quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Do Viajante


Hora vulgar

Acorda a esta hora, como tantas outras, uma hora vulgar. Apenas uma hora de agora, sem história, a não ser a que lhe possa escrever, se o vier a fazer. Pela janela vê tudo à volta ainda escondido no cacimbo. Cacimbo diferente, este. No biombo de nuvens em dança, são mais as brancas do que as cinzentas. O pingar miúdo e frio, soprado pelo vento, pica como fogo molhado, pior do que a mosca que lhe pousa sobre a mão, fugindo de seguida, enxotada por um mexer de dedos. Gesto para espantar, apenas para tal serviu.
O cacimbo, do tempo e do homem, é um sem sol, esmaece o traço e estreita o arco das cores da vida. Apesar de assim ser, ainda deixa perceber um sorriso no recém-acordado. Fosse este um crente de poderes divinos e, por certo, aquele sorriso seria uma aquiescência: tudo parece bem, como os deuses querem. Como o não é, desfaz-se do desenho dos lábios, boceja e diz esta manhã bem podia ter-se apresentado com outra compostura, não aparecer assim, a querer agarrar-me à toa, feita belzebu, desassossegando-me o jeito!
O enfastiar-se de pronto se lhe vai. Não se deixa acorrentar. Não só os deuses as têm, ele também é senhor de algumas artes, como a de virar o cacimbo às avessas, dando-lhe cor.
Sai para a rua a procurar a história que há-de escrever para a hora vulgar que o despertou.

sábado, 7 de agosto de 2010

Fado

A primeira vez que ouvi o fado que hoje vos trago, foi há muitos anos atrás. Cantarolava-o, baixinho, um colega meu. Andávamos ambos em reportagem de guerra, nas matas de Sandongo no Leste de Angola, acompanhando um grupo de guerrilheiros que combatia o governo de Luanda. Um jornalista, em reportagem de guerra numa mata perdida em terras longínquas, ignorada do mundo, onde de manhã à noite se ouviam tiros e explosões, que nos obrigavam a um constante atirar para o chão, a cantar o fado?! Pois é verdade! Como verdade foi que gostei de ouvir a sua voz roufenha, eu que, confesso, não sou grande apreciador de fado. Porque quis saber, disse-me ele que cantava aquele fado por o ter como uma homenagem à mulher! Como eu, o meu colega era, e é, um romântico dado à poesia e ao belo da vida.
Não me perguntem porque vos falo hoje disto. Foi um fragmento das minhas recordações que me visitou. E quando as memórias chegam, não há nada a fazer, apoderam-se de nós!
Pergunta tenho eu para vos fazer: também acham que este fado é uma homenagem à mulher? Não sejam frugais no alimentar do pensamento. Respondam, por favor.
Um abraço e desejos de bom fim-de-semana.

Não Venhas Tarde
Voz: Carlos Ramos
Composição: Anibal Nazaré e João Nobre

“não venhas tarde!”,
Dizes-me tu com carinho,
Sem nunca fazer alarde
Do que me pedes, baixinho
“não venhas tarde!”,
E eu peço a deus que no fim
Teu coração ainda guarde
Um pouco de amor por mim.

Tu sabes bem
Que eu vou p’ra outra mulher,
Que ela me prende também,
Que eu só faço o que ela quer,
Tu estás sentindo
Que te minto e sou cobarde,
Mas sabes dizer, sorrindo,
“meu amor, não venhas tarde!”

“não venhas tarde!”,
Dizes-me sem azedume,
Quando o teu coração arde
Na fogueira do ciúme.
“não venhas tarde!”,
Dizes-me tu da janela,
E eu venho sempre mais tarde,
Porque não sei fugir dela

Tu sabes bem

Sem alegria,
Eu confesso, tenho medo,
Que tu me digas um dia,
“meu amor, não venhas cedo!”
Por ironia,
Pois nunca sei onde vais,
Que eu chegue cedo algum dia,
E seja tarde demais!

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Hiroshima e Nagasaki



Foi, apenas, há 65 anos.

A 6 de Agosto de 1945, no final da Segunda Guerra Mundial, o presidente dos Estados Unidos, Harry Truman, ordenou que fosse despejada uma bomba atómica sobre a cidade japonesa de Hiroshima e, três dias depois, outra sobre Nagasaki.
Disse Washington que o objectivo era forçar a rendição do Japão. O argumento não colheu. Depois da rendição da Alemanha nazi e da Itália fascista, Tóquio estava isolada, preparava já a rendição do império nipónico. Calcula-se que, em resultado imediato dos bombardeamentos desnecessários, e por efeitos posteriores, tenham morrido mais de trezentas mil pessoas, no que a História regista como um dos maiores ataques a uma população civil já ocorridos. Ficou evidenciado que os bombardeamentos fizeram parte de uma demonstração do poderio das armas nucleares dos Estados Unidos, sobretudo perante a então União Soviética.
Analistas, incluindo norte-americanos, afirmaram que Hiroshima e Nagasaki foram escolhidas por se situarem entre vales, localização que facilitaria a avaliação dos estragos causados pela nova tecnologia bélica, que nunca até então tinha sido usada e nem se sabia quais seriam as suas consequências.
Em Abril de 1959 (seis anos depois de deixar a Casa Branca), discursando na Universidade de Columbia, em Nova Iorque, Harry Truman afirmou: “A bomba atómica é apenas mais uma poderosa arma no arsenal da Justiça.
Correu o pano sobre um crime!
Ao evocar esta data pretendo que ela não seja esquecida, desejando que os actuais senhores do mundo não caiam em semelhantes tentações.
Ocorre-me um texto de José Saramago – O Planeta dos Horrores – de que extraio a seguinte passagem:
“…Gosto da luz do dia, da claridade, do aperto de mão de um amigo, de uma boa palavra reconfortante, gosto da esperança, amo o amor, amo a beleza das coisas e das pessoas (que todas são belas) – mas tudo isto me pode ser tirado de um momento para o outro. Em todo o mundo há mísseis apontados para todo o mundo, por cima do mundo cruzam-se aviões com bombas nucleares capazes de derreter o mundo, em certos sítios do mundo estão guardadas bactérias suficientes para exterminar a vida em todo o mundo. O planeta dos horrores de mr. Hyde é este, amigo leitor, confiante leitor, talvez ingénuo leitor…”


quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Recordar Saramago

O Rogério e a Fernanda tiveram a iniciativa de homenagear José Saramago, convidando-nos a divulgar nos nossos blogs, durante as próximas semanas, textos ou pensamentos do escritor, com o objectivo de vencer o silenciamento e a omissão que se instalou em Portugal depois da morte do Nobel da Literatura. A ideia foi, de pronto, acolhida pelo Carlos. Aqui estou, também, a abraçá-la e a convidar os amigos do meu blog a que o façam, igualmente.
Diz o Rogério: interpretem isto como um apelo, uma sugestão, ou um imperativo de consciência. Pouco importa. O importante, é mesmo manter viva a memória de Saramago.
Pois bem, aqui deixo hoje um extracto da crónica As Palavras, de José Saramago.

“…Porque as palavras deixaram de comunicar. Cada palavra é dita para que se não oiça outra palavra. A palavra, mesmo quando não afirma, afirma-se. A palavra não responde nem pergunta: amassa. A palavra é a erva fresca e verde que cobre os dentes do pântano. A palavra é poeira nos olhos e olhos furados. A palavra não mostra. A palavra disfarça.
Daí que seja urgente mondar as palavras para que a sementeira se mude em seara. Daí que as palavras sejam instrumento de morte – ou de salvação. Daí que a palavra só valha o que valer o silêncio do acto.
Há também o silêncio. O silêncio, por definição, é o que não se ouve. O silêncio escuta, examina, observa, pesa e analisa. O silêncio é fecundo. O silêncio é a terra negra e fértil, o húmus do ser, a melodia calada sob a luz solar. Caem sobre ele as palavras. Todas as palavras. As palavras boas e más. O trigo e o joio. Mas só o trigo dá pão.”

[In Deste Mundo e do Outro – Crónicas – 2ª Edição (1985), p.56]

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

De regresso




O entoar da azinheira

O sol abrasava, inclemente. O corpo quis, os pés deixaram que os passos fossem. Naquele banco, debruado a ocre, sentei-me a respirar a sombra da azinheira. Um golpe de vento, e chegou-se-me um som vindo de cima. Olhei. Lá estavam, tremelicando, as pequenas e verdes folhas aconchegando, protegendo num gesto de sabedoria profunda, as bolotas que hão-de crescer para a dieta dos porcinos que, por sua vez, alimentarão os humanos. Os galhos mais franzinos balançavam. A azinheira cantava!
Não era, propriamente, um canto, mas um entoar de memórias. Por ali fiquei, um tempo, a ouvi-la, enquanto para lá da sua copa a luz do sol ia passando sobre os campos. A dada altura a azinheira mostrou-se-me com feição de gente. Gente fraterna e solidária, mas também sombreada pelo medo, avermelhada pela brutalidade desde sempre sobre ela exercida. Deixou-me ver foices ceifando searas, costas vergadas ao peso do trabalho da recolha dos frutos de terra, e dedos encrespados premindo gatilhos, roubando vidas a mando da ganância e da imbecilidade da espécie humana. Pareceu-me, ainda, observar-lhe um sorriso trazido da última Primavera, rir de menina, tímido e receoso de que a mudança anunciada não passe de novo fingimento da História.
Instantes depois, não sei se muitos se poucos, que por aqueles sítios o tempo não é de medida comum, a azinheira transfigurou-se revelando-me um rosto de mulher adulta, esquecida dos medos, caçadora de sonhos, a querer mudar o curso errado do Destino, fugindo das armadilhas armadas pela cegueira da História. Deixei o banco. Metemo-nos a caminho do vizinho povoado branco e acolhedor, refulgente de sol, a aldeia de Vaiamonte tomada aos mouros por D. Sancho II em 1240, para logo a doar à Ordem de Santiago. Parámos à porta da “Tasca do Chico”. Entrámos para tomar uns cafés.
- Normais? Perguntou, simpático, quem estava do lado de dentro do balcão.
O espaço era pequeno, mas nele cabia a idade da aldeia. Corpos secos, rostos sulcados de alto a baixo, testas rugosas como casca de sobreiro deixando ver páginas e páginas dos livros daquelas vidas, chapéus nas cabeças. Mãos dadas, umas a copos de vinho, outras a garrafas de cerveja. Olhares trocados em silêncio, falando do que as palavras, por certo poucas e baixas, não seriam capazes: a surpresa de ali verem entrar um casal estranho pedindo, apenas, dois cafés.
Palavras, disse-as eu à saída: Boa tarde!
De regresso à zona do banco da azinheira perguntei o que havia para ver. Aqui nada há para ver, mas muito, tudo, para desfrutar. Foi o que, em boa hora, fizemos, viajando pelo Alto Alentejo. Ao voltarmos para a beira da lezíria, na bela Região do Oeste onde vivemos, viemos com uma grande saudade das gentes e terras daquele pedaço de Portugal onde nada é longe nem perto, é tudo já ali, embora o ali seja, a mais das vezes, para lá do sol posto!
Para trás ficaram as azinheiras entregues à meticulosa tarefa de irem desenhando e escrevendo a paisagem alentejana, elas que, diz quem sabe, vivem mil anos!

