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quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Haiti (depois do terramoto)

O pesadelo.

Pilhagens, saques e violência sucedem-se. Assaltos a armazéns do WFP (Programa Alimentar Mundial), já ocorridos. Grupos armados (quem os armou!?), provavelmente ainda resquícios dos "tontons macoutes", a guarda pessoal do corrupto e sanguinário ditador que foi Papa Doc, assaltam as pessoas roubando-lhes o pouco dinheiro que lhes resta. Há notícias de que poderão estar a ser atirados para as valas comuns corpos ainda com vida.
A ajuda solidária internacional chega, é um facto, mas o Haiti não tem governo, infraestruturas, ou o que quer que seja que permita montar uma logística de distribuição adequada. É o pandemónio, sem que os poderosos do mundo, os deuses, consigam pôr-lhe fim, virados que estão, certamente, para outras bandas de diferentes interesses.
Triste espectáculo está o mundo a dar!
França e Estados Unidos quase se pegaram de razões. Paris a não querer perder a influência na região, Washington a enviar para o terreno milhares de militares. A propósito do auxílio norte-americano, o Governo de Sarkozy fez saber à ONU: “ajudar não é ocupar, mas recuperar a vida”.
Helicópteros norte-americanos voam a baixa altitude, lançando alimentos e água. Em terra luta-se, violentamente, por apanhá-los. Porque não avança uma esquadrilha com contingentes armados (que já lá estão) e se cria uma zona para distribuição segura da ajuda humanitária? Não, os haitianos são tratados como cães a que se lança um osso.
Feira de vaidades!
Bill Clinton, antigo presidente dos EUA foi a Port-au-Prince, falou com os médicos e enfermeiros ,que ali, abnegadamente, trabalham e disse lamentar, mas não lhe foi possível arranjar material de anestesia (!!!). Cirurgias e amputações continuam a fazer-se a sangue frio!
O espectáculo mediático.
Fazendo-se filmar, repórter da CNN pega numa criança a sangrar, corre com ela ao colo, dizendo que a leva “para a barricada”, para a salvar. Fez-se protagonista, foi ele a notícia que correu mundo! Vouyeurismo puro, não jornalismo!
Repórter de uma televisão portuguesa aponta para um local e diz: “ali é uma lixeira de cadáveres”! Os mortos são lixo!
Que jornalismo é este?
Por onde pára a dignidade?
Quanto à ajuda humanitária, temo que venha a acontecer o que vi suceder durante a segunda guerra civil em Angola – que os tentáculos da corrupção e da candonga dela se apoderem, fazendo engrossar a fortuna de uns quantos (em Angola nem os chamados agentes humanitários ficaram de fora, documentei-o, escrevi-o e publiquei-o em livro!), e aumentar a tormenta de muitos, muitos outros. O povo haitiano vai continuar a alimentar-se das práticas vodu, neles instiladas pelos sucessivos dirigentes corruptos e incapazes, e pelos ferozes ditadores que o têm comandado desde a independência, em 1804, perante a quietude e o silêncio cúmplice dos poderosos do mundo.
Milhões e milhões de euros estão a ser doados para a reconstrução do país. Se o mundo do Bem se não levantar, erguer-se-ão mãos a acenar com “luvas”, e enfileirar-se-ão empresas na busca do lucro fácil. Já vi tal acontecer!
Desde 1991, ano em que os capacetes azuis foram para o Haiti, como força de estabilidade e segurança, a ONU continua impotente e incapaz. Vai aumentar os contingentes.
Depois da catástrofe, o pesadelo.
Os haitianos continuam, e continuarão, a sofrer. Um deles, ouvido por uma televisão disse:
- Tenho que sair daqui, aqui já não há vida!