quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Ximbicar

Ximbicar é palavra cantante e bem-andante. Não sei se ela existe por aí. Conhecia-a na minha meninice, perdi-me de amores por ela.
Já vos falei do meu velho e sábio Professor Cardoso que, na primária, me ensinou as contas. Foi também com ele que aprendi as letras. Explicou que o A, E, I, O e U eram as vogais, mas se as casássemos, nasceriam os ditongos. Então, vá, digam AI como se uma abelha vos tivesse ferrado. Agora UI, foi o mosquito que picou. Nós dizíamos. Ia para casa, rua fora, cantarolando, o UI é ditongo mosquito, o AI ditongo abelha, o A, o U e o I são só vogais, não ferram nem picam, o E é ajudante, acréscimo meu.
Aprendemos, depois, as consoantes que o Professor disse serem de pronúncia mais áspera, e são, não só ásperas como secas, não fossem as meninas vogais e ninguém lhes pegaria! Descobri, maravilhado, essa coisa linda que a vida me deu, a palavra! O Professor continuava: agora digam casa, a gente dizia, agora rua, a gente dizia, agora amigo, a gente dizia, agora escrevam, a gente escrevia. Agora, quando encontrarem alguém que não saiba, digam como se faz.
De quando em vez, mais quando do que vez, a empregada da escola anunciava não haver aulas, o Professor não podia vir. Então, saíamos a correr, o nosso grupo de cinco ou seis, e íamos, não para casa, mas para as barrocas do Miramar, por elas descendo a correr, à procura da Boavista, lá em baixo. Ali o mar, que vive um romance antigo com a Boavista, ensinou-me a nadar e deu-me a provar o seu sal pelos pirolitos que engoli. Na areia daquele amor cresciam cubatas dos pescadores, canoas e coisas parecidas à porta e, atrás delas, um sítio onde as carrinhas da câmara despejavam o lixo da cidade, não separado como agora, com o entulho também vazavam jornais e revistas. Nas zangas do casal, de que se soltavam ondas grandes, ficava sentado a ver os pescadores meterem-se nas canoas, mar adentro, as águas revoltas davam mais peixe. Como é que eles movem aquilo, perguntava-me.
Não resisti. Quis saber de um deles. Perguntei-lhe, sabes o que são vogais, ditongos e palavras? Fez cara de entendido. Essas coisas não, mas as palavra sim, com elas te falo. Vou ensinar-te, queres? Mostrou olhos curiosos. Me ensina, me ensina. Ensinei, servindo-me dos jornais e revistas do lixo.
Quando já ele era conhecedor, desenhando mesmo algumas palavras sobre as margens amarelecidas das folhas das revistas, disse-lhe: agora explica-me como é que as canoas se mexem no mar. Aceitou a troca.
- Tu pegas no bordão, atiras canoa na água, entra e encosta a ponta do pau no fundo do mar, faz força, a canoa anda. Depois continua.
- Ah! Quer dizer, tu remas.
- Ué! Remas!? Essa palavra ainda não sei, não me disseste dela. Eu ximbico a canoa. T´aprendeste, munanga?
Ficamos amigos, trocando bordões por novas palavras. Em dias calmos fui de ximbica com o meu pescador. O mar, gentil, pôs jeito no meu ximbicar.
Aprendi, sim, ando ximbicando pela vida.


(Façam o favor de ximbicar. Se a canoa encalhar digam!)

17 comentários:

continuando assim... disse...

:) excelente relato e aculturação :) :)

já ximbiquei !

beijo
teresa

e obrigada pelos comentários no continuando assim ...

Elaine Barnes disse...

Nossa, que delícia de ler e aprender a ximbicar. Muito bom! Adorei a maneira como se expressou para contar o relato. bjão

Cris Tarcia disse...

Não conhecia essa palavra, o texto mostrou lindamente.

Um abraço

Anónimo disse...

Olá, amigo
Nossa, gostei! "Ximbicar". Vou remar e levá-la aos meus. Amo palavras, ainda mais quando nos são oferecidas de modo tão elegante e belo.
Acabei de comentar lá na Vivi. E me questionei. O que somos? Pergunta oportuna. "Da Hora", como se diz aqui. Há uma bela menina aqui no condomínio. Estava eu à minha janela e ouço os seus gritos. Um cachorro, pensei, a mordeu. Há muitos cães soltos por aqui. Saí em disparada, pois ninguém a socorria. Um dos nossos semelhantes a atacava. Não chegou ao fim. Demos um jeito. Amigo, desculpe mais esse desabafo. Ainda tremo. Se lhe pesar, apague e esqueça, por favor.
Beijos e muito carinho,
Renata

Sandra disse...