quinta-feira, 22 de julho de 2010

São só uns dias

Vou para o sol, cores, odores e cantares do Alentejo, esperando que Pedro me não pregue uma partida. Procurarei a sombra de um chaparro, para sob ela me sentar, fumando um cigarrito (pois é, já sei…) e lendo. Querem saber quem levo para ler? Digo: Pessoa, Mia Couto, Auster e Saramago. Viajarei pela gastronomia, e, se a água me não gelar os ossos, e as dores forem de férias, darei umas braçadas na piscina. Andarei pelo campo, pondo à prova, uma vez mais, a resistência das canadianas. À noite perguntarei às lantejoulas do céu se alguma delas tem algo para me dizer, qualquer coisa como, sei lá, já que vivem lá por cima, se acham que ser Deus é fácil ou difícil, estando eu em crer que deve ser tarefa espinhosa, especialmente agora que a crise anda por aí.
Por cá ficarão o portátil, a televisão, a rádio e os jornais.
Os próximos dias serão para abafar o bulício, para me ver livre dos emperuados: políticos, comentadores, analistas, politólogos, correlativos e jornalistas aprendizes de feiticeiros, que passam a vida num gluglu, inundando a capoeira com uma chinfrineira que nem eles entendem.
Parto já com a saudade do vosso contacto, que durante uns tempos ficará por acontecer.
A todos um abraço, e, se alguns se puserem também a caminhar, que as vossas andanças vos proporcionem tudo de bom. Regressarei nos primeiros dias de Agosto.
Deixo-vos este poema de Mia Couto:
Saudade

Magoa-me a saudade
do sobressalto dos corpos
ferindo-se de ternuras
dói-me a distante lembrança
do teu vestido
caindo aos nossos pés.
Magoa-me a saudade
do tempo em que te habitava
como o sal ocupa o mar
como a luz recolhendo-se
nas pupilas desatentas.
Seja eu de novo a tua sombra,
teu desejo,
tua noite sem remédio
tua virtude, tua carência
eu
que longe de ti sou fraco
eu
que já fui água, seiva vegetal
sou agora gota trémula,
raiz exposta.
Traz
de novo, meu amor,
a transparência da água
dá ocupação à minha ternura vadia
mergulha os teus dedos
no feitiço do meu peito
e espanta na gruta funda de mim
os animais que atormentam o meu sono.
(Mia Couto)

domingo, 18 de julho de 2010

Palavras

é o que as palavras simples têm de simpático, não sabem enganar.
(José Saramago
)

Assim num de repente, não mais que isso, num de repente, as palavras vieram visitar-me. O encontro foi depois do almoço a dar para o mar. Estavam escritas nuns azulejos atarraxados às rochas, olhando para mim, de mãos postas no tempo que as criou.
Disseram o que quiseram, falaram na língua que lhes aprouve. Escutei-as, em mancebia com o marulhar. Li-as. Encontrei-me nelas, que mais não sou do que um país que outra pátria não conhece se não o mundo.
Disseram-me elas, que até ali chegarem navegaram por mares por onde o passar dos dias as levou, sem que eu saiba quem as inventou, que a tempestade não escolhe porto.
Olhei para as gaivotas, muitas em terra, e recolhi ao meu porto de abrigo, fintando a procela, iludindo as dores que me quiseram visitar!
E porque as palavras são pródigas, e, quando o queremos, também solidárias, desejo a todos uma boa semana, que se prepara para trajar de Segunda-feira.

sábado, 17 de julho de 2010

Do Viajante


Memórias (2)
(De gentes e coisas, que conheceu no extremo Norte)
- Continuação do post anterior -


Por Zefa trata o padre a mulher do Sul.
Conheceu-a quando lhe encontrou os episódios do ser, o que lhe pareceu serem as feridas da vida. Viu-a como a Virgem Negra, por ela se seduziu. Mas a senhora Josefa é terrena, de mente sã, serena como a coisa pura, mulher de um só homem, o seu Simão, que, mesmo padre, é seu. Com isso o Deus dele não se importará, tem ela por certo. Josefa cedo se deu à reflexão sobre a vida e os seus absurdos, atribuindo ao Destino o seu encontro com Simão, que lhe tocou a alma e a fez caminhar por uma alameda onde as flores dos cajueiros são pássaros de paz. Por isso cruzou a sua com a picada dele, tendo a sua vida começado naquele instante. Fez do padre a sua cubata. E ele dela o seu retiro.
Dela tem ele uma filha, Clara de seu nome, a condizer com a tez próxima da do pai, hoje com dezasseis anos, a viver em casa de uma tia e a estudar no liceu da capital do distrito, lá mais para Norte. A rapariga, uma linda mestiça, ali a provar que o cruzar de sangues gera, quase sempre, obras-primas, está de férias. Viverá com a mãe durante toda esta semana, e com o padre, que sabe ser seu pai.
Ontem, ao fim da tarde, uns negros de passagem encontraram-na deitada no capim, encostada à parte de fora do muro do cemitério ao lado da igreja, com um homem por cima. Gritaram Ué…! Nenhum dos dois se inquietou. Ele, que apesar de ter ocultado, de pronto, a cara num tufo de capim mais alto, um dos mirones jura ser o senhor gerente da Casa Comercial, por estar convencido de que os negros, que para si trabalham, não falarão. Ela, por razão nenhuma em especial, talvez apenas por não estar ainda em idade para inquietudes. Mantiveram-se no que estavam.
Os passantes benzeram-se e, ala que aqueles propósitos em que está a filha do senhor prior não são para os seus olhos, puseram-se a andar.
Andar não foi bem, porque de uma corrida se tratou. Um sair veloz e atabalhoado sobre um carreiro de mandioqueiras a crescer, calcando-as. Ali não crescerão as mandiocas. As mulheres da sanzala não as tirarão da terra, para as descascarem e porem a fermentar num charco de água, até que o cheiro, sentido à distância, avise ser tempo de as levarem a secar ao sol, para depois as moerem fazendo nascer a sempre desejada farinha de fuba, indispensável para o funge que acompanha o pirão de peixe seco com que matam a fome.
Contrariando o que o gerente pensara, nem todos os mirones se quedaram pelo silêncio. Do acontecimento no muro do cemitério correu notícia.
Meia cidade fez cara de escândalo, pelo menos assim pareceu.
A outra metade encapou-se num resguardado semi-silêncio.
Receosa de despertar memórias de outras conjunturas, sabidas do velho padre, e de outra gente, como de Paulo o amigo do padre que um dia destes aqui aparecerá, só falou do caso por alto, em surdina pelas esquinas e pelas mesas dos dois bares e da pensão, e, mais em aberto, acrescentando minúcias apimentadas, maquinadas a cada momento, nas liturgias a horas avançadas dos serões privados.
Numa ou noutra sala de estar, e em varandas a dar para jardins com Lua, duas com sentinela à porta para além de mosquitada e outra bicharia, como é o caso do palacete do Administrador da terra, se fizeram cotejos.
Crente em Deus, tal como no amor e no despertar para a vida, Simão, indulgente, abandonou a melancolia em que ultimamente tem vivido, e absolveu a filha e o gerente. Disse a missa no Domingo seguinte, o primeiro dia das festas da cidade. Como sempre a igreja foi exígua para tanta gente.
(continua...)

