quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Em busca da alma gémea

Por quantas areias soltas, de noites abertas, caminhou! Quantas nuvens trazidas pelo vento, ou deixadas pela chuva, o viram passar!
Dobrou esquinas e contra esquinas, chegou a becos, neles volteando buscando saídas, soltando-se por muitas delas com silêncios agarrados. Silêncios de sons confusos e múltiplos. Silêncios demais.
Na quicumba com que se meteu ao caminho levou a esperança de vislumbrar o halo que ele sonhara existir. Paredes de noites e regaços de manhãs foram sítios de seus descansos, para logo prosseguir. Vezes houve em que adormeceu sob o manto de madrugadas cacimbeiras, delas despertando com o medo fervendo-lhe por dentro, querendo chegar, rápido, ao amanhã.
Andou por verdades diferentes, desprezando mujimbos. Aprendeu palavras e gestos. Palavras do seu sentir, maneiras do seu fazer. Afastou pedras. Ameigou caminhos ao seu jeito de andar. Com mãos de alegria e o coração batendo forte, teceu a liberdade de querer ser. Escondeu esgares cinzentos. Foi deixando o ontem para trás.
Pisou, descalço, terra molhada por lágrimas do céu, sob elas se lavando. Beijou a Mafumeira da lagoa da surucucu, onde mergulhou com amigos kimbundos, de pé descalço como ele. Viu a Lua e as estrelas pratearem o mar da Kyanda.
Namorou acácias, casuarinas, tamarindeiros e doces de jinguba da senhora que lavava a roupa de filho às costas. Com esta comeu o funge e o pirão e bebeu água da celha. Foi ela que um dia lhe tirou uma matacanha, que atrevida se instalara e fizera casulo num dedo do pé.
Palmilhou quintais de musseques. Rebitou, sacudindo a poeira levantada. Ouviu t’espero! Saboreou o calor partilhado sobre os luandos da esteira vivida a dois. Provou o picante do caluqueta, o sabor mulato do caju e da manga, o doce vermelho da pitanga, o açúcar do sape-sape e da fruta-pinha. Deixou que o marufo lhe tangesse a garganta. Amou e sorriu, sofreu, aprendeu a chorar.
Passou ao lado de encontros com a irmã da vida, soltando fagulhas da alma em fogo.
Um dia voltou às areias soltas, por elas caminhado, passo a passo, malembe malembe. Adormeceu, cansado, cara crescida, olhos pousados no peito. Logo despertou, alvoraçado, correndo pela luz do dia, libertando grãos brilhantes, criadores, ao encontro da sua a alma gémea.

23 comentários:

Teresa disse...

Belo texto, de sonoridades e "rítimos" angolanos. Não percebo todas as palavras (percebo muitas, ou não tivesse família nascida em Nova Lisboa) mas o sentido de procura e encontro sente-se claramente.
Bjs

Maria João disse...

Carlos

A vida inteira é uma busca constante por essa alma que queremos gémea. Estou certa que no caminho lhe vou guardando as roupagens e um dia saberei que a encontrei, finalmente!

( Encontro, nos seus textos, a ternura das palavras que falam da vida que fica selada na alma. Leio-os, sentindo neles a poesia guardada nas memórias que lhe servem de leme. Coisa rara!)


Um abraço

Beth Cerquinho disse...

Parabéns pelo blog..amei...se permite..irei segui-lo..
abraço

Direto do artesanando a vida!

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

Tive de ser eu a ler o telegrama à Brites,que ficou espantada quando soube que eu era sexygenário.
Disse que estou muito bem conservado.Simpatias de cotovia que nada à procura da sua alma gémea...
Abraço

Carlos Albuquerque disse...

Teresa

A sonoridade e a alma dançante da Angola da minha África estão sempre comigo.
Gostei de saber que tem família nascida em Nova Lisboa, agora Huambo.
BJs

Carlos Albuquerque disse...

Maria João

Quanto gostaria de encontrar a poesia que diz estar guardada nas minhas memórias!
Só lá estão palavras que, volta não volta, emergem e se põem a escrevinhar.

Um abraço

ematejoca disse...

Não compreendo todas as palavras, mas compreendo o suficiente para dizer, que este seu texto é pura e simplesmente POESIA!
Quem anda à procura da sua alma gémea...nunca a encontra.

Abraço de Düsseldorf!

ney disse...

É uma eterna busca, aprendizado... com atitudes, verdades e alma chegaremos ao crescimento, e nos entenderemos em harmonia com essa alma humana. Bela postagem! Abraço/ney.

