando, quando na borda da esplanada apareceu um grupo de adolescentes, entre os 14 e os 16 anos, pareceu-nos, em caminhada ruidosa.
Surgiram vestidas de mini-saia, cintura caída e blusas de grande decote. Cabelos tombados pelos ombros, sobrancelhas engrossadas, lábios e olhos pintados, maçãs do rosto avermelhadas, garrafa de cerveja na mão, algumas de cigarro na boca, outras com ele em boquilhas. Bamboleavam-se, em jeitos insinuantes, como prostitutas da noite em qualquer beco esconso. Uma delas, mais velha, talvez na casa dos 30, fotografava o grupo e quem estava sentado na esplanada. E lá foram, roçando-se por um e por outro, provocantes. Estranho… aquele triste desfilar!
Numa mesa ao lado sentava-se um casal. Ouvimos a voz masculina: “é assim que elas começam!”. De outras chegaram-nos gargalhadas alarves. De que se ria aquela gente?!
De repente uma das minhas canadianas, encostada à cadeira, foi pelos ares. Um rapaz, aparentando a mesma idade das raparigas dera-lhe um pontapé. Sem nada dizer seguiu trôpego, também de garrafa de cerveja na mão, visivelmente etilizado, juntando-se à algazarra do grupo.
Que espécie de humanidade é esta?!
De novo a voz da mesa ao lado: “se fosse comigo dava-lhe umas bofetadas!”.
Claro que não dei. Para violência chegara-me o espectáculo a que assistira. Os risos, esses, continuaram…
Deixámos a mesa e fomos para a beira-rio, à barraquinha dos doces regionais e dos pinhões, as sementes de pinheiro manso em que a região é fértil. Para além da pergunta quanto custa, manifestámos à senhora vendedora das iguarias a nossa perplexidade (e não só!) pelo que viramos.
Não tem mal, são do teatro da escola, disse ela.
Do teatro da escola…?!
Regressámos pensando haver muitos jardins onde botões ficarão por florescer. Murcharão antes de tempo.
Depois de ter escrito este post encontrei no blog Pequenos Detalhes, da Maria João, amiga virtual desde a primeira hora, já lá vai mais de um ano, que um dia (quem sabe?!) conhecerei pessoalmente, um texto que me seduziu. Pensei: como eu gostaria de o ter escrito! Como este poema tem tanto a ver com o que senti! Pedi-lho emprestado para rematar, com chave de ouro, o meu post. Sensível, solidária e fraterna como é, ela autorizou-me a publicá-lo. Aqui o deixo, fazendo do meu post uma escrita a dois, uma partilha de sentimentos que muito me honra. Obrigado, Maria João.


De que te ris, humanidade?!

Sorves o brilho com que julgas cobrir-te
E despes-te da humildade, despudoradamente
Ousando violentar todas as tuas primaveras
Rezas, porque o coração não é feito de ouro e prata
E a dor é nó que não desata
O desespero a que te condenas
De que te ris, humanidade?!
Se na deserta alma que te habita
Chovem lágrimas apenas

(Maria João, Maio de 2010)





segunda-feira, 17 de maio de 2010

Regresso de férias (A Viagem)


Ao regressar muitos comentários aqui encontrei! Em todos, a simpatia e as palavras amigas de quem os enviou. Alguns trouxeram, também, a oferta de um selo, que irei editar em post. Sinto-me feliz ao ver-me rodeado por tanta amizade. Sou um bloguista sortudo! Obrigado a todos. Permitam, agora, que vos vá deixando algumas impressões.

A Viagem

Bagageira arrumada. Saídos da garagem deparou-se-nos um céu com os estores corridos. Pingava uma chuva miudinha, metediça e fria, soprada da borda da lezíria. Não permitimos que a desilusão nos embaciasse a vontade. Viéramos do sítio de onde estávamos, querendo partir e chegar ao destino que nos propuséramos, trezentos quilómetros a Sul. Imaginei, então, o que de momento não podia ver: mais adiante, por certo, o tempo estaria melhor. Puro engano! Ao chegarmos ao portão da auto-estrada chovia que Deus a dava!
Deus passa a vida a dar e a tirar, hoje não será excepção, disse para comigo, tentando convencer-me. Novo equívoco! Este era o dia do Seu descanso, tempo para os deuses suplentes se divertirem com os dois viajantes solitários. Não satisfeitos com a chuva, puseram-se a soprar ventos desencontrados! Olhar posto no horizonte alagado, libertou-se-me um gemido de resignação.
Tão harmoniosamente quanto possível, e habituado que está a alguns feitos, o carro foi rolando. Poucos quilómetros vencidos ao som do vaivém irritante dos limpa vidros, olhei para cima. Lá estavam elas, as nuvens, de mau humor, quais carrancas, desenhando rostos de mil e uma expressões severas. Algumas, provavelmente resultantes de acabamentos apressados, mais pareciam gravuras rupestres. Virando os olhos para o lado, na busca do mato em redor, nada se via, nem sequer uma carqueja ou uma giesta! Lá fomos prisioneiros daquele comboio de vapores suspensos, que parecia vir do Infinito e para ele voltar, conduzindo-nos por um rio de águas buliçosas, como a caminho de um buraco negro. Apeteceu-me dizer: hoje também eu vou andar sobre as águas!
Mais ou menos por alturas do meio do percurso, chegou-se-nos a vontade de amansar o ronronar do estômago. O espírito ainda se aguentara, mas a carne cedera! Na “Área de Serviços”, o mau como de costume – comeres desprovidos de sabor e caros! Ao chegar a uma “Área” destas, tenho sempre a sensação de me estar a encontrar com uma qualquer civilização perdida. Porque se não põe ordem naquilo?!
Bebida a bica, de novo rodas na estrada. As nuvens continuavam, cada uma engendrando outra, ligando-se numa imbricação sem fim. Uma vez mais o confronto com um acesso de fúria dos céus. Agora já não chovia que Deus a dava, mas mais. A água caía de cima, soprava dos lados, até do asfalto parecia nascer. Era tal que até os cães, se por ali andassem, a beberiam de pé!
Assim foi sendo até chegarmos ao destino. Aqui, uma surpresa: a avenida do hotel, bordejando o Atlântico, fora transformada em zona pedonal com calçada à portuguesa, resultante da Requalificação da Beira-mar, a que meteram ombros a autarquia, o ministério da Economia e o Fundo de Turismo. Dá gosto ver a obra que ali foi feita. Ponham-se lá mímicos, actores, músicos, floristas e a alegria catalã, e, de repente, passe o exagero, até nos poderemos imaginar nas Ramblas de Barcelona! Neste País (calai-vos profetas da desgraça!) ainda se trabalha, e bem! Para que melhor víssemos o belo que aquilo ficou a chuva cessou, não nos saciando, embora, a fome de céu azul. Não! Lá por cima permanecia tudo escurecido, só que as nuvens já não desenhavam rostos de expressões sorumbáticas. Estavam, agora, assemelhando-se a fantasmas fugidios, porventura recolhendo-se, sabe-se lá aonde, levando com eles os regadores.
Depois de instalados fomos à demanda do restaurante para o jantar. Encontramo-lo quase cheio, mas ainda com uma mesa para dois, em local aprazível. Encomenda feita reparámos que a sala estava cheia com gentes locais: irlandeses, escoceses, ingleses e canadianos. Recém-chegados da portuguesa e bela Região do Oeste, éramos os únicos estrangeiros!