terça-feira, 13 de julho de 2010

Do Viajante


Memórias (1)
(De gentes e coisas, que conheceu no extremo Norte)


Quatrocentos e alguns quilómetros depois da partida do litoral, já lá vão, a estrada de terra batida, as florestas e as matas verdes e densas. Agora, circula-se sobre os trilhos de uma picada, que mal se vê, serpenteando por entre extensos areais, à conquista da planura árida, dominada por embondeiros, espinheiras, cactos candelabros, maboqueiros e arbustos meio secos. Zona de caça grossa, diz o motorista, levando a mão à espingarda arrumada ao alto, atrás do encosto do seu assento. Do leão apenas escutam o rugido de rei, que os faz tremer. À vista só uma pacaça que, pachorrenta e indiferente, mas de virar de cornos ameaçador, atravessa a picada.
De quando em quando pequenos vórtices aspiram o solo, lançando ao ar areia fina e folhas secas, parecendo que anda por ali uma pua gigante a querer penetrar o chão. Ao entardecer o verde regressa à paisagem. Atravessam um palmar, no fim do qual o caminho corta a meio uma sanzala. Dum lado e doutro, crianças e mulheres, estas com cachos de dendê à cabeça – algumas também com bebés às costas, seguros por panos amarrados ao peito –, acenam-lhes. Por aqui já se vêem cajueiros, mangueiras e um bananal. Mais ao fundo avistam-se árvores de maior porte. Umas são eucaliptos-gigantes, outras panga-panga e abacateiros, a avisarem da proximidade da cordilheira que terão de conquistar em rota para as terras altas, de forte vegetação e das grandes chuvas – a região do café, a que chamam, igualmente, os campos do ouro negro. Sobre o horizonte recorta-se o cume da serra mais alta, envolto por um anel de nuvens brancas, como se a Natureza estivesse em pedido de casamento.
Chove a cântaros. São sete da manhã, mas parece noite. A cortina de água, cor de chumbo, cobre o mundo à volta. Faíscas chispam por toda a parte, iluminando o céu, como se a espátula de um pintor ande por ele, ébria, marcando-o com ziguezagues de fogo, quase o incandescendo. Há meia hora que o tumulto da natureza persiste violento, obstinado.
Finalmente, o destino. Para trás ficaram cinco dias de viagem esgotante. De Sul para Norte inicia-se a descida da rua principal da cidade (assim dita, mas que não passa de uma aldeia a querer ser gente) transformada num mar de lama, com a água correndo tumultuosa, descontrolada pelas bermas, como rios soltos por diques deitados abaixo e, com eles, algumas cubatas.
Ali conheceu o Viajante, pelo ano que por lá esteve, coisas e gentes.

I

Simão, o padre da pequena corcunda, que transporta entre esta e a camisola interior, endurecida pelo surro que lhe ensopa o suor, um amarelecido e salgado breviário engatado ao pescoço, é um homem de urgências, não espera por Deus. Sem que lho peçam, basta que lho digam, lá parte ele, a pé ou na sua velha moto com side-car, a levar o Viático aos doentes ou a tentar faze-lo aos que maltratados por ordem dos pides são atirados, por estes e pelos sipaios, para o capim alto nas bermas das picadas escuras para que a bicharada os leve, antes ou depois que a morte os apanhe. Simão não perde nunca a oportunidade de conquistar uma alma. Bem cedo, nas manhãs dos dias de semana, vai à sanzala, ali mesmo a nascer do outro lado da rua, buscar três putos para os levar à escola. À tarde faz o mesmo percurso, a deixá-los nas cubatas. Pelo almoço, cuida que um pequeno farnel lhes chegue.
Assim vai ele, com parte do seu rebanho.
E ainda tem a crescer alfaces, feijocas, tomateiros, um pé de jindungo e outro de caxinde, num canteiro, por si criado em sete manhãs de desvelado exercício de mãos e pés, no quintal da igreja, ao fundo, junto ao poço. Os agriões, acredita, mais tarde ou mais cedo, acabarão por alçar nas margens do fio de água que ele cavou para a rega. Muita fé e nada de agrião, que não há meio de crescer.
Contudo, nem tudo é perfeito.
Desde a chegada, o velho padre Simão habita o presbitério, contíguo ao templo, com uma negra oriunda do Sul, enérgica, trabalhadora, boa cozinheira, respeitadora, um compasso do tempo mais nova do que ele. Depressa se afeiçoaram. A mulher fez-se uma ajudante preciosa, indispensável. Das lides da casa passou a outras. É certo que não ajuda à missa nem auxilia o pároco nos ofícios divinos, mas mantém a sacristia impecável com os paramentos sacerdotais e os utensílios de culto limpos e arrumados. Aprimora-se no arranjo do altar, renovando, amiúde, os quatro ramos de flores, dois de cada lado do sacrário. Dá luzimento, todas as semanas, ao madeiro do Cristo crucificado. Mantém a brilhar os castiçais de metal fundido, sem deixar que os círios se esgotem. Verifica, dia a dia, o nível da água nas pias baptismais. Muitas vezes é ela que puxa as cordas para fazer dobrar os sinos, um esforço agora demasiado para o eclesiástico de corcova às costas.
A igreja nunca teve sacristão. Assim se mantém.

