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sábado, 7 de agosto de 2010

Fado

A primeira vez que ouvi o fado que hoje vos trago, foi há muitos anos atrás. Cantarolava-o, baixinho, um colega meu. Andávamos ambos em reportagem de guerra, nas matas de Sandongo no Leste de Angola, acompanhando um grupo de guerrilheiros que combatia o governo de Luanda. Um jornalista, em reportagem de guerra numa mata perdida em terras longínquas, ignorada do mundo, onde de manhã à noite se ouviam tiros e explosões, que nos obrigavam a um constante atirar para o chão, a cantar o fado?! Pois é verdade! Como verdade foi que gostei de ouvir a sua voz roufenha, eu que, confesso, não sou grande apreciador de fado. Porque quis saber, disse-me ele que cantava aquele fado por o ter como uma homenagem à mulher! Como eu, o meu colega era, e é, um romântico dado à poesia e ao belo da vida.
Não me perguntem porque vos falo hoje disto. Foi um fragmento das minhas recordações que me visitou. E quando as memórias chegam, não há nada a fazer, apoderam-se de nós!
Pergunta tenho eu para vos fazer: também acham que este fado é uma homenagem à mulher? Não sejam frugais no alimentar do pensamento. Respondam, por favor.
Um abraço e desejos de bom fim-de-semana.

Não Venhas Tarde
Voz: Carlos Ramos
Composição: Anibal Nazaré e João Nobre

“não venhas tarde!”,
Dizes-me tu com carinho,
Sem nunca fazer alarde
Do que me pedes, baixinho
“não venhas tarde!”,
E eu peço a deus que no fim
Teu coração ainda guarde
Um pouco de amor por mim.

Tu sabes bem
Que eu vou p’ra outra mulher,
Que ela me prende também,
Que eu só faço o que ela quer,
Tu estás sentindo
Que te minto e sou cobarde,
Mas sabes dizer, sorrindo,
“meu amor, não venhas tarde!”

“não venhas tarde!”,
Dizes-me sem azedume,
Quando o teu coração arde
Na fogueira do ciúme.
“não venhas tarde!”,
Dizes-me tu da janela,
E eu venho sempre mais tarde,
Porque não sei fugir dela

Tu sabes bem

Sem alegria,
Eu confesso, tenho medo,
Que tu me digas um dia,
“meu amor, não venhas cedo!”
Por ironia,
Pois nunca sei onde vais,
Que eu chegue cedo algum dia,
E seja tarde demais!