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Curtas férias!

Até já!
Estou de partida, rumando a Sul. Não em qualquer nave espacial, ou em nau por águas tormentosas como as que naufragaram o destruidor de Tróia, mas no nosso automóvel sempre à espera que levemos a passear os seus cento e trinta cavalos.
Vamos lá para baixo, onde o Oceano é mais quente e o Sol menos envergonhado. A recuperar da última cirurgia (são 15 as feitas até agora), mesmo precisando ainda das canadianas para me locomover, irei dar um dedo de conversa com os deuses marinhos na esperança de saber novas da tragédia do Golfo do México, e outras, que eles quando estão bem dispostos muito me contam, e instar o guardador dos céus a mandar um calorzito afável avivar-me a cor da pele um pouco esmaecida, ultimamente.
Do meio das manhãs até pelas tardes fora, na espreguiçadeira da praia, os livros far-me-ão companhia. Repartir-me-ei entre a leitura, a ingestão de um qualquer ligeiro aconchego para o estômago, e o contemplar as pequenas e macias ondas embrulhando-se na areia fina. E, naturalmente, passar os olhos pelo que está em meu redor, à descoberta de um gesto ou de um som que me prendam a atenção, ou mesmo do pousar de um pardalinho à procura de almoço. Por vezes até um casal de corvos crocicantes se mostra por entre os arbustos agarrados ao que resta da falésia.
Uma tarde chegará em que farei das canadianas bastões e subirei (tentarei) à rocha do costume e nela me sentarei vendo os veleiros passarem, e aguardando o pôr-do-sol para observar o recolher do nosso lampião e aquecedor celeste. Provavelmente, soprará uma brisa fresca a trazer-me notícias de como será a manhã vindoura. Se o Sol ao partir se avermelhar, dizem os entendidos, o dia seguinte será quente, seco e claro.
À noite, após um banho retemperador e o que mais possa acontecer, procuraremos, como é hábito, um restaurante aonde chegue o sussurro do mar, o que a mais das vezes não passa de um sonho. Que importa? Sonhar é viver! A noite terá também direito a que por ela passeemos olhando a Lua, ou as estrelas, e nos encontremos com uma esplanada para nela tomarmos uma bebida como aconchego para o sono.
Não levarei o portátil, desculpem! O Conversas Daqui e Dali vai de férias, também, durante uns dias. Talvez um pouco mais de uma semana. Tempo que estaremos a ver como se porta o Algarve neste Maio que corre.
Deixo-vos com uma canção. Sei que já uma vez aqui a coloquei. Não resisto a editá-la de novo. A letra toca-me fundo, bem como a interpretação dessa extraordinária mulher que foi Mercedes Sosa – “La Negra”, cantando a inesquecível Violeta Parra. Espero que perdoem a repetição.
Um abraço a todos. Até já.

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Porquê?


Naquela noite, nascida de um dia de alma cansada, olhos fixos no branco do tecto, tardava-se-lhe o sono.
Fechou os olhos.
Fê-los aparecer
.

Enfileirou-os a um canto da planura branca, e afanou-se a passá-los para o lado de lá, sem o lograr. Ao chegar mais ou menos a meio, por alturas de um inchaço no acrílico da pintura, iam os bichos para aí já depois de muitos, desalinhavam-se sempre umas ovelhas, seduzidas por verdura ali grelada, atirando-se à iguaria, e tresmalhando-se depois, obrigando-o a vir atrás recomeçar. Experimentou pô-los a par, macho e fêmea, e alinhá-los ao contrário.
Gastou as horas até que a manhã foi buscar a noite. Debalde.
Outro era o alimento que as bichas queriam. Uma insistência mais, não se tivesse o Sol metido para dentro da janela a sacudir-lhe os olhos e a deitar-se-lhe entre as pernas, e teria perdido a tramontana. Conclui-se, assim, com a ligeireza de um supor. Derribado, enfadou-se. Desistiu.
Mudou de afazeres.
De inadaptável a pastor com ajustes por descobrir, não tendo sequer perro com quem se apurar no ofício, e o termo não é aqui trazido, nem pouco mais ou menos, não haja espúrias leituras apressadas, como tendo alguma coisa a ver com a infâmia porque já se designaram os Mouros, mas apenas querendo dizer o que se quer, passou a observador do ondulado da cortina de cambraia, às voltas com um amor-perfeito estampado em relevo, a ver se descobria de onde colhera a flor tantas cores e o brilho aveludado. Então, uma voz vinda de mansinho de dentro de si, sem se fazer anunciar, perguntou-lhe o que andava ele por ali a fazer. Gosto de pensar, ora essa!
Apesar da resposta lhe ter surgido de imediato clara, não confundindo as palavras, estas, feitas em avaros, nada mais lhe disseram. Acudiu-lhe à ideia que a frase fora interrompida ao arrepio da sua vontade, por algo de indefinível a intrometer-se. Não fora ela abafada, bem o percebeu, remataria assim: vai bater a outra porta! E, se os tivesse, encolheria os ombros.
Haverá de continuar, sim haverá, escuta-se-lhe depois, à procura de um temor para espantar os receios que o visitam. Há-de descobrir porque está encruzilhado o mar dos seus sonhos. Juntar a recordação e o esquecimento. Continuar a dizer que a vida, ou o que quer que seja que se meta a fazer dela, não tem sempre que ser o que ela quer!
Por onde se entretém, afinal, a vida, que o deixa, assim, por ali e aqui?
E porque haverá de andar a correr atrás do tempo?

