“Estou num dia em que me pesa, como uma entrada no cárcere, a monotonia de tudo. A monotonia de tudo não é, porém, senão a monotonia de mim.”
(Bernardo Soares – Livro do Desassossego)
(Bernardo Soares – Livro do Desassossego)
Ah, a monotonia!
Veio átono o dia que hoje chegou. Mudei o olhar, fugindo ao monótono. Na palma da mão detive-me em linhas que são minhas, as linhas da minha mão. Em tempos quiseram lê-las. Disse que não. Elas nunca seriam para outros o que são para mim. Para além disso, perscrutá-las é um acto íntimo, só meu. É por elas que se vão escrevendo e guardando pedaços de vida, que vida me vão dando e tirando. Por vezes embaraçam-se, é certo. Ocasiões há em que erguem tabuletas com sinais sempre, ou quase, indecifráveis. Em momentos de reflexão guardam segredos, ciosas. Noutros soltam-se, vadias, correndo em busca do que sabem ser uma quimera. Fingem, como o poeta. As linhas da minha mão não conseguem nunca libertar-se do que são – as minhas linhas da mão!
E agora, para onde vão elas? Insisto. Por estranho que pareça soltam-se-lhes palavras, palavras não vazias. Entendo que desatinaram, e, em tal desatino, desafinado me chamam.