quarta-feira, 28 de abril de 2010

A Cidade da Minha Vida (II)

Um dos comentários deixados no post anterior, A Cidade da Minha Vida, está assinado por Maria Margarida, do blog quotidiano. Diz assim:

“Calcorreámos os mesmos caminhos e conhecemos os mesmos musseques, as mesmas ruas e avenidas. Cheirámos o caju e o maboque e do Bengo a mesma água bebemos. Todavia, se Luanda é a cidade da sua vida, da minha apenas foi enquanto a tive sob os meus pés. Deixei-a e ela deixou-me partir. É um homem de sorte porque ainda tem "a cidade da sua vida". Eu, ao contrário, não tenho nenhuma. As suas palavras têm cheiro de Luanda e gostei muito de as ler.”

Posteriormente, escreveu um outro comentário:

“Se pudesse, deixar-lhe-ia aqui, o cheiro dos tamarindos e das maçãs da Índia (estas da Rua da Índia, no Cruzeiro). Como não posso, deixo-lhe uma foto da cidade da sua vida e mais algumas letras ...”

A foto de um pôr-do-sol sobre a Marginal de Luanda e parte da sua baía, está lá em cima. As “letras”, um poema que me tocou fundo, os meus leitores perceberão porquê, reproduzo-o de seguida, por ela autorizado. Obrigado!

Exílio – Saudade de mim

São as de outrora
as casas, as ruas e os becos;
iguais aos de antes,
as angústias, os prantos e os medos;
são os mesmos e sempre tantos
os ritmos e os cantos,
os encantos,
os acalantos;
ainda lá habitam os vermelhos
do sangue e da terra,
os dos últimos raios de sol
entornados sobre o mar
da baía e das praias do farol
de areias velhas e brancas
de onde partem os dongos
em noites de aragens brandas
e de luares antigos
a esculpirem sombras dançantes
das esguias casuarinas ...
São hoje, como eram antes,
os sabores de gajaja e tamarindo,
as cores vivas do céu, do capim
e das acácias florindo ...
És como sempre foste, Luanda.
Tu ficaste, eu parti.
Saudade tenho de mim,
de como fui enquanto te percorri.
(Maria Margarida, 2 de Setembro de 2003)

Os cajus e os maboques a que a Maria Margarida se referiu

segunda-feira, 26 de abril de 2010

A Cidade da Minha Vida

Resposta ao desafio do Carlos Barbosa de Oliveira (Crónicas do Rochedo).
Nos meus andares pelo mundo estive em muitas cidades de África, Europa e Estados Unidos. Umas fiquei a conhecer, razoavelmente. Outras, apenas por elas passei. Algumas encantaram-me, a elas voltando. Como não gostar de Florença, Paris, Londres, Abidjan, Lusaka, Benguela, Praga, Budapeste, Berlim, Nova Iorque e São Petersburgo, para não falar de outras?

Mas, a Cidade da Minha Vida é Luanda, que em tempos se chamou São Paulo da Assunção de Luanda. Não vou falar da história da capital de Angola, mas dizer, apenas, porque a elejo. Foi ali que me fizeram nascer num Agosto de cacimbo, era ela ainda menina, estendendo-se do Atlântico para o planalto, abrindo com os seus dedos finos ruas e avenidas, plantando um bairro aqui, outro além, rasgando espaços para que neles se pudesse crescer. Eu cresci, ela fez-se mulher.

Quando se me chegaram os primeiros choros foi dela que uma mão amiga se soltou, me afagou a face, me ameigou os olhos e me susteve as lágrimas. Nos momentos de desalento ofereceu-me um ombro para repousar, falou-me de coisas simples, ensinou-me os nomes da vida. Já espigadote pôs-me a chapinhar em poças de água de caminhos molhados. Permitiu que me deitasse no capim encharcado pela chuva e, de boca aberta, deixasse que a água caída do céu me tangesse a garganta. Foi ela que me ensinou a beber das lagoas e rios, depois de neles ter mergulhado, fazendo das mãos concha. Amestrou-me na prova do funge, do pirão, da muamba, do mezonguê e do jindungo, dando-me a beber o marufo.

Pacientemente, ensinou-me a construir a minha primeira bola de meia, enchida de trapos e sumaúma, e com ela jogar, mais outros munangas, na lama dos musseques. Munangas com cor de pele diferente da minha, mas meninos como eu, companheiros fieis dos meus desmandos e, mais tarde, de estudos. Éramos um só quando queríamos fugir ao ralhete das mães. Também íamos aos passarinhos! Era ainda puto quando me deu a provar o Mar, ficando eu com a surpresa de que aquelas águas eram salgadas como as minhas lágrimas! Levou-me, pela mão, aos quintais das rebitas de Sábado à noite. Ajeitou-me para o primeiro olhar comprometido, para o primeiro beijo consentido, que me inebriaram e me estrearam nos namoricos. Mostrou-me as casuarinas, sob as quais, tendo a Lua a olhar, e por companhia o doce deslizar das ondas sobre a areia fina da praia, conheci outro corpo que não o meu, arfando de desejo na praia mágica da Ilha da Kyanda.

Foi ela que me desafiou para a aventura da entrada nas matas cerradas e para o percorrer das anharas sem fim, numa das quais, um dia, avistei um leão e lhe ouvi o rugido forte de rei da selva, deixando-me a tremer dos pés à cabeça, e o sangue a circular-me pelas veias de freio nos dentes! Levou-me às acácias rubras de Benguela, a belas quedas de água, às Pedras Negras de Pungo Andongo, a ver as pegadas da Rainha Ginga e à gigantesca floresta do Maiombe, em Cabinda, terra de pepitas de ouro, de chimpanzés, saguis e gorilas (estes já não). Guiou-me ao território dos mumuilas e às Terras do Fim do Mundo onde conheci os bosquímanos. Também me levou a uma guerra de que regressei sem ter morto alguém do outro lado. Dela não fugi, porque não sei fugir, mas vim revoltado com o que vi e senti, maldizendo quem a declarara.

Deu-me o Mwata Milagre, o velho negro de carapinha branca empregado em casa de meus pais, de que já falei no meu blog, e os melhores professores de Português, Matemática, História, Filosofia e Inglês, que alguém pode ter, e que me ensinaram, também, a ser solidário e verdadeiro, a respeitar os outros e a acreditar que num mal pode, igualmente, estar um Bem. Aprendi, estou-lhes grato por me terem ajudado a ser o que sou.

Um dia, era quase homem, apresentou-me o amor com que passei a viver, em companhia para toda a vida. Hoje somos quinze na nossa tribo. Mais seremos amanhã, que outras flores nascerão, certamente.