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Book- Blogagem colectiva

“A cultura assusta muito. É uma coisa apavorante para os ditadores. Um povo que lê nunca será um povo de escravos.”
(António Lobo Antunes)



A publicação deste post integra-se numa blogagem colectiva sugerida pela C. do Marcas D’Água, em comentário deixado no Bicho-Carpinteiro da Austeriana. Foi decidido fazê-lo hoje, Dia Mundial da Liberdade de Imprensa, implementado pela UNESCO. A celebração deste dia dá-nos oportunidade para reflectirmos sobre a necessidade de aquisição desse bem que é o Conhecimento.
Através do programa "Memória do Mundo", a UNESCO tem promovido a identificação e preservação de documentos e arquivos de grande valor histórico, assegurando a sua ampla disseminação. Entre eles contam-se, por exemplo, o original da 9ª sinfonia de Beethoven, a Bíblia de Guthenberg ou a Carta de Pêro Vaz de Caminha (o primeiro bem português inscrito no programa).
A comissão Europeia lançou em 27 de Abril o Livro Verde com o intuito de estabelecer prioridades para a Cultura, área já geradora de cinco milhões de postos de trabalho.
O vídeo revela-nos uma fantástica «descoberta» científica! Experimente este novo produto, o Book, vai ver que vale a pena.
Ainda pode participar na blogagem colectiva. É só dispor-se a tal.



domingo, 2 de maio de 2010

Dia da Mãe



A última vez que te vi estavas deitada, serena, dada ao sono de que não se desperta. Olhei-te. Invadiu-me uma raiva maior que a dor. Foi dela que eu nasci, disse para mim, em silêncio, agarrado à solidão que se me chegou. Não chorei. Tocaram-me no ombro. Vi taparem-te. Fizeram-me um sinal.
Acompanhei a tua viagem até ao local em que te desceram e te cobriram com uma terra diferente da que te vira nascer. Segurei as lágrimas que teimavam em soltar-se. Aquela mágoa não a quis partilhar. Era só minha! Sofri-a na alma e no meu coração que sangrou.

No suco dos meus olhos vi, então, partes da nossa vida. A tua foi longa, chegaste perto dos 100. Lembrei-me que tempos antes te fôramos visitar, já tu vivias num mundo longe do nosso. Oferecemos-te uma caixa de bombons. Deliciaste-te, eu vi, mas as palavras que então disseste já nada tinham a ver connosco. Estavas noutro local, provavelmente num paraíso para que te transportaras, onde contigo vivias, e nós não habitávamos.
Recordei-me, também, do muito que me ensinaste. Um dia, era eu ainda um catraio que jogava descalço com bola de trapos, fui fazer-te queixa de uma “malandrice” que o meu irmão me fizera – zangado, rasgara-me a camisa. Soubeste da atitude dele, vi nos teus olhos que não gostaste, e logo pensei agora é que ele vai ver! Atiraste-lhe umas palavras, de que já não me lembro, e ele voltou para o quintal. A mim deste-me um ralhete, apontaste-me o dedo e disseste: não se denuncia um irmão!
Aprendi para todo o sempre! Como para sempre em mim ficaram os carinhos das tuas mãos fagueiras, nos tempos em que caminhava pela minha meninice.
No momento em que a última pá de terra sobre ti caiu, subiu um eco trazendo-me à memória silêncios. Silêncios meus, hoje cheios de palavras que gostaria de te ter dito.
Não sei por onde andas agora. Pouco importa. Mas se te voltar a encontrar, dir-te-ei: Mãe, gosto muito de ti.
Beijo a tua memória.

sábado, 1 de maio de 2010

Revisitar a História (O 1º de Maio)




O 1º de Maio





A 20 de Junho de 1889, a Segunda Internacional Socialista, reunida em Paris, decidiu convocar anualmente os trabalhadores para uma manifestação pela conquista das 8 horas de trabalho diário. Em homenagem aos trabalhadores “ Mártires de Chicago” (a cidade que era o principal centro industrial dos Estados Unidos naquela época), o dia escolhido foi o Primeiro de Maio. Em 23 de Abril de 1919, o Senado francês aprovou a jornada diária de 8 horas e proclamou feriado o dia 1 de Maio desse ano. No ano seguinte a Rússia adoptou o Primeiro de Maio como feriado nacional, exemplo que foi seguido por muitos outros países. Instituíra-se o Dia Mundial do Trabalho.