(continua...)

sábado, 10 de julho de 2010

Memórias

A minha cidade

Aqueles homens altos de músculos desenhados, salpicados por gotículas de mar, que ali estão, são pescadores. Pés bem fincados na areia puxam as redes com o peixe para sustento do dia seguinte. Algum dele haverá de seguir ruas fora, poucas ainda, ao longo de escasso e disperso casario pela cidade acima, em quitandas à cabeça de quitandeiras (deles mães, irmãs, mulheres e filhas) que lhe apregoarão virtudes alimentares e preços baixos. Fá-lo-ão do despertar ao morrer do dia, vezes sem conta, entre a Fortaleza do Morro de São Miguel e a Igreja mais tarde chamada da Conceição.
E, também, ao longo da zona baixa da cidade, a que em 1648 o português Salvador Correia de Sá e Benevides chamou São Paulo da Assunção de Luanda, – uma faixa de casas de um lado, e mar do outro –, que se estendia da base daquele morro até à Ermida da Nazaré.
Tudo assim conhecido, excepção feita à designação de Salvador Correia que só aconteceria mais de cento e setenta anos depois de ter chegado à Ilha das Cabras (assim se chamava a que hoje é Ilha de Luanda) um outro português: Paulo Dias de Novais, descobridor ali mandado por seu Rei D. Sebastião para conquistar o Reino de Angola, corria o ano de 1575.
O que Dias de Novais fez, aportando à Ilha com uma armada de oito barcos (um galeão, duas caravelas e cinco bergantins), e acompanhado de setecentos homens, nem todos soldados, pois entre eles havia sapateiros, alfaiates, pedreiros, cabouqueiros, taipeiros, um barbeiro e um entendido em Física, suspeitando a História que entre estes muitos acabaram por aprender o manejo das armas.
Para que mal de todo se não sentisse em tão intrépida missão, el-rei concedera-lhe, ainda em Lisboa, uma capitania e investira-o no cargo de Governador e Capitão-mor da Conquista do Reino de Angola. Precavendo-se de uma possível escapadela da fé, no contacto com os nativos, e, também, em obediência aos ditames da Corte e da Santa Madre Igreja, o conquistador levou consigo um sem número de sacerdotes, paramentados a preceito e de crucifixo numa mão, espada na outra. Ao que se julga saber, Dias de Novais ficou a residir na Ilha durante um ano, tempo que levou a perceber ser aquela terra rasa, sem montes e baixa, que pouco se alevantava sobre o Atlântico, feita de areia e vazia de água para consumo de homens e animais. Imprópria para nela se edificar a capital de uma conquista. Abandonou a Ilha ao fim daquele tempo, mudando-se com a sua gente e barcos para o continente, mesmo em frente dela. Ali começou Luanda a fazer-se.
Dias de Novais não viu a cidade esticar-se. Não espreitou as garinas de São José de Cluny, não provou a doçaria, os pasteis de bacalhau e o leitão assado da Royal, não petiscou a dobrada com feijão, roeu a ginguba, mastigou os tremoços e bebeu os finos da Bicker nem aqui jogou bilhar, não comeu o Bacalhau à Vilela, nem o Frango na Púcara da Maianga. Não saboreou os cacussos, o pirão, o vinho verde tinto de garrafão/capacete, produzido em Portugal (dito de tal modo por o garrafão ter um chapéu de gesso a envolver-lhe o gargalo), e a Nocal (cerveja feita em Luanda) da Cagalhosa – a cabo-verdiana patroa das meninas de passe do Bairro Operário, sempre atenta aos clientes. Os caluquetas, tal como a muamba, ficaram-se-lhe por provar. Não foi à Versalhes tomar chá com torradas de pão de forma, nem comigo comprar banana seca, tâmaras, nozes, pinhões, avelãs, amêndoas francesas e outras delícias à mercearia fina Paula de Carvalho. Não se deliciou com as cassatas do Baleizão.
Ficou sem ver os rijos tremunos entre a rapaziada do Colégio D. João II e a do Liceu Salvador Correia, que acabavam invariavelmente em cenas de pancadaria, sem que qualquer das partes cantasse vitória, antes apostasse, casmurra, em novos jogos, com galhardetes, pedras e paus a voarem no final, de um lado para o outro, e as miúdas, babadas a aplaudirem, desfazendo e refazendo namoricos, ao sabor das más ou boas prestações dos artistas da bola, os seus heróis! Já não teve tempo para me ver saltar os muros do liceu, fugindo às aulas da Mocidade Portuguesa e refugiar-me nos estúdios do Rádio Clube de Angola, no outro lado da rua ao lado do Cinema Tropical, onde me comecei a deixar seduzir pelo jornalismo, ouvindo e lendo coisas diferentes das que os milicianos das quinas e falanges de fardas com um S no cinto queriam, à força sem o conseguirem, que eu aprendesse.
Não viu negros serem explorados, maltratados, presos e mortos. Como também não viu a PIDE perseguir e prender brancos, e muitos eram, que àquilo se opunham.
Não conheceu o meu Mwata Milagre, nem a Kyanda, nem o meu professor Cardoso, da primária. Nem o meu amigo e colega da Escola 8, o negrinho gordo e brincalhão a que, por alcunha, chamávamos o "Gungunhana". Tão pouco o meu amor.
E as rebitas de Sábado à noite, nos quintais mussequeiros? Também não! Não subiu à Fortaleza e dali ficou a ver o pôr-do-sol como não há igual.
Não deu por Luanda a crescer para lá do Kynaxixe.
Não viu homens e máquinas drenarem a lagoa, secarem-lhe as lamas, derrubarem a mafumeira, erguerem um mercado municipal a um dos lados, e construírem ao centro uma praça colocando-lhe no meio a estátua da heroína popular portuguesa Maria da Fonte.
Também não viu, depois da independência da terra, chegarem ali os revolucionários, que destruíram a Maria da Fonte, varreram os cacos para a rua como lixo, e colocaram no seu lugar um carro de combate! E, não satisfeitos, deixaram que a cidade fosse canibalizada.
Não viu, igualmente, anos mais tarde, os rebeldes já mais amansados, retirarem a máquina de guerra, deixando a substitui-la uma pomba feita de madeira e ferro, a «simbolizar a paz», enfeitada com centenas de pequenas lâmpadas semelhantes às das árvores de Natal, iluminando-lhe o peito, a cabeça e o resto do corpo durante a noite. Nos primeiros dias, que depois os filamentos foram-se fundindo e as luzes apagando, sem que alguém se preocupasse com reparações.
A pomba da paz por lá continuou uns tempos, triste, vendo passar as noites e as tardes cinzentas de Cacimbo, faltando-lhe o brilho para bater as asas. Um dia desfez-se em lascas que tombaram na praça, ali ficando a ser espezinhadas.
Coberta por bruma espessa, a História por lá morreu.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Memórias