Por tudo o que disse, e pelo muito que ficou por dizer, Luanda é a Cidade da Minha Vida. Não mais lá voltarei. Quis o destino (esse monstro!) que assim fosse. Mas por grande que seja a distância a separar-nos, maior é a saudade, e bem viva a imagem que dela tenho e o cheiro único da terra vermelha molhada pela chuva. Luanda será sempre a Cidade da Minha Vida.
(Não tendo fotografia que se veja, decidi colocar a imagem que está lá em cima, por ser bem um postal verdadeiro da minha Luanda actual)

domingo, 25 de abril de 2010

25 de Abril

Na madrugada de 25 de Abril de 1974, o meu País derrubou a cerca de grandes muros em que, de há muito, o haviam aprisionado. Rasgaram-se as trevas que o cobriam. O dia amanheceu com cravos florindo na boca de espingardas. Em festa, o povo saiu às ruas gritando palavras até então amordaçadas e proibidas. Uma revolução com flores reconquistara a Liberdade. Os presos políticos, muitos torturados pelos algozes da ditadura, foram libertados. Do exílio regressaram os que tinham dedicado a vida à luta pela Liberdade. Assassinados pela ditadura, muitos ficaram pelo caminho. Nascera o sonho de um País novo, do homem novo. Sonho tantas vezes sonhado!
Para que se não esqueça, e os mais novos saibam, era assim o país que nos deixaram:


Exploração de mulheres meninas
Meses depois do 25 de Abril soube que na Companhia das Lezírias, no Ribatejo, se explorava trabalho infantil e adolescente, quase exclusivamente feminino.
Fui ver. Com a cumplicidade de um caseiro entusiasmado com a revolução, consegui contactar um grupo de doze meninas, entre os 12 e os 15 anos, que trabalhavam no campo. Vozes tímidas, caras enrugadas, ombros caídos, envelhecidas. O que vi e ouvi chocou-me e permanece vivo na minha memória, 36 anos passados. Apresentei a reportagem na RTP, televisão para que fui trabalhar depois do Dia da Liberdade. Chamava-se “Em Foco”, o programa então da minha responsabilidade e por mim apresentado.
Aquelas meninas viviam numa camarata, algumas dormindo em colchões sobre chão de cimento, sem qualquer contacto com o mundo exterior para além das searas em que calejavam e feriam as mãos, na labuta do nascer ao pôr-do-sol. A higiene pouco ou nada se lhes chegava por falta de casas de banho. A alimentação, almoço e jantar, era-lhes servida numa panela de onde se retiravam porções para um prato de alumínio dado a cada uma, comendo com as mãos, pois não lhes eram fornecidos talheres. Um pedaço de pão fazia as vezes de colher ou garfo. Pouco responderam às minhas perguntas, refugiando-se na profundidade de olhares angustiados, inquietos e tementes, recolhidas no silêncio do medo.
Eram todas de uma freguesia do concelho de Abrantes, na margem esquerda do Tejo, aonde me desloquei para falar com os familiares. Nada me disseram para além de que as meninas não podendo frequentar a escola, por falta de recursos, e porque o ensino não era, como hoje, aberto a todos, iam trabalhar para o campo. O pouco dinheiro que os patrões mandavam para as famílias, sempre era uma ajuda. Dinheiro enviado às famílias. As meninas nunca o viam nem sequer sabiam o que ganhavam! Quanto ao tempo de trabalho, por lá ficavam até que se fartassem delas, ou adoecessem, e as recambiassem para casa!
Tempos depois o 25 de Abril chegou à lezíria, acabando com a escravatura!

(Pelas portas que Abril escancarou entrou a Liberdade, mas também muita lama, muito lodo purulento, putrefacto, que tudo vai contaminando, visando destruir o sonho. Eu sei. Mas a verdade é que a esperança não morre. Abril voltará a encontrar Abril. Que tenham todos um excelente Dia. Brindemos a esse bem único e reconquistado - a Liberdade!)


sábado, 24 de abril de 2010

Primeiro Aniversário!


Dei vida ao Conversas Daqui e Dali corria a tarde de sexta-feira 24 de Abril de 2009. Faz hoje um ano! Este meu e vosso blog surgiu tímido como Ulisses, em Ogígia, perante Calipso. Foi caminhando, descobrindo a cada passo este bosque de encantos, de afectos e de amizades que é a Blogosfera, qual Olimpo. Fez amigos. Hoje são mais de cento e quarenta os seguidores, os visitantes aproximam-se dos dez mil. Neste dia de aniversário partilho convosco a alegria e o prazer que por tal sinto. Obrigado pela vossa presença, que me incita a prosseguir. Aceitam uma fatia de bolo e uma taça de champanhe? E também um cravo de Abril e algumas palavras não engelhadas?

Não se lembra de ter sido criança, como toda a gente.
Não tem farrapos de vida escritos em diários, ou livros para ler.
As flores olham-na como igual, falam-lhe. Ela responde-lhes, ensinando-lhes os nomes que lhe disseram terem as estrelas, o mar, os rios e tudo o que a rodeia.
Vive com uma esteira a que todas as manhãs se enrola com gemidos de dor guardados, que leva de noites de entrega na troca por mais um dia.
Neste alvorecer pousa-lhe no colo uma flor sem haste. É um cravo vermelho do Universo, que desceu a procurá-la.
- Ergue-te, diz-lhe, não mais te entregues, vai procurar o porvir.
Ousando acreditar, borbulhando-lhe no sangue novas nascentes, ela vai.

Saio a procurar o porvir
De amor e luz não de escura dor
Não de solidão nem compaixão
Mas de um jardim de fios de seda
Saio a procurar existências pensadas
Um agora de cidades não desertas
Com ruas sem palavras pisadas
De gentes abertas
Em que as sombras sejam de luz
Ter nelas o que me seduz
Flores que não murcham
Rios que correm felizes
E às estrelas murmuram
Saudades de distantes Belizes
E perfeições imperfeitas
Sem vozes desfeitas
Vou continuar
Docemente
Por um cabelo teu andar
Teu rosto ameigar
Como quando eras fagueira
Procurar-te o olhar e nele deixar
Não um rio a orar
Mas mar a alagar a fogueira
Que meu coração sente
Me queima e contrista
Por te sentir a querer abalar
Emplumada e de crista
Sem quereres saber
Ir no vento do nada falar
Ó pedante e enleante
Ó cróia a valer
Com quem te dás tu?
Quem te disse, ó vida
O que me queres dizer?

(Desejo-vos um bom fim-de-semana. Que o Domingo, Dia da Liberdade, seja um excelente dia para todos)

sexta-feira, 23 de abril de 2010

38 DIAS

Após 38 dias de internamento hospitalar, tive hoje alta. Reentro na rotina da vida carregado de esperança. A esperança de ter obtido a cura. Restituido às lides do dia-a-dia, umas ásperas outras suaves como seda, outras ainda de difícil domar, onde a ociosidade não cabe, aqui estou, de novo, em convívio convosco. Afrontei uma infecção. Viro-me, agora, para a recuperação do tempo perdido. Foi-se-me a cor. Há que reavê-la. Nada melhor do que uma estada junto ao mar, o que farei em breve. Depois, uns esvoaçares para outras paragens. Viajar é um bem insubstituível, remédio para muitos males!
Mas hoje é dia de a todos dar um grande abraço, agradecendo, uma vez mais as visitas feitas ao meu quarto no hospital e as palavras amigas deixadas. Recomeçarei a visitar os vossos blogs, neles entrando para os comentários.
Até já.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Quase de volta

Embora as forças não tenham ainda voltado em pleno, recomeçou já a borbulhar em mim a energia que me permite alinhavar umas linhas, dando-vos notícias. As melhoras chegaram, finalmente. Se tudo continuar a correr bem deixarei o hospital no próximo dia 23. Curiosamente, véspera do primeiro aniversário deste meu e vosso blog, nascido a 24 de Abril de 2009.
A promessa aqui fica: no próximo fim-de-semana recomeçarei a minha participação normal na Blogosfera, voltando ao convívio com todos os amigos e leitores do Conversas Daqui e Dali.
Mais uma vez agradeço a todos a preocupação e amizade com que me têm acompanhado.
Um grande abraço.
Carlos Albuquerque

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Continuo por saber!

