sábado, 17 de outubro de 2009

As Gémeas




Contou-me o Mwata Milagre:


“Deus parou à beira do rio. Quis por-lhe nome, mas aquelas águas já se chamavam Kwanza. Do barro pisado fez terra linda, a Muxima. Prencheu-a de mortais, todos negros, permitindo que se amontoassem. Depois olhou e cogitou, algo falta. Foi ao fundo do rio dele voltando com areia branca, juntou-lhe argila e, com afã, mesmo sem ter costela à mão, pôs-se a moldar. Nasceu uma Senhora a quem disse ficas santa para cuidar desta gente. Que nome me dás, perguntou a recém-nascida. Virgem, mas não serás de Chestokova, essa já lá a deixei.
Um dia, por desavença com o Criador nascida das dúvidas com que os mortais do sítio olhavam para a sua cor, e porque já era dona de alguns poderes, mudou-se de capa. Fez-se negra como eles que, a partir dali, seus devotos ficaram. Pensou em tornar-se mágica. Talvez deusa. Desistiu, santa era melhor!
Deus não gostou. Na altura, pesava-lhe ainda no espírito se havia de criar devoções da cor dos terrenos de cada local, dúvida ainda hoje mantida. Por outro lado, revoltas nunca foram do seu agrado, muito menos agora, a idade já vai indo. Entendeu, do mesmo modo, ser presunção, orgulho e heresia a mais. Irou-se. Susteve-se, contudo. Deixou que a rebelde continuasse negra, mas condenou-a a ficar ali para sempre como santa residente, – o degredo na terra da aparição – e duplicou-a em branco, mandando a réplica peregrinar pelo mundo, para, invocando-O, originar outras adorações. Porém, nem mesmo o Criador está a precato de percalços. Tempos depois, cansada de vaguear, e estando Deus por fora, a Senhora branca levada por brisa brumosa chegou à Muxima. Deitou-se aos pés de uma panga-panga. Gritou a fadiga. Ficou a ver a voz morrer no meio dos ecos. Cheirou o vento, este uivou e escapou-se! Cerrou os olhos. Das nuvens desceu sobre ela uma lamparina acesa. Adormeceu. Despertou com o afago de uma mão negra.
Estava ali, à distância de um toque, a sua irmã, a Senhora negra. Deram-se abraços, misturaram lágrimas e risos. Viraram costas ao hálito do rio. Falaram de coisas. A Senhora branca contou ter observado muitas terras e gentes, diferentes dos Dondos do Kwanza, que é assim que se chamam os povos Bantos daqui. Fizera conhecimento com outras santas, mas nenhuma negra como a sua gémea, o que a não surpreendeu por ser aquela assim por artes próprias e não por vontade de Deus, embora tivesse ouvido falar de uma Santa Negra em terras muito distantes, onde não chegara, e quase só havia brancos. Do Criador reconheceram ambas ainda guardarem melindres.
Depressa os esqueceram, reconhecendo-Lhe bondade por de uma ter feito outra, libertando-as da solidão. É que, disse a branca à irmã, das Santas que conhecera, todas se lastimavam de estarem sós, não terem com quem falar, pois aos devotos só os ouviam, estando-lhes interdito dizerem-lhes uma única palavra que fosse. Só podiam conceder-lhes graças, mesmo assim nem sempre, e, só excepcionalmente mostrarem-se. Elas, ao menos, embora por distraimento divino, tinham-se encontrado, viam-se, tocavam-se, falavam-se, o que era bom e lhes apetecia.
Uniram poderes. Pararam o tempo. Cismaram à vontade. Gizaram ideias novas e uma astúcia: a construção de uma igreja para onde todos os anos se encaminharia uma marcha. Longe estavam as manas santas de adivinhar que pela boca morreriam, como o peixe. Morrer não é propriamente o caso, que de um anexim se trata, mas a verdade é que o Criador se aproveitou da ideia. Não tardou em transformar a marcha em peregrinação com penitentes pagadores de promessas, outros à busca de milagres, e uma procissão paramentada a preceito – a Procissão da Senhora da Muxima –, o que significou esforço suplementar para as irmãs, a partir dali obrigadas ao acompanhamento permanente dos devotos. Mas isso foi depois.
Voltando às parecidas, elas, sem medo que Deus as julgasse desajuizadas, com a intuição de mulheres que também o eram, de que as sentenças Dele ficam sempre por acabar, e tendo já aprendido, de outros saberes, que a mentira tem perna curta, falaram-Lhe dos seus desejos. Em voz alta, Deus estava de mau ouvir!
Paciente, Deus escutou. Como já dera a volta à sagacidade das veneráveis, não discordou. Doravante, as duas poderiam encontrar-se, mas impôs regras: a rebelde continuaria na Muxima, a outra, viajando. Os encontros seriam apenas de cem em cem anos, no tempo dos humanos. E, como definitiva concessão, acrescentou: os encontros poderiam ser testemunhados por devotos e por quem o não fosse, e, para que na memória das gerações ficassem, cada uma delas concederia duas graças à escolha. Assim foi.
As irmãs obedeceram, pois opção não tinham, já que Criador só aquele conheciam e o risco não era vereda de seu agrado. Quanto às graças, apesar de duas, século a século lhes não darem trabalho por aí além, nem exigirem temperada imaginação, demorou-lhes a porem-se de acordo. Mas lá assentaram que só as concederiam aos necessitados de espírito, porque dos corpos tratassem os mortais! As almas? Ver-se-ia mais tarde, se necessário. Meteram-se ao trabalho.
Os feitos logo se conheceram. De toda a parte, daquela terra e de fora dela, chegava gente para ver e mais tarde adorar a Senhora Negra da Muxima. Eram negros, brancos e mulatos, estes chamados de pardos, naqueles tempos, alguns albinos que também os havia. Muitos de outras crenças que, na curiosidade do pode ser que, por ali peregrinavam correndo o risco da conversação, como a alguns aconteceu. Os que passavam pela Muxima ao dobrar dos séculos, no ano cem de cada um, viam de uma sair outra, e as duas amilagrarem em conjunto.”
Um antepassado do Milagre testemunhou a duplicação das Senhoras. Não recebeu graça nenhuma, mas com isso pouco se importou, pois de espírito não era pobre e à demanda da Muxima não fora para graças receber; apenas para ver. Contou o que testemunhou aos descendentes, e estes, às gerações a seguir.

