quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Conto da meia-noite


Por aquele tecto ali suspenso a repousar, e pelas paredes que lhe asseveram o descanso – o seu sítio de imaginar, assim lhes chama –, viaja ele muitas vezes a tentar descerrar os olhos de uma aventura; a destapar as emoções; a provocar as memórias; a soltar-se, porventura à descoberta de novas paragens íntimas e apaziguadoras onde despontem afectos não esquivos; ou, vá lá saber-se, tão-só a coleccionar feitos prodigalizados pela imaginação solitária.
Tarda-lhe o sono. Experimenta a contagem. Em vão. Os carneiros tresmalham-se.
De inadaptável a pastor com ajustes por descobrir, não tendo sequer perro com quem se apurar no ofício, e o termo não é aqui trazido, nem pouco mais ou menos, não haja espúrias leituras apressadas, como tendo alguma coisa a ver com a infâmia porque já se designaram os Mouros, mas apenas querendo dizer o que se quer, passa a observador.
Observador fascinado da lagartixa que todas as noites, por volta da meia-noite, como é hoje o caso, estando o quarto e o que sobra da casa em silêncio, sai debaixo do guarda-roupa onde mora, trepa cautelosa com poses de atleta olímpica a caminho de veneras, pata ante pata, por uma das paredes, e se posta próxima do foco de luz, à cata de traças atraídas pelo clarão, vez por outra de aranhiços ou mosquitos, regressando a casa pelo mesmo percurso, apressada, receosa de ser descoberta, mas repleta com o banquete. O pequeno sáurio – repara ele –, cresce a olhos vistos. A pele, ainda há dias translúcida, tornou-se opaca. O ventre enverdeceu-se. As extremidades dos dedos alargaram-se. Rabeja mais forte.
Esta noite é diferente. A lagartixa regressa distraída, sem pressas. Tropeça numa flor caída no chão, cheira-lhe o perfume. Pára un instante. Prossegue. Antes de chegar ao guarda-roupa volta-se para trás e diz:

- Boa noite!
Ele responde:
- Boa noite!
E adormece.

20 comentários:

ney disse...

E será que alguém um dia não viveu um momento assim? Acho quase impossível, ela sempre foi personagem de nossas vidas. Que beleza de conto, viajei no tempo. DEMAIS! Parabéns! Um abraço, ney.

Dulce disse...

Ora, ve-se que é a lagartixazinha quem anda a tirar-lhe o sono... rs Só adormece depois que a vê...
Uma linda história, Carlos.
beijos do lado de cá do Atlântico.

José disse...

Olá amigo Carlos,
bonito conto este da lagartixa. Recuei alguns anos, até ao tempo que as pessoas não tinham televisão,e levavam os serões a contar contos para crianças, e para os mais crescidos.

Este conto é mais bonito porque a lagartixa falava.

grande abraço,José

(Carlos Soares) disse...

Legal,xará. Então era esssa que me disse que ia publicar? Legal. Um abraço

Austeriana disse...

Este post lembrou-me logo o blogue «trepadeira»!
Esta lagartixa faladora também deve ter histórias singulares para contar, tão singulares quanto esta!
Abraço.

Agulheta disse...

Amigo Carlos! Que belo conto o da lagartixa e até ela falava,se calhar já se contaram tantos contos desta maneira,já vai algum tempo,mas gostei.
Abraço de amigo
Lisa

Carlos Albuquerque disse...

Responderei a todos os comentários.
Agora é só para um pedido à Austeriana - diga-me o endereço do "trepadeira", gostava de visitar o blog. Despertou-me a curiosidade!
Abraço

Austeriana disse...

Carlos,
O «trepadeira» tem o endereço seguinte:
http://trepadeira-trepadeira.blogspot.com/

Carlos Albuquerque disse...

Amigo ney.
É como diz. Grato pela simpatia do comentário.
Um abraço

Dulce.
Aquela lagartixazinha...
Beijos

José.
É bom, de quando em vez, irmos ao passado. Agora, não percebo como é que puseram ali uma lagartixa a falar, mas que ela falou, lá isso falou...!
Um abraço amigo

Carlos Soares.
Era esta, sim. Mas tem outra. Um dia virá conversar...
Um abraço amigo, xará

Carlos Albuquerque disse...

Austeriana.
Já descobri o "trepadeira"!
Achei a lagartixa pouco faladora. Já lhe disse isso. Ela prometeu voltar. Vamos ver...
Um abraço

Amiga Agulheta.
Obrigado pelo abraço amigo.
Falei há pouco com a lagartixa...
Digo mesmo que disse à Austeriana.
Um abraço amigo, claro!

♥ ♥ Eu disse...

Antigamente se prestava mais atenção a pequeninos detalhes q hj passam totalmente despercebidos, adorei o conto.

mil beijinhos!

Carlos Albuquerque disse...

Eu.
Grato por este rabisco simpático ;)
mil beijinhos

Filoxera disse...

Lindo, este conto!
E a fazer-me lembrar as osgas que a minha tia deixava passearem-se pelas paredes do quarto, na minha infância.
Um beijo.

Sininho disse...

pois contar carneiros também nao funciona comigo..., agora se eu visse uma lagartixa(que só o nome arrepia..., e aquelas patinas com os dedos abertos.... ahhrg) é que não dormia..., nem sequer ficava no quarto....

Sofá Amarelo disse...

As histórias simples são as que fazem mais sentido. Na Igreja da Atalaia, perto de Tomar, há uma lagartixa que me vem dar sempre os bons-dias quando lá vou - é fotogénica, deixa-se fotografar, não foge e acho que já me conhece. Já teve direito a historinha num antigo blog meu, um dia destes vou trazê-la de novo...

Carlos Albuquerque disse...

Filoxera.
A minha infância também teve osgas a andarem pelas paredes. Só que eram mudas! A lagartixa que se meteu em andanças à meia-noite fala, e não fui seu que a ensinei, a sério...!
Um beijo

Sininho.
Esta lagartixa é bonita, bem falante e meia fada. Diz boa noite e a insónio desaparece!
BJS e um abraço

Carlos Albuquerque disse...

Sofá Amarelo.
Espero para ver...
E ela fala?
Um abraço

Sandra disse...

A CORAGEM E A ESPERANÇA CAMINHAM LADO A LADO AMIGO!!
venho retribuir o seu carinho deixado em meu blog.
Como é bom ter vc. tão pertinho de mim.
Agradeço amigo, pelos eternos carinhos. As vezes agente não aceita os erros dos outros. Mas eles estão ai, para que ajudamos a compreende-los, que somos, e que são(eles)tembém seres Humanos, passíveis de erros. É muito triste saber que vc. fez uma cirurgia para retirar os parafusos que estão em seu pé e depois descobre, que um deles está lá, quebrado e precisa ser retirado.Mas, temos que aceitar e confiar agora.
Com muito carinho, agradeço a esta linda e colorosa amizade, que encontro junto de ti.
Como é bom ter vc. como meu amigo seincero e verdadeiro.
Sempre com otimismo e boas energias.
Assim, não tem quem não fica sem a ESPERANÇA, do nosso lado.
Agradeço a vc. meu grande amigo companheiro.
Um abraço muito forte.
Sandra

Carlos Albuquerque disse...

Sandra.
Sempre pelo caminho das boas energias e do optimismo.
Tudo de bom para ti.
abraço forte

Carlos Albuquerque disse...

Sandra.
Sempre pelo caminho das boas energias e do optimismo.
Tudo de bom para ti.
abraço forte