Depois de muita hesitação (não gosto de falar de mim), decidi escrever este post. Para além do reconhecimento que a todos devo, pelo carinho e amizade que me têm trazido, era forçoso dar-vos uma explicação. As noticias não são, ainda, as desejadas. Apesar do resultado das análises, hoje mesmo feitas, serem melhores que os das anteriores, os médicos (cirurgião e internista) continuam por saber se estou a aproximar-me da cura, ou se será necessária uma nova cirurgia.
Há que aguardar mais uns dias, prosseguindo o internamento. Já lhes disse para acreditarem que, desta vez, o estafilococus aureus vai deixar-me em paz, mas eles são mais desconfiados que eu...são como São Tomé - ver para crer!
Tenho visitado os vossos blogs e lido, com o interesse de sempre, os posts. Não entro para comentar porque me é penoso utilizar o teclado. As mãos e os braços estão cansados de tanto serem picados. Dia sim, dia não, tem sido necessário procurar novas veias para colocação dos cateteres (com que cuidado e profissionalismo as enfermeiras o fazem!) por onde são ministrados os antibióticos. Um deles, a Vancomicina, é demasiado agressivo para as minhas estradas sanguíneas, que mais parecem picadas, tão maltratadas ficam!
Era o que hoje vos queria dizer.
Obrigado a todos.
Carlos Albuquerque

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Ainda não!

Neste primeiro alento que de mim se aproximou, desde o meu internamento no passado dia 15 de Março, senti necessidade de aqui vos escrever umas palavras de agradecimento sincero pelas visitas que me têm feito, e pelos comentários deixados.
As horas têm caído, umas após outras, como dezembros, enchendo os dias. Nada de desejado me trouxeram até agora, mas também é verdade que não lograram levar-me a esperança. Esta permanece aqui, a meu lado, ora como chama crepitando viva, como logo empalidecendo, para de seguida se reacender. Não ma levarão! Sei que acabarei por me rir daquelas horas, que elas recolherão ao silêncio!
Feita a cirurgia do dia 16, outra foi necessária, uma semana depois, não se sabendo o que poderá acontecer na semana que vem. Continuo o internamento.
Os estimulantes comentários de todos vós, têm-me ajudado a construir o meu castelo de defesa. A todos, muito obrigado.
Desculpem este trôpego escrevinhar, mas as forças ainda não dão para mais. Tão logo os dedos obedeçam melhor à ordem de acariciarem o teclado do portátil, voltarei.
Um grande abraço e desejos de SANTA PÁSCOA.

Carlos Albuquerque

segunda-feira, 15 de março de 2010

Interregno

A necessidade de uma segunda e última cirurgia (de que há tempos vos falei) para poder recuperar o andar, livre das fortes dores que me atormentam, e sem o auxílio de canadianas, força-me a uma ausência.
Estou a caminho de um internamento hospitalar, que deverá prolongar-se por três semanas.
Estarei de regresso, assim espero, na primeira ou segunda semana de Abril.
Ultimamente, não tenho sido assíduo visitante de todos os blogs amigos. Compreenderão porquê.
Um grande abraço a todos, com desejos de Feliz Páscoa.

sexta-feira, 12 de março de 2010

Somos o que não somos?

Na idade em que o mundo nos gira nas mãos sem querermos saber onde é o seu centro, em que por muito que os ventos soprem nos não levam a imaginação, em que os sentidos ainda não estão pintados, em que nos perguntam o que queres ser quando fores grande, eu respondia: médico! Conhecera um, de quem muito gostara. Um tio meu, não licenciado em medicina, dava injecções à família, como ninguém. Tratava-nos das sezões, indicava os tratamentos para o paludismo (o quinino, sempre), curava as infecções intestinais, ensinava a livrar a água de impurezas passando-a pelas pedras de filtro de onde caía, pingo a pingo, para as moringas de barro, que a refrescavam. E, sei lá que mais! Tanto conhecimento seduziu-me. Queria mais, queria mesmo ser médico para investigar, poder ajudar quem precisasse, curar males.
Com tanta pressa o quis ser, que me distraí ou, porventura, dei saltos que não devia. O Destino (esse monstro!) trocou-me as voltas. Deixei as ciências, meti-me pelas letras. Licenciei-me na vida. Depois, na Faculdade, outros andares: os estudos sociais e políticos, a antropologia, as ciências sociais. Assim tenho caminhado, com o desejo morto de ter querido ser o que não sou.
Hoje, acordei a bordo da máquina do tempo. Fui ao passado, planeta distante, à minha procura, desejoso de saber o que falhara. Debalde! Não me encontrei. No lugar que, provavelmente, fora o meu estava um sumiço, tão só! Apenas vi outros meninos a quererem ser. O quê? A máquina não me deu tempo para lhes ouvir as respostas, trouxe-me de regresso ao presente.
Tendo assim sido, só me resta fazer-vos, amigos e leitores, a pergunta:

O que queres ser quando fores grande?


(Do Viajante, que vos deseja bom fim-de-semana)

quinta-feira, 11 de março de 2010

Desafios

Continuo a tentar arrumar a casa! No post anterior publiquei alguns dos selos recebidos. Para este trago três desafios, dos que tenho para responder.

Agarrado ao selo ali de cima, veio o desafio da Rosa Carioca. Quer ela saber dez coisas que me fazem feliz. Curiosa!!! Bom, aqui vai:

1) - Viver com o ser com quem, desde sempre, partilho a minha vida;

2) - Os meus filhos e netos;

3) - O riso das crianças;

4) - Ler e escrever;

5) - Os meus livros;

6) - A música, sobretudo quando acompanhada pela poesia de Vinicius de Moraes e Chico Buarque;

7) - Falar com as estrelas;

8) - Viajar pelos sonhos;

9) - Fumar um cigarro, beber um café e, à noite, tomar uma Genebra. Pois, então!

10) - Os amigos, virtuais embora, que fiz na blogosfera. São muitos e bons!