Como se chegou aqui:

Há que retroceder aos primórdios da Produção Capitalista, quando ainda eram comuns práticas selvagens. Não apenas se procurava, desenfreadamente, a mais-valia, através de baixos salários, como até mesmo a saúde física e mental dos trabalhadores era comprometida por jornadas que se estendiam até 17 horas de trabalho diário, prática comum nas indústrias da Europa e dos Estados Unidos no final do século XVIII e durante o século XIX. Férias, descanso semanal, cuidados de saúde, apoio à maternidade e reformas não existiam. Para se protegerem, os trabalhadores criaram vários tipos de organização como as caixas de auxílio mútuo, precursoras dos primeiros sindicatos.Com as primeiras organizações, surgiram também as campanhas e mobilizações reivindicando maiores salários e redução das horas de trabalho diário. Greves, nem sempre pacíficas, explodiam por todo o mundo industrializado. Chicago, um dos principais pólos industriais norte-americanos, era, também, um dos grandes centros sindicais. Duas centrais lideravam os trabalhadores em todo o país: a AFL (Federação Americana de Trabalho) e a Knights of Labor (Cavaleiros do Trabalho). As organizações (centrais), sindicatos e associações, que surgiam, eram formadas principalmente por trabalhadores de tendência socialista, anarquista e social-democrata. Em 1886, Chicago foi palco de uma intensa greve operária. Os trabalhadores reivindicavam melhores salários e a passagem da jornada de trabalho de treze para oito horas diárias. À época, Chicago não era apenas o centro da máfia e do crime organizado, era, também, o centro do anarquismo na América do Norte, com importantes jornais operários como o Arbeiter Zeitung e o Verboten, dirigidos respectivamente por August Spies e Michel Schwab.As entidades patronais controlavam igualmente jornais, onde os líderes operários eram descritos como “preguiçosos e canalhas” que só procuravam a desordem. O Chicago Tribune foi mais longe e publicou em editorial: "Para estes vagabundos esfarrapados, a melhor comida é uma carga de chumbo no estômago". No decorrer da greve, uma passeata pacífica, pela Avenida Michigan, de trabalhadores no activo, desempregados e familiares, vestindo roupas de Domingo, e empunhando cartazes onde se lia "8 horas para trabalhar, 8 horas para descansar e 8 horas para fazermos o que for de nossa vontade", silenciou momentaneamente tais críticas, embora com resultados trágicos no curto prazo. Do alto dos edifícios e nas esquinas a polícia vigiava, fortemente armada. A passeata terminou com um comício.No dia 3, a greve continuava em muitos estabelecimentos. Diante da fábrica McCormick Harvester, a policia disparou contra piquetes de greve e outros operários, matando seis, deixando 50 feridos e deteve centenas. August Spies convocou os trabalhadores para uma concentração na tarde do dia 4. O ambiente era de revolta apesar dos líderes pedirem calma. Os oradores revezavam-se; Spies, Parsons e Sam Filiem, pediram a união e a continuidade do movimento. No final da manifestação um grupo de 180 policiais atacou os manifestantes, espancando-os. Uma bomba explodiu no meio dos guardas. Sessenta foram feridos e vários morreram. Chegaram reforços policiais que começaram a atirar em todas as direcções. Morreram centenas de pessoas: mulheres, homens e crianças.Os acontecimentos ficaram conhecidos como A Revolta de Haymarket. A repressão foi aumentando num crescendo sem fim: o Governo decretou o “Estado de Sítio”, e o recolher obrigatório, com a consequente proibição de circulação pelas ruas. Milhares de trabalhadores foram presos, muitas sedes de sindicatos incendiadas, criminosos e gangsters, pagos pelos patrões, invadiram casas de trabalhadores, espancando-os e destruindo-lhes bens. A justiça levou a julgamento os líderes do movimento, August Spies, Sam Fieldem, Oscar Neeb, Adolph Fischer, Michel Shwab, Louis Lingg e Georg Engel. O julgamento começou a 21 de Junho de 1886 e desenrolou-se rapidamente. Provas e testemunhas foram inventadas.
A sentença foi lida a 9 de Outubro. Parsons, Engel, Fischer, Lingg, Spies foram condenados à morte por enforcamento; Fieldem e Schwab, à prisão perpétua e Neeb a quinze anos de prisão.
Linng, ao centro na foto, não foi enforcado por ter sido encontrado morto na sua cela.

Gerou-se, então, um movimento de solidariedade internacional pressionando o governo dos Estados Unidos a realizar um novo julgamento, o que acabou por acontecer em 1888. O novo júri, entretanto constituído, reconheceu a inocência dos trabalhadores, admitiu, como provado, que fora um capitão da polícia a mandar rebentar a bomba em Haymarket, culpabilizou o Estado norte-americano e decidiu a libertação dos trabalhadores presos, incluindo os condenados a prisão perpétua.

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Em Portugal só a partir da Revolução dos Cravos, em 25 de Abril de 1974, é que se voltou a comemorar o Primeiro de Maio, livremente, e este passou a ser feriado nacional. Hoje, as duas centrais sindicais, CGTP (Central Geral dos Trabalhadores Portugueses) e UGT (União Geral de Trabalhadores), assinalam-no, em liberdade, com manifestações e comícios por todo o país. Durante a ditadura salazarista do Estado Novo as comemorações eram reprimidas pela polícia.
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Os Estados Unidos, onde tudo começou, não reconhecem, apesar disso, ainda hoje, o Primeiro de Maio como Dia do Trabalhador. Naquele país também se celebra um Dia do Trabalhador (Labor Day), mas isso acontece na primeira segunda-feira de Setembro. É feriado federal (nacional), estando relacionado com o período das colheitas e com o fim do Verão. A decisão de assim ser foi tomada pelo presidente Stephen Grover Cleveland (Partido Democrata), por recear que a celebração em Maio reforçasse o movimento socialista nos Estados Unidos.

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Viajar pela História deixa-nos uma certeza: lutando por melhor, é sempre possível mudar.
Nunca desistir é lema que sigo desde sempre.
Recordo, com emoção, o 1º de Maio de 1974 em Lisboa. Nunca vira manifestação como aquela. Vivi-a com o sentimento de ter recuperado esse bem precioso que é a Liberdade. Chorei enquanto desfilava e ouvia os líderes políticos regressados do exílio. Hoje, não fora a ainda impossibilidade de caminhar como quero, voltaria à Manifestação.
Deixo-vos com palavras de Manuel Alegre:

É possível falar sem um nó na garganta é possível amar sem que venham proibir é possível correr sem que seja a fugir. Se tens vontade de cantar não tenhas medo: canta. É possível andar sem olhar para o chão é possível viver sem que seja de rastos. Os teus olhos nasceram para olhar os astros. Se te apetece dizer não grita comigo: não. É possível viver de outro modo. É possível transformares em arma a tua mão. É possível o amor é possível o pão. É possível viver de pé! Não te deixes murchar. Não deixes que te domem. É possível viver sem fingir que se vive. É possível ser homem. É possível ser livre.
( Infelizmente parece estarmos a regressar aos primórdios da Produção Capitalista. Na cena política portuguesa ressurgem os vendedores de ilusões, que nos pretendem acorrentar de novo)

sexta-feira, 30 de abril de 2010

A Saudade não cabe cá dentro!





