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sexta-feira, 25 de março de 2011

De quando o tempo foi assim


É um homem sem dentro, que ali está sentado, a olhar o mergulho do Sol no outro lado da mata.
Desgovernado o suor corre-lhe da testa, inunda-lhe os olhos forçando-lhe as lágrimas. Estas chegam-se-lhe aos lábios neles deixando não o habitual sabor da vida, mas um saibo a fel.

Revive a emboscada. O metralhar das armas, o silvo das balas, a gritaria. Depois o silêncio e o levantar servindo-se da arma como um bordão de fogo sujo. “Não há baixas!”, ouve.
Dá um passo. Quase tropeça num corpo estendido. Baixa-se. Vê uns olhos abertos de medo, un tronco descoberto, umas pernas vestidas de calças esfarrapadas e uns pés nus de planta grossa e encarquilhada denunciando muitas rugas de terra percorridas. Aproxima-se um pouco mais. O corpo diz-lhe:
“Já mataste tudo o que tinhas dentro de ti. Precisas, também, de me matar?”.
Olha, de novo, os olhos de medo, que agora choram. Levanta-se e fala-lhe:
“Vai!”. Deixa-o sair, correndo capim fora.
Já o Sol se pôs. A noite desenha a silhueta das árvores. Nunca, antes, as viu assim. Parecem ter medo do dia de amanhã. No céu as estrelas escrevem a fogo:
“Já mataste tudo o que tinhas dentro de ti. Precisas, também, de me matar?”.