
O Natal está a germinar.
E ele, ali, a soprar poeiras acumuladas, que ao soltarem-se da caixa de memórias, lhe lembram sabores de quando era menino. Escrevinhador desajeitado mergulha nas águas que lhe chegam do passado.
A cozinha perdeu a solidão. Lhe encheram de gente de fazer tarefas.
Rabanadas bóiam sobre o óleo que as frita. No alguidar a farinha molhada recebe o fermento, o seu tempero de crescer para a massa das filhoses. Fazem-se as sopas de cavalo cansado com vinho tinto de garrafão de capacete, canela e açúcar. A aletria e o arroz doce, com caracóis de canela a enfeitá-los, estão já em pratos e tigelas. Limpa-se o bacalhau demolhado, separam-se as couves apanhadas no canteiro do quintal, fatia-se o repolho, lava-se a mandioca e a batata-doce, que a quitandeira vendeu, o alho lhe tiram a casca, a pimenta lhe pisam, a farinha de milho lhe cozem, o leite-creme lhe queimam o açúcar por cima.
Mãos, com o saber da mãe, escolhem os ovos, não vá algum trazer pinto!
Ele num vaivém, soltando suspiros gulosos a que ninguém cede, nem a lavadeira que está ali, de filho às costas, a preparar, como só ela sabe, a quiquerra e a quitaba. A jinguba já lhe seleccionou e torrou, e pôs, para um lado, o montinho do mascavado recebido do Caxito, para outro, os caluquetas e a farinha de pau, preparos necessários.
O peru marina, mas é para amanhã lhe assar.
Lhe fecham a porta da cozinha! Lhe vedam, com duas vassouras cruzadas sobre a pá do lixo, o caminho para a senhora que lava a roupa, hoje não, que está de fazedora de delícias! Ó gente! Monandengue sofre!
Não há curva que consiga fazer. Enfia-se no quarto procurando a maior meia. O que veio a meia aqui fazer? Santo desconhecimento! É a meia, que logo mais à noite, quando tudo estiver arrumado na sala fechada para a consoada, irá pôr, não na chaminé, que a não têm, mas no forno do fogão. Explica. A meia é para a encherem de prendas.
Já estão à mesa, ao fundo a árvore com a estrela no cimo e as luzes piscando, ele de dente fisgado numa rabanada, que lhe sabe melhor que o bacalhau (são gostos!). É quase meia-noite. Não espera. Sem mesmo pedir licença (no Natal perdoa-se) salta da mesa e vai direitinho ao fogão.
Curioso! Está de porta aberta, nunca antes o tinha visto assim! Espreita. De dentro sai um senhor de longa barba branca, com um barrete vermelho e uma meia gorda nas mãos. Olha-o. Nele vê um sorriso de luzes brilhantes, a cintilarem nuns olhos que lhe parecem a Lagoa do Kinaxixe. Antes que desapareça, ainda o ouve dizer: t’acreditas?
Agarra na meia, tão gorda que pesa, e corre, alvoraçado, para a sala, aos gritos:
Vi o Pai Natal, vi o Pai Natal!
O gira-discos canta Jingle Bells, Jingle Bells…
A cozinha perdeu a solidão. Lhe encheram de gente de fazer tarefas.
Rabanadas bóiam sobre o óleo que as frita. No alguidar a farinha molhada recebe o fermento, o seu tempero de crescer para a massa das filhoses. Fazem-se as sopas de cavalo cansado com vinho tinto de garrafão de capacete, canela e açúcar. A aletria e o arroz doce, com caracóis de canela a enfeitá-los, estão já em pratos e tigelas. Limpa-se o bacalhau demolhado, separam-se as couves apanhadas no canteiro do quintal, fatia-se o repolho, lava-se a mandioca e a batata-doce, que a quitandeira vendeu, o alho lhe tiram a casca, a pimenta lhe pisam, a farinha de milho lhe cozem, o leite-creme lhe queimam o açúcar por cima.
Mãos, com o saber da mãe, escolhem os ovos, não vá algum trazer pinto!
Ele num vaivém, soltando suspiros gulosos a que ninguém cede, nem a lavadeira que está ali, de filho às costas, a preparar, como só ela sabe, a quiquerra e a quitaba. A jinguba já lhe seleccionou e torrou, e pôs, para um lado, o montinho do mascavado recebido do Caxito, para outro, os caluquetas e a farinha de pau, preparos necessários.
O peru marina, mas é para amanhã lhe assar.
Lhe fecham a porta da cozinha! Lhe vedam, com duas vassouras cruzadas sobre a pá do lixo, o caminho para a senhora que lava a roupa, hoje não, que está de fazedora de delícias! Ó gente! Monandengue sofre!
Não há curva que consiga fazer. Enfia-se no quarto procurando a maior meia. O que veio a meia aqui fazer? Santo desconhecimento! É a meia, que logo mais à noite, quando tudo estiver arrumado na sala fechada para a consoada, irá pôr, não na chaminé, que a não têm, mas no forno do fogão. Explica. A meia é para a encherem de prendas.
