Passa hoje um ano sobre o dia da morte de José Saramago. Tive o privilégio de o conhecer pessoalmente, com ele ter privado e do o ter acompanhado no seu deambular pelo País para escrever “Viagem a Portugal”. Tenho (e li) a sua obra praticamente completa, alguma autografada. A propósito da data de hoje, que se me não torna indiferente, a editorial Caminho anunciou que será este ano publicado o romance “Clarabóia”, um inédito do Nobel da Literatura, escrito em 1953.
Em “Clarabóia”, segundo a editora, «José Saramago imagina um prédio que tem rés-do-chão e dois andares ou três, cada andar está ocupado por uma família, as famílias são todas completamente diferentes e ele conta-nos a história de cada uma delas»
De acordo com uma pesquisa que fiz, a leitura de “Clarabóia” deixa-me antever o encontro com uma personagem que, tal como Saramago, se interroga: Será a Humanidade recuperável ou não, e qual a atitude a tomar por cada um de nós.
No dia da morte de Saramago, o ensaísta Carlos Reis afirmou: “desaparece não apenas um grande escritor português, mas sobretudo um enorme escritor universal”. E acrescentou: “No entanto, fica connosco um universo: esse que Saramago criou, feito de uma visão subversiva da História e dos seus protagonistas, dos mitos estabelecidos e das imagens estereotipadas.”
A ficção saramaguiana legou-nos grandes temas, refere ainda Carlos Reis. Entre eles “a reflexão sobre Portugal e o seu destino (mau destino, para Saramago) de integração europeia, a problematização de mitos portugueses em articulação com um tempo histórico tão bem identificado como o do início do salazarismo, a revisão crítica e provocatória do Cristianismo, ou a reflexão em clave ficcional sobre as origens históricas e políticas de Portugal, de novo em incipiente diálogo com a Europa”.
Palavras que subscrevo inteiramente, nesta simples homenagem à memória de José Saramago, cujas obras continuarão a ser lidas como grandes romances da literatura universal, frutos de um estilo único na literatura contemporânea e da mestria no tratamento da língua portuguesa.
("O que chamamos democracia começa a assemelhar-se, tristemente, ao pano solene que cobre a urna onde já está apodrecendo o cadáver. Reinventemos, pois, a democracia antes que seja demasiado tarde."
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"A única revolução realmente digna de tal nome seria a revolução da paz, aquela que transformaria o homem treinado para a guerra em homem educado para a paz porque pela paz haveria sido educado. Essa, sim, seria a grande revolução mental, e portanto cultural, da Humanidade. Esse seria, finalmente, o tão falado homem novo.")
(José Saramago)