quinta-feira, 25 de junho de 2009

Entrevistas (MFL à SIC)


Manuela Ferreira Leite
no
“Dia D – Especial”

Na semana passada coloquei aqui um post sobre a entrevista do PM à SIC. Agora este, mantendo o estilo, sobre outra entrevista.
Lá em cima, dentro do parêntesis, está MFL. A sigla ou acrónimo (senhores puristas?) significa Manuela Ferreira Leite, a dama que é presidente do PSD – Partido Social-democrata, que em tempos já foi PSD-PP, valendo o PP por Partido Popular. Nestes tempos o CDS é que usa o PP. Tal como ao PM (Primeiro-Ministro) também não antecedi MFL de Dr.ª. As razões já as expliquei no post referido no primeiro parágrafo.
MFL foi, como o PM, ao programa da SIC “Dia D – Especial” para ser entrevistada pela jornalista Ana Lourenço. Mantendo a sobriedade, a voz calma e o sorriso certo Ana esteve, porém, pior do que na entrevista ao PM. Há outras, mas destaco duas razões. A primeira: não perguntou a MFL o que a distinguia do PM. A segunda: no final da entrevista não leu um texto sobre a entrevistada como o fez aquando do PM, de que muito disse, sem se esquecer de passar pelo Freeport! Foi pena, gostaria de ter ficado a saber coisas sobre a Presidente do PSD. O quê? Que pergunta! A senhora é casada, divorciada, tem filhos, netos, cunhados, sobrinhos, animal de estimação, lê, gosta de sardinhas assadas e de sangria? Já algum Outlet se meteu na sua vida? Estava satisfeita consigo própria quando foi ministra da Educação e das Finanças?
Não vou insinuar que a assessoria de MFL tenha interferido (em Democracia a palavra pode parecer feia, mas não me ocorre outra) na forma final do programa, amputando-lhe o conteúdo, mas lá que a suspeita é legítima, é, sobretudo neste caso em que há termo de comparação. Adiante.
Até aqui MFL parecia próxima do fim do prazo de validade. Na entrevista apareceu diferente, mais solta, sorridente, afirmativa, mais vivaça. Fez criticas, muitas, não ao Governo mas a José Sócrates (JS), o PM. Disse verdades que todos conhecemos, incluindo JS, mas também coisas à toa como quando falou do caso PT versus Prisa. Ana quis saber se MFL vai pedir maioria absoluta nas legislativas. Não, isso não se pede, o que ela quer é ter mais votos do que o PS para correr com JS. Tanto insistiu nisto que mais parecia o Capuchinho Vermelho: tenho medo do lobo mau.
Grandes obras públicas? Cruzes! Nem vê-las. O País está, não disse de tanga, mas endividado. Mais soft na escolha do vocábulo do que foi Barroso. Como estamos de tanga, perdão endividados, há que fazer investimentos de proximidade; recuperar escolas e hospitais, por exemplo, o que o Governo já está a fazer, reconheceu. Mas, atenção, aqui também JS está mal pois não devem ser as grandes empresas a fazê-lo, estas não geram emprego. Nas pequenas e médias empresas (PME) é que está o segredo para enriquecer o país. Estas é que precisam de ajuda. Que ajuda? Que os Estado lhes pague as dívidas!
Auto-estradas, não. TGV, não. Ponte sobre o Tejo, não. Novo aeroporto, talvez, aquilo é feito por módulos! E, acrescento, provavelmente pelas PME!
O que fará se vier a ser Governo? Nada disse, só lá para fins de Julho é que há programa eleitoral. Para já só uma promessa: não aumentará os impostos!
Crise global em Portugal: terramotozinho!
Dias Loureiro? Engasganço. Fez de conta. Silêncio amigo e aconchegante.
Victor Constâncio? Palavras de respeito.
Depois da entrevista o painel de opinantes: Graça Moura, Bettencourt Resendes, Luís Delgado e Ricardo Costa. Em relação ao painel para o PM, da semana anterior, foram substituídos o politólogo Maltês e Nicolau Santos.

Graça Moura: as evidenciadas simpatias por MFL roubaram-lhe o discernimento;
Bettencourt Resendes: lúcido. “Nos Estados Unidos os americanos nascem, vivem e morrem endividados e o país avança”. Falta de ajuda às PME? Mas as primeiras linhas de crédito já foram esgotadas! Só lhe falta ser um pouco menos politicamente correcto para dizer tudo o que sabe;
Luís Delgado: Clareza. Um manifesto de opinião independente como poucas vezes se lhe tem ouvido;
Ricardo Costa: Sôfrego a deitar cá para fora a muita informação que tem. O excesso de informação provoca, por vezes, ruído, dificulta a comunicação. Caiu na brejeirice, aqui e ali,

quarta-feira, 24 de junho de 2009

Eleições (Legislativas e Autárquicas - 1)


Simultâneas,
ou em separado?


São já conhecidas as preferências dos partidos políticos. PS, BE, PCP, Verdes e CDS-PP querem-nas em datas diferentes. O Governo também. Só o PSD discorda: devem ser no mesmo dia.
Depois de o terem comunicado ao PM e ao PR, disseram os partidos em síntese:
PSD: - “Campanhas sucessivas são custos muito elevados para o país”;
PS: - “A democracia é importante demais para nos preocuparmos com custos desta dimensão”;
BE: - se forem simultâneas terão “um efeito de diminuição da clareza democrática”;
PCP: - “ A democracia só beneficiará com duas campanhas, duas batalhas diferenciadas…”;
Os Verdes: - “São dois actos eleitorais distintos”;
CDS-PP: - simultaneidade “provoca duplicação de custos na campanha eleitoral dos partidos”.
Em termos de vontades expressas emerge, claramente, uma maioria.
Ao PR não é dado emitir opinião nesta matéria, apenas decidir e informar. Contudo, já se lhe ouviu: “ sondagens que terão sido feitas manifestam uma preferência por eleições simultâneas”.
A sentenciar por preferências de sondagens não teria sido necessário gastar dinheiro nas últimas europeias. Vitória ao PS – baratinho! Só que as sondagens eram enganadoras. O povo ordenou diferente.
Agora, porém, não é o povo a mandar.
A ordem virá do Palácio de Belém. O que vai o PR decidir?
Retirei hoje (27 de Junho), a sondagem que aqui esteve durante dias, depois do PR anunciar a data das eleições legislativas - 27 de Setembro. O Governo anunciara ontem as autárquicas para 11 de Outubro. Serão, portanto, em separado. O resultado da sondagem deste post foi diferente. 69% dos visitantes votaram em eleições simultâneas e 31% em separadas!