Já estão à mesa, ao fundo a árvore com a estrela no cimo e as luzes piscando, ele de dente fisgado numa rabanada, que lhe sabe melhor que o bacalhau (são gostos!). É quase meia-noite. Não espera. Sem mesmo pedir licença (no Natal perdoa-se) salta da mesa e vai direitinho ao fogão.
Curioso! Está de porta aberta, nunca antes o tinha visto assim! Espreita. De dentro sai um senhor de longa barba branca, com um barrete vermelho e uma meia gorda nas mãos. Olha-o. Nele vê um sorriso de luzes brilhantes, a cintilarem nuns olhos que lhe parecem a Lagoa do Kinaxixe. Antes que desapareça, ainda o ouve dizer: t’acreditas?
Agarra na meia, tão gorda que pesa, e corre, alvoraçado, para a sala, aos gritos:
Vi o Pai Natal, vi o Pai Natal!
O gira-discos canta Jingle Bells, Jingle Bells…

18 comentários:
Nunca vi o Pai Natal, mas acredito nele. Este ano já lhe escrevi, enviando-lhe a lista dos presentes, que espero, que me traga no dia 24 de Dezembro.
Até lá muitas rabanadas!!!
Claro que natal é uma e´poca gostosa,mas normalmente fico melancólico. Não sei porquê.
Cresci a acreditar no dia 25 de Dezembro com o aniversário de Menino Jesus.... e nem imaginava que " havia" um Pai Natal a oferecer prendas às criancinhas!
Ficava fascinada quando acordava nesse dia e via os meus sapatos a
transborder de chocolates ( que o Menino Jesus, etria deixado durante a noite).
Quanta saudade desse tempo inocente da minha infância!
Carlos, Li num Blog que vai submeter-se a uma intervenção cirurgica! Desejo que tudo corra pelo melhor... e com FORÇA, GARRA E FÉ... tudo será ultrapassado.
Beijo no seu coração.
ematejoca
Numa noite em que o céu chegue estrelado, vá à janela, conte três estrelas e feche os olhos. Quando os reabrir o Pai Natal estará à janela :);)
Abraço
(Carlos Soares)
Vá lá explicar isso! Eu também fico melancólico.
Abraço, xará
Maria Valadas
É mesmo, quanta saudade desse tempo!...
Estou em estágio para uma cirurgia, é verdade, nos primeiros dias de Dezembro, talvez. Nada de complicado, será apenas a 12ª! Mas já disse ao ortopedista: ou você me faz um conserto de jeito ou é despedido sem direito a carta para o Fundo de Desemprego!
As dores são muitas, mas é preciso não lhes dar muita importância. Logo se verá!
Obrigado, Maria, pelos seus votos.
Que lindo!...
Vivi cada momento do garoto nas suas palavras, Carlos e senti uma imensa saudades da cozinha lá de casa, quando menina, em véspera de Natal, quando minha mãe e as tias preparavam delícias para festejar a Noite Santa.
Obrigada por esse momento Lindo.
E acho que todas as crianças já viram Papai Noel um dia, na sua doce ânsia de o Ver...
beijos
Carlos
Que bom que é sentir já por antecipação, o ambiente natalicio. Sim, também eu fico melancólica nesta época. Este é um tempo propício para muitas reflexões ( escreverei sobre isso), um tempo que apela a todas as emoções e a todas as partilhas e solidariedades. Pena que esta época seja tão curta na memória de muitos.
Um beijinho
( Quanto à cirurgia... que desta vez fique mesmo bem e principalmente sem dores.)
Carlos
Já havia deixado meu comentário quando li o da Maria e sua resposta a ela (perdoe a intromissão). Aqui fico desejando que tudo corra muito bem, que se recupere depressinha para logo estar nos trazendo suas histórias tão apreciadas, mas e principalmente para que esteja bem.
Beijos / Fique bem, sare logo.
Caro Carlos,
Magnifíco e muito gostoso, até olhei para o relógio para saber se já eram horas de lanchar!...
Só uma coisa me deixou triste: nunca vi o pai Natal!?...
Sou yma incondicional admiradora dos seus textos.
Bjs,
Manuela
Olá Carlos!
Gostei muito do seu Pai Natal
Faz-me recordar a meninice. Era muito pequenina
A casa da vovó Olguinha onde havia pés de jaboticaba
Papai Noel sempre chegava
Nunca faltou só para os descrentes
Muito obrigada, amigo. Sua história me proporcionou um comovente momento
Abraços
Renata
Olá, Carlos
Principalmente para as crianças, o Pai Natal será sempre o Pai Natal. É uma alegria esfuziante ver os seus olhitos reluzir de felicidade.
Gostei muito deste teu texto!
Abraço!
Mário
Maria João
e
Dulce
Que bem sabem os vossos comentários!