Bom Dia, meu Querido Amigo!
Sei que andou encontrando algumas dificuldades para acessar... As vezes também encontro em alguns blogs.

Mas continuo sempre contando com a sua presença.

É maravilhoso, receber amigos em nossa casa, e passar o dia conosco.
Amo a sua Amizade.
És um amigo muito especial para mim.
Sei que as palavras, são pequenas, mais tem um peso muito grande em nossa Vida.Valorizo cada momento que está aqui, juntinho de mim.
Por isso quero dizer que amo muito vc. meu GRANDE AMIGO VIRTUAL.

QUE DEUS ABENÇÕE VC. POR ESTAR SEMPRE EM MEU BLOG, COM TODO ESTE CARINHO, QUE É MUITO IMPORTANTE PARA MIM.
UM ABRAÇO BEM FORTE..TENHA UM LINDO DIA.
SANDRA

Maria João disse...

Carlos

Mais um texto magnifico, muito bem escrito, onde as palavras dizem mais do que a junção de vogais e consoantes em ditongos e sílabas, mas falam da união dos sentidos, dos sentimentos e dos afectos. Falam, falam, falam... e dizem tanto de si!

Um beijinho

(Carlos Soares) disse...

Aqui não tem,xará.Fiz questão de olhar porque gosto de saber essas coisas.E vamos ximbicar.Um abraço

Dulce disse...

Carlos

Acho que você ximbica pelo mar das palavras com tanta propriedade que nesse seu mar nunca haverá mau tempo... Coisa mais linda essa sua história, esse seu texto, meu amigo.
Sempre acabo me comovendo com seus escritos!
Obrigada por cada momento lindo que tenho a cada vez que aqui venho para visita-lo.
Beijos

Vivian disse...

...aqui rema-se,
por aí ximbica-se,
e assim vamos navegando
pela vida ao encontro
de amigos de bem querer.

bom dia, querido!

beijos

elvira carvalho disse...

Ximbicar? Palavra engraçada, não conhecia.
Adorei o texto. Você escreve muito bem. Ficamos presos ao texto e quando ele acaba fica a sensação de que gostaríamos que continuasse.
Infelizmente para mim o tempo que disponho não me permite visitar os amigos como eu queria.
Um abraço e vou ler os restantes posts.

MIUÍKA disse...

Querido amigo,que raio de palavra essa,podia ser cantando e andando,embora eu conheça outra que substitui o cantando,mas não posso dizer aqui eheheh.
Quanto ao bacalhau,será saudade?
Este seria mal cheiroso (cheiro a borracha)rrrrrr.
Ainda continuo a ter problemas em entrar em alguns blogs.
Um beijão...MIUÍKA

Austeriana disse...

Não conhecia o vocábulo, mas o texto é bastante esclaredor! :)))
Abraço.

Filoxera disse...

Anda desaparecido, Carlos...
Está tudo bem?
Um beijinho.

Fernanda disse...

Muito interessante amigo Carlos, mesmo muito.

Claro que há palavras que desconheço mas julgo que o seu significado está implícito no texto.
O meu amigo fez aqui uma perfeita simbiose entre o erudito e o empírico.
Essa é a forma perfeita da aprendizagem, seja ela só académica seja também de vida.

Parabéns.
Adorei.

Abraço,

TERESA SANTOS disse...

Fui explorar o sentido do vocábulo. Trata-se, obviamente, de um verbo, e aí vai, para o caso de teres ESQUECIDO?!!!, o link com a conjugação do mesmo.
explorarhttp://www.portaldalinguaportuguesa.org/index.php?action=search&act=advanced

Juro que vou fazer um Glossário, juro.
Como te invejo, Amigo. Tiveste, não um professor, mas um Mestre. O Mestre é o que ensina as letras, mas ensina também o sonho.
É que o sonho está sempre presente na tua escrita. Provavelmente bebeste-o dele.
Abraço e bom fim-de-semana.

Carlos Albuquerque disse...

Teresa,
Já conhecia o link.
O meu pescador é que não! Ensinou-me antes do que qualquer diccionário. Ele era uma enciclopédia, não de palavras, mas da Vida! Do receber e dar fazia poesia! Não me ensinou só a ximbicar..., mais tarde lá irei...
Um abraço. Para ti, também, um bom fim-de-semana.

Sofá Amarelo disse...

Fui ouvindo algumas palavras destas ditas por um colega com quem trabalhei 10 anos no Expresso! Esta não conhecia. Obrigado, Carlos!!!

Forte abraço!!!