domingo, 8 de novembro de 2009

Do meu tempo de lá


Era uma vez um belo dia de Sol. Parti para o destino da reportagem, um campo de leprosos a Norte de Luanda. À chegada o Sol perdera a perfeição com que nos cativa o espírito, estava já a entregar-se ao adormecer da tarde.
Um fileira de casas de pau a pique, carcomidas pela idade e pelo abandono, algumas palhotas e um casebre, destelhado, onde gente de uma ONG angolana preparava refeições para distribuir.
Tinham-me avisado para me “preparar para o choque”. Fizera pouco caso. Já vira horrores de três guerras, sentia-me blindado. Avancei por aquele espaço onde tudo era sombra. Olhei por portas meio caídas, entrei numa e noutra palhota. Vi restos de gente, quase sem rosto, arrastando-se, corpos ansiosos aguardando o pão que, sabiam, estava para chegar. Como sabiam que nada mais lhes caberia do que ali ficarem, ostracizados, entregues à ferocidade do destino. Saí com o coração a doer-me e lágrimas a chorarem. Respirei fundo. Prossegui.
Alguns metros à frente parei junto de uma porta. Ali estava sentada uma velha com o que lhe restava das mãos sobre os joelhos. Olhámo-nos. Os seus olhos, grávidos de tristeza, rodaram, como a ensaiar um gesto. Disse-me alguém que me acompanhava: ela quer um cigarro.
Baixei-me, de joelhos, frente a ela. Acendi um cigarro e levei-o ao que, outrora, teriam sido os seus lábios. Aspirou o fumo. De novo os seus olhos me procuraram, agora esvaziando uma lágrima a sorrir. Ia levantar-me quando o que das mãos lhe restava se encostou às minhas. Ouvi-lhe um sussurro:
- M´adesculpa, só. T´agradeço.
Levantei-me em silêncio, não sabendo o que dizer. Regressei, coração gelado, trazendo aquele olhar grávido comigo.
As mãos, que ela tocou, são estas com que hoje escrevo.


(Para Preto e Branco - Fábrica das Letras)

24 comentários:

Suh disse...

...
Me entristece viver num mundo tão desigual!
Mas acredito e tenho a esperança de que se a gente quiser...o mundo se ajeita.
Um abraço.
Suh ;)

Bárbara disse...

magnífico texto :)

heli disse...

Que texto envolvente!

Carlos, o relato da sua experiência me transportou aos tempos da minha juventude.Perto de onde eu morava havia um leprosário e pude conhecer muitas pessoas com restos de seus rostos,restos das suas mãos...
Imagens que marcam muito...
Damos mais valor a vida depois de fixar os olhos nesses seres humanos fadados a viver de modo tão cruel.
Abraços,
heli

Filoxera disse...

E escreve tão bem que comove!
Um beijinho.

continuando assim... disse...

pois é ... conseguiste arrepiar-me :)

gostei
bj
teresa

Manuela Freitas disse...

Carlos,
Fiquei impressionada e arrepiada!...O seu texto é de facto muito bom e um alerta!...Que estupidez, ficarmos piegas com uma dor de cabeça ou com qualquer outra coisa! Ah tanta dor no mundo, tanta dor no silêncio e na penumbra!...
Beijinhos,
Manuela

ney disse...

Dureza essa vida, para muitos. Resta-nos fazer o que for possível, o olhar recebido mostra essa gratidão. Abraço, ney.

Agulheta disse...

Amigo Carlos! Lendo o teu texto sempre oportuno,continuo a dizer que mundo é este? Sim digo e direi,uns com tanto e outros com tão pouco,e perante estas situações ficamos de alma dorida.
Beijinho e boa semana
Lisa

Malu disse...

Carlos, meu querido
Trouxe a gravidez dos teus olhos, que tiraste do íntimo da senhora, para os meus.
Nunca estamos blindados o suficiente diante de tais atrocidades.
Temos um trabalho social aqui, num lugar esquecido por todos.
Lá acontece de tudo...
Também é tanta dor... dor da miséria, da falta de humanidade, pela marginalização de gente que não tem mais o que se marginalizar.
O que me conforta, às vezes, é que quando chegamos, as crianças vêm nos receber com tanta alegria e carinho que chego a me esconder para chorar.
Temos que acreditar que há uma razão de ser, caso contrário, enlouquecemos.
Obrigada por passares lá no Infinito e sempre deixar doces palavras.
Também gosto de vir por aqui, para conhecer mais um pouco de VIDA.
Beijinhos em teu coração

Akhen disse...