Elaine Barnes disse...

Seu texto sempre impecável, palavras que não conheço,mas, sinto, é impressionante como seu vocabulário é envolvente e encantador! bjão

Silvana Nunes .'. disse...

Salve !
Estou por aqui dando uma espiada.
Muito obrigada por sua visita e por palavras tão carinhosas para com o meu trabalho.
Eu também luto para abrior os blogs, a minha conexão é muito precária devido ao fato de morar na mata, acho que muito acima das torres.Seus comentários sempre colorem o meu espaço e enchem o meu coração de alegria.
Volte mais vezes, FOI DESSE JEITO QUE EU OUVI DIZER... terá sempre uma história para contar.
Saudações florestais
http://www.silnunesprof.blogspot.com

TERESA SANTOS disse...

E viveu, esse malandro(a), e foi feliz nesse mundo tão real, nessa terra feita chão.
Chão de sonho e exuberante de vida. Vida de bicho, vida de gente, VIDA autêntica.
E esse é o húmus de que nasce a alma gémea!
Abraço, Amigo e, obrigada por esta partilha do sonho.

Carlos Albuquerque disse...

ematejoca

Este texto poesia!?
Obrigado, mas quem me dera saber escrevê-la!
Quanto à alma gémea, acho que sim, quem a procura pode encontrá-la.

Abraço do Infantado!

Ney

Eterna busca! Talvez...Penso, porém, que nem a Eternidade é eterna.

Abraço

Elaine Barnes

Gentil o seu comentário.

Bjão

Carlos Albuquerque disse...

Carlos Barbosa de OLiveira

Simpática, sem dúvida, a cotovia...
A maré está no máximo da enchente, em praia-mar, é tempo de nadar...

Abraço

Carlos Albuquerque disse...

Silvana Nunes

Dê uma espiada à vontade. Bem vinda!

Saudações

Carlos Albuquerque disse...

Teresa Santos

Que mujimbo foi esse de que o caminhante era um malandro (a)!!??
:)))

Abraço forte, Amiga.

Silvana Nunes .'. disse...

Carlos, você acredita na exist~encia de alma gêmea ?
Claro que pode capturar a imagem, ela não é minha. Crei ser um porquinho do mato.
Beijo grande e bom final de semana, amigo.
Saudações Florestais !

Agulheta disse...

Amigo Carlos.Texto de belo ler e muita sensibilidade envolvente ao ler, a alma gemea será que já encontramos a nossa.
Beijinho e bfs desejo.
Lisa

uminuto disse...

incrível! lia-te e pensava afinal há na tua escrita o ritmo de Mia Couto nas "estórias" de uma África muito própria
um beijo

Carlos Albuquerque disse...

Silvana Nunes

Não é uma questão de acreditar, ou não...
Obrigado
Saudações

Agulheta

Será que já encontrámos...?
Se ela existe, eu já!
Também para si um bfs
Beijinho

uminuto

Referência a Mia Couto é elogio...
Grato
um beijo

nereida disse...

Carlos, obrigada pelo parabéns e incentivo que tenho recebido sempre de ti. Infelizmente , o prblema no meu PC só foi resolvido mesmo com a vinda de um técnico para retirar um "vírus"( coisa mesmo de quem não tem o que fazer a não ser infernizar a vida dos outros plantando esses "espiãozinhos")
No mais, maravilhoso texto, esse seu... hoje sei, que muitas são nossas "almas gêmeas"! Quádruplas? Quíntuplas? Quem sabe... basta termos olhos, coração e alma para descobri-las! Forte abraço!

Filoxera disse...

Lindo, este texto descritivo e tocante.
Matacanha é bitacaia?
Um beijo.

Carlos Albuquerque disse...

Nereida

Ainda bem que mataram o "virus".
Grato pelas palavras.
Forte abraço!

Filoxera

Obrigado pela opinião sobre o texto.
Matacanha e bitacaia são a mesma coisa. Em Luanda, no linguajar kimbundo, usava-se mais matacanha.
Um beijo e as melhoras do seu campeão.

Suh disse...

Bom dia =D
A melhor maneira de você atrair sua Alma Gêmea é descobrindo a si próprio.
Quanto mais você desenvolver e expandir habilidades, sabedoria, seu jeitinho de ser que só tem igual em você. Mais fácil será de ser reconhecida(o) pela sua Alma Gêmea.
Sorte a todos que buscam pela sua alma gêmea, porque ela existe sim!
Um abraço carinhoso.
Suh ;)