Contou-me o Mwata Milagre:
“Deus parou à beira do rio. Quis por-lhe nome, mas aquelas águas já se chamavam Kwanza. Do barro pisado fez terra linda, a Muxima. Prencheu-a de mortais, todos negros, permitindo que se amontoassem. Depois olhou e cogitou, algo falta. Foi ao fundo do rio dele voltando com areia branca, juntou-lhe argila e, com afã, mesmo sem ter costela à mão, pôs-se a moldar. Nasceu uma Senhora a quem disse ficas santa para cuidar desta gente. Que nome me dás, perguntou a recém-nascida. Virgem, mas não serás de Chestokova, essa já lá a deixei.
Um dia, por desavença com o Criador nascida das dúvidas com que os mortais do sítio olhavam para a sua cor, e porque já era dona de alguns poderes, mudou-se de capa. Fez-se negra como eles que, a partir dali, seus devotos ficaram. Pensou em tornar-se mágica. Talvez deusa. Desistiu, santa era melhor!
Deus não gostou. Na altura, pesava-lhe ainda no espírito se havia de criar devoções da cor dos terrenos de cada local, dúvida ainda hoje mantida. Por outro lado, revoltas nunca foram do seu agrado, muito menos agora, a idade já vai indo. Entendeu, do mesmo modo, ser presunção, orgulho e heresia a mais. Irou-se. Susteve-se, contudo. Deixou que a rebelde continuasse negra, mas condenou-a a ficar ali para sempre como santa residente, – o degredo na terra da aparição – e duplicou-a em branco, mandando a réplica peregrinar pelo mundo, para, invocando-O, originar outras adorações. Porém, nem mesmo o Criador está a precato de percalços.
Tempos depois, cansada de vaguear, e estando Deus por fora, a Senhora branca levada por brisa brumosa chegou à Muxima. Deitou-se aos pés de uma panga-panga. Gritou a fadiga. Ficou a ver a voz morrer no meio dos ecos. Cheirou o vento, este uivou e escapou-se! Cerrou os olhos. Das nuvens desceu sobre ela uma lamparina acesa. Adormeceu. Despertou com o afago de uma mão negra.
Estava ali, à distância de um toque, a sua irmã, a Senhora negra. Deram-se abraços, misturaram lágrimas e risos. Viraram costas ao hálito do rio. Falaram de coisas. A Senhora branca contou ter observado muitas terras e gentes, diferentes dos Dondos do Kwanza, que é assim que se chamam os povos Bantos daqui. Fizera conhecimento com outras santas, mas nenhuma negra como a sua gémea, o que a não surpreendeu por ser aquela assim por artes próprias e não por vontade de Deus, embora tivesse ouvido falar de uma Santa Negra em terras muito distantes, onde não chegara, e quase só havia brancos. Do Criador reconheceram ambas ainda guardarem melindres.
Depressa os esqueceram, reconhecendo-Lhe bondade por de uma ter feito outra, libertando-as da solidão. É que, disse a branca à irmã, das Santas que conhecera, todas se lastimavam de estarem sós, não terem com quem falar, pois aos devotos só os ouviam, estando-lhes interdito dizerem-lhes uma única palavra que fosse. Só podiam conceder-lhes graças, mesmo assim nem sempre, e, só excepcionalmente mostrarem-se. Elas, ao menos, embora por distraimento divino, tinham-se encontrado, viam-se, tocavam-se, falavam-se, o que era bom e lhes apetecia.
Uniram poderes. Pararam o tempo. Cismaram à vontade. Gizaram ideias novas e uma astúcia: a construção de uma igreja para onde todos os anos se encaminharia uma marcha. Longe estavam as manas santas de adivinhar que pela boca morreriam, como o peixe. Morrer não é propriamente o caso, que de um anexim se trata, mas a verdade é que o Criador se aproveitou da ideia. Não tardou em transformar a marcha em peregrinação com penitentes pagadores de promessas, outros à busca de milagres, e uma procissão paramentada a preceito – a Procissão da Senhora da Muxima –, o que significou esforço suplementar para as irmãs, a partir dali obrigadas ao acompanhamento permanente dos devotos. Mas isso foi depois.