A Fernanda (Na Casa do Rau), que acompanhou o desafio com o selo que ali está, quer saber: a) uma coisa de que gosto e mim; b) o que penso do blog de onde recebi o desafio, o dela, portanto. Pois bem:

a) - estar vivo e ainda poder continuar a tentar perceber o mundo em que vivo;

b) o blog da Fernanda é um jardim de afectos, mar de fraternidade, rio de sorrisos, um sítio de bem estar. Uma porta aberta a causas nobres. Páro. Se continuasse não saía daqui.

Repararam naquele prémio!? Deu-mo o Carlos Soares, poeta que vive no Brasil. Faz várias perguntas, mas todas elas, ou quase, constam dos desafios anteriores. Responderei apenas a uma: qual foi uma das coisas mais lindas que ouvi? Resposta:

"És um ser solidário, único, e és o meu avô".

Escreveu uma das minhas netas, numa carta que me enviou.

(Estes desafios são de porta aberta. Ficam à disposição de quem neles quiser pegar. Se o fizerem digam-no, por favor, e refiram esta cubata de onde os levam. Obrigado a todos)




Os meus selos

É tempo de publicar mais alguns selos, dos muitos que tenho recebido. Peço desculpa às amigas e amigos, que me acumularam de gentilezas, por só agora o fazer. Uns ficarão, ainda, por editar, mas não permanecerão esquecidos.

Recebido da Teresa Santos (cronicasdateresa)

Vindo da Elisa Ramos (Mar de Chamas)

É teu, disse-me a Graça Pereira (Zambeziana)


Por mãos da Vivian (InFocO) chegou-me este, do outro lado do Atlântico.

Do Carlos Soares, também do Brasil.

A todos, muito obrigado


quarta-feira, 10 de março de 2010

A Menina do Shopping

(Imagem Net-Google)

Sentado na esplanada do Shopping, saboreava um café.

Acabara de ver “Amar…é complicado” (“It’s Complicated”), com Steve Martin completamente perdido e Alec Baldwin, bom, adiante… A minha tarde de cinema foi salva por Meryl Streep, o fulgor e o brilho de uma grande actriz, sempre ela!
Passou por mim um homem, aí nos quarenta, com uma menina pela mão, seis, sete anitos, não mais. Sentaram-se numa mesa, três quatro metros distante da minha. Olhei-os melhor. Ele pareceu-me pai divorciado, em dia com a filha à sua guarda. A menina sentou-se, com gestos suaves puxou os cabelos deixando-os cair pelos ombros, pousou as mãos sobre os joelhos, e mandou os seus olhinhos brilhantes percorrer as mesas na busca de algo. Assim ficou.
Com a largura da mesa a separá-los, o pai tomou a cadeira defronte dela. Acendeu um cigarro, levantou a cabeça e expeliu o fumo, ficando a ver as espirais trepando pelo ar. Espreguiçou-se. Depois, tirou do bolso o telemóvel, encostou-lhe o ouvido. Ficou tempos à conversa com alguém, presumi. De seguida, pousou o telemóvel, atirou o cigarro para o chão, esmagou-o com o pé. Provavelmente, imaginei, ter-lhe-iam falado de guerras, de terra queimada onde não florescem flores.
Rompendo o ruído da esplanada, ouvi o silêncio profundo que me chegou daquela mesa.
A menina fixou, então, os olhinhos no pai, num ver de quem continuava à procura. Ele reparou, passou-lhe o telemóvel, sem qualquer palavra, apenas com o gesto da mão estendida com o aparelho. A filha nele pegou, pondo-se a dedilhar, por certo abrindo um daqueles jogos que vivem nos telemóveis. Por um momento fugaz sorriu, como se os jogos lhe estivessem a fazer cócegas, ou parecendo estar a jogar às cinco pedrinhas. De pronto, recuperou o olhar triste.
Passaram minutos. O pai acendeu outro cigarro, desdobrou o jornal que levara debaixo do braço. Pôs-se à cata das letras gordas, assim me pareceu, dada a velocidade com virava as páginas. A menina continuava às voltas com o jogo, percorrendo, de quando em vez, com o olhar perdido, as mesas em volta.
Voltou a chegar-se-me, mais forte, o silêncio daquela mesa.
Correram outros minutos.
O pai dobrou o jornal, estendeu a mão a recolher o telemóvel. Levantou-se. Nos olhinhos dela vi pontos de interrogação. Seguiu, agarrada à mão do silêncio do pai, em direcção à porta, por aquele caminho por onde não saltava nem ria. Antes de deixar a esplanada olhou para trás. Vi, no seu olhar, agora ansioso, uma mão aberta, estendida, à procura….
Eu sei que nunca é demasiado longe, mas como eu gostaria de não ver e ouvir, nunca mais, silêncio como o daquela mesa.
Sorvi a última gota do café, já frio. Soube-me a amargo.

domingo, 7 de março de 2010

Dia da Mulher



Assinala-se amanhã o Dia da Mulher. Faço-o de véspera
A ti

A ti, que de impulso em impulso, de ousadia em ousadia, venceste sonhos e pesadelos, viveste amores alucinados, desvarios, paixões desfeitas, sentires sossegados e dores de mágoa, ultrapassaste fúrias, não te perdeste em abismos, e te fizeste árvore frondosa, guardiã de jardins de cores e sons.
A ti, guerreira teimosa.
A ti, virgem, mulher, amante, menina velha, prostituta.
A ti, que rezas e maldizes.
A ti, que dás vida, trazes a aurora em voo livre. A ti, seiva.
A ti, que de sorriso florido, ou de beleza escondida em olhos tristes, qualquer que seja a cor da tua pele, o traço do teu rosto, e desenhem o que desenharem as linhas da tua mão, é vermelho o sangue que te banha as veias e te alaga o coração.
A ti, virgula, pausa retemperadora, têmpera do aço em que a vida escreve o seu livro, fêmea prenhe, mãe do Universo, ponteiro das horas do Mundo.
A ti, que iluminas becos escuros, rasgas avenidas e alamedas, e percorres caminhos levando a vida pela mão.
A ti, que choras, sofres, morres e ressuscitas.
A ti, que danças em salão, no coreto, na rua, ou apenas no teu sonho.
A ti, sedução, amor, traição, ciúme, revolta, tempestade, saudade gritada, bonança.
A ti, flor e espinho, sabor dum instante, momento de fulgor, carícia dum presente, choro dum desencanto, esperança dum futuro.
A ti, companheira, mãe e avó, colo e seio de aconchego, ombro de repouso, porto de abrigo, sal de destemperos, ninho de amor. Presença sempre.
A ti, Mulher, ofereço a flor que ali está.

quinta-feira, 4 de março de 2010

Do Viajante

Diz-me ele:

