
No lugar dali vivia ela.
Ele morava no sítio daqui.
Ele morava no sítio daqui.
No espaço do meio, a língua de alcatrão, filha daqui, por onde corriam sons vadios, estava lá para dizer que além era terra vermelha, mussequeira, com fogueiras, tambores, cantares, danças gentias da noite e cazumbices.
Todos os dias, quando a Lua já vinha se destapando, ele saía, ximbicando o dongo do desejo, descia no principio da terra, entrando pelo quintal sem porta. Procurava-a, vi-a, tocava-lhe. Falavam-se com palavras de dizer sentimentos que lhes corriam por dentro, ainda filhotes. Alagavam sangues com calores. Ela dava-se com silêncios de sussurros e sorrisos de menina. As almas dos dois amigavam, aproveitavam, subiam às alturas, dançando em festa. O amor passou a ser de muitas noites.
Quando, daqui, ele chegava, no escurecer sem Lua, as nuvens entravam em frenesi, desenhando-lhe estrada murmurante, que o levava aos sorrisos de menina. Regressava, roendo a noite, envolto em carícias.
Os sentimentos cresceram. Os sorrisos passaram a ser de luz, de mulher.
Uma dia o dongo encalhou numa noite diferente, num de repente. A terra mussequeira tornou-se queimada crepitante. O vento soprou-lhe gritos e som de tiros. Correu, para a mulher de sorrisos de luz, a ela se abraçando. Ficaram os dois, bem juntos, beijando-se com palavras meigas, trocando purezas de felicidade. A Lua fugitiva desceu, cirandou à volta deles. Fundiram-se num só sítio.
A manhã apareceu sobre aduelas queimadas, ainda fumegantes, trazendo um Sol com raios de fogo.
A guerra chegara!

39 comentários:
Amigo Carlos,
Uma história de amor linda, emocionante e contada numa linguagem nova para mim. Adorei, aliás gosto muitíssimo de como escreve.
Pena que o final seja tão trágico.
Meu amigo, no meu post dos prémios, tem lá um selo para si, o da Amizade. Ele é para todos os que me visitam, como está lá escrito.
Espero que goste. Eu ficaria muito feliz se o aceitasse.
Abração amigo,
Ná
Que sensibilidade é pura poesia. Vc consegue passar as sensações para o leitor. Abraços criativos
Carlos
Que pena a guerra vir cortar os nós criados pelo amor. E acontece mais vezes do que devia.
Bjs
Carlos
Correr para um abraço que funde dois seres que se amam, quando o medo se instala...
O amor e a guerra, contraste e contradição num texto deliciosamente escrito, como é seu hábito!
Eu insisto.. quanta poesia, Carlos!
Fernanda
A guerra escreveu tantas histórias trágicas...
Quanto ao selo, aceito com todo o gosto e amizade, irei buscá-lo.
Abração amigo
Teresa
Nunca devia acontecer...
Mas a humanidade que somos é assim, nascida da guerra...
Bjs
Quanto BOM sentir de um AMOR verdadeiro, mesmo com um final meio amargo.
Um AMOR envolto a ternura que quase não existe mais.
Amei toda a prosa, cheia de lindas metáforas que aqui encontrei.
Beijinhos, amigo
o mar e a brisa do prazer de aprender
Grato pelo comentário. Mas olhe, que maior poesia há que no nome do seu blog?
Abraços
Maria João
Que melhor há do que o amor para combater o medo, mesmo que nos leve a vida? Eu sei que é assim.
Obrigado pelo terno comentário.
Quanto à poesia, o que eu gostava de a saber escrever!
Beijos
Malu
Olá, amiga!
Que prazer ver-te de visita à minha cubata e saber que gostou do que leu!
Beijinhos, amiga
Vidas cruzadas, fundidas, tantas vezes reais...
Bj
Uma estória que não tem lugar para ser guerra e apenas tem uma guerra para desfazer lugares. Pior, porque as guerras desfazem vidas de pessoas que depois só entram nas estórias.
Quando o ser humano irá pensar que as guerras, tal como a tuberculose ou a sida, têm que ser combatidas como doenças que, como as outras, têm que acabar?
Um abraço
Carlos,
Que bem que escreves. Parabéns! Uma história linda, que termina de forma triste, como terminam muitas histórias de amor e de vida, quando a guerra se instala.
Um abraço
e essa a ess~encia da felicidade!! é não ter medo :)
bj
teresa
Essa guerra sempre cruel que chega trazendo desesperanças, separações, dor, destruição, morte... essa guerra que que transforma homens em animais irracionais, mulheres em frangalhos, em nada, essa guerra que parece nunca terá fim...
Uma linda e triste história que se repete hora a hora por este nosso incompreensível mundo...
beijos, Carlos, e um bom dia para você.
se há o amor, porque tem de se inventar a guerra?
um beijo
MARIINHA
Obrigado.
A guerra mais não faz do que alimentar uns quantos e ceifar a vida a muitos, muitos outros...
Um abraço
continuando assim
Talvez, talvez a essência da felicidade seja não ter medo.
Akhen
Completamente de acordo!
Um abraço
maria teresa
É verdade que sim...
Bj
Dulce
Quando será, mesmo, que a geurra terá fim, se ela vive no espírito dos poderosos!!??
Beijos
uminuto
Como responder a essa pergunta?
O amor é a única força que se opõe à guerra, só que...
Um beijo
Excelente texto sobre sentimentos entre dois seres em tempos de paz.
Quando a guerra chega a terra antes fértil vira terra queimada, os sentimentos se confundem o amor e o ódio se abraçam.
Um abraço e uma boa semana
Carlos!
Lindo o texto,onde o sentimento do amor,vençe todas as barreiras entre as quais a guerra,e para combater a mesma só a força do amor.
