Sentado na esplanada do Shopping, saboreava um café.
Acabara de ver “Amar…é complicado” (“It’s Complicated”), com Steve Martin completamente perdido e Alec Baldwin, bom, adiante… A minha tarde de cinema foi salva por Meryl Streep, o fulgor e o brilho de uma grande actriz, sempre ela!
Passou por mim um homem, aí nos quarenta, com uma menina pela mão, seis, sete anitos, não mais. Sentaram-se numa mesa, três quatro metros distante da minha. Olhei-os melhor. Ele pareceu-me pai divorciado, em dia com a filha à sua guarda. A menina sentou-se, com gestos suaves puxou os cabelos deixando-os cair pelos ombros, pousou as mãos sobre os joelhos, e mandou os seus olhinhos brilhantes percorrer as mesas na busca de algo. Assim ficou.
Com a largura da mesa a separá-los, o pai tomou a cadeira defronte dela. Acendeu um cigarro, levantou a cabeça e expeliu o fumo, ficando a ver as espirais trepando pelo ar. Espreguiçou-se. Depois, tirou do bolso o telemóvel, encostou-lhe o ouvido. Ficou tempos à conversa com alguém, presumi. De seguida, pousou o telemóvel, atirou o cigarro para o chão, esmagou-o com o pé. Provavelmente, imaginei, ter-lhe-iam falado de guerras, de terra queimada onde não florescem flores.
Rompendo o ruído da esplanada, ouvi o silêncio profundo que me chegou daquela mesa.
A menina fixou, então, os olhinhos no pai, num ver de quem continuava à procura. Ele reparou, passou-lhe o telemóvel, sem qualquer palavra, apenas com o gesto da mão estendida com o aparelho. A filha nele pegou, pondo-se a dedilhar, por certo abrindo um daqueles jogos que vivem nos telemóveis. Por um momento fugaz sorriu, como se os jogos lhe estivessem a fazer cócegas, ou parecendo estar a jogar às cinco pedrinhas. De pronto, recuperou o olhar triste.
Passaram minutos. O pai acendeu outro cigarro, desdobrou o jornal que levara debaixo do braço. Pôs-se à cata das letras gordas, assim me pareceu, dada a velocidade com virava as páginas. A menina continuava às voltas com o jogo, percorrendo, de quando em vez, com o olhar perdido, as mesas em volta.
Voltou a chegar-se-me, mais forte, o silêncio daquela mesa.
Correram outros minutos.
O pai dobrou o jornal, estendeu a mão a recolher o telemóvel. Levantou-se. Nos olhinhos dela vi pontos de interrogação. Seguiu, agarrada à mão do silêncio do pai, em direcção à porta, por aquele caminho por onde não saltava nem ria. Antes de deixar a esplanada olhou para trás. Vi, no seu olhar, agora ansioso, uma mão aberta, estendida, à procura….
Eu sei que nunca é demasiado longe, mas como eu gostaria de não ver e ouvir, nunca mais, silêncio como o daquela mesa.
Sorvi a última gota do café, já frio. Soube-me a amargo.

Passou por mim um homem, aí nos quarenta, com uma menina pela mão, seis, sete anitos, não mais. Sentaram-se numa mesa, três quatro metros distante da minha. Olhei-os melhor. Ele pareceu-me pai divorciado, em dia com a filha à sua guarda. A menina sentou-se, com gestos suaves puxou os cabelos deixando-os cair pelos ombros, pousou as mãos sobre os joelhos, e mandou os seus olhinhos brilhantes percorrer as mesas na busca de algo. Assim ficou.
Com a largura da mesa a separá-los, o pai tomou a cadeira defronte dela. Acendeu um cigarro, levantou a cabeça e expeliu o fumo, ficando a ver as espirais trepando pelo ar. Espreguiçou-se. Depois, tirou do bolso o telemóvel, encostou-lhe o ouvido. Ficou tempos à conversa com alguém, presumi. De seguida, pousou o telemóvel, atirou o cigarro para o chão, esmagou-o com o pé. Provavelmente, imaginei, ter-lhe-iam falado de guerras, de terra queimada onde não florescem flores.
Rompendo o ruído da esplanada, ouvi o silêncio profundo que me chegou daquela mesa.
A menina fixou, então, os olhinhos no pai, num ver de quem continuava à procura. Ele reparou, passou-lhe o telemóvel, sem qualquer palavra, apenas com o gesto da mão estendida com o aparelho. A filha nele pegou, pondo-se a dedilhar, por certo abrindo um daqueles jogos que vivem nos telemóveis. Por um momento fugaz sorriu, como se os jogos lhe estivessem a fazer cócegas, ou parecendo estar a jogar às cinco pedrinhas. De pronto, recuperou o olhar triste.
Passaram minutos. O pai acendeu outro cigarro, desdobrou o jornal que levara debaixo do braço. Pôs-se à cata das letras gordas, assim me pareceu, dada a velocidade com virava as páginas. A menina continuava às voltas com o jogo, percorrendo, de quando em vez, com o olhar perdido, as mesas em volta.
Voltou a chegar-se-me, mais forte, o silêncio daquela mesa.
Correram outros minutos.
O pai dobrou o jornal, estendeu a mão a recolher o telemóvel. Levantou-se. Nos olhinhos dela vi pontos de interrogação. Seguiu, agarrada à mão do silêncio do pai, em direcção à porta, por aquele caminho por onde não saltava nem ria. Antes de deixar a esplanada olhou para trás. Vi, no seu olhar, agora ansioso, uma mão aberta, estendida, à procura….
Eu sei que nunca é demasiado longe, mas como eu gostaria de não ver e ouvir, nunca mais, silêncio como o daquela mesa.
Sorvi a última gota do café, já frio. Soube-me a amargo.
