Na madrugada de 25 de Abril de 1974, o meu País derrubou a cerca de grandes muros em que, de há muito, o haviam aprisionado. Rasgaram-se as trevas que o cobriam. O dia amanheceu com cravos florindo na boca de espingardas. Em festa, o povo saiu às ruas gritando palavras até então amordaçadas e proibidas. Uma revolução com flores reconquistara a Liberdade. Os presos políticos, muitos torturados pelos algozes da ditadura, foram libertados. Do exílio regressaram os que tinham dedicado a vida à luta pela Liberdade. Assassinados pela ditadura, muitos ficaram pelo caminho. Nascera o sonho de um País novo, do homem novo. Sonho tantas vezes sonhado!Para que se não esqueça, e os mais novos saibam, era assim o país que nos deixaram:
Exploração de mulheres meninas
Meses depois do 25 de Abril soube que na Companhia das Lezírias, no Ribatejo, se explorava trabalho infantil e adolescente, quase exclusivamente feminino.
Fui ver. Com a cumplicidade de um caseiro entusiasmado com a revolução, consegui contactar um grupo de doze meninas, entre os 12 e os 15 anos, que trabalhavam no campo. Vozes tímidas, caras enrugadas, ombros caídos, envelhecidas. O que vi e ouvi chocou-me e permanece vivo na minha memória, 36 anos passados. Apresentei a reportagem na RTP, televisão para que fui trabalhar depois do Dia da Liberdade. Chamava-se “Em Foco”, o programa então da minha responsabilidade e por mim apresentado.
Aquelas meninas viviam numa camarata, algumas dormindo em colchões sobre chão de cimento, sem qualquer contacto com o mundo exterior para além das searas em que calejavam e feriam as mãos, na labuta do nascer ao pôr-do-sol. A higiene pouco ou nada se lhes chegava por falta de casas de banho. A alimentação, almoço e jantar, era-lhes servida numa panela de onde se retiravam porções para um prato de alumínio dado a cada uma, comendo com as mãos, pois não lhes eram fornecidos talheres. Um pedaço de pão fazia as vezes de colher ou garfo. Pouco responderam às minhas perguntas, refugiando-se na profundidade de olhares angustiados, inquietos e tementes, recolhidas no silêncio do medo.
Eram todas de uma freguesia do concelho de Abrantes, na margem esquerda do Tejo, aonde me desloquei para falar com os familiares. Nada me disseram para além de que as meninas não podendo frequentar a escola, por falta de recursos, e porque o ensino não era, como hoje, aberto a todos, iam trabalhar para o campo. O pouco dinheiro que os patrões mandavam para as famílias, sempre era uma ajuda. Dinheiro enviado às famílias. As meninas nunca o viam nem sequer sabiam o que ganhavam! Quanto ao tempo de trabalho, por lá ficavam até que se fartassem delas, ou adoecessem, e as recambiassem para casa!
Tempos depois o 25 de Abril chegou à lezíria, acabando com a escravatura!
Fui ver. Com a cumplicidade de um caseiro entusiasmado com a revolução, consegui contactar um grupo de doze meninas, entre os 12 e os 15 anos, que trabalhavam no campo. Vozes tímidas, caras enrugadas, ombros caídos, envelhecidas. O que vi e ouvi chocou-me e permanece vivo na minha memória, 36 anos passados. Apresentei a reportagem na RTP, televisão para que fui trabalhar depois do Dia da Liberdade. Chamava-se “Em Foco”, o programa então da minha responsabilidade e por mim apresentado.
Aquelas meninas viviam numa camarata, algumas dormindo em colchões sobre chão de cimento, sem qualquer contacto com o mundo exterior para além das searas em que calejavam e feriam as mãos, na labuta do nascer ao pôr-do-sol. A higiene pouco ou nada se lhes chegava por falta de casas de banho. A alimentação, almoço e jantar, era-lhes servida numa panela de onde se retiravam porções para um prato de alumínio dado a cada uma, comendo com as mãos, pois não lhes eram fornecidos talheres. Um pedaço de pão fazia as vezes de colher ou garfo. Pouco responderam às minhas perguntas, refugiando-se na profundidade de olhares angustiados, inquietos e tementes, recolhidas no silêncio do medo.
Eram todas de uma freguesia do concelho de Abrantes, na margem esquerda do Tejo, aonde me desloquei para falar com os familiares. Nada me disseram para além de que as meninas não podendo frequentar a escola, por falta de recursos, e porque o ensino não era, como hoje, aberto a todos, iam trabalhar para o campo. O pouco dinheiro que os patrões mandavam para as famílias, sempre era uma ajuda. Dinheiro enviado às famílias. As meninas nunca o viam nem sequer sabiam o que ganhavam! Quanto ao tempo de trabalho, por lá ficavam até que se fartassem delas, ou adoecessem, e as recambiassem para casa!
Tempos depois o 25 de Abril chegou à lezíria, acabando com a escravatura!
(Pelas portas que Abril escancarou entrou a Liberdade, mas também muita lama, muito lodo purulento, putrefacto, que tudo vai contaminando, visando destruir o sonho. Eu sei. Mas a verdade é que a esperança não morre. Abril voltará a encontrar Abril. Que tenham todos um excelente Dia. Brindemos a esse bem único e reconquistado - a Liberdade!)