Passam desgraças sem fim e as telenovelas, o futebol e uma ministra de bandarilhas na mão, olhando, queda e muda, a queima e a degola de livros. E o circo, de tenda erguida, instala-se no Parlamento, em grande espectáculo com feras amestradas, aves de canto treinado, cães sem açaime. Gente, também, mas doente.
Assim vai o teu País, marulhoso.
Em águas engrossadas por gordura encardida de sebosas mentes vertida, banham-se políticos e jornalistas numa dança orgíaca. Delas se ouvem vozes, vociferando sem nada dizerem, gritando por virgindades ofendidas, senão desfeitas. E braços erguendo-se. Vestindo camisitas de acinte obsceno, pregando tábuas, levantando degraus, lançando cordas, rufando tambores, tan, tan, tan, a chamar a multidão, tan, tan, tan.
- Vinde, povo!
Apresta-se a execução. E o povo vai, parte aplaudindo os mensageiros das más notícias, parte sem saber o que fazer, mas vai, engrossando o rebanho. Não há fogueiras. Agora, é tempo de morte sem cheiro, com direito a lugar sentado.
Não são povo (eles são o povo, não nós!), mas assistem à distância de um gesto de controlo e mando, quais predadores aprontados.
Doutros mares, por onde navega o jornalismo da clarividência e a política do bom-senso, chegam palavras, poucas de cansadas que vão estando, roucas de tanto esforço. Querem denunciar o jogo, em vão! Os poderosos, ainda deuses, opõem-se, dispostos que estão a não perderem o comando, o comando escondido, que de tudo dispõe. O outro, o comando visível, esse não comanda, é só um poder vazio, e só.
O baralho das cartas viciadas permanece nas mãos dos mesmos de sempre. Eles tudo compram, incluindo talibans na santa cruzada pela liberdade de expressão. Espadanam, espessando o ar com um biombo, para além do qual aprisionam um mundo de sombras para que se não veja o desemprego, a miséria, a fome, e os olhares tristes. Ordenam que se toque tan,tan,tan...Dirigem todos, começando pelos que enfeitam o “poder”.
Hermafroditas, irmãs, que são, a verdade e a mentira, persistem na dança incestuosa do esconde-esconde, dando à luz, de quando em vez, criatura excêntrica, a inverdade.
Por momentos fugazes ainda se consegue ouvir um eco de longe: “não é o grito dos maus que me assusta…e sim o silêncio dos bons”.
O teu País está mergulhado num profundo silêncio!


(Para o tema "Silêncio", da Fábrica de Letras)

sábado, 27 de fevereiro de 2010

Tourada em defesa dos animais?

Encontrei este título no blog cronicasdorochedo, cujo autor é Carlos Barbosa de Oliveira. A notícia a que ele se refere chocou-me. Peço que a leiam naquele blog. A propósito, decidi reeditar o post que se segue, aqui publicado em Maio do ano passado.
-/-\-

TOURADAS
Nem arte nem cultura
T O R T U R A

Andando pelo espaço onde vivem as minhas recordações encontrei fotografias do tempo em que, como repórter, elaborei uma série de trabalhos sobre o meio tauromáquico. Ambiente de que, por nada me dizer, antes me enfadando e me causando repulsa, me afastei.Porque vi as fotos chegaram-me à memória as discussões que de vez em quando se travam sobre as touradas. Quem as defende fala muito de “tradição e vivência cultural da festa de touros”. Que tradição? Que cultura? Que festa?A tourada não é arte nem cultura. É tortura.Deixem que vos fale nisto:Em 2007 Guillermo Vargas Habacuc, um susposto “artista plástico” costa-riquenho, apanhou um cão abandonado na rua e atou-o com uma corda curta à parede de uma galeria, em Manágua, na Nicarágua, onde expunha. Assim deixou o animal, sem água nem comida, durante dias, até morrer de inanição, seguramente depois de ter passado por doloroso, absurdo e incompreensível calvário. O “artista” considerou o seu feito como arte. A notícia encheu o mundo de vergonha e nojo. Chegaram a correr petições para impedirem a presença do “artista” em exposições. Vejam:

Nas touradas há algo de parecido: a utilização abusiva de um animal que se leva à morte pelo sofrimento.Em Portugal as autarquias de Viana do Castelo, Braga, Cascais e Sintra proibiram a realização de touradas nos seus concelhos. Porque continuam no resto do país?Até a Igreja Católica as vem condenando desde 1567 (Papa Pio V)!O vídeo que aqui coloco ilustra bem até que ponto se leva a tortura numa praça de touros. Não é aconselhável aos mais sensíveis.




sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Desafios

São muitos os desafios, e respectivos selos, que me têm chegado. Aos amigos que mos enviaram, peço desculpa por ainda lhes não ter respondido. Garanto que não estão esquecidos. Hoje dou resposta ao desafio da Malu, do blog Infinito Particular.

1) Uma mania
Esta é permanente: que um dia não haverá crianças a morrer de fome.
2) Pecado capital
Se pecado é entendido como transgressão de preceito religioso, não tenho. Vivo com outros acreditares, sujeitos a permanentes interrogações.
3) Melhor cheiro do mundo
O que exala da terra quando molhada pela chuva
4) Se o dinheiro não fosse problema
Passava o tempo a viajar e a apoiar obras de protecção às crianças.
5) História de infância
(memória) - A construção da minha primeira bola de trapos, que me foi ensinada, com muito saber, carinho e paciência, por um empregado em casa de meus pais, um negro velho e alto, que se chamava Milagre, a quem passei a tratar por Mwata Milagre, e que vive hoje no meu blog.
6) Habilidade na cozinha
Caldeirada de peixe e ensopado de enguias. Dizem, os que provam, que é de comer e chorar por mais
7) Frase preferida
(Uma delas) - Um homem não se pode montar nas suas costas a não ser que elas se inclinem (Luther King).
8) Passeio para o corpo
(Passeios) - Uma noite de amor. Banhos de mar
9) Passeio para a alma
A leitura de um livro.
10) O que me irrita
O Chico Esperto.
11) Palavras que mais uso
(Alinhadas em frase) - Gosto muito de ti.
12) Palavrões
Não uso. Nunca consegui passar do porra.
13) Talento oculto
Não tenho, este ou outro qualquer. Devo acrescentar, porém, que tenho passado a vida a abrir janelas.
14) Não importa que esteja na moda, jamais usaria
Chapéu.
15) Queria ter nascido a saber
Quem criou o Homem, para poder ajustar contas...
(Furo a regra de passar o desafio. Deixo-o à disposição de quem lhe quiser responder. Se o levarem não se esqueçam do selo e de linkarem o blog da Malu. Bom fim-de-semana. Um abraço a todos.)

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Do Viajante


O Viajante é personagem que, desde há uns tempos, habita esta cubata com o Mwata e comigo. A última vez que deu sinal de si, contou-me esta história. Hoje, reapareceu para me fazer uma pergunta.

- Achas que quando memórias longínquas se nos chegam a vida está a querer dizer-nos alguma coisa?

Despertei da sesta dormida à sombra de um sonho. Em silêncio, sem saber que dizer-lhe. E vocês, amigos visitantes e leitores, sabem responder ao Viajante?

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Quem é este homem?