As Barrocas do Bungo
E
O Mar da Boavista

Justificar completamente

Éramos seis catraios desenfreados e reguilas, alunos do sábio e paciente professor Cardoso na Escola 8 em Luanda, onde frequentávamos o último ano da primária. Quatro negros, dois brancos.
Não éramos estudantes muito aplicados, mas também com aquele mestre bastava ouvi-lo atentamente e seguir o que ele escrevia e desenhava no quadro negro (o que fazíamos) que o saber ficava-nos para sempre. Diziam os mais velhos que éramos “os putos que sabiam”. Não seria tanto assim, mas a verdade é que passáramos sempre de classe com excelente aproveitamento e abraços do Prof.! Que agradável era sentir aquele peito de homem bom encostado ao nosso! Também havia tabefes, reguadas (algumas) e castigos, claro, mas aquilo era como o bater de mãe: não doía.
A escola não era o nosso limite. Éramos aventureiros, putos atiradiços, de sangue na guelra, sem medo. Queríamos descobrir o centro do mundo! Existiria ele? E a aventura não estava só na sala de aula (apenas havia uma), onde, pensávamos, já tudo tínhamos descoberto (para nós escrita e contas eram um tu cá tu lá, até sabíamos onde pôr a cedilha e o h do verbo haver, para já não falar da tabuada que dizíamos enquanto o diabo esfregava um olho), mas fora dela.
Viesse uma borla, ou decidíssemos uma gazeta (sim, também o fazíamos! Devemos ter sido nós a inventar a greve…) e pronto! Lá íamos os seis atravessar a rua a correr, guinar para cima em direcção ao Miramar e, aqui chegados, flectir para as Barrocas do Bungo, à procura dos sulcos de terra vermelha (as nossas picadas), que desciam para o Mar da Boavista, lá muito em baixo. Só nos metíamos nestas andanças quando a luz que vinha do céu chegava despida de nuvens, deixando ver aquele azul sem igual. Chuva nas Barrocas era um Deus me livre, nem nós, corajosos e intrépidos, nos atrevíamos!
Lá íamos, descendo o monte, numa correria trôpega e ziguezagueante, saquetas da escola penduradas ao pescoço e sandálias nas mãos. Chegávamos lá abaixo cansados, mas ainda com forças para o encontro com o mar. Entrávamos pisando a borda baixinha do Atlântico, que, embora por vezes envergonhado, parecia estar à nossa espera. Envergonhado, sim, porque havia dias em que nos acolhia com as águas barrentas tingidas pela lama vermelha arrastada das Barrocas por chuva violenta da véspera. E disso, estou certo, ele não gostava. Preferia banhar-nos com águas cristalinas. O Oceano gostava dos putos da Escola 8!
Foi ali, esbracejando por espumas brancas e lamas, que me lancei na aventura do mergulho no mar. Conheci-lhe a carícia. Aprendi a não lhe contrariar a força e a vê-lo por dentro. Tomei-lhe para sempre o gosto salgado como os das primeiras lágrimas que chorei. Demos e damo-nos bem.
Foi ali, à beira do Mar da Boavista que conheci os pescadores, gente boa como pouca tenho encontrado, que dormiam com os dongos à porta das cubatas.
Para além do prazer do convívio, conversávamos, sem pressas, sentados na areia, em círculo, como, mais tarde, numa qualquer libata da Ilha da Kyanda, à luz das estrelas. Ensinaram-me eles a arte de ximbicar as canoas: movê-las, não com remos, mas com bordões que fincávamos no fundo do mar, impulsionando-as, o que exigia habilidade e perícia. Muitas vezes me aconteceu não subir o bordão a tempo, continuando a canoa a deslizar. Ficava, então, agarrado ao pau, pendurado, aos pinotes no ar, como um kamundongo preso pela cauda. Depois, está bom de ver, era a queda na água, o esbracejar e o vir à superfície com alguns pirolitos pelo meio e ranhoca a correr-me pelo nariz. Os pescadores riam e diziam: “munanga não lhe dás no jeito”. Mas, como mestres aplicados, insistiam. E eu aprendi! Em troca ensinei-lhes as letras que habitam as palavras e a forma de as ler. Construímos Amizade Grande.
A chegada a casa, sempre tardia, que o caminho demorava, era outra aventura: ralha, tareia da mãe e banho forçado com sabão Life Boy, pois então, que de nada me valiam as aldrabices esfarrapadas!

quinta-feira, 29 de abril de 2010

3 de Maio – Book – Blogagem colectiva



Viram o vídeo? Encontrei-o no blog da Austeriana «Bicho-carpinteiro». Qualquer coisa de extraordinário, esta “descoberta” científica, não é? Comentando naquele blog, a C. do «Marcas d’Água» lançou a ideia de divulgação simultânea do vídeo pela Blogosfera, sugerindo o dia 3 de Maio.
Diz a C. ter escolhido esta data por ser o Dia Mundial da Liberdade de Imprensa, implementado pela UNESCO, adiantando que, “através do seu programa “Memória do Mundo”, a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura tem promovido a identificação e preservação de documentos e arquivos de grande valor histórico, assegurando a sua ampla disseminação. Entre eles contam-se, por exemplo, o original da 9ª sinfonia de Beethoven, a Bíblia de Guthenberg ou a Carta de Pêro Vaz de Caminha (o primeiro bem português inscrito no programa). “
Que melhor data que esta? O Conversas Daqui e Dali aceitou o desafio. No dia 3 de Maio cá recolocarei o vídeo, participando na blogagem colectiva. Lanço o repto aos meus amigos e leitores. Vamos todos publicar? Passem palavra.
Um abraço.

