
Memórias (1)
(De gentes e coisas, que conheceu no extremo Norte)
(De gentes e coisas, que conheceu no extremo Norte)
Quatrocentos e alguns quilómetros depois da partida do litoral, já lá vão, a estrada de terra batida, as florestas e as matas verdes e densas. Agora, circula-se sobre os trilhos de uma picada, que mal se vê, serpenteando por entre extensos areais, à conquista da planura árida, dominada por embondeiros, espinheiras, cactos candelabros, maboqueiros e arbustos meio secos. Zona de caça grossa, diz o motorista, levando a mão à espingarda arrumada ao alto, atrás do encosto do seu assento. Do leão apenas escutam o rugido de rei, que os faz tremer. À vista só uma pacaça que, pachorrenta e indiferente, mas de virar de cornos ameaçador, atravessa a picada.
De quando em quando pequenos vórtices aspiram o solo, lançando ao ar areia fina e folhas secas, parecendo que anda por ali uma pua gigante a querer penetrar o chão. Ao entardecer o verde regressa à paisagem. Atravessam um palmar, no fim do qual o caminho corta a meio uma sanzala. Dum lado e doutro, crianças e mulheres, estas com cachos de dendê à cabeça – algumas também com bebés às costas, seguros por panos amarrados ao peito –, acenam-lhes. Por aqui já se vêem cajueiros, mangueiras e um bananal. Mais ao fundo avistam-se árvores de maior porte. Umas são eucaliptos-gigantes, outras panga-panga e abacateiros, a avisarem da proximidade da cordilheira que terão de conquistar em rota para as terras altas, de forte vegetação e das grandes chuvas – a região do café, a que chamam, igualmente, os campos do ouro negro. Sobre o horizonte recorta-se o cume da serra mais alta, envolto por um anel de nuvens brancas, como se a Natureza estivesse em pedido de casamento.
Chove a cântaros. São sete da manhã, mas parece noite. A cortina de água, cor de chumbo, cobre o mundo à volta. Faíscas chispam por toda a parte, iluminando o céu, como se a espátula de um pintor ande por ele, ébria, marcando-o com ziguezagues de fogo, quase o incandescendo. Há meia hora que o tumulto da natureza persiste violento, obstinado.
Finalmente, o destino. Para trás ficaram cinco dias de viagem esgotante. De Sul para Norte inicia-se a descida da rua principal da cidade (assim dita, mas que não passa de uma aldeia a querer ser gente) transformada num mar de lama, com a água correndo tumultuosa, descontrolada pelas bermas, como rios soltos por diques deitados abaixo e, com eles, algumas cubatas.
Ali conheceu o Viajante, pelo ano que por lá esteve, coisas e gentes.
I
Simão, o padre da pequena corcunda, que transporta entre esta e a camisola interior, endurecida pelo surro que lhe ensopa o suor, um amarelecido e salgado breviário engatado ao pescoço, é um homem de urgências, não espera por Deus. Sem que lho peçam, basta que lho digam, lá parte ele, a pé ou na sua velha moto com side-car, a levar o Viático aos doentes ou a tentar faze-lo aos que maltratados por ordem dos pides são atirados, por estes e pelos sipaios, para o capim alto nas bermas das picadas escuras para que a bicharada os leve, antes ou depois que a morte os apanhe. Simão não perde nunca a oportunidade de conquistar uma alma. Bem cedo, nas manhãs dos dias de semana, vai à sanzala, ali mesmo a nascer do outro lado da rua, buscar três putos para os levar à escola. À tarde faz o mesmo percurso, a deixá-los nas cubatas. Pelo almoço, cuida que um pequeno farnel lhes chegue.
Assim vai ele, com parte do seu rebanho.
E ainda tem a crescer alfaces, feijocas, tomateiros, um pé de jindungo e outro de caxinde, num canteiro, por si criado em sete manhãs de desvelado exercício de mãos e pés, no quintal da igreja, ao fundo, junto ao poço. Os agriões, acredita, mais tarde ou mais cedo, acabarão por alçar nas margens do fio de água que ele cavou para a rega. Muita fé e nada de agrião, que não há meio de crescer.
Contudo, nem tudo é perfeito.
Desde a chegada, o velho padre Simão habita o presbitério, contíguo ao templo, com uma negra oriunda do Sul, enérgica, trabalhadora, boa cozinheira, respeitadora, um compasso do tempo mais nova do que ele. Depressa se afeiçoaram. A mulher fez-se uma ajudante preciosa, indispensável. Das lides da casa passou a outras. É certo que não ajuda à missa nem auxilia o pároco nos ofícios divinos, mas mantém a sacristia impecável com os paramentos sacerdotais e os utensílios de culto limpos e arrumados. Aprimora-se no arranjo do altar, renovando, amiúde, os quatro ramos de flores, dois de cada lado do sacrário. Dá luzimento, todas as semanas, ao madeiro do Cristo crucificado. Mantém a brilhar os castiçais de metal fundido, sem deixar que os círios se esgotem. Verifica, dia a dia, o nível da água nas pias baptismais. Muitas vezes é ela que puxa as cordas para fazer dobrar os sinos, um esforço agora demasiado para o eclesiástico de corcova às costas.
A igreja nunca teve sacristão. Assim se mantém.
Assim vai ele, com parte do seu rebanho.
E ainda tem a crescer alfaces, feijocas, tomateiros, um pé de jindungo e outro de caxinde, num canteiro, por si criado em sete manhãs de desvelado exercício de mãos e pés, no quintal da igreja, ao fundo, junto ao poço. Os agriões, acredita, mais tarde ou mais cedo, acabarão por alçar nas margens do fio de água que ele cavou para a rega. Muita fé e nada de agrião, que não há meio de crescer.
Contudo, nem tudo é perfeito.
Desde a chegada, o velho padre Simão habita o presbitério, contíguo ao templo, com uma negra oriunda do Sul, enérgica, trabalhadora, boa cozinheira, respeitadora, um compasso do tempo mais nova do que ele. Depressa se afeiçoaram. A mulher fez-se uma ajudante preciosa, indispensável. Das lides da casa passou a outras. É certo que não ajuda à missa nem auxilia o pároco nos ofícios divinos, mas mantém a sacristia impecável com os paramentos sacerdotais e os utensílios de culto limpos e arrumados. Aprimora-se no arranjo do altar, renovando, amiúde, os quatro ramos de flores, dois de cada lado do sacrário. Dá luzimento, todas as semanas, ao madeiro do Cristo crucificado. Mantém a brilhar os castiçais de metal fundido, sem deixar que os círios se esgotem. Verifica, dia a dia, o nível da água nas pias baptismais. Muitas vezes é ela que puxa as cordas para fazer dobrar os sinos, um esforço agora demasiado para o eclesiástico de corcova às costas.
A igreja nunca teve sacristão. Assim se mantém.
(continua...)