
Ao regressar muitos comentários aqui encontrei! Em todos, a simpatia e as palavras amigas de quem os enviou. Alguns trouxeram, também, a oferta de um selo, que irei editar em post. Sinto-me feliz ao ver-me rodeado por tanta amizade. Sou um bloguista sortudo! Obrigado a todos. Permitam, agora, que vos vá deixando algumas impressões.
A Viagem
Bagageira arrumada. Saídos da garagem deparou-se-nos um céu com os estores corridos. Pingava uma chuva miudinha, metediça e fria, soprada da borda da lezíria. Não permitimos que a desilusão nos embaciasse a vontade. Viéramos do sítio de onde estávamos, querendo partir e chegar ao destino que nos propuséramos, trezentos quilómetros a Sul. Imaginei, então, o que de momento não podia ver: mais adiante, por certo, o tempo estaria melhor. Puro engano! Ao chegarmos ao portão da auto-estrada chovia que Deus a dava!
Deus passa a vida a dar e a tirar, hoje não será excepção, disse para comigo, tentando convencer-me. Novo equívoco! Este era o dia do Seu descanso, tempo para os deuses suplentes se divertirem com os dois viajantes solitários. Não satisfeitos com a chuva, puseram-se a soprar ventos desencontrados! Olhar posto no horizonte alagado, libertou-se-me um gemido de resignação.
Tão harmoniosamente quanto possível, e habituado que está a alguns feitos, o carro foi rolando. Poucos quilómetros vencidos ao som do vaivém irritante dos limpa vidros, olhei para cima. Lá estavam elas, as nuvens, de mau humor, quais carrancas, desenhando rostos de mil e uma expressões severas. Algumas, provavelmente resultantes de acabamentos apressados, mais pareciam gravuras rupestres. Virando os olhos para o lado, na busca do mato em redor, nada se via, nem sequer uma carqueja ou uma giesta! Lá fomos prisioneiros daquele comboio de vapores suspensos, que parecia vir do Infinito e para ele voltar, conduzindo-nos por um rio de águas buliçosas, como a caminho de um buraco negro. Apeteceu-me dizer: hoje também eu vou andar sobre as águas!
Mais ou menos por alturas do meio do percurso, chegou-se-nos a vontade de amansar o ronronar do estômago. O espírito ainda se aguentara, mas a carne cedera! Na “Área de Serviços”, o mau como de costume – comeres desprovidos de sabor e caros! Ao chegar a uma “Área” destas, tenho sempre a sensação de me estar a encontrar com uma qualquer civilização perdida. Porque se não põe ordem naquilo?!
Bebida a bica, de novo rodas na estrada. As nuvens continuavam, cada uma engendrando outra, ligando-se numa imbricação sem fim. Uma vez mais o confronto com um acesso de fúria dos céus. Agora já não chovia que Deus a dava, mas mais. A água caía de cima, soprava dos lados, até do asfalto parecia nascer. Era tal que até os cães, se por ali andassem, a beberiam de pé!
Assim foi sendo até chegarmos ao destino. Aqui, uma surpresa: a avenida do hotel, bordejando o Atlântico, fora transformada em zona pedonal com calçada à portuguesa, resultante da Requalificação da Beira-mar, a que meteram ombros a autarquia, o ministério da Economia e o Fundo de Turismo. Dá gosto ver a obra que ali foi feita. Ponham-se lá mímicos, actores, músicos, floristas e a alegria catalã, e, de repente, passe o exagero, até nos poderemos imaginar nas Ramblas de Barcelona! Neste País (calai-vos profetas da desgraça!) ainda se trabalha, e bem! Para que melhor víssemos o belo que aquilo ficou a chuva cessou, não nos saciando, embora, a fome de céu azul. Não! Lá por cima permanecia tudo escurecido, só que as nuvens já não desenhavam rostos de expressões sorumbáticas. Estavam, agora, assemelhando-se a fantasmas fugidios, porventura recolhendo-se, sabe-se lá aonde, levando com eles os regadores.
Depois de instalados fomos à demanda do restaurante para o jantar. Encontramo-lo quase cheio, mas ainda com uma mesa para dois, em local aprazível. Encomenda feita reparámos que a sala estava cheia com gentes locais: irlandeses, escoceses, ingleses e canadianos. Recém-chegados da portuguesa e bela Região do Oeste, éramos os únicos estrangeiros!