terça-feira, 23 de junho de 2009

Berlusconi




Abjecção






A televisão mostrou outra vez Sílvio Berlusconi. Falava para jornalistas, a propósito da generalidade da imprensa italiana mostrar fotos, bem explicitas, das orgias ocorridas numa das suas casas, comentando que nelas se incluía o consumo de cocaína, e, hoje em particular, dar à estampa a entrevista de uma senhora, de profissão prostituta, que diz ter recebido mil euros para passar uma noite com ele.
O que disse Berlusconi?
Que nada daquilo é escandaloso, escandaloso, sim, é o tirar-se fotografias com tele-objectivas, violando a privacidade das pessoas. Não fosse ele o que é e poderia dar-lhe ,eventualmente, razão. Cada qual tem direito à sua privacidade e os paparazi violam, amiúde, esse direito. Neste caso, porém, as fotos nem são de um paparazi, mas sim do repórter Antonello Zappadu do jornal espanhol “El País”. Berlusconi não colhe. Ele não pode esquecer-se que é político, figura pública e, a somar a isso, primeiro-ministro (Presidente do Conselho de Ministros, como lá se diz, à semelhança do que acontecia em Portugal no tempo de Salazar), chefe de um governo – à partida um modelo a seguir pelos seus concidadãos.
Berlusconi manda tudo isso às urtigas, faz o que lhe apetece – em Agosto de 2008 fez aprovar um novo regulamento dos voos de Estado, que passou a autorizar o transporte de diferentes categorias de passageiros, de acordo com as necessidades do chefe de governo. À luz deste regulamento foram transportados, em aviões pilotados por oficiais da Força Aérea Italiana, para a sua casa de férias artistas, bailarinos e vedetas da televisão italiana por si controlada. Berlusconi ofende quem quer (recorde-se o que fez, não há muito tempo, à chanceler alemã, apesar de pertencer à sua família política), assume-se como ser perfeito acima de tudo e de todos, inatingível. Um dia destes acabará por dizer que é Deus!
O primeiro-ministro italiano é-o com a legitimidade que lhe advém de ter sido eleito pelos italianos, sobrevivendo a várias acusações de corrupção, de ligações à Máfia, para além de ter apoiado, sem rebuços, a guerra dos Estados Unidos contra o Iraque. É um facto!
Diz a revista Forbes que é o homem mais rico de Itália e o décimo quinto mais rico do mundo (vinte mil milhões de euros, mais coisa menos coisa!). De tal poder resultou a Mediaset uma empresa que é um império na comunicação social (rádios, jornais e televisão), controlada pelo grupo Fininvest, também seu; a aquisição de um clube de futebol – o AC Milan; a propriedade de vários bancos. Correu a fundo para a política. Em 2007 dissolveu o seu partido Força Itália, perdedor de eleições anteriores com Romano Prodi e constituiu o Popolo della Libertá (Povo da Liberdade). Arrebanhou grupos nacionalistas da direita empedernida. Prometeu tudo a todos, foi a votos e ganhou. Passou a mandar na Itália.
Tudo isto acontece na Itália do Renascimento, da “descoberta do mundo do homem”, de Boccacio, da Vinci, Raffaello, Michelangelo e João XXIII. De Giuseppe Verdi e de Giuseppe Garibaldi que com a sua guerrilha e a música do compositor unificou a Itália, lutando contra invasores e tiranos, fazendo do seu país um guia da Europa e dos europeus.
No melhor pano cai a nódoa, diz o aforismo. É bem certo. Para não se recuar em demasia, na Itália já caiu Mussolini. Depois de perceberem o que ali estava, e logo que puderam, os italianos desenvencilharam-se dele da forma que se sabe. Agora, outra mancha lá caiu – Berlusconi. O que é isto?
Saramago já lhe chamou uma coisa perigosamente parecida a um ser humano.
A foto reproduzida é de Antonello Zappadu, El País

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Ricos e Pobres



Tyrannosauros Rex,
FMIs,
Casa Branca



Posto em português que a todos dá para entender, diz o Fundo Monetário Internacional (FMI), numa avaliação futurista da crise global, que os ricos continuarão a ser cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres. Para que não haja espúrias leituras do que direi à frente fica desde já esclarecido: nada tenho contra os ricos, mas tenho tudo contra a permanência da pobreza. A pobreza rebaixa, obscurece, degrada, oprime, exclui, incapacita, tolhe e humilha, revolta, é daninha e impotente para mudar o que pode e deve ser mudado, mata. Pois, já sei que uns me virão dizer que sempre houve ricos e pobres, a Bíblia e a Igreja assinam por baixo, e que outros proclamarão que quando o homem chegou à Terra, vindo não se sabe de onde, já trazia na bagagem ricos e pobres, pretos e brancos, amarelos, vermelhos e albinos, e que assim continuará a ser quando partir para povoar outras terras. O melhor, dirão uns e outros, é orar e parar aqui. Não oro nem paro!
Quando amanhã o homem esgotar este e partir à conquista de outro mundo, espero que para um onde já tenha batido meteoro de peso a livrá-lo de dinossauros, senão de todos, pelo menos dos vorazes e insaciáveis predadores Tyrannosaurus Rex, não irá igual ao que aqui chegou. Levará consigo uma estirpe nova: o mestiço. Mestiço de sangues, de culturas, de pensamentos, de atitudes, de perfeições nem sempre perfeitas, com grande contributo dos portugueses que os criaram por onde passaram, sem ajudas divinas. A esperança de que é possível juntar para dividir melhor. Não me venham, portanto, dizer que as coisas são imutáveis, que não há volta a dar. Há!
Dois pontos: não sou rico, nem pobre, nem mestiço. Sou apenas eu, tentando não perecer na globalização.
Voltando ao FMI, entidade a que o Brasil emprestou há pouco tempo uma pipa de massa (mais de mil milhões de euros), o Brasil, disse bem – parece que Lula já trata Obama por tu – voltando ao FMI, bem podiam os seus escrevedores de coisas dizer porque vão os ricos ficar mais ricos e os pobres mais pobres. Mas não, não dizem.
Se o fizessem teriam que explicar que a globalização (nada tenho contra ela, pelo contrário desde que seja outra que não esta de modelo conservador neo-liberal) não é para todos. Teriam que explicar, que a riqueza e a pobreza estão como estão porque, entre outras coisas, os fluxos financeiros dos países ricos são encaminhados para os não desenvolvidos para lhes sugarem as matérias-primas, deixando-os pior do que estavam: com menos recursos, olhando para a evolução como se de uma miragem se trate. Mas, ó explicas!
Disse, lá em cima, que há esperança mas, por esta Terra, ela parece estar a expirar. Na próxima a que o homem chegar desejo que não haja, nem Tyrannosaurus Rex, nem FMIs, nem qualquer Casa Branca.
A imagem foi retirada do Google-Imagens

domingo, 21 de junho de 2009

Domingo (Dia antes da Segunda)




Ardente

Meteu-se no léxico português chegado do latim “dies Dominicus”. Adoptado, passou a ser o “dia do Senhor”. O mesmo fizeram os castelhanos (vá lá, espanhóis), italianos e franceses tratando-o por Domingo, Domenica e Dimamche.
Os pagãos da Antiguidade, servos de vários senhores, também o tiveram, mas como “dia do Sol”, o astro a que chamavam rei, nobreza que igualmente nós lhe reconhecemos, até ver. Aos gentios foram outros povos, como o inglês e o alemão, buscar os seus Sunday e Sonntag, sempre como “dia do Sol”, neles pondo o Sun e o Sonn para que assim continuem a ser.