O meu Mwata

No Cacimbo, a água da Lagoa chegava a ser transparente. No Calor, como era o tempo em que para lá íamos, ela ficava turva, do tom da terra vermelha da zona, e, também, mais alta. A Lagoa enchia, prenhe das chuvas grandes do nosso fascínio.
Sempre que aquelas águas caíam e nós, os putos da Escola 8, andávamos por ali à solta, os calções e as camisas juntavam-se às sandálias nas sacolas escolares. Todos nus corríamos de um lado para o outro, caras viradas para cima. Bocas abertas, bebíamos o céu deixando a água fresca tanger-nos as gargantas e voltar a sair, correndo-nos pelo peito, excitando-nos o coração de meninos mais valentes do que os heróis das histórias do Mosquito.
Éramos capitães de um só medo: pisar a água da Lagoa sem antes ouvirmos o Velho. Só ele sabia se a surucucu andava por ali naquele dia, ou não.
E, outras coisas!
O Velho, – o Mwata de nome Milagre –, homem de servir em casa dos meus pais, que pouco servia, mas muita companhia fazia, a mim em especial. Também ele se evadia para a Lagoa, sempre que podia, para falas com os «mininos da Escola». Magro e seco como um abacateiro, igual aos que nas roças crescem esguios até ao Sol, lá abrindo a copa maior que um capacete colonial parecido com o que o meu avô usava, protegendo com a sua sombra os cafeeiros de muitos braços carregados de ouro negro, que faziam a riqueza de uns quantos, e aprofundavam a escravidão e miséria de muitos outros. O Milagre era alto como as mangueiras da Funda agora mirradas, vá-se lá entender isto, e velho como um embondeiro. Tal como este, já nem sabendo a idade ou mesmo se menos velho alguma vez tinha sido. O meu Mwata nascera já assim, de certo: com idade crescida, e sábio, porque ele sabia de tudo. Muito me ensinou, como a ser solidário e a respeitar os mais velhos. Sendo ele bom mestre, e eu razoável aluno, aprendi.
Com o Milagre, ficávamos até a tarde avisar serem horas do regresso a casa. As suas mãos secas de dedos finos e compridos como os dos artistas, esculpiam no ar histórias de encantamentos, que escutávamos seduzidos. De quando em quando interrompia-se, quedando-se em silêncio a fumar um cigarro enrolado com a parte acesa virada para dentro da boca, como fazia a lavadeira da minha casa enquanto esfregava a roupa com o filho dormitando agarrado às costas por um pano envolvendo-lhe o peito.
Às vezes, o Milagre alçava os braços.
Não entendia porque o fazia.
Pareciam-me impulsos do coração do Velho, em busca de mistérios perdidos ou de acontecimentos para anunciar, lá por cima, nas terras de Deus. Olhava-o, a ver se sim, mas permanecia inescrutável. Não resisti. Um dia, perguntei-lhe:
- Porque te chamas Milagre?
Virou-se para mim. Ameigou-me o queixo e o cabelo com as mãos. Levantou-me suavemente a cabeça. Deixou repousar os seus olhos nos meus, e respondeu:
- Porque Deus me fez, e a minha mãe me disse assim!

terça-feira, 6 de julho de 2010

Pedido de ajuda


Tenho recebido comentários, que não consigo editar (moderar)! Quando clico para os abrir, desaparecem, surgindo isto: não há comentários a necessitar de moderação! Como nas definições coloquei a indicação dos comentários me serem também enviados por email, a verdade é que os recebo e os tenho gravados no registo do correio electrónico. Colocá-los na caixa de comentários do blogue é que não. Somem, pura e simplesmente!
Alguém me pode dar uma ajuda para resolver este mistério blogosférico!

(Aos amigos que não viram os seus comentários publicados, peço que, se para tal tiverem paciência, os repitam, a ver se o blogue perde a má disposição de que parece estar possuido. Obrigado)
PS- Quero dizer-lhes que para este post já recebi um comentário do blogue Reflexo d Alma, que consegui editar, bem como a minha resposta de agradecimento. A seguir recebi outro do blogue Rosa Carioca, que desapareceu. Respondi. O primeiro comentário e as minhas respostas chegaram a ser editadas. Agora, de repente, desapareceu tudo! Irra! Será que andam por aí bruxas à solta?!
PS 2 - Continuo a servir-me desta página para comunicar. Novo comentário chegou. Veio da Si. Obrigado, Si, vou fazer como diz. Já corrigi a etiqueta! Grande gralha! Muito obrigado.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Do Viajante


Entre o que foi, e o que é.