Fernando Nobre, nascido em Angola, médico especialista em cirurgia geral e urologia, licenciado na Bélgica, fundador e presidente da ONG Assistência Médica Internacional (AMI), é candidato à Presidência da República de Portugal. Afirma que os portugueses precisam de um presidente oriundo da Sociedade Civil, que conheça bem o país e o mundo (conhece 160 países), e que não precise da política. Diz-se não enfeudado a partidos e que avança para a corrida a Belém por “dever moral e cívico” e porque não se conforma em assistir à “agonia lenta de Portugal”.
O anúncio surpreendeu. Um humanista que dedicou a vida à assistência humanitária internacional vira-se, agora, para a política? Contudo, Fernando Nobre não é um recém-chegado ao combate político, embora classifique a sua candidatura de apolítica, deixando antever que, se chegar à presidência, esta também o venha a ser. Nos últimos anos, vestiu a camisola de três partidos.
Em 2002, com Durão Barroso no Governo, participou na convenção do PSD. Quatro anos depois integrou a comissão política e a comissão de honra da candidatura de Mário Soares à Presidência da República, apoiada pelo PS. Nas últimas eleições para o Parlamento Europeu, em 2009, aceitou ser o mandatário nacional do Bloco de Esquerda. Meses depois, nas autárquicas, foi membro da Comissão de Honra de António Capucho, candidato do PSD à Câmara de Cascais.
Nega os rumores de que o dedo de Mário Soares o tenha empurrado para a luta com Manuel Alegre, também este candidato, a quem o Bloco de Esquerda manifestou já o seu apoio. Esclarece ter conversado “com mais de trinta personalidades” (Mário Soares incluído), e ouvido gente desde o CDS (a direita mais à direita, pelo menos com cara visível) ao MRPP (a esquerda mais à esquerda, se é que alguma vez foi de esquerda).
A Causa Monárquica e os Realistas têm-no como monárquico.
Na sua biografia, publicada no YouTube, conta que é uma árvore numa "ilha que não existe", no Atlântico entre o Brasil, a África e a Europa. “Sou um embondeiro plantado numa árvore mítica, que não existe…”
Quem é este homem?
(Foto gentilmente cedida por José Alex Gandum do blog O Meu Sofá Amarelo)


domingo, 21 de fevereiro de 2010

Tragédia na Madeira

(imagem DN)

Por vezes é necessária a catástrofe para nos darmos conta de que os portugueses são, entre si, um povo solidário. Falo do pesadelo que se abateu sobre a Região Autónoma da Madeira, afinal sobre todos nós. Chuvas diluvianas, ventos fortes e correntes impetuosas de ribeiras alagadas arrasaram a Madeira. Os números estão ainda por apurar, mas sabe-se já terem morrido 40 pessoas, haver mais de 100 feridos e cerca de três centenas de desalojados.
“Precisamos de toda a ajuda”, disse o Presidente do Governo Regional da Madeira. De pronto o País respondeu. Levando consigo o ministro da Administração Interna, o Primeiro-Ministro foi à Região dizer que o Governo da República tudo fará para ajudar. Fê-lo sem hesitações, como era de seu dever. José Sócrates e Alberto João Jardim puseram de lado o que politicamente os separa, uniram-se numa nobre causa, muito acima de interesses mesquinhos: ajudar o povo martirizado da Madeira, metendo, desde já, ombros à gigantesca tarefa de protecção dos necessitados, e de reconstrução que têm pela frente.
Bem hajam!
Sempre aqui disse que mantenho a luz de esperança no meu país.
Ouvem-se já vozes criticando o mau ordenando do território, obras inconsequentes e ineficazes, e interrogando-se, mesmo, se a dimensão da tragédia poderia ter sido evitada. Com toda a legitimidade o fazem. Mais do que um remexer no passado (remexer, obviamente, não condenável), entendo-as como um aviso para o futuro.
Agora, porém, a República está de luto, unida e solidária.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Um grito

De tridente em punho, a política e a intelectualidade rústicas, grosseiras e saloias estão a querer evangelizar o meu país. Aprontam-se para me turvarem o futuro, para me roubarem o destino.
Certo jornalismo, pago para se embevecer, auto-ilumina-se, navegando no mar de interesses pessoais e de terceiros. Já busco, com dificuldade, o paradeiro da informação isenta e verdadeira. Aquele jornalismo transformou-se em lixo que se amontoa à minha frente e me intoxica.
Assusto-me.
Cresce-me o pavor ao ver a Casa da Democracia (o Parlamento) ser palco de ópera-bufa, com jornalistas actores de tramas e maquinações engenhosas, e deputados quase chamando por um redentor…
'Não há nada mais terrífico do que ver a Ignorância em acção!"
Palavras de Johann Wolfgang Von Goethe, filósofo alemão.
Acrescento: ignorância e má fé.
Sejam eles quem, ou o que forem, estejam onde estiverem, daqui grito aos deuses para que não deixem o meu país sentar-se à mesa da festa da ignorância e da má fé. Que o libertem do regabofe dos poderosos. Que soltem da cegueira os que não querem ver.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Carnaval

Diz o aforismo que no Carnaval ninguém leva a mal.
Não é, no momento porque passamos, o meu caso.
Estou com as entranhas num turbilhão.
Ouvi, na TV, o Professor Marcelo Rebelo de Sousa chamar mentiroso ao PM José Sócrates. Mentiu, ponto final! Disse ele. Fiquei estupefacto! Embora saiba que Rebelo de Sousa descende dum dos últimos sultões do império colonial, nunca o imaginei a dizer tal. Faltaram-lhe a elegância, a lucidez e o bom-senso com que me habituei a vê-lo e a ouvi-lo, concordando ou não com ele.
Vinte e quatro horas depois, o jornalista Mário Crespo, que diz ter tido uma noticia, travestida de crónica, censurada no Jornal de Noticias, e acrescenta estar a liberdade de expressão em perigo neste Portugal que o acolheu, usou de toda a liberdade da Democracia, bem que só entre nós conheceu, para levar a estúdio, em directo, no Jornal das 9 que apresenta na SIC-N, um filósofo de nome José Gil. Filosoficamente, Gil, que editou recentemente o livro "Portugal, Hoje-o medo de existir", alinhou com Crespo. Saiu-se com uma tirada de grande pensador. Mais ou menos isto, citando de cor: Ainda agora um comentador, que também é político, disse que o PM mente, sem qualquer contestação por parte deste. Faltou-lhe explicar de que área política era o comentador/político. Um lapso de memória qualquer um tem, dir-me-ão. Pois! Já me tinham dito!
Não sou socratiano (muito me afasta das suas opções políticas), nem o meu voto é refém de qualquer partido. Exerço-o, livremente, em cada acto eleitoral para que sou convocado. Mas não posso aceitar o que vi e ouvi.
Por prescrição médica tomo Omeprazol para defesa do estômago na árdua tarefa da digestão. Hoje acrescentei um bem-u-ron, para me livrar das dores. Nada feito! Continuo com as entranhas num turbilhão.
Estamos no Carnaval, eu sei. Por isso me ocorre dizer que tudo isto não passa de uma palhaçada travestida. Esforço inglório me parece será o meu, se pedir aos políticos (incluindo os mascarados de comentadores), e aos jornalistas, mesmo aos que se preparam para deixarem de o ser, bom-senso e clarividência. Mas peço!
Melhor do que os fármacos é hoje chamar Fernando Tordo (música)e o inesquecível Ary dos Santos (letra).
TOURADA

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Dia dos Namorados

O amor dá forma ao sonho mais belo que é a vida.
Sem ele tudo não passaria de um mar morto.

