
Dobrou esquinas e contra esquinas, chegou a becos, neles volteando buscando saídas, soltando-se por muitas delas com silêncios agarrados. Silêncios de sons confusos e múltiplos. Silêncios demais.
Na quicumba com que se meteu ao caminho levou a esperança de vislumbrar o halo que ele sonhara existir. Paredes de noites e regaços de manhãs foram sítios de seus descansos, para logo prosseguir. Vezes houve em que adormeceu sob o manto de madrugadas cacimbeiras, delas despertando com o medo fervendo-lhe por dentro, querendo chegar, rápido, ao amanhã.
Andou por verdades diferentes, desprezando mujimbos. Aprendeu palavras e gestos. Palavras do seu sentir, maneiras do seu fazer. Afastou pedras. Ameigou caminhos ao seu jeito de andar. Com mãos de alegria e o coração batendo forte, teceu a liberdade de querer ser. Escondeu esgares cinzentos. Foi deixando o ontem para trás.
Pisou, descalço, terra molhada por lágrimas do céu, sob elas se lavando. Beijou a Mafumeira da lagoa da surucucu, onde mergulhou com amigos kimbundos, de pé descalço como ele. Viu a Lua e as estrelas pratearem o mar da Kyanda.
Namorou acácias, casuarinas, tamarindeiros e doces de jinguba da senhora que lavava a roupa de filho às costas. Com esta comeu o funge e o pirão e bebeu água da celha. Foi ela que um dia lhe tirou uma matacanha, que atrevida se instalara e fizera casulo num dedo do pé.
Palmilhou quintais de musseques. Rebitou, sacudindo a poeira levantada. Ouviu t’espero! Saboreou o calor partilhado sobre os luandos da esteira vivida a dois. Provou o picante do caluqueta, o sabor mulato do caju e da manga, o doce vermelho da pitanga, o açúcar do sape-sape e da fruta-pinha. Deixou que o marufo lhe tangesse a garganta. Amou e sorriu, sofreu, aprendeu a chorar.
Passou ao lado de encontros com a irmã da vida, soltando fagulhas da alma em fogo.
Um dia voltou às areias soltas, por elas caminhado, passo a passo, malembe malembe. Adormeceu, cansado, cara crescida, olhos pousados no peito. Logo despertou, alvoraçado, correndo pela luz do dia, libertando grãos brilhantes, criadores, ao encontro da sua a alma gémea.

Na quicumba com que se meteu ao caminho levou a esperança de vislumbrar o halo que ele sonhara existir. Paredes de noites e regaços de manhãs foram sítios de seus descansos, para logo prosseguir. Vezes houve em que adormeceu sob o manto de madrugadas cacimbeiras, delas despertando com o medo fervendo-lhe por dentro, querendo chegar, rápido, ao amanhã.
Andou por verdades diferentes, desprezando mujimbos. Aprendeu palavras e gestos. Palavras do seu sentir, maneiras do seu fazer. Afastou pedras. Ameigou caminhos ao seu jeito de andar. Com mãos de alegria e o coração batendo forte, teceu a liberdade de querer ser. Escondeu esgares cinzentos. Foi deixando o ontem para trás.
Pisou, descalço, terra molhada por lágrimas do céu, sob elas se lavando. Beijou a Mafumeira da lagoa da surucucu, onde mergulhou com amigos kimbundos, de pé descalço como ele. Viu a Lua e as estrelas pratearem o mar da Kyanda.
Namorou acácias, casuarinas, tamarindeiros e doces de jinguba da senhora que lavava a roupa de filho às costas. Com esta comeu o funge e o pirão e bebeu água da celha. Foi ela que um dia lhe tirou uma matacanha, que atrevida se instalara e fizera casulo num dedo do pé.
Palmilhou quintais de musseques. Rebitou, sacudindo a poeira levantada. Ouviu t’espero! Saboreou o calor partilhado sobre os luandos da esteira vivida a dois. Provou o picante do caluqueta, o sabor mulato do caju e da manga, o doce vermelho da pitanga, o açúcar do sape-sape e da fruta-pinha. Deixou que o marufo lhe tangesse a garganta. Amou e sorriu, sofreu, aprendeu a chorar.
Passou ao lado de encontros com a irmã da vida, soltando fagulhas da alma em fogo.
Um dia voltou às areias soltas, por elas caminhado, passo a passo, malembe malembe. Adormeceu, cansado, cara crescida, olhos pousados no peito. Logo despertou, alvoraçado, correndo pela luz do dia, libertando grãos brilhantes, criadores, ao encontro da sua a alma gémea.

23 comentários:
Belo texto, de sonoridades e "rítimos" angolanos. Não percebo todas as palavras (percebo muitas, ou não tivesse família nascida em Nova Lisboa) mas o sentido de procura e encontro sente-se claramente.
Bjs
Carlos
A vida inteira é uma busca constante por essa alma que queremos gémea. Estou certa que no caminho lhe vou guardando as roupagens e um dia saberei que a encontrei, finalmente!
( Encontro, nos seus textos, a ternura das palavras que falam da vida que fica selada na alma. Leio-os, sentindo neles a poesia guardada nas memórias que lhe servem de leme. Coisa rara!)