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Um prémio e um selo


Este prémio foi-me concedido pela Maria João do blog Pequenos Detalhes. Fiquei sem palavras! O meu, blog de ouro!? Vindo de quem veio, este prémio encheu-me de vaidade e orgulho. Os Detalhes da Maria João nada têm de pequenos. Ela escreve, como poucos, sobre a vida, com uma força, sensibilidade e humanismo, a que é impossível ficar indiferente. Vão visitá-la e digam-me se tenho ou não razão. A atribuição “obriga-me” a responder a três perguntas.

Por que acha que mereceu este selo?
- Acho que não o mereço.

Na sua opinião, qual o post do seu blogue que acha mais merecedor de um prémio?
- Não gosto de tudo o que escrevo. Mas aqui, na minha cubata, agradam-me as histórias que o Mwata cá vem contar, quando está para aí virado, como esta.

Do blogue que me indicou, o que mais me agrada? Ele merecia o blog de ouro?
- A grandeza e sensibilidade com que a sua autora escreve sobre a vida e os poemas com que, de quando em vez, nos brinda. Claro que merece o blog de ouro!Obrigado, Maria João

O selo que ali está é uma oferta da Fernanda dos blogs Na Casa do Rau e Sempre Jovens. Chegou-me via Sempre Jovens, para assinar o primeiro aniversário do meu blog. Obrigado Fernanda pela gentileza. Aproveito para comunicar que me tem sido impossível entrar Na Casa do Rau. Demora a abrir, bloqueia e, o que é mais estranho, quando consigo aceder à caixa de comentários, desliga-me a Net! Vou continuando a tentar.

A Cidade da Minha Vida (II)

Um dos comentários deixados no post anterior, A Cidade da Minha Vida, está assinado por Maria Margarida, do blog quotidiano. Diz assim:

“Calcorreámos os mesmos caminhos e conhecemos os mesmos musseques, as mesmas ruas e avenidas. Cheirámos o caju e o maboque e do Bengo a mesma água bebemos. Todavia, se Luanda é a cidade da sua vida, da minha apenas foi enquanto a tive sob os meus pés. Deixei-a e ela deixou-me partir. É um homem de sorte porque ainda tem "a cidade da sua vida". Eu, ao contrário, não tenho nenhuma. As suas palavras têm cheiro de Luanda e gostei muito de as ler.”

Posteriormente, escreveu um outro comentário:

“Se pudesse, deixar-lhe-ia aqui, o cheiro dos tamarindos e das maçãs da Índia (estas da Rua da Índia, no Cruzeiro). Como não posso, deixo-lhe uma foto da cidade da sua vida e mais algumas letras ...”

A foto de um pôr-do-sol sobre a Marginal de Luanda e parte da sua baía, está lá em cima. As “letras”, um poema que me tocou fundo, os meus leitores perceberão porquê, reproduzo-o de seguida, por ela autorizado. Obrigado!

Exílio – Saudade de mim

São as de outrora
as casas, as ruas e os becos;
iguais aos de antes,
as angústias, os prantos e os medos;
são os mesmos e sempre tantos
os ritmos e os cantos,
os encantos,
os acalantos;
ainda lá habitam os vermelhos
do sangue e da terra,
os dos últimos raios de sol
entornados sobre o mar
da baía e das praias do farol
de areias velhas e brancas
de onde partem os dongos
em noites de aragens brandas
e de luares antigos
a esculpirem sombras dançantes
das esguias casuarinas ...
São hoje, como eram antes,
os sabores de gajaja e tamarindo,
as cores vivas do céu, do capim
e das acácias florindo ...
És como sempre foste, Luanda.
Tu ficaste, eu parti.
Saudade tenho de mim,
de como fui enquanto te percorri.
(Maria Margarida, 2 de Setembro de 2003)

Os cajus e os maboques a que a Maria Margarida se referiu

segunda-feira, 26 de abril de 2010

A Cidade da Minha Vida

Resposta ao desafio do Carlos Barbosa de Oliveira (Crónicas do Rochedo).
Nos meus andares pelo mundo estive em muitas cidades de África, Europa e Estados Unidos. Umas fiquei a conhecer, razoavelmente. Outras, apenas por elas passei. Algumas encantaram-me, a elas voltando. Como não gostar de Florença, Paris, Londres, Abidjan, Lusaka, Benguela, Praga, Budapeste, Berlim, Nova Iorque e São Petersburgo, para não falar de outras?

Mas, a Cidade da Minha Vida é Luanda, que em tempos se chamou São Paulo da Assunção de Luanda. Não vou falar da história da capital de Angola, mas dizer, apenas, porque a elejo. Foi ali que me fizeram nascer num Agosto de cacimbo, era ela ainda menina, estendendo-se do Atlântico para o planalto, abrindo com os seus dedos finos ruas e avenidas, plantando um bairro aqui, outro além, rasgando espaços para que neles se pudesse crescer. Eu cresci, ela fez-se mulher.

Quando se me chegaram os primeiros choros foi dela que uma mão amiga se soltou, me afagou a face, me ameigou os olhos e me susteve as lágrimas. Nos momentos de desalento ofereceu-me um ombro para repousar, falou-me de coisas simples, ensinou-me os nomes da vida. Já espigadote pôs-me a chapinhar em poças de água de caminhos molhados. Permitiu que me deitasse no capim encharcado pela chuva e, de boca aberta, deixasse que a água caída do céu me tangesse a garganta. Foi ela que me ensinou a beber das lagoas e rios, depois de neles ter mergulhado, fazendo das mãos concha. Amestrou-me na prova do funge, do pirão, da muamba, do mezonguê e do jindungo, dando-me a beber o marufo.