Namoro

Mandei-lhe uma carta em papel perfumado
E com letra bonita eu disse ela tinha
Um sorrir luminoso tão quente e gaiato
Como o sol de Novembro brincando
De artista nas acácias floridas
Espalhando diamantes na fímbria do mar
E dando calor ao sumo das mangas

Sua pele macia – era sumaúma...
Sua pele macia, da cor do jambo, cheirando a rosas
Sua pele macia guardava as doçuras do corpo rijo
Tão rijo e tão doce – como o maboque...
Seus seios, laranjas – laranjas do Loje
Seus dentes... – marfim...
Mandei-lhe essa carta
E ela disse que não.

Mandei-lhe um cartão
Que o amigo Maninho tipografou:
"Por ti sofre o meu coração"
Num canto – SIM, noutro canto – NÃO
E ela o canto do NÃO dobrou

Mandei-lhe um recado pela Zefa do Sete
Pedindo, rogando de joelhos no chão
Pela Senhora do Cabo, pela Santa Efigénia,
Me desse a ventura do seu namoro...
E ela disse que não.

Levei à Avo Chica, quimbanda de fama
A areia da marca que o seu pé deixou
Para que fizesse um feitiço forte e seguro
Que nela nascesse um amor como o meu...
E o feitiço falhou.

Esperei-a de tarde, à porta da fabrica,
Ofertei-lhe um colar e um anel e um broche,
Paguei-lhe doces na calçada da Missão,
Ficamos num banco do largo da Estátua,
Afaguei-lhe as mãos...
Falei-lhe de amor... e ela disse que não.

Andei barbudo, sujo e descalço,
Como um mona-ngamba.
Procuraram por mim
"-Não viu... (ai, não viu...?) não viu Benjamim?"
E perdido me deram no morro da Samba.

Para me distrair
Levaram-me ao baile do Sô Januário
Mas ela lá estava num canto a rir
Contando o meu caso
às moças mais lindas do Bairro Operário.

Tocaram uma rumba – dancei com ela
e num passo maluco voamos na sala
qual uma estrela riscando o céu!
E a malta gritou: "Aí Benjamim!"
Olhei-a nos olhos – sorriu para mim
Pedi-lhe um beijo – e ela disse que sim
E ela disse que sim
E ela disse que sim.
(Viriato da Cruz - poeta angolano, Porto Amboim 1928, Pequim 1973)

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Vocês conhecem-me?

As minhas respostas ao desafio aqui colocado no Sábado passado:


1) Escova de dentes: verde (e)
2) Personagem favorita das revistas Disney: Pateta (e)
3) Não me convidem para uma refeição: Lampreia (e)
4) Que cidade, que não conheço, mais gostaria de visitar: Buenos Aires (c)
5) Filme de que gostei mais: Citizen Kane (d)
6) Sonho com: viajar pelo mundo fora (d)
7) Os meus piores pesadelos: precipícios (d)
8) Nos canteiros dos jardins gosto de ver: rosas vermelhas (d)
9) Escritor de que li quase toda a obra: José Saramago (e)
10) A minha música preferida é: blues e jazz (a)
11) Jogo de cartas favorito: King (a)

Rosa Carioca foi a vencedora com 7 respostas certas. Seguem-se Maria João, Teresa, tulipa, ematejoca, Cherry, José e Malu, todos com 5, cada.
Obrigado a todos os que tiveram a paciência e a gentileza de participar.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Nelson Mandela



Faz hoje 20 anos que Nelson Mandela foi libertado.




Após longo tempo de perseguição e segregação, e de 27 anos enclausurado numa cela, Nelson Mandela libertou-se das grades com o coração despido de rancores e a cabeça livre de ódios.
"Dediquei a minha vida ao pleito do povo africano. Lutei contra o domínio branco e lutei contra o domínio negro", disse Mandela.
Ao longo do tempo no cárcere, Mandela cultivou a leitura de poemas. Preferia um deles – “Invictus”, do britânico William Ernst Henley (nome dado ao filme recentemente realizado por Clint Eastwood, sobre Mandela): "Eu sou o dono e senhor de meu destino. Eu sou o comandante de minha alma".
Com a força da palavra e do exemplo destruiu o "Apartheid".
Nelson Mandela saiu da prisão para a eternidade.
O mundo ficou mais livre.
A Humanidade muito deve a este notável e invulgar homem que é Nelson Rolihlahla Mandela, exemplo de vida e de postura política e humanista, que deveria ser seguido por quem dirige os destinos dos povos.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Deixa-me desenhar-te!

Estou de visita à rua da minha vida.

Seja o que for que outros nela tenham visto, dela guardava a imagem de um corpo a duas partes. Olho do fim da ladeira, que lhe dá início. Avisto a rua Ele. Não como a recordo. Está diferente.
Dos seus cabelos está a ir-se o negro. Passa-lhes trincha a branqueá-los. Rios correm-lhe pela testa, que se alonga por entradas cavadas. Pequenos ribeiros sulcam-lhe a face. As sobrancelhas encorparam, são agora negras e espessas, dois bosques de pinho bravo e rebelde, crescendo desordenados. Um caminho, ainda escuro, não caldeado pela poeira do tempo, cruza-lhe a barba. Como eram, os seus olhos permanecem grandes, largos, profundos, de brilho saltitante, sempre à procura do olhar cúmplice e companheiro. Os seus lábios movem-se num sorriso a querer chegar ao centro do Mundo. As palavras da sua voz ouço-as mais serenas, repousadas e aconchegantes. Falam do muito que ainda têm para dizer.
Subindo um pouco, é a rua Ela que vejo.
Envolve-a uma brisa elegante, por certo vinda da Primavera, ondulando-lhe o cabelo e o peito, estreitando-lhe a cintura, por ela descendo até pousar suavemente no chão, e por ele caminhar de passo curto e seguro. Os olhos lá cintilam vestidos de verde do mar e de azul do céu, o nariz de graça arrebitada. O riso de menina também. Traços do giz do tempo ajeitam-se-lhes nas maçãs do rosto, alindando-o. Reparo, agora, que a fala se lhe mudou, é mais tranquila, solta as palavras sem pressas, dando-lhes o sentido íntimo de vida a dois. Passa, serena, transportando, na concha das mãos, os afectos e desafectos, para a rega dos dias com que continua a construir a vida.
Rompe a madrugada. Avisto, ao fundo da rua, Ela e Ele caminhando de braço no namoro.
É tempo de terminar a visita. Debruço-me sobre as pedras da calçada, bordejadas por musgo verde. Delas recebo duas flores que se me estendem. Regresso a casa com elas abraçando-me o coração.


(Texto para participação no tema Velhice da Fábrica de Letras)



domingo, 7 de fevereiro de 2010

Vocês conhecem-me?