Como não tenho Senhor nem astro que me monopolize atenções, também gosto da Lua, da Terra em que estamos, e até de Marte por me seduzirem os seus mistérios, para já não falar de Plutão que anda perdido lá pelos confins. Como não tenho nada disso, estava eu a dizer, chamo-lhe apenas Domingo, tão só!
Podia ter chegado hoje com nuvens escuras a chover, como na semana passada. Mas veio ao contrário: quente e cheio de Sol. Saímos, não para passar o Domingo no Parque, como o Gilberto Gil, mas para ir ao shoping, perdoe-se-me a intrusão em léxico alheio.
Sem sombras de parque, acolheu-nos a sauna da rua. Só o ar condicionado do carro pôs ordem no destempero.
Comidos o cabrito assado no forno e a espetada de cherne (para esquecer, salvou-se a cerveja bem tirada e fresca), numa ala mais fresca do restaurante, fomos às compras para pôr em dia a prenda de aniversário do filho mais velho. Tivemos mais sorte do que com o almoço.
Depois das mércolas, nas voltas que demos cruzámo-nos com gente, não muita, com ar enfastiado a começar pelo empregado brasileiro que nos atendeu onde fomos tomar o café, como se um favor nos estivesse a fazer! Só faltou pedirmos desculpa pelo incómodo!
Será da crise ou do calor? Ou juntaram-se ambos para nos esquentarem a cuca? Lá fui eu, outra vez, a casa alheia!

sábado, 20 de junho de 2009

Porque hoje é Sábado (Vinicius de Moraes)

Reencontro
com
o poetinha,
o branco mais negro
do Brasil

De manhã escureço
De dia tardo
De tarde anoiteço
De noite ardo




(…) Neste momento há um casamento
Porque hoje é sábado

Hoje há um divórcio e um violamento
Porque hoje é sábado

Há um rico que se mata
Porque hoje é sábado

Há um incesto e uma regata
Porque hoje é sábado
(…)

De O Dia da Criação que pode ser lido, na íntegra, aqui.

Conheci Vinicius poeta e diplomata, de violão, copo de whisky na mão, cigarro entre os lábios, pé calçado sem meia, e os seus companheiros de viagens por poemas e músicas Tom Jobim, Toquinho e Baden Powell, faz tempos. Estas são memórias guardadas, no espaço das coisas boas, que a distância não apagou, antes as mantém frescas e disponíveis, por exemplo, para este Sábado ardente de Junho. Ouvi-lhe, um dia:

(...)Feito essa gente que anda por aí
Brincando com a vida
Cuidado, companheiro!
A vida é pra valer
E não se engane não, tem uma só
Duas mesmo que é bom
Ninguém vai me dizer que tem
Sem provar muito bem provado
Com certidão passada em cartório do céu
E assinado em baixo: Deus
E com firma reconhecida!
A vida não é brincadeira, amigo
A vida é arte do encontro
Embora haja tanto desencontro pela vida
(...Samba da Benção »»» )


A Anunciação

Virgem! Filha minha
De onde vens assim
Tão suja de terra
Cheirando a jasmim
A saia com mancha
De flor carmesim
E os brincos da orelha
Fazendo tlintlin?
Minha mãe querida
Venho do jardim
Onde a olhar o céu
Fui, adormeci.
Quando despertei
Cheirava a jasmim
Que um anjo esfolhava
Por cima de mim...

A Bíblia

A Bíblia já dizia
Pra quem sabe entender
Que há tempo de alegria
Que há tempo de sofrer
Que o tempo só não conta
Pra quem não tem paixão
E que depois do encontro
Sempre tem separação
Que o dia que é da caça
Não é do caçador
E que na alternativa
Viva e viva
E viva o amor
A gente vem da guerra
Pra merecer a paz
Depois faz outra guerra
Porque não pode mais
E deixa andar e deixa andar
Até a guerra terminar
Vamos curtir, vamos cantar
Até a guerra se acabar

Entrevistas (PM à SIC)



José Sócrates
no
“Dia D – Especial”


O PM que está lá em cima, entre parêntesis, quer dizer Primeiro-Ministro e chama-se José Sócrates. Desculpe-se-me o não ter colocado Eng.º antes do nome mas, como disse um falante estrangeiro das coisas da gente que nos visitou no principio do ano e com o qual estou de acordo, Portugal burocratiza-se e auto-elitiza-se em demasia ao colar títulos às pessoas que acabam por deixar de ser elas próprias para passarem a ser nem elas sabem o quê, já que quase, para não dizer sempre, o Eng.º ou o Dr. mesmo os de impostos à taxa mínima, como quase todos, não lhes acrescentam mais valia por aí além.

O programa a que levaram o PM, na Quarta-feira dia 17 deste mês de Junho, chama-se “Dia D – Especial”. Entrevistadora: Ana Lourenço, jornalista oriunda da rádio, personagem de voz calma, imagem sóbria e sorriso certo. Não se confunda com melíflua porque ela não o demonstrou ser. Ave rara no jornalismo televisivo – parece perceber que ao jornalista não cabe ser protagonista a fazer-se ao retrato de família em bicos de pés, mas perguntador dando ao entrevistado espaço de resposta para que se perceba quem é. Vamos a ver se a conversa com José Sócrates foi uma excepção, ou se assim continuará a comportar-se.
A entrevista correu. Ana perguntou a Sócrates o que pensava este do que tem feito à frente do Governo. Respondeu o PM estar satisfeito consigo próprio. Depois, Ana quis saber (tal como nós, julgo) o que distingue o PM de Manuela Ferreira Leite (a chefe do PSD). Diferenças de mundividência disse Sócrates, acrescentando que nunca lhe passaria pela cabeça afirmar, como Manuela, que o casamento tem como única função a procriação ou que as obras públicas só vão beneficiar os trabalhadores ucranianos e cabo-verdianos. Não ficou por aqui – Manuela quer revogar imediatamente a lei do divórcio. E a diferença entre ele Sócrates e o PSD? José, o PM, disse haver um ponto fundamental a separá-los: ele defende as funções sociais do Estado, o PSD quer privatizar Segurança Social e a educação, e acabar com o Serviço Nacional de Saúde. Quanto ao TGV, a história já tem quinze anos e não decidir tem um custo.
Mais foi dito, claro, que a entrevista andou por uma hora. Depois dela, no mesmo canal, o que já vai sendo costume: um painel de gente a opinar.
Foram quatro: Graça Moura, Nicolau Santos, um politólogo, salvo erro de nome Maltês, e Ricardo Costa.
Graça Moura: presença inútil – só falou de inocuidades, muito preocupada com o novo estilo de comunicar de Sócrates que, ela não o disse mas deu a entender, não bate a bota com a perdigota.
Nicolau Santos: lúcido – o país demora tempo a decidir, os partidos mudam constantemente de opinião. O PM também o tinha dito.
Politólogo: o que ele gosta de se ouvir!
Ricardo Costa: certeiro, centrando desvios da conversa com o pôr na mesa informação indesmentível. Mordaz: há comentadores que sabem mais que os políticos!
Disseram os partidos parlamentares, fora do estúdio:
PSD ( Paulo Mota Pinto): "tentativa de encenação de um novo estilo pele de cordeiro, de alguma aparente modéstia".
BE (Helena Pinto): "o estilo do primeiro-ministro pouco contará se as políticas não mudarem".
PCP (Bernardino Soares): "ausência de referência à gravissima situação do desemprego e ao escândalo social".
CDS-PP (Diogo Feio): "não deu uma palavra de esperança em relação às pequenas e médias empresas".