Voltando às parecidas, elas, sem medo que Deus as julgasse desajuizadas, com a intuição de mulheres que também o eram, de que as sentenças Dele ficam sempre por acabar, e tendo já aprendido, de outros saberes, que a mentira tem perna curta, falaram-Lhe dos seus desejos. Em voz alta, Deus estava de mau ouvir!
Paciente, Deus escutou. Como já dera a volta à sagacidade das veneráveis, não discordou. Doravante, as duas poderiam encontrar-se, mas impôs regras: a rebelde continuaria na Muxima, a outra, viajando. Os encontros seriam apenas de cem em cem anos, no tempo dos humanos. E, como definitiva concessão, acrescentou: os encontros poderiam ser testemunhados por devotos e por quem o não fosse, e, para que na memória das gerações ficassem, cada uma delas concederia duas graças à escolha. Assim foi.
As irmãs obedeceram, pois opção não tinham, já que Criador só aquele conheciam e o risco não era vereda de seu agrado. Quanto às graças, apesar de duas, século a século lhes não darem trabalho por aí além, nem exigirem temperada imaginação, demorou-lhes a porem-se de acordo. Mas lá assentaram que só as concederiam aos necessitados de espírito, porque dos corpos tratassem os mortais! As almas? Ver-se-ia mais tarde, se necessário. Meteram-se ao trabalho.
Os feitos logo se conheceram. De toda a parte, daquela terra e de fora dela, chegava gente para ver e mais tarde adorar a Senhora Negra da Muxima. Eram negros, brancos e mulatos, estes chamados de pardos, naqueles tempos, alguns albinos que também os havia. Muitos de outras crenças que, na curiosidade do pode ser que, por ali peregrinavam correndo o risco da conversação, como a alguns aconteceu. Os que passavam pela Muxima ao dobrar dos séculos, no ano cem de cada um, viam de uma sair outra, e as duas amilagrarem em conjunto.”
Um antepassado do Milagre testemunhou a duplicação das Senhoras. Não recebeu graça nenhuma, mas com isso pouco se importou, pois de espírito não era pobre e à demanda da Muxima não fora para graças receber; apenas para ver. Contou o que testemunhou aos descendentes, e estes, às gerações a seguir.
Um dia, por desavença com o Criador nascida das dúvidas com que os mortais do sítio olhavam para a sua cor, e porque já era dona de alguns poderes, mudou-se de capa. Fez-se negra como eles que, a partir dali, seus devotos ficaram. Pensou em tornar-se mágica. Talvez deusa. Desistiu, santa era melhor!
Deus não gostou. Na altura, pesava-lhe ainda no espírito se havia de criar devoções da cor dos terrenos de cada local, dúvida ainda hoje mantida. Por outro lado, revoltas nunca foram do seu agrado, muito menos agora, a idade já vai indo. Entendeu, do mesmo modo, ser presunção, orgulho e heresia a mais. Irou-se. Susteve-se, contudo. Deixou que a rebelde continuasse negra, mas condenou-a a ficar ali para sempre como santa residente, – o degredo na terra da aparição – e duplicou-a em branco, mandando a réplica peregrinar pelo mundo, para, invocando-O, originar outras adorações. Porém, nem mesmo o Criador está a precato de percalços.
Tempos depois, cansada de vaguear, e estando Deus por fora, a Senhora branca levada por brisa brumosa chegou à Muxima. Deitou-se aos pés de uma panga-panga. Gritou a fadiga. Ficou a ver a voz morrer no meio dos ecos. Cheirou o vento, este uivou e escapou-se! Cerrou os olhos. Das nuvens desceu sobre ela uma lamparina acesa. Adormeceu. Despertou com o afago de uma mão negra.Estava ali, à distância de um toque, a sua irmã, a Senhora negra. Deram-se abraços, misturaram lágrimas e risos. Viraram costas ao hálito do rio. Falaram de coisas. A Senhora branca contou ter observado muitas terras e gentes, diferentes dos Dondos do Kwanza, que é assim que se chamam os povos Bantos daqui. Fizera conhecimento com outras santas, mas nenhuma negra como a sua gémea, o que a não surpreendeu por ser aquela assim por artes próprias e não por vontade de Deus, embora tivesse ouvido falar de uma Santa Negra em terras muito distantes, onde não chegara, e quase só havia brancos. Do Criador reconheceram ambas ainda guardarem melindres.
