Hoje a chuva intimidou-se, entaramelaram-se-lhe os pingos. Ficou por chegar. Em seu lugar trouxe a manhã um cacimbar frio, cortante, e, com ele, a saudade da terra quente e distante, onde nasci e vive parte do meu coração de alma perdida num constante vaivém. Com ele também a saudade e um sentir de solidão.
Quadras da minha solidão
Fica longe o sol que vi,
aquecer meu corpo outrora...
Como é breve o sol daqui!
E como é longa esta hora...
Donde estou vejo partir
quem parte certo e feliz.
Só eu fico. E sonho ir,
rumo ao sol do meu país...
Por isso as asas dormentes,
suspiram por outro céu.
Mas ai delas! tão doentes,
não podem voar mais eu...
que comigo, preso a mim,
tudo quanto sei de cor...
Chamem-lhe nomes sem fim,
por todos responde a dor.
Mas dor de quê? dor de quem,
se nada tenho a sofrer?...
Saudade?...Amor?...Sei lá bem!
É qualquer coisa a morrer...
E assim, no pulso dos dias,
sinto chegar outro Outono...
passam as horas esguias,
levando o meu abandono...
(Alda Lara, poetisa angolana. Benguela, 1930, Cambambe 1962)