Arrimado ao tronco alto e magro, olhando fixamente o manto de prata acabada de arear, com que o mar hoje se cobre, ele sente-se, tão só, uma pequena ilha encalhada algures no tempo.
A silhueta, vista daqui, assemelha-se à de gente no vigor da idade. Olhando-a de mais próximo, encontra-se-lhe um semblante carregado de vida, que nada mais deixa perceber, embora num ver mais atento se encontre alguém que não tem gasto o tempo em urgências.
Escuta-se-lhe o respirar da sombra ondulante da casuarina, a cuja frescura se acolheu.
Lá por cima, em surdina, planam gaivotas transportando nas asas o cheiro a maresia. Mais abaixo esvoaçam gaivinas com queixumes fortes espantando os quero-quero.
De tudo parece alheio.
O bater do mar liberta-o da fixidez. Mais se encosta ao peito da árvore sulcado por risos e lágrimas de resina, soltos e vertidas dos muitos anos que leva de vida, vida de cuja idade se não tem notícia. O aconchego dá-lhe ímpeto. Levanta-se. Caminha pela areia, senta-se numa trança da praia. Quer abraçar o mar, mas deita-lhe apenas as mãos. Ao levantá-las vê escorrer, por entre os dedos lassos, raios de luz parecendo-lhe janelas abertas por onde se lhe escapam palavras, umas mudas, outras sussurrando ausências. Fica olhando-as. Hesita entre tirar a pele às palavras ou pedir explicações ao raiar da aurora, hoje por entre uma névoa fina, trazendo o sol ainda timidamente quente.
Sussurrantes, não de ausências, mas de segredos, recorda-se, foram as palavras ditas, não muitas, na noite passada, depois dela chegar, cabelo solto caindo-lhe sobre as costas, rosa vermelha ao peito, sorriso nos lábios, brilho nos olhos, mãos prometendo carícias. Mais foram os afagos trocados antes dela partir, do findar da noite a ter levado para outros ires. Na boca dele, deixou ela um beijo e a rosa. Ele disse hoje, pela primeira vez, beijei o céu.
Agora, rola pela trança da praia. Volta a dar os dedos ao mar e, ao recolhê-los, vê, por entre eles, pétalas de uma rosa vermelha.
Distante, ela caminha para outra noite, com nova flor ao peito.
Ele continua, entre o que foi e o que é, procurando um futuro fora do crepúsculo.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Dores

Aos visitantes da minha cubata, aos amigos.

Tal como um artesão que com afã desbasta a madeira para lhe dar forma, e dali fazer obra que se veja, tenho passado os dias (e parte das noites) a tentar civilizar as dores, a ver se acabo com o constante desentendimento, mesmo rivalidade, entre mim e elas.
As dores, incómodas, inoportunas, inibidoras, quais jagodes, persistem na batalha. Desviando-me da conservadora e tradicional prescrição médica, tenho procurado as minhas picadas, por elas andando, ensinando o corpo a fugir das tendinites teimosas e a evitar a chamada à liça de músculos pouco dispostos a esforços, ou dominados por fibroses resultantes das quinze cirurgias já feitas.
Descobri que uma posição estudada, embora fugindo à normal postura do esqueleto (a que médicos torcem o nariz), resulta, quase sempre, mais eficaz que um medicamento a droga manipulada com o objectivo de curar, mas que a mais das vezes se fica pela intenção. O meu objectivo tem sido o de evitar o conflito das articulações, quer da anca esquerda que já vai na quinta prótese, como do joelho do mesmo lado que, desgraçado, se vê em papos de aranha para responder ao esforço suplementar que lhe é exigido. Desta aprendizagem não resultou obra perfeita, mas já colhi alguns frutos. Entro e saio do automóvel, conduzindo-o com todo o à vontade. O segredo está em não torcer o corpo, mas em rodá-lo como estando sobre esferas oleadas. Sentado, as dores ausentam-se, só surgindo de pé, ao tentar o passo sem as canadianas, ou após duas ou três horas de estar deitado, acordando-me, claro! Qualquer distracção no manejar suave e atento do corpo e pronto, lá vêm as dores aos gritos! Apesar das dores por vezes serem de tamanho a que é difícil deitar a mão, continuarei pelas minhas picadas até que numa próxima ida ao cirurgião este possa descobrir novos caminhos.
Longe vai o tempo de me encolerizar, e ainda bem. Se assim não fosse passava a vida numa irritação permanente por, não sofrendo de qualquer doença, padecer de uma “falha mecânica” que me tolhe.
Para além de tudo o que são, as dores têm, ainda, a imaginação como coisa malquista. O pensar esgota-se-me na procura de as amainar. Esta tem sido a razão da minha ausência. Agora, um pouco mais senhor da situação (aprendo a viver com a dor) está a regressar o tempo de voltar ao vosso convívio, que muito prazer me dá.
Desculpem o arrazoado.
Um obrigado a todos os que se manifestaram preocupados.


segunda-feira, 21 de junho de 2010

Mundial de Futebol

Portugal 7 Coreia do Norte 0
Se o guardador de vacas e de sonhos, de Alves Redol, aqui estivesse dir-me-ia, por certo, que a selecção portuguesa de futebol (os Navegadores), tal como a burra Janota, “com arrenegas e pragas, empurrões e algumas mordidelas de cacete” mais não parecia que “uma árvore estranha toda liames ásperos e folhas amarelecidas”, zurrando, zurrando, e disso não passando.
A Ti Elvira, se a esta cubata a pudesse trazer, acrescentaria que a burra tem azougue, mas que azougue ela lho daria…
E por tal não ficaria: “nunca vi burra tão mole…Se fosse teu dono bem te passava a patacos…”
Por não gostar daquele desprezo, a Janota “fez das fraquezas um arranco de força bravia, abalando depois numa carreira de égua corredoura metida a equilibrista de circo”.
Assemelhando-se à Janota, mais parecendo uma árvore fantástica e andarilha, os Navegadores tomaram o bramar dos espectadores por incitamentos e logo se largaram mais, e mais, e tanto que numa curva do campo atiraram com o carrego para cima de quem lá vinha: os coreanos do Norte, que de olhos em bico mais ficaram.
Foram sete os sacos lançados no meio daquela feira de chinfrins vuvuzelantes. Um deles, mais parecendo feito de prestidigitador circense.
Sorte diferente da Janota, que continua a comer palha, e a nela se deitar, tiveram os Navegadores, que regressaram, por entre alas de palmas, ao lençol quentinho e à mesa farta do restaurante do hotel de luxo onde a Lusitânia os hospedou.
Ali estão à espera do dia 25, altura em que irão tomar uma caipirinha com os brasileiros.
(Inspirado no livro "Constantino, guardador de vacas e de sonhos", do inesquecível Alves Redol)

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Morreu José Saramago

Quando à hora do almoço soube da morte de José Saramago, pelo jornal da RTP, senti um amargo percorrer-me. Foi como se tivessem roubado parte de mim. Continuei a ouvir as notícias para acreditar que um escritor original, único, com a marca do talento e do génio nos tinha deixado.