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Conversa de Sexta-feira (A modos que um conto sem ponto)







O Reino vegetal
na República dos homens.


Aquele anafado que ali vai mora no rez-do-chão do prédio de gaveto da Rua Sul, a principal do centro da urbanização mais recente da zona. Ao olhar-se-lhe fica a impressão de ter dormido bem a noite. Parece fresco que nem uma alface. Atrás caminha o vizinho do primeiro direito a quem o habitante do piso térreo chamou há tempos, na fervura de uma altercação entre ambos, mariquinhas pé de salsa. Mais ao fundo vê-se agora, vem a porteira do condomínio. Já lhes pôs o olho em cima. Lembra-se ela de ter assistido, por mero acaso, à tal discussão entre os dois. Na altura nada disse que se ouvisse. É pessoa comedida, não metediça na vida dos outros, já lhe bastam os enredos da sua, mas pensou lá com ela: pois, aquilo é só repolho podre, a culpa é de quem os criou que se esqueceu que é de pequenino que torce o pepino. Se qualquer deles tivesse escutado aqueles pensamentos teria, certamente, ficado vermelho que nem um tomate. A porteira acelera o passo, passa-lhes à frente e vai à sua vida.
Mais rápido, não vá o que vem atrás chegar-se-lhe, o do rez-do-chão dirige-se para o café da praça ao fim da rua onde é habito encontrar-se com um amigo, com este tomar o pequeno-almoço e dar um dedo de conversa, antes de seguir cada um para o emprego. Chegou. O amigo aparece agora. Sentam-se, pedem o costume: um croissant com fiambre sem manteiga para um, um pão de deus recheado com creme pasteleiro para outro, e duas meias de leite.
Diz o amigo:
- Então, trouxeste o livro que te pedi ontem?
- Não, não me lembrei.
- Irra! Já é a terceira vez. És bem um cabeça de alho chocho!
- Deixa-te disso, vai à fava, trago-to amanhã.
Os croissants foram-se, as meias esvaziaram-se.
- Vai uma bica?
Pergunta o do rez-do-chão, que logo continua:
- Lembras-te de te ter contado aquela cena com o meu vizinho do primeiro direito?
- Sim, e então?
- Pois não é que ontem à noite, estava ele à janela e eu a chegar, me chamou abóbora!
- E tu, o que fizeste?
- Nada, para discussão já basta a que houve.
- Que grande nabo me saíste, és bem um banana!
A conversa fica por aqui, porque da mesa ao lado se levanta uma colega do morador do rez-do-chão por quem este sofre de amores inconfessados.
- É boa como o milho!
Diz o amigo.
- Pois é.
Insiste o amigo:
- Só não percebo porque tremes que nem varas verdes sempre que a vês.
Já levantado, o do rez-do-chão, mãos nos bolsos e cigarro ao canto da boca lá vai para o trabalho, a pensar com os seus botões: que coisa, nem hoje que é Sexta-feira, dia de Vénus e de Afrodite, ele me larga o tomateiro!

Aqui termina, por hoje, a intromissão do Reino vegetal na República dos homens.

Benfica (JEM, ainda não)




Ufa!


A Prisa, grupo espanhol accionista maioritário da TVI ter-lhe-á dado luz verde para se candidatar à presidência do Benfica, autorizando-o a suspender as suas funções no canal televisivo. Os espanhóis ter-lhe-ão assegurado que se ganhasse ficaria como consultor do grupo para a Península Ibérica, se perdesse voltaria para a TVI. Os que o convidaram, “Movimento Benfica, Vencer, Vencer”, ter-lhe-ão garantido um salário líquido mensal de cinquenta mil euros, a suportar por investidores estrangeiros. Nada mau!
José Eduardo Moniz (JEM) ponderou. A Prisa, entretanto, recuou: se perdesse, JEM não voltaria à TVI. JEM decidiu não aceitar o desafio da candidatura. Anunciou-o em Conferência de Imprensa, ontem, passava um pouco das 21 horas. As televisões apareceram, concedendo-lhe amplo espaço de antena em horário nobre.
JEM aduziu as razões da recusa, afirmando, a dada altura, não precisar do Benfica para obter projecção! Ao optar pela Conferência de Imprensa para dizer não aos que o convidaram, contradisse-se, pois somou, obviamente, uma parcela importante à sua quota de notoriedade à custa do Benfica. Segundos de televisão valem mais do que milhares de caracteres impressos em páginas de jornais, ele sabe-o como poucos em Portugal, e teve largos minutos. Nem o Capitão Gancho tanto lhe deu mas, é sabido, o Glorioso é um mãos largas.
Falando sobre a decisão de JEM, Miguel Sousa Tavares (MST), comentador da TVI, considerou-a uma boa notícia para a TVI e para o Futebol Clube do Porto. Não surpreende – MST e JEM são amigos e a continuidade de JEM não põe em risco o seu lugar na cadeira de comentários das notícias. O mesmo não se pode dizer de MST e Pinto da Costa (PC), o patrão dos dragões, conhecida que é a opinião de MST sobre PC. JEM não será, para já, presidente do Benfica. Digo para já porque se lhe garantirem condições financeiras sólidas para se pagar a si próprio e a um exército profissional, catequizado e submisso, ele avançará para comandar as tropas! Por agora, não. Ainda bem, ufa!!!
Está-se a ver o Benfica com uma primeira-dama como Manuela Moura Guedes (MMG)?!?
Já sei, já sei que MMG parece ter dito a JEM para não avançar para os votos. E depois? O perigo rondou.
Ah, pois, pode acontecer-me o mesmo que ao sujeito que estava no elevador e não respondeu à boa tarde que outro lhe deu ao entrar: quando o elevador começou a subida quebrou o silêncio e perguntou ao chegado: para que andar vai? A resposta foi assim: o que é que você tem com isso?!?. Meta-se na sua vida!
Mas, oh senhores, é com a minha vida que estou a meter-me!

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Vá lá, um sorriso (Podem ser três)

Por aqui, os dias têm andado acinzentados, pingando chuva, ora a molhar tolos como logo os que o não são. Andam por aí ventanias soltas. As noites acordam e deitam-se escuras e quentes. As correntes estáticas viajam por elas, chispando, aqui e ali, um ou outro relâmpago sem trovão, desenhando no ar estranhos arabescos. Não creio que seja o tempo a condizer. Será, provavelmente, alguma escaramuça, lá em cima, ou lá em baixo, entre os mandantes. Que seja!
Se os dias e as noites assim têm sido, as noticias das rádios, televisões, jornais e net, seguem-lhes o caminho. Desencantos, desavenças e tricas terrenas.
Fui à janela gritar ao tempo: vou sorrir a ver se mudas. Aos outros digo que se me vai esgotando a paciência.
De autor desconhecido, citado no Pensador:
"Um dia a lágrima disse ao sorriso: invejo-te porque vives sempre feliz. O sorriso respondeu: enganas-te, pois muitas vezes sou apenas o disfarce da tua dor".