Passei por aqui vindo do "Gozos da Alma".
Li o que não gostaria de ter lido, porque o retrato é de uma realidade que não deveria existir.
Não me falem dos G8, do G20 ou de outros que possam criar.
Falem-me de um G de toda a humanidade, em que os cancros e os parasitas desta mesma humanidade tenham sido irradicados.
Onde não possamos ver nem pensar que

O amanhã era ontem
e os corpos das crianças
inertes flácidos
onde o riso era ricto
e a fome
brinquedo para o estômago
diziam-nos
calados,
o amanhã era ontem.
E nem o sol de Africa
aquele sol escaldante
aquecia seus corpos
frios,
negros,
na sua pele cinzenta
esticada pelo ossos
que lhe davam forma.
Seus olhos,
olhos de criança,
abertos,
excessivamente abertos
pela fome
gritavam-nos,
mudos,
acusativos;
Nós,
somos o ontem de amanhã
o presente sem futuro.
E lentamente se acabavam.
O amanhã era ontem.

Paz e Luz no seu caminho

(Carlos Soares) disse...

Amigo,Carlos.Vou dizer como meu outro amigo,Everson diz.Aplaudo de pé. Um texto comovente, triste realidade da miséria pelo mudo e tome guerras. E tome cachorrinho usando coleira de 6 milhões de dólares como vi na tv sábado. E tome comida jogada fora Confesso que fiquei com dor no coração. Tenho certeza que essa senhora sentiu alguma luz ao tocar suas mãos. Coitada pedia socorro não só para si, mas para toa uam gente.grabde abraço e parabéns mais uma vez.

Dulce disse...

Um relato comovente, Carlos...
E nada mais digo, apenas sinto...
Um beijo

o mar e a brisa do prazer de aprender disse...

Viver é sentir e partilhar. quando partilho aprendo a cada dia. Só não partilha quem não quer aprender a viver intensamente. Parabéns!!!

Abraços criativos.

Dulce disse...

Carlos

No Em Prosa e Verso, hoje, fala-se deste espaço. Espero que não se importe.
Beijos

Vivian disse...

...lendo tuas palavras
não me surpreendo porque
sabemos das desigualdades
existentes e todas criadas
pelo egoísmo humano.

graças à Deus, anjos
existem para o alívio
de alguns que o conseguem
alcançar, nem que seja
com um simples olhar,
ou tocar de mãos.

e se estamos falando de
anjos,
você com certeza é um deles
ao qual eu deixo beijo,
carinho, e admiração.

Fernanda disse...

Amigo Carlos Albuquerque,

Estou aqui por sugestão da minha grande amiga Dulce.
Em boa hora o fiz, estou fascinada pela citação de Saramago e muitíssimo emocionada com o texto que li.

A sua forma de escrever é fabulosa e revela uma sensibilidade pouco comum nos dias de hoje.

Obrigada e parabéns.

Voltarei.

um abração,

Fernanda Ferreira

Maria João disse...

Carlos
Quem sendo humano e humanizado, consegue estar blindado a tanto sofrimento, a tanta tristeza a tanto abandono?
Quem, passando por tal experiência, consegue deixar de escrever sentindo na alma a mão de quem grata a afagou?
Quem não se emociona ao ler este texto, escrito com tamanhas lágrimas de compaixão?
Acabou de me levar lá Carlos, ao interior dessas palhotas. Pena que o texto terminou e eu reparo, tristemente, que afinal estou longe para fazer o que devia.
Talvez um dia eu vá mesmo…

Um beijinho e obrigada, por tudo..

Ana Martins disse...

Olá Carlos,
é uma história de arrepiar, que revela um grande amor e respeito ao próximo. São estas pequenas grandes coisas que fazem toda a diferença.

Bem-Haja!

Beijinhos,
Ana Martins

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

Passo por aqui há muito tempo, mas creio que nunca comentei. Não o faço hoje, para retribuir as amáveis palavras que deixou num comentário lá no Rochedo.
Faço-o, porque ao longo da minha vida de jornalista ( e não só...)me deparei com situações idênticas, onde o sofrimento é tanto, que me senti ridículo por me queixar de uma dor nas costas ou uma simples dor de cabeça. Vivemos num mundo onde as pessoas perderam a capacidade de relativizar, porque cada um transformou a sua vida numa sociedade do "Eu, Ldª", onde os outros pouco valem. Este texto chama a atenção para isso de uma forma pungente.

Sandra disse...

Estou voltando aos pouquinhos, após a cirurgia. Mas estou com saudades.
Ando com muita dor de cabeça. Deve ser um função dos remédios. Mas não me esqueci de ti.
Um abraço amigo.
Sandra

elvira carvalho disse...

Fiquei tão comovida que as lágrimas despontaram e rolaram na minha face.
Um abraço

Anónimo disse...

Carlos Albuquerque


" M´descurpa só . T´agradeço "



Saudade, deste linguajar !
Faço minhas estas palavras, doces, singelas , ouvidas sem conto.
Obrigada pelo reviver , m´descurpa
só !
margarida (Benguela )

Carlos Albuquerque disse...

Anónimo - margarida (Benguela)

Te peço T'apresenta para te ir de visita.

TERESA SANTOS disse...

Querido Mwata,
Passei, li, emudeci.
Palavras?! Que palavras?!! Apenas OBRIGADA, apenas um DEUS TE PAGUE, apenas, NUNCA DESISTAS!
Beijinho granmde, Amigo.