Nos meus andares pelo mundo estive em muitas cidades de África, Europa e Estados Unidos. Umas fiquei a conhecer, razoavelmente. Outras, apenas por elas passei. Algumas encantaram-me, a elas voltando. Como não gostar de Florença, Paris, Londres, Abidjan, Lusaka, Benguela, Praga, Budapeste, Berlim, Nova Iorque e São Petersburgo, para não falar de outras?
Mas, a Cidade da Minha Vida é Luanda, que em tempos se chamou São Paulo da Assunção de Luanda. Não vou falar da história da capital de Angola, mas dizer, apenas, porque a elejo. Foi ali que me fizeram nascer num Agosto de cacimbo, era ela ainda menina, estendendo-se do Atlântico para o planalto, abrindo com os seus dedos finos ruas e avenidas, plantando um bairro aqui, outro além, rasgando espaços para que neles se pudesse crescer. Eu cresci, ela fez-se mulher.
Quando se me chegaram os primeiros choros foi dela que uma mão amiga se soltou, me afagou a face, me ameigou os olhos e me susteve as lágrimas. Nos momentos de desalento ofereceu-me um ombro para repousar, falou-me de coisas simples, ensinou-me os nomes da vida. Já espigadote pôs-me a chapinhar em poças de água de caminhos molhados. Permitiu que me deitasse no capim encharcado pela chuva e, de boca aberta, deixasse que a água caída do céu me tangesse a garganta. Foi ela que me ensinou a beber das lagoas e rios, depois de neles ter mergulhado, fazendo das mãos concha. Amestrou-me na prova do funge, do pirão, da muamba, do mezonguê e do jindungo, dando-me a beber o marufo.
Pacientemente, ensinou-me a construir a minha primeira bola de meia, enchida de trapos e sumaúma, e com ela jogar, mais outros munangas, na lama dos musseques. Munangas com cor de pele diferente da minha, mas meninos como eu, companheiros fieis dos meus desmandos e, mais tarde, de estudos. Éramos um só quando queríamos fugir ao ralhete das mães. Também íamos aos passarinhos! Era ainda puto quando me deu a provar o Mar, ficando eu com a surpresa de que aquelas águas eram salgadas como as minhas lágrimas! Levou-me, pela mão, aos quintais das rebitas de Sábado à noite. Ajeitou-me para o primeiro olhar comprometido, para o primeiro beijo consentido, que me inebriaram e me estrearam nos namoricos. Mostrou-me as casuarinas, sob as quais, tendo a Lua a olhar, e por companhia o doce deslizar das ondas sobre a areia fina da praia, conheci outro corpo que não o meu, arfando de desejo na praia mágica da Ilha da Kyanda.
Foi ela que me desafiou para a aventura da entrada nas matas cerradas e para o percorrer das anharas sem fim, numa das quais, um dia, avistei um leão e lhe ouvi o rugido forte de rei da selva, deixando-me a tremer dos pés à cabeça, e o sangue a circular-me pelas veias de freio nos dentes! Levou-me às acácias rubras de Benguela, a belas quedas de água, às Pedras Negras de Pungo Andongo, a ver as pegadas da Rainha Ginga e à gigantesca floresta do Maiombe, em Cabinda, terra de pepitas de ouro, de chimpanzés, saguis e gorilas (estes já não). Guiou-me ao território dos mumuilas e às Terras do Fim do Mundo onde conheci os bosquímanos. Também me levou a uma guerra de que regressei sem ter morto alguém do outro lado. Dela não fugi, porque não sei fugir, mas vim revoltado com o que vi e senti, maldizendo quem a declarara.
Deu-me o Mwata Milagre, o velho negro de carapinha branca empregado em casa de meus pais, de que já falei no meu blog, e os melhores professores de Português, Matemática, História, Filosofia e Inglês, que alguém pode ter, e que me ensinaram, também, a ser solidário e verdadeiro, a respeitar os outros e a acreditar que num mal pode, igualmente, estar um Bem. Aprendi, estou-lhes grato por me terem ajudado a ser o que sou.
Um dia, era quase homem, apresentou-me o amor com que passei a viver, em companhia para toda a vida. Hoje somos quinze na nossa tribo. Mais seremos amanhã, que outras flores nascerão, certamente.
Por tudo o que disse, e pelo muito que ficou por dizer, Luanda é a Cidade da Minha Vida. Não mais lá voltarei. Quis o destino (esse monstro!) que assim fosse. Mas por grande que seja a distância a separar-nos, maior é a saudade, e bem viva a imagem que dela tenho e o cheiro único da terra vermelha molhada pela chuva. Luanda será sempre a Cidade da Minha Vida.
(Não tendo fotografia que se veja, decidi colocar a imagem que está lá em cima, por ser bem um postal verdadeiro da minha Luanda actual)