O rio continua a correr de Norte para Sul. A panga-panga permanece envolta por uma brisa brumosa. O vento voltou. Feneceu a chama da lamparina. Deus deixou de andar por lá.

27 comentários:

Malu disse...

Um olá, Carlos!
As duas senhoras santas, a branca e a negra, de mãos dadas a amilagrarem... e a cor não importou, porque transcendeu os corações ávidos por milagres.
Afinal Muxima quer dizer "CORAÇÃO".
Abraços

gosto de passear por aqui.

Filoxera disse...

Adorei. Parecia estar a ler Pepetela.
Copiei este texto. Como a minha mãe e a minha tia não têm computador, vou imprimi-lo e dar-lhes a ler amanhã, pois não creio que tenham grandes ligações a estas lendas de uma terra que o irmão de ambas tanto amou.
Obrigada, Carlos.
Muito obrigada.

Carlos Albuquerque disse...

Malu
Porque haveria de importar a cor?
Em todos não é igual o sangue que navega pelas veias? E não são as palmas das mãos todas da mesma cor?
Venha, amiga, volte a passear por aqui.
Abraços

Carlos Albuquerque disse...

Filoxera
O meu Mwata ficou todo vaidoso! Agora não há quem o ature!
Obrigado pelo carinho com que o tratou.
Beijos

Graça Pereira disse...

Lindas as histórias e lendas da nossa terra... África é sempre prodigiosa...em tudo!!!
Adorei ler e espero mais e mais.
Um beijo
Graça

♥ ♥ Eu disse...

Carlos, isso mostra como é importante se dar as mãos, um exemplo q deveria ser seguido por todos.

beijos carinhosos!

MIUÍKA disse...

Meu querido amigo,obrigada pela quadra que me deixou,que gostei muito, como dos seus textos lindíssimos.
Um bom Domingo e um beijinho...MIUÍKA

Sandra disse...