Fiquemos com o sorriso.
Revezes do Ministro das Finanças

Para quem não saiba


Viagens do Primeiro-ministro

"Se alguém está tão cansado que não possa dar-te um sorriso, deixa-lhe o teu". (ditado chinês)

A reprodução das charges foi autorizada pelo seu autor: Bruno, São Paulo, Brasil, também autor do blogue Charges Bruno, a quem aqui agradeço.

É o que temos!



Eleição faz de conta?




Paulo Rangel foi cabeça de lista do PSD às eleições europeias de 7 de Junho ganhas pelo seu partido. Onze dias depois, ontem, foi-lhe perguntado, numa das televisões, se admite regressar a Portugal para integrar um governo social-democrata, caso o PSD vença as legislativas e o convidem para tal. Foi claro: “não afasto a possibilidade, não me custa nada dizer que não afasto”.
Durante a campanha eleitoral O Jornal de Notícias perguntou-lhe se tencionava cumprir o mandato no Parlamento Europeu. O então candidato respondeu, para que não subsistissem dúvidas: “não tenho mais nenhum plano senão esse”.
Cerca de um mês antes das eleições, a 20 de Abril, o secretário-geral do PSD proclamou que os candidatos social-democratas cumpririam os mandatos e não fariam parte das listas do partido às autárquicas e legislativas – “não haverá quem quer que seja que se candidate a mais do que uma coisa, nem haverá candidatos falsos ou candidatas falsas. Não haverá essas duplicidades de situações por parte do PSD. Isso nem se coloca”.
Pelo que se está a ver se Rangel não foi um candidato falso, o que foi então?
Recorde-se, o PR no seu apelo ao voto:
“Estas eleições para o Parlamento Europeu são importantes para o futuro da Europa e são importantes para a vida dos portugueses, para o nosso desenvolvimento e porque sei que nos próximos anos as instituições europeias irão tomar decisões com influência directa na vida dos portugueses. Basta pensar que muita da legislação que hoje se aplica em Portugal às actividades económicas, à nossa vida, é legislação aprovada no Parlamento Europeu e que o Parlamento Europeu tem uma voz cada vez mais forte, principalmente quando entrar, esperemos que entre, em vigor o Tratado de Lisboa".
Pelos vistos Paulo Rangel não pensa assim. Rangel é um homem estruturado e inteligente, embora belicoso. Disse o que disse quando foi candidato e agora diz que sim mas também, prefere instalar-se em São Bento. Pode ser que Sr. Ministro lhe soe melhor do que Sr. Eurodeputado. Ou, então, de duas uma - ou tem memória do tamanho de uma alcagoita, ou agiu com intuitos escondidos.
O que pensarão os seus eleitores?
Foram enganados ou participaram, conscientemente, numa eleição faz de conta?

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Ida aos rascunhos (O que eles sabem!)


Sobre as últimas europeias.
Numa televisão por cabo.

Ao centro a entrevistadora, ou moderadora, se assim acharem que melhor fica dito. À esquerda ela que costuma falar numa coisa televisiva com mais uns quantos. À direita ele que é director de um semanário e vai à TV vezes que cheguem.
Faziam contas sobre percentagens, a propósito da elaboração de cenários para as legislativas que estão para chegar, ou melhor, das possibilidades para tal que delas possam resultar.
Dizia a moderadora que PSD e CDS-PP, pela amostra das europeias, somam 40% - uma hipótese de sustentabilidade governativa.
Dizia ele, pois, o PS e toda a esquerda não dá, não funciona. Pelas contas que fiz, aqui com a calculadora da barra do Office, o PS e toda a esquerda juntam mais de 40%. Mas ele lá saberá porque disse o que eu ouvi. Só não percebi o não funciona. Conjecturo eu: estaria ele a dizer para se olhar para outro lado?
Acrescentou ela: a direita portuguesa não é como a de - citou dois países. A direita portuguesa, continuou ela com ar meio docente meio discente, a direita portuguesa é civilizada. Quereria dizer, sei lá, não se assustem com o que pode vir, aquilo é gente urbana! Quereria?
Disse ele: nada, ficou em silêncio.
Interveio a moderadora: terminou o tempo, boa noite e obrigada aos dois.
O que eles sabem!
Aprendi, com ela, que a direita portuguesa é civilizada. Não me era, de todo, desconhecido que a direita portuguesa tinha sido evangelizada, mas, pensava eu, os missionários prosseguiam, ainda, com o seu trabalho a bem da fé e da nação, longe da civilização.
Fiquei a saber que há silêncios de clausura para um director de semanário.
Nenhum dos dois adjectivou a esquerda. Ela porque se encantara em divagações. Ele porque a voz se lhe escapulira.
É o que temos. São o que são.

Vá lá, um sorriso

De vez em quando há que trocar as voltas às voltas que a vida dá no cirandar frenético a que nos obriga, dia após dia, às vezes sem qualquer propósito. Não que haja mal nisso, desculpemo-la, ela é assim, uma despropositada, mas porque temos direito a uma volta a sós, ao arrepio dela.
Foi o que hoje fiz. Viajei até Youtube e lá descobri o pitoresco a que achei graça e me trouxe um sorriso. Por isso lhe não resisti e o partilho neste tempo de todas as crises. Sorrir faz bem e ainda é gratuito!

Insólito! (Talvez não)


Querem trabalhar?
Paguem
!

Por e-mail a British Airways convidou os seus trabalhadores a prescindirem de um salário, como forma de se evitar o desemprego na companhia.
O presidente dá o exemplo: não receberá o seu próximo ordenado, qualquer coisa como setenta e três mil euros. Há quem ganhe mais. Pois há!
Caixa negra aberta: A British quer que os seus empregados trabalhem gratuitamente, um mês. Para já!
Manobra de diversão: a conversa do presidente.
Reacção dos trabalhadores: é um insulto! Mas muitos, por certo, se não todos, lá serão tentados a ceder. Dá para ver onde vai cair a escolha entre o ir para casa um mês com os bolsos vazios e o deixar que o desemprego os ponha ao relento.
Antevisão: Virá o tempo em que quem quiser trabalhar na British terá que pagar!
Perigo de pandemia: perfilarem-se outros para seguirem a transportadora aérea de Sua Majestade.
Outra notícia: A British acaba de vender 24 Airbus A320 ao Katar.
Conclusão: não há cara que aguente!
Aviso:»»»

...Se alguém se engana
Com seu ar sisudo
E lhes franqueia
As portas à chegada
Eles comem tudo
Eles comem tudo
Eles comem tudo
E não deixam nada...

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Guerreiros (A ânima)






O guerreiro Masai

é o da direita,

de cabelo à escovinha,

a dar ânima ao outro.

