
O tronco, largo na base, estica-se depois lá para cima, onde volta a inchar com uma corcova rugosa a dizer que muita idade já ela andou. Ninguém lhe conhece o tempo que leva de vida, mas há registo na tradição oral dos negros mais velhos, expulsos para as sanzalas à medida que a cidade crescia, que a árvore já ali estava quando construíram a vivenda, ajardinaram e vedaram o quintal, sem que mãos humanas a tivessem plantado. Da corcunda rasgam-se, encarquilhados ao princípio, esguios e lisos depois, os dois primeiros galhos. Um deles, atirado para fora dos terrenos da residência, a pousar numa sebe de buganvílias vermelhas. Ambos, e os restantes que crescem por cima deles, com os ramos pejados de milhares de pequenas folhas verdes, quase transparentes, onde tecelões e pardais fazem ninho, enchendo os entardeceres de trinados ao desafio e chilreios desafinados com grande restolho à mistura, e muitos tamarindos com que ela se delicia quando já estão mucefes, que o mesmo é dizer-se bem maduros.
As sementes das vagens, negras e brilhantes, guarda-as num frasquinho de cristal, oferta de Paulo, revestido por fina renda de prata assente numa base de corindo lapidado, emanando mil raios faiscantes quando a luz lhe toca, ou refractando-a nas cores do arco-íris. Só as mais adelgaçadas, com o formato de um pequeno coração, não em rigor, mas com a fantasia e imaginação que ela põe à solta sempre que olha para coisas de que gosta. Ainda que o não sejam, diga-se, os olhos dela vêem-nas assim. São raras. Recolheu apenas três, até agora.
A empregada em casa de Ingrid, uma luba do Kasai, meio amestiçada, ao que se supõe fruto de uma ligação de antepassados com pombeiros (como eram conhecidos os portugueses que se dedicavam ao tráfico de escravos, na terra da família dela), falou-lhe algumas vezes daquelas estranhas sementes de tamarindo.
Contou-lhe a luba, que se chama Lila: minha mãe me disse para guardar sementes como esta (mostrava-lhe uma que trazia pendurada ao pescoço por um cordão de couro de javali). Nos fazem mulher. Nos trazem um homem de viver sempre com ele e ter filhos. Tem que ser três, mesmo mais. As árvores delas tem poucas na minha terra. Apanhei só uma, quando era pequena, no terreno dos tios da minha mãe. Lá, tem um pau de tamarindo. A menina quando encontrar guarda bem. Minha mãe me disse, as sementes de tamarindo, quando uma virgem lhes apanha dá coração no homem que vai ser dela para toda a vida. Faz-lhe aparecer ele. Pode dar as sementes nele, também, assim ele não esquece. Eu, não vou ser mulher de homem da vida toda. É assim, tenho só uma semente de tamarindo!....
Ingrid ouviu a história, cada vez que a luba Lila a ela voltou, com um sorriso condescendente: No que ela acredita!
Mas a verdade é que, vá-se lá perceber isto, sempre que olha para as sementes aconchegadas no frasquinho de cristal, Ingrid vê Paulo sorrindo-lhe!


Oferecido pela Maria Teresa (
Este chegou-me da Teresa (
















