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quinta-feira, 29 de outubro de 2009

A semente de Tamarindo

Ele tem uma amoreira no jardim.
Sem história, mas senhora duma arte: esfria o calor, refrescando tudo à sua volta. É mãe de muitos rebentos, sobre os quais as manhãs costumam empoleirar-se. Dias há em que por eles sussurram abelhas. Já se ouviu a voz do tempo dizer ser filha da jaca do quimbo de Adão e Eva.
É alta e robusta, embora mais baixa que o tamarindeiro, mas, ao contrário deste, arquitecta de larga sombra. No meio da folhagem verde-escuro por onde passeiam as amoras, primeiro verdes, depois arroxeadas, e, a seguir, já quando maduras, tintas como sangue, abre-se um espaço. Chuvas rijas despejadas do interior e ventos vagabundos varridos do mar, os mesmos que no equinócio impelem as calemas, quebraram-lhe um galho, que se desprendeu arrastando folhas e ramos mais pequenos, sem que qualquer ninho de bico-de-lacre trouxesse, desenhando o lugar por onde agora se vê o outro lado.
Ao pôr-do-sol, que é quando o tempo lhe sobra, e a luz da estrela por lá espreita, senta-se na escadaria da varanda, ajeita a madeixa teimosa e põe-se a mirar pelo buraco.
Lá está, Ela. Morena, nariz arrebitado, olhos gaiatos, risonhos, sedutores, mescla de azul e verde, onde faisca o querer, cabelos dourados com fios arruivados.
Ela tem também uma árvore no jardim, um tamarindeiro. É sob ele que está, contando as sementes que se soltam dos vagens caídas de cima, já mucefas. Chega-lhe o olhar trazido do poente viajando pelo buraco da amoreira. Uma das sementes de tamarindo salta-lhe para o regaço. Olham-se as duas. Diz Ela: leva-me a Ele.
Do alto do tamarindeiro desce um remoinho, sorve as sementes, chama o Sol já de partida, e a Lua que chega. Leva-os, a todos, à escadaria da varanda do jardim onde vive a amoreira. Tece colares. Deixa um no peito d’Ele, regressa com outro para Ela. Dos corações de ambos escutam-se tan-tans alvoraçados.
O Sol despede-se, a Lua enche, perene de luz e essências do ceu. O buraco da amoreira fecha-se. Na manhã de amanhã o tamarindeiro folheará mais verde.
Ela e Ele vivem hoje um amor eterno, de sementes de tamarindo, e beijos de amora.