Tive o privilégio de conhecer pessoalmente José Saramago e de o ter entrevistado. Tenho a sua obra completa e livros por si autografados. Há anos, acompanhei-o durante uma semana, percorrendo o país por onde ele andara para escrecer "Viagem a Portugal", que abre com o notável "Sermão aos peixes". Conheci, então, o Homem. Ao contrário do que imaginara, talvez fruto da sua oralidade despida de adornos em que são férteis os convencidos e vazios de espírito, o que se me revelou foi um ser afável, de uma Humanidade intensa, Senhor de uma postura cívica que nunca deixei de admirar, mesmo nos momentos em que dele discordei.
A obra-prima "Memorial do Convento", o insuperável "O Ano da Morte de Ricardo Reis" e toda a sua obra literária, conquistaram-lhe a imortalidade.
Em 1998 foi-lhe atribuído o Nobel da Literatura perante o silêncio envergonhado da medíocre intelectualidade portuguesa, que ainda hoje se roi de inveja por tal prémio ter sido concedido a um humano humilde, sem licenciaturas e, heresia das heresias, militante comunista!
Não me alongo. Outros escreverão, melhor do que eu, sobre José Saramago.
Não quis deixar de referir a sua morte neste dia para mim amargo, em que me sinto mais pobre, e em que, utlizando palavras suas, o meu coração porque é de carne, sangra.
Descansa em paz, meu Amigo.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Do Viajante (Ser ou não)

O Viajante, que há muito por aqui não passa, veio hoje de visita à cubata. Chegou esguedelhado, ar fatigado (deve ter vindo de longe), barba mais crescida que da última vez. Ter-se-á apercebido, lá por onde andava, que me tenho ultimamente interrogado: já não sei se ando pelos dias, se são os dias que me percorrem. Sem me dar tempo a dizer o que quer que fosse, tirou uma folha de papel da pasta que trazia debaixo do braço esquerdo e disse-me: toma, lê. E eu li, Fernando Pessoa.

Temos, todos que vivemos,
Uma vida que é vivida
E outra vida que é pensada,
E a única vida que temos
É essa que é dividida
Entre a verdadeira e a errada.
Sou um evadido.
Logo que nasci
Fecharam-me em mim,
Ah, mas eu fugi.

Se a gente se cansa
Do mesmo lugar,
Do mesmo ser
Por que não se cansar?

Minha alma procura-me
Mas eu ando a monte,
Oxalá que ela
Nunca me encontre.

Ser um é cadeia,
Ser eu é não ser.
Viverei fugindo
Mas vivo a valer
.
(Antes de partir o Viajante pediu-me que desejasse a todos uma boa semana)

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Os meus selos

Este blogue voltou a ser medalhado, o que me faz feliz!
As duas veneras que se seguem foram-me concedidas pela Rosa Carioca.



Esta foi-me colocada ao peito pela Ematejoca


A ambas agradeço a distinção, que muito honra esta minha e vossa cubata.


sábado, 5 de junho de 2010

Santos populares


Junho, que mês és tu?!


Apareceste depois do mês do meu casamento. Deste-me o filho mais velho, levaste-me o mais novo. Depois disso fizeste nascer o meu neto caçula, ainda nem sequer tinhas chegado ao sétimo dia!

Estranha criatura és, que dás, tiras, e voltas a dar. Deste de novo porque te arrependeste? Ó Junho, porque tiras, se dar podes tu?
Consta que o teu nome foste buscá-lo a Juno, uma deusa, mulher de Júpiter, um deus. Que deuses são esses que te fizeram assim?
Se te risco do calendário? Não, não te apago. Talvez gostasses de voltar atrás, devolvendo-me o que roubaste. Não sei..., ficamos assim.
Que dizes, agora? Nada de especial. Que vais anunciar a chegada do Verão e é tempo dos santos populares. De quem? Destes três:
- (Dia 13) – António, o milagreiro, protector dos noivos, casamenteiro. Viajante de meio mundo. Até em Praga na Ponte Carlos sobre o rio Moldava, está uma estátua sua olhando quem passa a ver se descortina dedos livres de aliança.
- (Dia 24) – João, de alho-porro na mão, chamando gente para saltar a fogueira. Quem saltar a fogueira na noite de S. João, em número ímpar de saltos e no mínimo três vezes, fica por todo o ano protegido de todos os males, dizem os entendidos nestas coisas dos santos.
- (Dia 29) – Pedro, que se chamou Simão e era pescador. Respondeu certo à pergunta: quem é Jesus? Tal valeu-lhe o rebaptismo para Pedro (pedra) e sobre ele foi construída uma Igreja.
Queres que festejemos os santos populares. Não o farei, sabes bem porquê. Comprarei apenas um manjerico que colocarei na varanda a falar com o Sol e a cuscar com a noite até que a seiva se lhe esgote.
Adeus.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

A dor

3 de Junho.

Sempre que a data se aproxima o silêncio da solidão envolve-me, incapacita-me.
Dezoito anos passados repito, de mim para mim.
O Paulo partiu, andava eu por longe.
Só cheguei a tempo de lhe dar um beijo sem retorno.
Consome-me a ira pela sua morte; não vivera ainda 25 anos.
Dói-me o meu ser, em sofrimento.
Choro a ausência do filho, na solidão da amargura, na impotência de o não ter evitado, na angústia de não o voltar a ver, na revolta por ter ficado por ouvir e dizer tudo o que ficou. Choro na minha pequenez incapaz, por ele ter ido sem um último adeus.
O que sempre vem à tona é um vazio cheio dele; uma tormenta que me açoita e me persegue. Só a disfarço, nas noites de insónia e no virar dos dias, levando-me ao engano, fingindo.
A quem peço contas pela injustiça?!
Que ouvidos me ouvem, que olhos me vêem?
Para onde dizer tenho eu, agora, senão para esta cova profunda, e só, que me devora o peito:
Olá, Paulo!