Invasores (Dupla face)

Novo!

Especificidades:
- Folha de dupla face;
- Rugoso;
- Áspero;
- Esguio;
- Agarra-se às mãos;
Stock:
- In China.
Custo:
- Por definir.
Utilização:
- Em S.O.S.
Contra indicações:
- Possível transmissor de virús e bactérias daninhas;
- Não é biodegradável;
- Entope.


Foto emprestada por NoThing buT SomEthing

domingo, 14 de junho de 2009

Transferência (Cristiano Ronaldo, ainda)


Vivam os perguntadores televisivos.


Quando, em 1998, estava eu orgulhoso a ver a televisão, José Saramago recebeu o Prémio Nobel da Literatura (um milhão de dólares, menos de um milhão de euros), um perscrutador televisivo perguntou-lhe:

- O que vai fazer com tanto dinheiro?

Não disse com o dinheiro, mas com tanto dinheiro!
O autor de Memorial do Convento, Ensaio sobre a Lucidez, Ensaio sobre a Cegueira, A Jangada de Pedra, A Viagem do Elefante e de tantas obras que engrandecem e prestigiam a literatura portuguesa e mundial lá respondeu, quase com humildade, que era, de facto, muito dinheiro e que iria tentar empregá-lo o melhor que soubesse e pudesse – citei de memória.
Agora, a propósito da transferência dos noventa e quatro milhões, e dos vinte e cinco mil euros de salário diário, por cinco ou seis anos, não ouvi, nunca, dizer-se tanto dinheiro, apenas coisas como a mais cara transferência de sempre. Muito menos fazer-se idêntica pergunta ao futebolista Cristiano Ronaldo, para quem o milhão de Saramago nada mais é do que um punhado de alcagoitas. Em vez disso, para bom entendedor imagens bastam, os perguntadores não perguntaram, mostraram-no aos mimos com Paris Hilton e de férias em Los Angeles onde se pagam dois mil e quinhentos euros por uma noite! Deram-nos a ver outras coisas como jovens de Madrid felizes e contentes, algumas sequiosas, pareceu-me, por passarem a tê-lo à mão, quero dizer, por lá.
Também nos mostraram o senhor Joseph Blater, presidente da FIFA, exultando de satisfação. Para ele o futebol não conhece a crise. Está pujante, compra e vende bem as estrelas de que precisa para fornecer emoções às pessoas, por ser isto o que elas querem. Tal e qual!
De Nova Iorque chegou algo de diferente: disse a ONU que com os noventa e quatro milhões matava a fome a oito milhões de etíopes! Demagogos! O que tem Blater a ver com a Etiópia?
Vivam os perguntadores televisivos! Abaixo a demagogia!

sábado, 13 de junho de 2009

Transferência (Cristiano Ronaldo)




Obsceno!

Os espanhóis desembolsaram noventa e quatro milhões de euros, assim em itálico, a vermelho e por extenso para que se lhe veja bem a grandeza, para o levarem de Manchester para Madrid. Se outros ventos não soprarem ficará na capital do Reino de Castela 5 ou 6 anos, vizinho de Rodriguez Zapatero e de Juan Carlos de Bourbon y Bourbon, vencendo vinte e cinco mil euros por dia, a acreditar nas contas das televisões.

Ouviram-se noventa e quatro milhões de aplausos – um deles de Carlos Queiroz, o seleccionador do futebol português. Disse ele que se pagaram tal por Cristiano Ronaldo é porque ele o vale. Não se ficou por aqui, acrescentando ter dificuldades em calcular o valor das pessoas. Por exemplo, quanto vale Dustin Hoffman, rematando que muita gente se oferece gratuitamente, acabando por sair cara! Sendo ele um agente da indústria do espectáculo, só falou de gente do espectáculo. Nada mais se lhe pode exigir. Não lhe sei responder à pergunta, mas sempre lhe digo que em 10 filmes que vejo de Hoffman, nenhum me desencanta. Quanto a Ronaldo vejo-o a jogar 10 vezes na selecção – em 9 desilude-me, com pena minha!
Fique claro: comecei por gostar do futebol-desporto. Depois metamorfoseou-se para futebol-espectáculo. Persisti no gosto, embora o preferisse como desporto que suava camisolas. Vivemos na Sociedade do Espectáculo.
Do que não gosto é do que gera, quando multidões descontroladas dele se apoderam: violência entre os espectadores, cargas policiais, mortos, feridos, triste desfilar de intriga entre dirigentes num vale tudo, enfim, o caos. Tudo porque mexe com as massas, excita-as, incendeia paixões, radicaliza nacionalismos pacóvios, tapa jogos sujos, é válvula de escape para frustrações, angústias, gritos de injustiça e medos. Deixa de ser o espectáculo de festa que devia ser. Fuma-se um jogo de futebol, e finge-se a vida! Não o culpo, nem aos jogadores (admiro alguns pela sua postura), mas a quem o conduz.
Não acontece só com o futebol-espectáculo. O tempo moderno caminha às cegas. Veja-se o que sucedeu nos bairros límitrofes de Paris, na Grécia, na Itália e, mais recentemente em Portugal.
Pé ante pé, assim a modos que paulatinamente, a Sociedade do Espectáculo caminha para a Sociedade do Caos.
Continuo a gostar do futebol-espectáculo e a desejar que o Cristiano Ronaldo deixe de me desiludir quando joga pela selecção.
Mas, é obsceno o que se deu para o pôr a jogar em Santiago Barnabeu e mais obsceno, ainda, o que lhe vão pagar por dia, mesmo que se pretenda ajudar o rapaz a ser tão ou mais rico do que ela (Paris Hilton) para a poder ter nas férias. Assim uma espécie de toma lá vai-te a ela!
Obsceno!

sexta-feira, 12 de junho de 2009

10 de Junho (Ainda)

Jogar em casa


Em 2008 o Presidente da República foi ao passado. Não se fez à vela, ao que se sabe, por mares nunca dantes navegados. Ficou-se aquém da Taprobana, Evitou perigos e guerras esforçados por lhe sobrar a fraqueza humana. Não conheceu gente remota, ficando, assim, incapaz de entre ela edificar o que quer que fosse. Teve encontros, presume-se. Com o épico, não.
No regresso, sabe-se, passou por Viana do Castelo chamando Dia da Raça ao Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades.
Há quarenta e oito horas, em Santarém, homenageou o capitão de Abril, Salgueiro Maia, enaltecendo-lhe a qualidade de português e de combatente pela liberdade.
Há vinte anos, era então chefe do governo, negou uma pensão ao mesmo militar a quem a liberdade reconquistada dos portugueses tanto deve.
Nos últimos tempos o Presidente da República tem-me aparecido com um new look: penteia-se à Gary Grant, o actor norte-americano de ascendência inglesa que (fonte – Wikipédia), para além de quatro casamentos, viveu com Randolph Scott, outro actor, conhecido pelas fitas de índios e cowboys. Já vinha reparando, outrossim, que o Presidente saliva menos e articula melhor as palavras, para o que terão contribuído, por certo, as aulas de dicção recebidas de uma boa falante do português. Com as eleições europeias a sua família política ocupou a Europa. Os cravos murcharam. O Presidente Sorri mais!
Dia da Raça, depois já não.
Pensão negada a Salgueiro Maia – o Herói preocupava.
Agora, homenagem – o Herói já não incomoda.
O Presidente joga em casa.

