Regresso
Tem andado por caminhos desassossegados, num tempo fora da história. Trilhos sem bermas nem atrás, chão de ontem. Quer avançar por entre as árvores sem sexo, libertar-se do exílio intoxicante do ócio. Envia à frente o olhar percorrendo-lhes os troncos deixando-o, depois, a repousar na folhagem, uma seca, esmorecida, outra, como a dos cajueiros, ou das jacas mais altas, tremelicando, soltando gemidos quando lhes bate o sopro das noites perdidas na busca do tamanho de si próprias, e ensandecidas.
“É chegada a urgência de reparar, de combater a cegueira. É preciso combater as sombras”. Ouve ele. Que fique de lado a sagacidade do silêncio, acrescenta.
Tem como certo, que as palavras necessitam, a mais das vezes, de outras que as ajudem a explicar-se. Enquanto aguarda, libertam-se das lutas do pensamento, enxameando o mar por onde xinbica no dongo do seu interior, guerreiros sem terra, pelejando, pelejando…Combatentes perdidos, não sabe por onde, que decidem não guardar-se nem no silêncio, a um tempo temeroso e aventureiro, nem no vociferar sem voz, que quando lhe chega soa a vazio. Que guerreiros são estes, parecendo entregues ao esfregar do esquecimento, lançando-se para o abismo?
Está ali de pé, olhando o lago a que agora aporta. Mete-se por ele, em busca da memória. Encontra-a prostrada pela fadiga. Esforça-se, mas nada readquire. Dos bicanjos da lembrança tudo partiu. O que ele encontra é uma camereca mal disfarçada, chiprulenta de si, num chapiango atroz e intolerável que o quer deixar no vazio, submergido por uma enxurrada de sombras, levando-o, a chicote, pelos caminhos que a vida diz ter. Vida lassa. Essa, não é a sua. Até agora tem vindo a juntar, hora a hora, o que cada uma foi dizendo e fazendo, e nunca de uma única que fosse se separou.
Então, apodera-se dele um zamberenguenjê.
Decide voltar ao ponto de partida.