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sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Do Viajante


À Janela do Tempo

Não se lhe pergunte a idade, a resposta poderá ficar por se ouvir. À força de insistência acabará por dizer, tenha-se por mais certo, não sei, ela muda todos os dias. Saiba-se, apenas, que está ali, sentado naquele banco pintado de verde mais parecendo debruçado sobre uma janela do tempo, tal a posição a que se dão tronco e mãos.
Repare-se, está de testa franzida, olhar viajando. Estranha postura? Vá lá saber-se! Nem sempre o que parece é, mas o ser dele, hoje, denota, com uma observação mais cuidada o podemos observar, que um turbilhão o envolve – um tropel de ideias e sentimentos cirandando por si adentro!
Das ideias retém a de que não deve permitir que a ordem de seguir a ordem das coisas se lhe imponha. Não quer mergulhar no caos organizado. Desalinhar as pedras do xadrez, salvaguardando os peões, com que quem comanda a vida com ele quer jogar, está ele agora a imaginar, pode levá-lo a lances de um xeque vencedor. Tem por ideia que, se o fizer, não deixará atar-se pelas suas próprias mãos.
Dos sentimentos repele os ditados por palavras aos solavancos, atropelando-se, preenchendo horas vazias, gritando silêncios impertinentes. Sabe ele: muitas vezes as emoções pouco ou nada têm de sábias, embora se vistam de tal, apontam para caminhos errados.
Ditas as coisas deste modo é admissível pensar ter ele estado à conversa com o turbilhão. Deixemos que o pensamento assim se mantenha.
Está agora de testa já não franzida e de olhar regressado. Movem-se-lhe os lábios. Esgueirando-se por entre a folhagem das árvores que o circundam, a brisa sopra e traz para que se ouça:
Porque te chegaste hoje, nostalgia? Quando partires não me leves nem o pensamento nem as palavras. Um e outras são o que ainda de meu vou tendo.