Pacientemente, ensinou-me a construir a minha primeira bola de meia, enchida de trapos e sumaúma, e com ela jogar, mais outros munangas, na lama dos musseques. Munangas com cor de pele diferente da minha, mas meninos como eu, companheiros fieis dos meus desmandos e, mais tarde, de estudos. Éramos um só quando queríamos fugir ao ralhete das mães. Também íamos aos passarinhos! Era ainda puto quando me deu a provar o Mar, ficando eu com a surpresa de que aquelas águas eram salgadas como as minhas lágrimas! Levou-me, pela mão, aos quintais das rebitas de Sábado à noite. Ajeitou-me para o primeiro olhar comprometido, para o primeiro beijo consentido, que me inebriaram e me estrearam nos namoricos. Mostrou-me as casuarinas, sob as quais, tendo a Lua a olhar, e por companhia o doce deslizar das ondas sobre a areia fina da praia, conheci outro corpo que não o meu, arfando de desejo na praia mágica da Ilha da Kyanda.

Foi ela que me desafiou para a aventura da entrada nas matas cerradas e para o percorrer das anharas sem fim, numa das quais, um dia, avistei um leão e lhe ouvi o rugido forte de rei da selva, deixando-me a tremer dos pés à cabeça, e o sangue a circular-me pelas veias de freio nos dentes! Levou-me às acácias rubras de Benguela, a belas quedas de água, às Pedras Negras de Pungo Andongo, a ver as pegadas da Rainha Ginga e à gigantesca floresta do Maiombe, em Cabinda, terra de pepitas de ouro, de chimpanzés, saguis e gorilas (estes já não). Guiou-me ao território dos mumuilas e às Terras do Fim do Mundo onde conheci os bosquímanos. Também me levou a uma guerra de que regressei sem ter morto alguém do outro lado. Dela não fugi, porque não sei fugir, mas vim revoltado com o que vi e senti, maldizendo quem a declarara.

Deu-me o Mwata Milagre, o velho negro de carapinha branca empregado em casa de meus pais, de que já falei no meu blog, e os melhores professores de Português, Matemática, História, Filosofia e Inglês, que alguém pode ter, e que me ensinaram, também, a ser solidário e verdadeiro, a respeitar os outros e a acreditar que num mal pode, igualmente, estar um Bem. Aprendi, estou-lhes grato por me terem ajudado a ser o que sou.

Um dia, era quase homem, apresentou-me o amor com que passei a viver, em companhia para toda a vida. Hoje somos quinze na nossa tribo. Mais seremos amanhã, que outras flores nascerão, certamente.

Por tudo o que disse, e pelo muito que ficou por dizer, Luanda é a Cidade da Minha Vida. Não mais lá voltarei. Quis o destino (esse monstro!) que assim fosse. Mas por grande que seja a distância a separar-nos, maior é a saudade, e bem viva a imagem que dela tenho e o cheiro único da terra vermelha molhada pela chuva. Luanda será sempre a Cidade da Minha Vida.
(Não tendo fotografia que se veja, decidi colocar a imagem que está lá em cima, por ser bem um postal verdadeiro da minha Luanda actual)

domingo, 25 de abril de 2010

25 de Abril

Na madrugada de 25 de Abril de 1974, o meu País derrubou a cerca de grandes muros em que, de há muito, o haviam aprisionado. Rasgaram-se as trevas que o cobriam. O dia amanheceu com cravos florindo na boca de espingardas. Em festa, o povo saiu às ruas gritando palavras até então amordaçadas e proibidas. Uma revolução com flores reconquistara a Liberdade. Os presos políticos, muitos torturados pelos algozes da ditadura, foram libertados. Do exílio regressaram os que tinham dedicado a vida à luta pela Liberdade. Assassinados pela ditadura, muitos ficaram pelo caminho. Nascera o sonho de um País novo, do homem novo. Sonho tantas vezes sonhado!
Para que se não esqueça, e os mais novos saibam, era assim o país que nos deixaram:


Exploração de mulheres meninas
Meses depois do 25 de Abril soube que na Companhia das Lezírias, no Ribatejo, se explorava trabalho infantil e adolescente, quase exclusivamente feminino.
Fui ver. Com a cumplicidade de um caseiro entusiasmado com a revolução, consegui contactar um grupo de doze meninas, entre os 12 e os 15 anos, que trabalhavam no campo. Vozes tímidas, caras enrugadas, ombros caídos, envelhecidas. O que vi e ouvi chocou-me e permanece vivo na minha memória, 36 anos passados. Apresentei a reportagem na RTP, televisão para que fui trabalhar depois do Dia da Liberdade. Chamava-se “Em Foco”, o programa então da minha responsabilidade e por mim apresentado.
Aquelas meninas viviam numa camarata, algumas dormindo em colchões sobre chão de cimento, sem qualquer contacto com o mundo exterior para além das searas em que calejavam e feriam as mãos, na labuta do nascer ao pôr-do-sol. A higiene pouco ou nada se lhes chegava por falta de casas de banho. A alimentação, almoço e jantar, era-lhes servida numa panela de onde se retiravam porções para um prato de alumínio dado a cada uma, comendo com as mãos, pois não lhes eram fornecidos talheres. Um pedaço de pão fazia as vezes de colher ou garfo. Pouco responderam às minhas perguntas, refugiando-se na profundidade de olhares angustiados, inquietos e tementes, recolhidas no silêncio do medo.
Eram todas de uma freguesia do concelho de Abrantes, na margem esquerda do Tejo, aonde me desloquei para falar com os familiares. Nada me disseram para além de que as meninas não podendo frequentar a escola, por falta de recursos, e porque o ensino não era, como hoje, aberto a todos, iam trabalhar para o campo. O pouco dinheiro que os patrões mandavam para as famílias, sempre era uma ajuda. Dinheiro enviado às famílias. As meninas nunca o viam nem sequer sabiam o que ganhavam! Quanto ao tempo de trabalho, por lá ficavam até que se fartassem delas, ou adoecessem, e as recambiassem para casa!
Tempos depois o 25 de Abril chegou à lezíria, acabando com a escravatura!