Um abraço
Parabéns pelo blog..amei...se permite..irei segui-lo..
abraço
Direto do artesanando a vida!
Tive de ser eu a ler o telegrama à Brites,que ficou espantada quando soube que eu era sexygenário.
Disse que estou muito bem conservado.Simpatias de cotovia que nada à procura da sua alma gémea...
Abraço
Teresa
A sonoridade e a alma dançante da Angola da minha África estão sempre comigo.
Gostei de saber que tem família nascida em Nova Lisboa, agora Huambo.
BJs
Maria João
Quanto gostaria de encontrar a poesia que diz estar guardada nas minhas memórias!
Só lá estão palavras que, volta não volta, emergem e se põem a escrevinhar.
Um abraço
Não compreendo todas as palavras, mas compreendo o suficiente para dizer, que este seu texto é pura e simplesmente POESIA!
Quem anda à procura da sua alma gémea...nunca a encontra.
Abraço de Düsseldorf!
É uma eterna busca, aprendizado... com atitudes, verdades e alma chegaremos ao crescimento, e nos entenderemos em harmonia com essa alma humana. Bela postagem! Abraço/ney.
Seu texto sempre impecável, palavras que não conheço,mas, sinto, é impressionante como seu vocabulário é envolvente e encantador! bjão
Salve !
Estou por aqui dando uma espiada.
Muito obrigada por sua visita e por palavras tão carinhosas para com o meu trabalho.
Eu também luto para abrior os blogs, a minha conexão é muito precária devido ao fato de morar na mata, acho que muito acima das torres.Seus comentários sempre colorem o meu espaço e enchem o meu coração de alegria.
Volte mais vezes, FOI DESSE JEITO QUE EU OUVI DIZER... terá sempre uma história para contar.
Saudações florestais
http://www.silnunesprof.blogspot.com
E viveu, esse malandro(a), e foi feliz nesse mundo tão real, nessa terra feita chão.
Chão de sonho e exuberante de vida. Vida de bicho, vida de gente, VIDA autêntica.
E esse é o húmus de que nasce a alma gémea!
Abraço, Amigo e, obrigada por esta partilha do sonho.
ematejoca
Este texto poesia!?
Obrigado, mas quem me dera saber escrevê-la!
Quanto à alma gémea, acho que sim, quem a procura pode encontrá-la.
Abraço do Infantado!
Ney
Eterna busca! Talvez...Penso, porém, que nem a Eternidade é eterna.
Abraço
Elaine Barnes
Gentil o seu comentário.
Bjão
Carlos Barbosa de OLiveira
Simpática, sem dúvida, a cotovia...
A maré está no máximo da enchente, em praia-mar, é tempo de nadar...
Abraço
Silvana Nunes
Dê uma espiada à vontade. Bem vinda!
Saudações
Teresa Santos
Que mujimbo foi esse de que o caminhante era um malandro (a)!!??
:)))
Abraço forte, Amiga.
Carlos, você acredita na exist~encia de alma gêmea ?
Claro que pode capturar a imagem, ela não é minha. Crei ser um porquinho do mato.
Beijo grande e bom final de semana, amigo.
Saudações Florestais !
Amigo Carlos.Texto de belo ler e muita sensibilidade envolvente ao ler, a alma gemea será que já encontramos a nossa.
Beijinho e bfs desejo.
Lisa
incrível! lia-te e pensava afinal há na tua escrita o ritmo de Mia Couto nas "estórias" de uma África muito própria
um beijo
Silvana Nunes
Não é uma questão de acreditar, ou não...
Obrigado
Saudações
Agulheta
Será que já encontrámos...?
Se ela existe, eu já!
Também para si um bfs
Beijinho
uminuto
Referência a Mia Couto é elogio...
Grato
um beijo
Carlos, obrigada pelo parabéns e incentivo que tenho recebido sempre de ti. Infelizmente , o prblema no meu PC só foi resolvido mesmo com a vinda de um técnico para retirar um "vírus"( coisa mesmo de quem não tem o que fazer a não ser infernizar a vida dos outros plantando esses "espiãozinhos")
No mais, maravilhoso texto, esse seu... hoje sei, que muitas são nossas "almas gêmeas"! Quádruplas? Quíntuplas? Quem sabe... basta termos olhos, coração e alma para descobri-las! Forte abraço!
Lindo, este texto descritivo e tocante.
Matacanha é bitacaia?
Um beijo.
Nereida
Ainda bem que mataram o "virus".
Grato pelas palavras.
Forte abraço!
Filoxera
Obrigado pela opinião sobre o texto.
Matacanha e bitacaia são a mesma coisa. Em Luanda, no linguajar kimbundo, usava-se mais matacanha.
Um beijo e as melhoras do seu campeão.
Bom dia =D
A melhor maneira de você atrair sua Alma Gêmea é descobrindo a si próprio.
Quanto mais você desenvolver e expandir habilidades, sabedoria, seu jeitinho de ser que só tem igual em você. Mais fácil será de ser reconhecida(o) pela sua Alma Gêmea.
Sorte a todos que buscam pela sua alma gêmea, porque ela existe sim!
Um abraço carinhoso.
Suh ;)
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