Depressa os esqueceram, reconhecendo-Lhe bondade por de uma ter feito outra, libertando-as da solidão. É que, disse a branca à irmã, das Santas que conhecera, todas se lastimavam de estarem sós, não terem com quem falar, pois aos devotos só os ouviam, estando-lhes interdito dizerem-lhes uma única palavra que fosse. Só podiam conceder-lhes graças, mesmo assim nem sempre, e, só excepcionalmente mostrarem-se. Elas, ao menos, embora por distraimento divino, tinham-se encontrado, viam-se, tocavam-se, falavam-se, o que era bom e lhes apetecia.
Uniram poderes. Pararam o tempo. Cismaram à vontade. Gizaram ideias novas e uma astúcia: a construção de uma igreja para onde todos os anos se encaminharia uma marcha. Longe estavam as manas santas de adivinhar que pela boca morreriam, como o peixe. Morrer não é propriamente o caso, que de um anexim se trata, mas a verdade é que o Criador se aproveitou da ideia. Não tardou em transformar a marcha em peregrinação com penitentes pagadores de promessas, outros à busca de milagres, e uma procissão paramentada a preceito – a Procissão da Senhora da Muxima –, o que significou esforço suplementar para as irmãs, a partir dali obrigadas ao acompanhamento permanente dos devotos. Mas isso foi depois.
Voltando às parecidas, elas, sem medo que Deus as julgasse desajuizadas, com a intuição de mulheres que também o eram, de que as sentenças Dele ficam sempre por acabar, e tendo já aprendido, de outros saberes, que a mentira tem perna curta, falaram-Lhe dos seus desejos. Em voz alta, Deus estava de mau ouvir!
Paciente, Deus escutou. Como já dera a volta à sagacidade das veneráveis, não discordou. Doravante, as duas poderiam encontrar-se, mas impôs regras: a rebelde continuaria na Muxima, a outra, viajando. Os encontros seriam apenas de cem em cem anos, no tempo dos humanos. E, como definitiva concessão, acrescentou: os encontros poderiam ser testemunhados por devotos e por quem o não fosse, e, para que na memória das gerações ficassem, cada uma delas concederia duas graças à escolha. Assim foi.
As irmãs obedeceram, pois opção não tinham, já que Criador só aquele conheciam e o risco não era vereda de seu agrado. Quanto às graças, apesar de duas, século a século lhes não darem trabalho por aí além, nem exigirem temperada imaginação, demorou-lhes a porem-se de acordo. Mas lá assentaram que só as concederiam aos necessitados de espírito, porque dos corpos tratassem os mortais! As almas? Ver-se-ia mais tarde, se necessário. Meteram-se ao trabalho.
Os feitos logo se conheceram. De toda a parte, daquela terra e de fora dela, chegava gente para ver e mais tarde adorar a Senhora Negra da Muxima. Eram negros, brancos e mulatos, estes chamados de pardos, naqueles tempos, alguns albinos que também os havia. Muitos de outras crenças que, na curiosidade do pode ser que, por ali peregrinavam correndo o risco da conversação, como a alguns aconteceu. Os que passavam pela Muxima ao dobrar dos séculos, no ano cem de cada um, viam de uma sair outra, e as duas amilagrarem em conjunto.”
Um antepassado do Milagre testemunhou a duplicação das Senhoras. Não recebeu graça nenhuma, mas com isso pouco se importou, pois de espírito não era pobre e à demanda da Muxima não fora para graças receber; apenas para ver. Contou o que testemunhou aos descendentes, e estes, às gerações a seguir.

O rio continua a correr de Norte para Sul. A panga-panga permanece envolta por uma brisa brumosa. O vento voltou. Feneceu a chama da lamparina. Deus deixou de andar por lá.