(Pelas portas que Abril escancarou entrou a Liberdade, mas também muita lama, muito lodo purulento, putrefacto, que tudo vai contaminando, visando destruir o sonho. Eu sei. Mas a verdade é que a esperança não morre. Abril voltará a encontrar Abril. Que tenham todos um excelente Dia. Brindemos a esse bem único e reconquistado - a Liberdade!)


sábado, 24 de abril de 2010

Primeiro Aniversário!


Dei vida ao Conversas Daqui e Dali corria a tarde de sexta-feira 24 de Abril de 2009. Faz hoje um ano! Este meu e vosso blog surgiu tímido como Ulisses, em Ogígia, perante Calipso. Foi caminhando, descobrindo a cada passo este bosque de encantos, de afectos e de amizades que é a Blogosfera, qual Olimpo. Fez amigos. Hoje são mais de cento e quarenta os seguidores, os visitantes aproximam-se dos dez mil. Neste dia de aniversário partilho convosco a alegria e o prazer que por tal sinto. Obrigado pela vossa presença, que me incita a prosseguir. Aceitam uma fatia de bolo e uma taça de champanhe? E também um cravo de Abril e algumas palavras não engelhadas?

Não se lembra de ter sido criança, como toda a gente.
Não tem farrapos de vida escritos em diários, ou livros para ler.
As flores olham-na como igual, falam-lhe. Ela responde-lhes, ensinando-lhes os nomes que lhe disseram terem as estrelas, o mar, os rios e tudo o que a rodeia.
Vive com uma esteira a que todas as manhãs se enrola com gemidos de dor guardados, que leva de noites de entrega na troca por mais um dia.
Neste alvorecer pousa-lhe no colo uma flor sem haste. É um cravo vermelho do Universo, que desceu a procurá-la.
- Ergue-te, diz-lhe, não mais te entregues, vai procurar o porvir.
Ousando acreditar, borbulhando-lhe no sangue novas nascentes, ela vai.

Saio a procurar o porvir
De amor e luz não de escura dor
Não de solidão nem compaixão
Mas de um jardim de fios de seda
Saio a procurar existências pensadas
Um agora de cidades não desertas
Com ruas sem palavras pisadas
De gentes abertas
Em que as sombras sejam de luz
Ter nelas o que me seduz
Flores que não murcham
Rios que correm felizes
E às estrelas murmuram
Saudades de distantes Belizes
E perfeições imperfeitas
Sem vozes desfeitas
Vou continuar
Docemente
Por um cabelo teu andar
Teu rosto ameigar
Como quando eras fagueira
Procurar-te o olhar e nele deixar
Não um rio a orar
Mas mar a alagar a fogueira
Que meu coração sente
Me queima e contrista
Por te sentir a querer abalar
Emplumada e de crista
Sem quereres saber
Ir no vento do nada falar
Ó pedante e enleante
Ó cróia a valer
Com quem te dás tu?
Quem te disse, ó vida
O que me queres dizer?

(Desejo-vos um bom fim-de-semana. Que o Domingo, Dia da Liberdade, seja um excelente dia para todos)

sexta-feira, 23 de abril de 2010

38 DIAS

Após 38 dias de internamento hospitalar, tive hoje alta. Reentro na rotina da vida carregado de esperança. A esperança de ter obtido a cura. Restituido às lides do dia-a-dia, umas ásperas outras suaves como seda, outras ainda de difícil domar, onde a ociosidade não cabe, aqui estou, de novo, em convívio convosco. Afrontei uma infecção. Viro-me, agora, para a recuperação do tempo perdido. Foi-se-me a cor. Há que reavê-la. Nada melhor do que uma estada junto ao mar, o que farei em breve. Depois, uns esvoaçares para outras paragens. Viajar é um bem insubstituível, remédio para muitos males!
Mas hoje é dia de a todos dar um grande abraço, agradecendo, uma vez mais as visitas feitas ao meu quarto no hospital e as palavras amigas deixadas. Recomeçarei a visitar os vossos blogs, neles entrando para os comentários.
Até já.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Quase de volta

Embora as forças não tenham ainda voltado em pleno, recomeçou já a borbulhar em mim a energia que me permite alinhavar umas linhas, dando-vos notícias. As melhoras chegaram, finalmente. Se tudo continuar a correr bem deixarei o hospital no próximo dia 23. Curiosamente, véspera do primeiro aniversário deste meu e vosso blog, nascido a 24 de Abril de 2009.
A promessa aqui fica: no próximo fim-de-semana recomeçarei a minha participação normal na Blogosfera, voltando ao convívio com todos os amigos e leitores do Conversas Daqui e Dali.
Mais uma vez agradeço a todos a preocupação e amizade com que me têm acompanhado.
Um grande abraço.
Carlos Albuquerque

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Continuo por saber!

Depois de muita hesitação (não gosto de falar de mim), decidi escrever este post. Para além do reconhecimento que a todos devo, pelo carinho e amizade que me têm trazido, era forçoso dar-vos uma explicação. As noticias não são, ainda, as desejadas. Apesar do resultado das análises, hoje mesmo feitas, serem melhores que os das anteriores, os médicos (cirurgião e internista) continuam por saber se estou a aproximar-me da cura, ou se será necessária uma nova cirurgia.
Há que aguardar mais uns dias, prosseguindo o internamento. Já lhes disse para acreditarem que, desta vez, o estafilococus aureus vai deixar-me em paz, mas eles são mais desconfiados que eu...são como São Tomé - ver para crer!
Tenho visitado os vossos blogs e lido, com o interesse de sempre, os posts. Não entro para comentar porque me é penoso utilizar o teclado. As mãos e os braços estão cansados de tanto serem picados. Dia sim, dia não, tem sido necessário procurar novas veias para colocação dos cateteres (com que cuidado e profissionalismo as enfermeiras o fazem!) por onde são ministrados os antibióticos. Um deles, a Vancomicina, é demasiado agressivo para as minhas estradas sanguíneas, que mais parecem picadas, tão maltratadas ficam!
Era o que hoje vos queria dizer.
Obrigado a todos.
Carlos Albuquerque