Beijinho
Lisa
OLá Carlos,
Que linda história de amor, embora ensombrada pela guerra!...Gosto muito da su forma de narrar, do seu vocabulário africano. Pelas suas palavras cheira a África e o mais interessante é que eu nunca estive em África, mas o que tenho na ideia é que terá uns cheiros fortes e intensos.
Afinal qual é o cheiro de África?
Beijinhos,
Manuela
Agulheta (Elisa)
É como diz, minha amiga, a força do amor é um poder forte contra a guerra.
Obrigado pela presença.
Beijinhos
Manuela Freitas
Agradeço o comentário simpático.
O cheiro de África?
Para mim é o cheiro do amor, foi lá que o encontrei, e o da saudade eterna. Também da terra vermelha molhada pela chuva (odor único), das anharas e chanas e das suas gentes. Da vida que corre tranquila, sem pressas, e de tanto, mas tanto mais...
Beijinhos
Olá, amigo
Sua história é lindamente bordada
O final nada surpreendente é real
Tudo poderia ser distinto
E porque nós queremos há-de ser
Continuemos sempre
Beijos abraços muita saúde,
Renata
Carlos Albuquerque
Vou pedir-lhe um favor;
Quando puder vá a
jim-viajantedotempo.blogspot.com
e diga-me o que acha.
Akhen
Um abraço
JIM
Já fui ao seu blog.
Lá deixei escrito o que penso.
Um abraço
CARLOS: AMOR em tempo de guerra... LINDO! UMA SINESTESIA RESSALTA, perante meus olhos: "A LUA... DESCEU...CIRANDOU...AINDA FUMEGANTES..." como o amor vivido na paz se se projectar para lá da guerra... Não é possível, pois não?
BEIJO DE LUSIBERO
Tô saudades...
mil beijinhos!
lusibero
Porque não!?
Beijo daqui
Eu
Já fui lá, matei saudades...
Mil e um beijinhos
Olá amigo Carlos,
Estou de volta,embora ainda não muito bem,mas não tenho nada de grave pelo menos na biopsa e nos exames que fiz não acusou nada.
A cabeça já está mais tranquila e o resto também, obrigado amigo pelos seus comentários e por tudo.
Agora tenho um probelema no meu computador,nalguns blogs não marca a minha passagem mas marca a visita. mas isto é o menos.
Um grande abraço, José
não sei se é no servidor se é no computador
Olá José,
É bom tê-lo de novo por aqui, e com saúde.
Quanto ao computador, o filho não dá um jeito?
Um grande abraço
Belo texto, sem dúvida.
Trata-se de texto em prosa envolvido em poesia, enriquecido pela história cheia de sentimento e lancinante fim. Sempre gostei do uso do vocabulário próprio, vernáculo, se for necessário, mas comprometido com a história, o lugar e as pessoas. Quem nunca esteve em África, como é o meu caso, sente o calor, as grandes planícies, o campo, o pó, tudo o que nos faz envolver nas memórias das leituras e imagens anteriores.
Continue a deliciar-nos com a sua escrita.
nem toda a gente tem o previlégio de amar e sofrer também por amor :)
bj
bom texto
teresa
Então temos uma bela e trágica estória de amor. Ou de guerra. Não importa; é poesia, é arte, é pura beleza!
Parabéns, amigo, o amor é o único toque de humanidade que pode haver em meio a guerra; o resto... não gostaria de ofender os animais, dizendo ser a guerra "animalesca", antes dize-la "humanelesca!"
Grande abraço
Texto inteligentíssimo. O cenário descrito por você no texto foi perfeito.Pude vislumbrar. A guerra chegou, infelizmente como chega todos os dias.Somos propensos à ela, estamos sempre armados para a guerra, sendo que seria mais fácil dar uma chance à paz, como disse John Lennon.Esse "dar uma chance à paz" que ele fala, é pra gente ver se não é mais fácil de resolver as coisas. E não falo só de guerras armadas de nações não.Falo de guerras íntimas que carregamos dentro de nós. E sobre lobos em pele de cordeiro, está cheio mesmo. Um abraço,xará
Amigo
Passei prá te dar um oi por que ando meio sumida , mas olha só nunca esqueço dos amigos como voçê...
O post é lindo , fiquei tentando imaNo espaço do meio, a língua de alcatrão, filha daqui, por onde corriam sons vadios, estava lá para dizer que além era terra vermelha, mussequeira, com fogueiras, tambores, cantares, danças gentias da noite e cazumbices.
ginar a cena descrita
Olá meu amigo Carlos:
A guerra traz muitos dessabores, muitas lutas e muitos amores por fim jogados ao relento.
Uma linda e comovente história onde o amor deveria não acabar.
Pois a paixão une os corpos, mas sómente o amor entrelaça os espíritos, e nessa guerra teria sim que ganhar o Amor.
Beijinhos doces, meu amigo.
Fique na paz.
Regina Coeli.
Nereida
Certeiro seu comentário
Grande abraço
Continuando assim
Obrigado, Teresa.
Há quem tenha o privilégio de que falou!
Bj
Manuel afonso
Grato pelo seu afável comentário.
Abraço
Carlos Soares
Bem-vindo xará.
Um abraço agradecendo as palavras deixadas.
Marcia
Oi, tudo bem?
Os amigos ficam sempre, né?
Bjs
Deusa Odoyá.
Uma nova amiga que recebo com amizade.
Beijinhos, Regina
Lindo e riquíssimo texto!
Nada como o amor para aplacar a dor.
Nos braços do amado enfrentar a guerra...
Estou encantada com tudo o que aqui li.
Gostaria que me visitasse.
Um beijo.
Ianê Mello
Gentil comentário, obrigado.
Vou de visita ao seu blog.
Um beijo
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