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sábado, 10 de outubro de 2009

Saudade



Acordei com saudade de ontem.
Porquê?!


Talvez porque passou mais um dia – amigo que foi e não volta. Quiçá porque o ramo de afectos não é mais de hoje, mas de ontem ali recolhido ao colo das memórias.
Está Sol. Fui à varanda cumprimentar as plantas que lá florescem. A flor que ontem ao entardecer chorava porque a humidade embaciara a vidraça e a chegada da noite lhe furtara o dia, está hoje a sorrir. O caroço do abacate espigou! Já se vêem os bracitos das sementes do jindungo lançadas à terra, faz hoje uns dias. Lá fora a folha das árvores permanece verde. Um chorão ajoelha beijando o chão. Sobre a relva aparada do parque pinoteiam crianças, ouço-lhes o riso. Das mãos de uma delas solta-se uma bola azul, assim parecida com uma Terra pequenina que vai girando, deixando-se levar para a sombra da acácia. Porquê, então, esta saudade de ontem?

Saudade

Saudade – O que será... não sei... procurei sabê-lo
em dicionários antigos e poeirentos
e noutros livros onde não achei o sentido
desta doce palavra de perfis ambíguos.

Dizem que azuis são as montanhas como ela,
que nela se obscurecem os amores longínquos,
e um bom e nobre amigo meu (e das estrelas)
a nomeia num tremor de cabelos e mãos.

Hoje em Eça de Queiroz sem cuidar a descubro,
seu segredo se evade, sua doçura me obceca
como uma mariposa de estranho e fino corpo
sempre longe - tão longe! - de minhas redes tranquilas.

Saudade... Oiça, vizinho, sabe o significado
desta palavra branca que se evade como um peixe?
Não... e me treme na boca seu tremor delicado...
Saudade...

(Pablo Neruda, in "Crepusculário"
Tradução de Rui Lage)