Quanto à cirurgia...tudo há-.de correr pelo melhor!
Obrigado pelo vosso carinho
RENATA MARIA PARREIRA CORDEIRO
Fico feliz do meu Pai Natal lhe ter proporcionado um comovente momento.
Abraços
Manuela Freitas
...e sempre foi lanchar!?
Ser admiradora dos meus textos deixa-me vaidoso!
Bjs
Mário Margaride
Então não é? Ver os olhitos das crianças a reluzir de felicidade!
Um abraço
LINDO, CARLOS...SINTO TUDO O QUE DISSESTE COMO QUANDO OS MEUS FILHOTES ERAM PEQUENINOS E EU VIVI O NATAL ,como essa mãe do teu conto...NÃO VIVI COMO MENINA; VIVI-o como MÃE...
LINDO O TÍTULOE LINDA, portadora de MENSAGEM, A ESTRELA...
UM BEIJO AMIGODE LUSIBERO
Lindo, este conto!
(transcrevo o comentário de resposta ao seu comentário no EQ:)
Quanto ao comentário, adorei, pelo que o pedido de desculpas não faz sentido. Como sempre, as suas pertinentes palavras contêm uma mensagem forte e uma poesia inerente, uma poesia realista. Contêm o saber de uma vida rica e o sabor de quem as prova e as reparte com quem o lê.
Senti-me honrada com o comentári, porque me deu a entender que o post poderia cosntituir uma fonte de inpiração.
Um beijinho.
Maria Ribeiro
Viste a estrela...é isso!
Um beijo amigo daqui
Filoxera
Obrigado pelo "lindo,este conto".
Quanto ao seu post sobre a violência, ele é mesmo uma fonte de inspiração!
Um beijinho
Quando eu era menina (e já lá vão tantos anos) não sabia nada do Pai Natal. Meus pais, meus avós diziam que na noite de Natal o Menino Jesus vinha recompensar os meninos bons e trazer presentes. Nós vivíamos num barracão de madeira que em tempos fora habitado por 4 casais e respectivos filhos, mas no qual ficara apenas os meus pais, quando os outros casais se foram. O barracão tinha um salão com 11 metros ao fundo do qual tinha um fogão, constituído por duas fileiras de tijolos com uma grelha em cima, e um forno de tijolo onde minha mãe cozia o pão.
Pelo Natal todos os anos vinham meus avós do Norte e se juntavam lá em casa com alguns dos filhos, - meus tios.
Não havia rádio, nem TV, nem sequer luz eléctrica. Mas haviam 3 candeeiros a petróleo, que na noite de Natal ficavam acesos até depois da meia noite. Antes do Natal. meu pai colhia no pinhal perto da nossa casa, muitas pinhas, que debulhava. Partia alguns pinhões para comermos e os outros eram para jogarmos. Ele mesmo fazia uma piorra com o Rapa Tira Põe e Deixa. E era o nosso entretém.
Pelas 10 horas, meu pai dizia que tínhamos de ir para a cama e mandava-nos pôr os tamancos junto ao fogão para o Menino Jesus deixar os presentes.
E nós lá deixávamos os tamanquitos e íamos para a cama na esperança de que nesse ano o menino Jesus deixasse uns brinquedos iguais aos dos filhos do capitão que geria a Seca do Bacalhau.
Mas no dia seguinte era sempre a mesma coisa. Uma tremenda decepção, pois lá só havia meia dúzia de rebuçados e dois ou três figos secos. Lembro-me que um ano, decidi esperar acordada a chegada do Menino Jesus para lhe perguntar porque é que deixava lindos brinquedos aos filhos do capitão que eram meninos ricos a quem não faltava nada e a nós que éramos tão pobres que não tínhamos nada só deixava rebuçados.
Consegui manter-me acordada e quando ouvi barulho, levantei-me e apanhei a minha mãe a pôr os rebuçados nos tamancos.
Fiquei tão revoltada, pensei que o Menino Jesus não queria saber de nós, fartei-me de chorar, e foi a
minha avó que para me acalmar, me explicou que o Menino Jesus não vinha dar prendas a ninguém que era uma tradição dizerem isso porque fazia anos que Ele nascera, mas que na verdade as prendas eram dadas pelos pais e os meus não tinham dinheiro que desse para outra coisa que não os rebuçados.
Foi um choque e um alivio ao mesmo tempo.
Desculpe o comentário tão longo, mas este texto despertou recordações adormecidas.
Um abraço
elvira carvalho
Não tem que pedir desculpa! Era o que faltava! Nesta casa terá sempre o espaço que quiser.
Quando as nossas recordações despertam há que as deixar soltarem-se!
Um abraço
OLA CARLOS, OBRIGADA PELA VISITA, ESTA TUDO BEM GRACAS A DEUS...UM OPTIMO FIM DE SEMANA PARA TI TAMBEM AMIGO!!!
BEIJOS DE AMIZADE,
SUSY
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