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Culinária (Quitaba)


Ninguém me disse para lá ir, mas fui,
às memórias de criança já espigadota.


Encontrei a lavadeira de casa dos meus pais a ensinar-me a fazer um petisco salgado e picante, cujo degustar muito prazer me dava, a mim e a ela, que o comíamos a meias. Eu contribuía com os géneros surripiados da despensa de casa, ela com o saber e a arte. A ele voltei, já homem e pai. O sabor foi quase o mesmo, só faltou o toque da lavadeira amiga. Mas, enfim, pode ser que algum dos visitantes que por aqui passe lhe mexa com melhor jeito. Aqui vai.

Quitaba:
Óptima para entrada ou aperitivo a acompanhar uma cerveja fresca no Verão que um dia destes nos vai entrar por aí adentro.
Comece-se por pouco. Se ficar ao gosto aumentam-se as quantidades, proporcionalmente.
- 200 grs de amendoim torrado e descascado;
- 100 grs de farinha de pau de moagem meio fina, da mesma com que se faz a farofa (compra-se em qualquer supermercado);
- sal ao gosto de cada um;
- 5 ou 6 piripiris;
Passa-se o amendoim pela 1,2,3 (a minha lavadeira não a tinha, suponho que nem sequer estava ainda inventada, socorria-se de um pilão e de um seixo para moer, o que demorava muito mais tempo), até que disso resulte uma pasta não muito liquida. Tira-se a pasta para uma tijela, juntando-se-lhe a farinha o sal e o piripiri. Mistura-se tudo até se obter uma pasta tipo queijo de figo do Algarve. Prova-se a ver se está bem de sal e piripiri. Estende-se a pasta com a altura que se quiser, corta-se aos quadrados ou aos rectângulos, e já está! É fácil, é barato, não dá milhões mas sabe bem.


Na terra onde nasci chama-se jinguba ao amendoim e jindungo ao piripiri. No Algarve, já que o pus ali em cima, os amendoins dão pelo nome de alcagoitas. E, a língua portuguesa é assim mesmo, não há nada a fazer, alcagoita (um substantivo com os dois géneros) quer também dizer,quando no masculino, homem de pouco valor.
Vá lá saber-se porque portas e travessas se chegou àquela paridade!
Ah! E, já agora, garantem os botânicos: o amendoim é um membro da família da beterraba marítima. Quem imaginaria tal?
Se quiserem que lhes diga porque tem o petisco nome feminino, não mo perguntem, não sei! Isso a lavadeira não me explicou, aliás ela era mais dada a feitos do que a falas.


Os pequenos ali na foto são os jindungos, já maduros, mas ainda frescos. Estes são os caluquetas; se forem menores, aí por metade do tamanho e muito mais assanhados, quer dizer, picantes, são quimbundos; também os há arredondados, do tamanho de uma ginja crescida - os cahombos.

10 de Junho (Dia de Portugal)

Puseram-no a olhar para as câmaras.
Mostrou-se-me pela televisão.


Vi gente anónima, outra conhecida. Alguma de pé: o PR e a senhora Maria (esta sentar-se-ia cansada, provavelmente, que a idade vai pesando), o PM e mais uns quantos a olharem para o desfile. PR, com um novo ajeitar do cabelo, e PM, com cara de poucos amigos; a senhora Maria não tanto.
Passaram boinas verdes e vermelhas; caras camufladas; blindados e outras armas, muitas, algumas aconchegadas a peitos como crianças de colo; vários caninos de ar enfastiado; peitos empandeirados de medalhas. Lá por cima voaram caças a jacto e helicópteros.
Falaram o presidente das comemorações e o PR que é de todos, como é de bom tom dizer-se, militares incluídos.
Trinta e sete personalidades, como tal as apresentaram, foram condecoradas. Umas mais, outras menos. A Grã Cruz não chegou para todas, houve que trazer as comendas à liça.
Tudo certo, muito certinho, trajando a rigor. Programa cumprido à risca. Tudo na ordem, a andar pelo mesmo carreiro.
Acabou? Não, ainda não.
Sem nada saber que perguntar, como a isso já nos vão habituando, um repórter inquiriu a criança de rosto rosado e olhos brilhantes:

- Vais querer ser militar?
- Não, não quero ser militar.

Caiu o pano, para o ano há mais.
Porque teimam em inventar o nada?
Não tivesse ouvido a criança e teria regressado à vil e triste apatia.
Não, não quero o país cerimonioso, sisudo, encarcerado, que a televisão me pôs na sala. Quero-o uma ave solta a voar sem anilhas. Quero-o a festejar nas ruas. Quero-o a comemorar Camões com alegria, com fraternidade, com igualdade, com amor. Quero vê-lo alegre no bairro, na vilas, nas aldeias, nas cidades, nos convívios jovens, nas colectividades de recreio, nas academias para a terceira idade, nas casas de cada um. Quero ver o meu país orgulhoso de o ser. Num coreto engravatado podem lá pôr-se os discursantes e as ordens honoríficas.
A criança deu-me alento para a leitura deste dia:


Fecham-se os dedos donde corre a esperança,
Toldam-se os olhos donde corre a vida.
Porquê esperar, porquê, se não se alcança
Mais do que a angústia que nos é devida?

Antes aproveitar a nossa herança
De intenções e palavras proibidas.
Antes rirmos do anjo, cuja lança
Nos expulsa da terra prometida.

Antes sofrer a raiva e o sarcasmo,
Antes o olhar que peca, a mão que rouba,
O gesto que estrangula, a voz que grita.

Antes viver do que morrer no pasmo
Do nada que nos surge e nos devora,
Do monstro que inventámos e nos fita.

( José Carlos Ary dos Santos)

terça-feira, 9 de junho de 2009

Quotidiano (Manifestação de Polícias)


Esclarecedor!

