Mafu e Suru
Quem ali está, a ajeitar a rede na canoa, é o jovem Suru. Negro, alto e seco de carnes, como o são os pescadores da Ilha. Cedo se fará ao mar esperançado na recolha do fruto que lhe permitirá sustentar-se e à família. Levará, também, um medo, o de encontrar uma Kyanda.
Kyandas chamavam os pescadores às criaturas surgidas do mar em noite de Lua Cheia, no tempo das calemas. Nunca as viram. Só as silhuetas, ao longe, meio emersas. Que coisas serão, interrogavam-se. Enquanto trabalhavam as artes da pesca fantasiavam. Uns, imaginando tratar-se de princesas de soberanias desconhecidas, outros acreditando serem manigâncias do génio do mar.
Fora sempre assim.
Ao correr da faina, contavam os pescadores aos filhos, uns avistavam duas, outros três ou quatro. Não mais, que as criaturas eram raras de aparecer. E nada de caminhar mar adentro, ao seu encontro. Se o fizessem não voltariam, pois a soberana delas, a Kyanda de Luanda, mais poderosa que a Rainha Ginga das terras de Pungo Andongo, os aprisionaria no seu reino das profundezas, para sempre.
Kyandas chamavam os pescadores às criaturas surgidas do mar em noite de Lua Cheia, no tempo das calemas. Nunca as viram. Só as silhuetas, ao longe, meio emersas. Que coisas serão, interrogavam-se. Enquanto trabalhavam as artes da pesca fantasiavam. Uns, imaginando tratar-se de princesas de soberanias desconhecidas, outros acreditando serem manigâncias do génio do mar.
Fora sempre assim.
Ao correr da faina, contavam os pescadores aos filhos, uns avistavam duas, outros três ou quatro. Não mais, que as criaturas eram raras de aparecer. E nada de caminhar mar adentro, ao seu encontro. Se o fizessem não voltariam, pois a soberana delas, a Kyanda de Luanda, mais poderosa que a Rainha Ginga das terras de Pungo Andongo, os aprisionaria no seu reino das profundezas, para sempre.
Cachimbando de costas dadas às casuarinas, os mais velhos diziam que nas Kyandas não se poderia tocar, era morte, por certo.
Eram as regras dos dois mundos.
Eram as regras dos dois mundos.
Difíceis para todos, mas em particular para alguns dos pescadores, os que ximbicavam as canoas centenas de metros pelo mar da sua riqueza, lançando as redes para serem puxadas de terra. Era sério, o risco. Mesmo que as não vissem, pois não raro acontecia que de dentro do mar lhes chegava o ruído de alguém ou alguma coisa abrindo as águas em sua direcção. Quando tal acontecia apressavam a faina, rumavam a terra, céleres.
Uma noite a Ilha moveu-se. A Lua mais cheia ficou. As calemas aquietaram-se. O mar mirrou. A Kyanda branca de tranças louras que olhava a Lua deitada sobre uma pedra ficou no seco, tocou terra. A Lua apagou-se. Nuvens escuras almofadaram o céu, luzes fortes as rasgaram, ribombaram trovões, como nunca antes sucedera.
Na praia, os pescadores sentiram as cordas frouxas. O mar encambutou. As redes repousaram sobre a areia com miríades de peixes estrebuchando, caranguejos esticando as tenazes por entre as malhas.
Suru olhou em frente, buscando o explicável. Viu-a na areia húmida. O mar estava lá mais abaixo. Aproximou-se. Deu com olhos verdes, fundos como as águas da sua pesca, reluzindo pregados nos seus. Sentiu um aperto no peito e calor abrasando-o. Correu em frente. Ela atirou-lhe braços e mãos. Repousaram as cabeças nos ombros. As tranças suaves enroscaram-se na carapinha áspera. Soube-lhes um gosto de aprazimento nunca sentido.
Uma noite a Ilha moveu-se. A Lua mais cheia ficou. As calemas aquietaram-se. O mar mirrou. A Kyanda branca de tranças louras que olhava a Lua deitada sobre uma pedra ficou no seco, tocou terra. A Lua apagou-se. Nuvens escuras almofadaram o céu, luzes fortes as rasgaram, ribombaram trovões, como nunca antes sucedera.
Na praia, os pescadores sentiram as cordas frouxas. O mar encambutou. As redes repousaram sobre a areia com miríades de peixes estrebuchando, caranguejos esticando as tenazes por entre as malhas.
Suru olhou em frente, buscando o explicável. Viu-a na areia húmida. O mar estava lá mais abaixo. Aproximou-se. Deu com olhos verdes, fundos como as águas da sua pesca, reluzindo pregados nos seus. Sentiu um aperto no peito e calor abrasando-o. Correu em frente. Ela atirou-lhe braços e mãos. Repousaram as cabeças nos ombros. As tranças suaves enroscaram-se na carapinha áspera. Soube-lhes um gosto de aprazimento nunca sentido.
Ela e ele sentiam, há muito, a vontade de infringir a lei dos dois mundos.
Ela disse-lhe chamar-se Mafu. Encostaram corpos. A parte dela transformou-se em mulher. Suru sentiu novo calor. Passou-se para Mafu. Inebriaram-se.
Do mar ergueu-se a Kyanda de Luanda, chispando raivas pelos olhos, soltando fúrias pelos cabelos, lançando ameaças pelas mãos. Dos ombros caíram-lhe cachoeiras de águas em fúria como as da Gabela. Ia destrui-los!
Num repente, a Lua voltou a brilhar. A Kyanda de Luanda viu o beijo prolongado de Suru e Mafu. Comoveu-se. Desculpou-lhes o toque profano. Regressou ao seu reino. Nas libatas, assim se chamavam as aldeias da Ilha, ouviu-se o rufar de tambores em festa.
Hoje, os filhos de Mafu e Suru, da cor misturada dos dois, acompanham os pais. Eles ajudando Suru nas artes da pesca. Elas aprendendo com Mafu a entrelaçar o cabelo.
Do mar ergueu-se a Kyanda de Luanda, chispando raivas pelos olhos, soltando fúrias pelos cabelos, lançando ameaças pelas mãos. Dos ombros caíram-lhe cachoeiras de águas em fúria como as da Gabela. Ia destrui-los!
Num repente, a Lua voltou a brilhar. A Kyanda de Luanda viu o beijo prolongado de Suru e Mafu. Comoveu-se. Desculpou-lhes o toque profano. Regressou ao seu reino. Nas libatas, assim se chamavam as aldeias da Ilha, ouviu-se o rufar de tambores em festa.
Hoje, os filhos de Mafu e Suru, da cor misturada dos dois, acompanham os pais. Eles ajudando Suru nas artes da pesca. Elas aprendendo com Mafu a entrelaçar o cabelo.
O génio do mar nunca apareceu!