Este é um desafio, que recebi da ematejoca. Aqui o deixo aberto à paciência dos visitantes, que se disponham a responder. No próximo Sábado, ou Domingo, publicarei as respostas. Vá, então digam lá se me conhecem.

1) A minha escova de dentes é branca e...
a — Laranja
b — Vermelha
c — Azul
d — Roxa
e — Verde

2) Qual destas era a minha personagem favorita das revistas Disney?
a — Tio Patinhas
b — Zé Carioca
c — Minie
d —Pato Donald
e — Pateta

3) Não me convidem para uma refeição de...
a — Sushi
b — Cozido à portuguesa
c — Sardinhas assadas
d — Caldeirada à fragateiro
e — Lampreia

4) Que cidade, que não conheço,mais gostaria de visitar?
a — Chicago
b — Riga
c — Buenos Aires
d — Rejkiavik
e — Palermo

5) De qual destes filmes gostei mais?
a — Casablanca
b — A Vida é Bela
c — Slumdog Milionaire
d — Citizen Kane
e — O Leitor

6) Sonho com...
a —Michelle Pfeiffer
b — Nada de especial
c — Viver até aos 100 anos
d — Viajar pelo mundo fora
e — Tornar-me famoso

7) Os meus piores pesadelos são com:
a — Cobras, lagartos ou crocodilos
b — Aranhas
c — Acidentes
d — Precipícios
e — Monstros

8) Nos canteiros dos jardins gosto de ver...
a — Hortênsias
b — Margaridas
c — Violetas
d — Rosas vermelhas
e — Cravos brancos

9) Dos escritores que se seguem, de quem li quase toda a obra?
a — Agatha Christie
b — Richard Zimmler
c — Günter Grass
d — Émile Zola
e — José Saramago

10) A minha música preferida é...
a — Blues e jazz
b — Gospel
c — Eletrónica
d — Rock and roll
e — Heavy metal

11) Qual é o meu jogo de cartas favorito?
a — King
b — Canasta
c — Sueca
d — Poker
e — Bridge

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

O meu País

Qual tábua de ponte quebrada, o meu País anda enrodilhado por ondas alterosas, que nem as dos mares que naufragaram Ulisses.

Cruzam-se ventos, soprados por consciências pesadas. Espíritos atormentados alçam bandeiras do diz-que-disse. Erguem-se barricadas. Numas e noutras contam-se espingardas, dispara-se artilharia pesada.
A classe política, sentada à boa mesa, troca mimos quase roçando o insulto. Há "bruxas" entre os dirigentes e "inqualificados". A Oposição quer governar. O Governo opõe-se! É o apocalipse, dizem uns!
Na banda a passar vai a comunicação social com "débeis mentais", denunciadores apressados, "Yes-men" acocorados, e outros que não sendo uma coisa nem outra, vão tentando que a tábua se mantenha à superfície.
A Primavera ameaça não querer nascer. O Inverno persiste em medrar.
Agarrado à rocha, continua o mexilhão.
Cresce o mar, sobe a maré. O meu País parece afogar-se.
Estamos todos a precisar de coletes salva-vidas.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Mário Crespo

Estranha história, ou talvez não!
Eduardo Cintra Torres, crítico de televisão do Público e professor da Universidade Católica escreveu a 10 de Janeiro de 2009 naquele jornal: “Crespo é hoje um verdadeiro porta-voz dos interesses informativos do Governo, um operário do agenda setting da central de propaganda.”
A 2 de Maio daquele ano, Cintra Torres voltou a falar de Mário Crespo para explicar que não cometera um erro de avaliação, mas que fora o jornalista quem dera uma cambalhota, por não lhe ter sido dado o lugar que ambicionava em Washington. Escreveu:
«Mário Crespo andou um tempão a servir a agenda do governo no seu programa Jornal das 9. A cadeira dos convidados parecia a cadeira do poder, de tanto que nela se sentaram os ministros Silva Pereira e Santos Silva. No auge desta opção editorial, o jornalista afirmou em entrevista ao Semanário Económico (15.01.09) que nas próximas eleições "provavelmente" votará (ou votaria) Sócrates; e noutra entrevista, ao CM (12.01.09), disse que "provavelmente" irá (ou iria) em breve para Washington por grandes temporadas (por coincidência, foi anunciado esta semana pelo Diário da República que o próximo conselheiro de imprensa em Washington será Carneiro Jacinto, ligado ao PS). Entretanto, a linha editorial de Crespo mudou, e de que maneira, quer no seu programa, quer nos seus artigos de opinião no Jornal de Notícias. Passou a criticar abertamente o poder PS; os ministros políticos do governo já não aquecem a cadeira do Jornal das 9. Crespo não explicou a sua radical mudança editorial (…). Mudar de opinião não é crime, nem para um lado nem para o outro, mas 180 graus é muita mudança.»
Crespo volta, agora, a ser falado por o Jornal de Notícias não ter publicado um texto seu, entendido por si como artigo de opinião, mas que não passa de uma notícia elaborada com base numa conversa de restaurante, que não ouviu, apenas lhe chegou por e-mail. Notícia a carecer de confirmação e de abertura de espaço ao contraditório, em obediência às regras jornalísticas, como lhe esclareceu o director do jornal. Não forneceu quaisquer dados. Para ele a questão era simples: ou o texto era publicado, ou deixaria de escrever para o jornal. Deixou de escrever. Soube-se, depois, que um dos intervenientes na conversa foi Nuno Santos, director de programas da SIC, tendo este afirmado, publicamente, que as coisas não se passaram como Mário Crespo as relatou.
Tudo isto acontece na véspera do lançamento de um livro de crónicas de Mário Crespo. Livro editado por Zita Seabra, antiga militante do PCP e actual deputada do PSD, com prefácio de Medina Carreira, comentador residente do programa Plano Inclinado, que o jornalista apresenta na SIC Noticias.
Curiosamente o texto não publicado pelo Jornal de Noticias veio a público no site do Instituto Sá Carneiro (PSD). Site que o jornalista disse não saber “sequer que existia”. Ainda curiosamente, Crespo não apresentou ontem o Jornal das 9 na SIC. Esteve ausente nas Jornadas Parlamentares do CDS, a convite de Paulo Portas, para, como “especialista em política internacional”, falar do ano de governo do presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, em quem ele não votaria, se fosse norte-americano, como o disse em entrevista.
Estranha história esta! Apenas uma certeza – o lançamento do livro de Mário Crespo vai ser de sala cheia! Tem, para já, o apoio solidário de Manuela Moura Guedes e de José Eduardo Moniz. Muita outra gente aparecerá a comprar o livro de um autor que, como ele próprio diz, deu “…aulas na Independente. A defunta alma mater de tanto saber em Portugal.”


(Conheço pessoalmente Mário Crespo. Segui com interesse muito dos seus trabalhos criticando a realidade que nos cerca. Longe estava de imaginar que um dia faria uma notícia, cujo centro é ele próprio, num olhar para o umbigo confrangedor. Notícia que quis transformar em artigo de opinião. Estará a considerar-se um iluminado?)