AGRADEÇO O SEU CARINHO NO BLOG.
BOM DIA PARA VC. TAMBÉM AMIGA.
PASSE LÁ NO BLOG MEUS MIMOS E TRAGA LINDOS MIMOS PARA VC.
TE ESPERO LÁ.
COM MUITO CARINHO RETRIBUO A VISITA.
VC. É UMA PESSOA MARAVILHOSA PARA MIM.
SANDRAF
FICO MUITO FELIZ COM A SUA PRESENÇA.

Maria Ribeiro disse...

TEXTO belíssimo, CARLOS!DARIA"PANO PARA MANGAS" explorar todos os conceitos que enriquecem a ideia de VIDA, que desta leitura se depreendem e se desprendem.Por afirmas que DEUS deixou de andar por lá? EU só conheço São Tomé e Princípe, onde vivi, em pequenina, mas "o chamamento" de ÁFRIDA é tão intenso, que DEUS não pode ter-se ido...assim... sem mais nem menos!
Beijo de lusibero

Carlos Albuquerque disse...

Graça Pereira.
Chegadas de ti, escritora de talento,essas palavras souberam-me bem!
Pode ser que convença o meu Mwata a contar outra história. Não sei, deixar ver.
Um beijo

Eu.
Dar as mãos é sempre o que importa.
Beijos

MIUÍKA
Um dia destes, quem sabe, vou lá deixar-lhe outra quadra. Obrigado pelo mimo.
Beijinhos

Sandra.
Obrigado. a tua presença também é sempre desejada.
Beijos

Carlos Albuquerque disse...

Maria Ribeiro.
Ó Professora Poetisa, o meu escrevinhar não merece tamanho elogio!
Perguntas porque digo ter Deus deixado de andar por lá. Respondo: a última vez que estive no sítio era só miséria, fome, destruição e morte.
Beijo daqui

Rosa Carioca disse...

Que Saudade! Terra boa, de gente que ficou no meu coração, de pôr-do-sol único, de pic-nic nas margens do Kwanza...
Lindo texto. O que posso mais dizer? É Lindo!

Carlos Albuquerque disse...

Rosa Carioca
É mesmo, que saudade!
Quantas vezes no Dondo, ali mesmo à beira do Kwanza, eu comi umas
choupas grelhadas...
Beijos

Dulce disse...

São Maravilhosas essas histórias que atravessam o tempo. Maravilhoso o seu texto, Carlos. Quão mágico é o viver em terras da África, com tantas tradições, com tão variadas culturas...
Tenha um bom dia.
Beijos

TERESA SANTOS disse...

Parabéns, Carlos. O teu texto, além de muito bem escrito, tem uma magia que nos prende do princípio ao fim. Haverá ali a tal magia africana de que tanto se fala?!
O que significa "Mwata"? Ensina-me, amigo.
Vou voltar sempre. É bom respirar outro ar, o ar dessa África que não conheço mas que amigos privilegiados que conhecem, não deixam de elogiar.
Abraço.

José disse...

Amigo Carlos,
Sobre o seu texto, Você já repondeu
à Maria Ribeiro, Quando há miséria,
fome, destruição,morte,è porque nem tudo está bem.
Obrigado pelos seus comentários lá no meu blog,Podem cortar as flores todas,Pois olho aqui no meu conselho depois das eleições fecharam três blogs,e segundo dizem foram forçados a isso, e já me disseram que eu estava na lista negra,com a idade que tenho já não tenho medo de nada, estou preparado para tudo.

Carlos eu vi por ai num blog que Você tem livros escritos por si.
se puder e tiver alguns poderia enviar um para mim,

diga aqui ou lá no meu blog,eu depois deixo a minha direção para enviar à cobrança.

um grande abraço,
José

Carlos Albuquerque disse...

TERESA SANTOS
Olha que agradável é a tua visita!
Mwata?
Na terra onde nasci quer dizer mais velho. Mais velho, pessoa que se ouve e respeita.
Mas isso é lá, não é?
Abraço

tulipa disse...

Estou tão agradecida pelas suas palavras no meu blog, a solidariedade em momentos sempre tristes. Muito obrigado.

Fiquei rendida à sua escrita.
Parabéns!!!

Criei um novo género de post, uma ideia que tive, aproveitar as minhas muitas fotos, são centenas e juntá-las a uma poesia, onde exista uma palavra que tenha a ver com a minha foto.
Quer espreitar esta nova ideia?
Espero por si.
Aguardo a sua opinião.

Beijo e abraços.
Boa semana.

Sandra disse...

Vim lhe desejar um lindo dia para vc. e retribuir sua visita carinhosa no blog.
Será sempre bem-vindo lá.
Com muito carinho lhe desejo tudo de bom Sucesso, Paz e Amor.
Sua presença tem perfume, cada vez que passas por lá.
Um grande Abraço
Sandra

MIUÍKA disse...

Amigo,quando me diz que o meu post tem muito que se lhe diga,eu entendo,mas temos que levar isto tudo na desportiva,é muito mais importante ter comida na mesa e sermos felizes com o que temos,que gozar umas férias no Hawai.
Um bei8jinho...MIUÍKA

Manuela Freitas disse...

Olá Carlos
Obrigada pela sua visita, que venho retribuir e é para ficar. Temos afinidades, por alguns posts que já li e tenho que o elogiar, porque escreve muito bem e com muita fluidez, assim sendo só tenho a ganhar e muito, passeando pelo seu sítio.
África...a grande magia de África...que só conheço através do cinema, mesmo assim dá para sentir a sua exuberância, o seu esplendor, até mesmo que deve ter um cheiro muito especial...e obviamente as suas gentes, a maioria de facto com vidas muito sofridas. É muito cativante a sua história.
Grata estou em ter acontecido um cruzamento bloguista.
Um abraço,
Manuela

RENATA MARIA PARREIRA CORDEIRO disse...

Amigo!
Peço-lhe desculpas pela demora em vir agradecer-lhe, a respeitosa e agradável visita. Um pequeno contratempo, mas, aos poucos, volto.
Quanto à mensagem da sua linda narrativa, penso que nascemos todos iguais, o leito é o mesmo. Embora, gradualmente, camadas, se foram pondo e sedimentando; e uns leitos se foram aquecendo mais, e outros menos; e, indo, prosseguindo, uns tiveram berços mais ricos, outros mais pobres. Criaram-se divisões societárias fortes que se impuseram sobremaneira a partir do advento da "Idade Moderna". Para as bandas de cá, sempre foi minha opção e opinião, não me excluir e não me calar, mas isso faz parte da história da minha família e do meu também sofrido país, difícil de explicar aqui. Se é preciso falar pelas suas bandas, fale mesmo. Minha modesta opinião.
Meus respeitos e cumprimentos, extensivos à sua família,
Renata Cordeiro

uminuto disse...

a< história de um rio, a história de um povo, a história de mundos diferentes que afinal podem "dar as maõs"
um beijo

Marcinha disse...

Oi amigo
Saudades de vir aqui ...
Eu particularmente não acredito nem em santos, tão pouco em santas (opinião particular minha) respeito a fé de cada um ...
Aqui no Brasil como deves saber, a Santa cultuada pelos católicos e a
Nossa Senhora Aparecida (que por sinal a imagem é negra )
Mas fiquei triste com o final do post ...Deus deixou de andar por lá ???
bjusssss

Sofá Amarelo disse...

Nunca estive em Angola mas não sei porquê sinto que conheço o cheiro e as sensações dos lugares ... ou de alguns lugares.

Não raras vezes dou por mim nas livrarias a folhear aqueles livros com fotografias de Luanda e outros locais de Angola como se neles procurasse sítios e pessoas que nunca vi. Talvez um dia descubra porquê...

Durante 10 anos trabalhei muito próximo de um angolano, até 2007, e além da relação hierárquica ficámos - e somos ainda - amigos! Algo impensável se se tratasse de um português de Portugal. Diferenças que nem o tempo apaga!

Forte abraço e obrigado pelo verdadeiro post (o comentário), esse sim, um post completo e elucidativo!

Carlos Albuquerque disse...

O Mwata agradece a todos os que por aqui passaram. Ficou embevecido! Estou agora a vê-lo de queixo repousando sobre a mão, cigarro na boca, olhos sorrindo...
Um abraço

Gingerbread Girl disse...

Muito bonito... muito quente e visual.

kiss*