Vi-os na televisão. Eram muitos. Iam, em marcha, para a residência oficial do 1º Ministro protestar contra o que consideram falta de abertura do Governo na discussão do seu estatuto profissional, actualizações salariais, antecipação da idade de reforma para os 55 anos, ou 36 de descontos, e melhores serviços de saúde. Tudo bem, estão no legítimo direito de o fazerem. A rua é muitas vezes necessária para que os governos nos ouçam. Este é um país livre. A Constituição da República, nascida do 25 de Abril, confere a cada um de nós, a liberdade e os direitos de expressão, reunião e manifestação. E, acrescento, também o direito à indignação. É por isso, por ter tal direito, que falo aqui do que vi e ouvi.
Vi chapéus dos polícias a serem atirados, às dezenas, para a rua frontal à residência do PM. Por pouco, alguns deles não atingiram duas viaturas particulares que por ali circulavam. Se as tivessem apanhado e danificado, quebrando, por exemplo, um vidro, como seria? Não vi, mas, pelo que li, até sapatos, casacos e uma camisola da selecção nacional foram arremessados.
As imagens mostraram polícias exaltados, vociferando e querendo avançar. O responsável pela Associação Sindical dos Profissionais da Polícia considerou normal a exaltação dado o estado de revolta dos polícias.
Esclarecedor!
Mas, o que mais me chocou, indignou e deixou estupefacto, foi o que ouvi de um dos polícias. Perguntou-lhe a reportagem.
- O que vai dizer ao 1º ministro e ao ministro?
- Que são uns mentirosos!
Os nossos políticos não prestam – vox populi. A medir por aquele, os nossos polícias não lhes ficam atrás, o que me inquieta; se não forem eles quem vai zelar pela nossa segurança? Os políticos podemos nós mudá-los pelo voto, os polícias não!
Muito parecido com os que vemos nos filmes americanos, série B, o que vi e ouvi era jovem, ar marialva, trajando à civil, barba por fazer, com uns grandes óculos escuros de vidros reflectores, estilo desportivo. Depois de o ouvir sumiu-se-me o respeito pela sua autoridade. Não o esquecerei. Se um dia destes, andando por aí, for por ele interpelado e acusado de não querer colaborar com a autoridade, a propósito do que ele possa, eventualmente, invocar, dir-lhe-ei, não aos gritos, mas serenamente:
- Você é um mentiroso, está a mentir.
Não há ingenuidade que admita ficar o polícia a discutir comigo.
Certo e sabido que me deterá e conduzirá à esquadra mais próxima, se outra coisa antes não fizer.

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Eleições (Parlamento Europeu)


Reflexão de quem votou
Não é nada porreiro, pá!





Obama chegou à presidência dos Estados Unidos porque os norte-americanos perceberam que os republicanos (conservadores e neo-liberais), os tinham enganado e posto a pedir. Agarraram-se à esperança soprada pelas propostas de mudança do sim nós podemos, e elegeram-no, virando costas a um quase clone do cowboy Bush, igualmente em corrida para a Casa Branca. Muito tem feito Obama, nos poucos meses passados. Os americanos continuam a acreditar e a conferir altas taxas de popularidade ao seu presidente.
Quando ouvi Obama disse, para comigo, não acreditar que os europeus e os políticos que governam os países mais ricos tivessem capacidade e vontade, sobretudo vontade, para o entender e acompanhar. Quanto aos políticos da chamada esquerda democrática que igualmente governam alguns países do leque dos menos ricos, não lhes via, nem vejo, rasgo de asa para tal, embora me parecesse, e pareça, terem vontade.
As eleições de Domingo confirmaram as minhas inquietações.
Seduzidos pelo gesto fácil de penalizar governos só porque o são, sem o raciocínio necessário para analisar o mundo que os cerca, despidos da vontade e da clarividência necessárias para se ser cidadão, acomodados à abstenção estúpida e egoísta, convencidos de que a Europa continuará sempre a ser terra de paz, de liberdades e de modelo social, os eleitores europeus fizeram, com o seu voto, regredir a Europa. Os ventos de mudança que sopram do outro lado do Atlântico ficaram-se pelo caminho.
Como foi possível premiar-se Sarkozi, Merkel, Berlusconi, o chefe do PP espanhol e outros, que sempre se opuseram a uma Europa mais social e mais distributiva? E, por arrasto, voltar a pôr Durão Barroso na presidência da Comissão Europeia. Memória curta têm os europeus que se esqueceram rapidamente do encontro dos Açores onde Barroso foi anfitrião e mordomo submisso de Bush, Blair e Aznar, tendo dali partido o grito de ataque ao Iraque, justificado na infâmia: existência de armas de destruição maciça e a falsa relação de Sadam Hussein com Al Qaeda. O resultado foi o que o mundo viu, e grande parte da Europa contra isso protestou: uma guerra ilegal, injusta e sem sentido; centenas de milhares de mortos; um país destruído; crescimento das forças do terrorismo internacional; aumento da tensão no Médio Oriente; em suma um mundo mais inseguro. Quando confrontado com a verdade, Barroso fingiu-se enganado.
Com aqueles cresceu, também, a extrema-direita, facto que deveria deixar os europeus apreensivos, não se me afigurando necessário dizer aqui porquê, tão óbvio isso me parece. Por essa Europa fora, comentadores, como em Portugal Pacheco Pereira, estabelecem uma paridade entre extrema-direita e extrema-esquerda. Sem razão, intelectualmente desonesto. A extrema-direita ascende ao poder da governação por via de alianças que com ela fazem os partidos vencedores como os de Domingo. A extrema-esquerda fica sempre de fora, mesmo quando são outros os ganhadores.
Dos Estados Unidos à América Latina, da Ásia a África, o mundo percebeu que o modelo de desenvolvimento gerado pelos conservadores está errado, fomenta a injustiça, humilha os fracos, premeia os corruptos, gera o saque desenfreado. Porque assim é, ensaia a mudança. Os europeus acham que não e dão-lhe o aval.
Que visão da Europa e dos seus cidadãos foi dada ao Mundo?

Eleições (Parlamento Europeu)

É tempo de zarpar
Olhares de quem votou.

Ontem, Domingo, eleições.
Ganhador: PSD.
Ganhador, também: BE.
Ganhadores assim-assim: PCP/PEV, CDS-PP.
Perdedor: PS
Preguiçosos: 62,4%
Contentes: os irmãos Portas (especialmente o Miguel), Ferreira Leite e Rangel (até quando?), Jerónimo e Ilda.
Ausentes: Os barões do PSD.
Festas: Num bar (PSD); numa sede de campanha (BE).
Tristezas: À saída de um hotel.
Descorteses: Vital por não ter telefonado a felicitar Paulo, este, por disso ter feito queixinhas na Televisão. Feios, os dois!
Mordaz: Ricardo Araújo Pereira. Disse ele, numa das televisões, que o acto eleitoral tinha revelado uma profunda crise na indústria hoteleira cá da terra, pois nunca tinha visto o Hotel Altis tão vazio!
Afirmativo: Louçã.
Perdido: Rodrigo Guedes de Carvalho.
Semi-perdido: José Alberto Carvalho.
Desamparado: António Costa.
Cavalheira: Judite de Sousa.
Polido q.b.: António Vitorino.

Chatos até mais não: Pulido Valente, Maria João Avilez, TVI.
A mais: Pacheco Pereira e Teresa Caeiro.
Trabalho de sapa/propaganda: Moção de censura do CDS-PP
Ainda ali, porquê? Sousa Tavares.


Hoje, Segunda:
Regresso à rotina.
Chuva e vento, Sol escondido a pedir para entrar. Radiação UV muita alta em Évora, Faro, Lisboa e Sines. Bolsa mergulhada no vermelho. Euribor a subir. Jardim, e Berlusconi na televisão. Dentinho a falar, sem nada dizer, de Paris para a RTP, à hora do almoço. Grande plano a esconder-lhe as exiguidades. Quando tiram o rapaz dali? Porque não o põem na Católica emparelhado com Cintra Torres? Quinto dia de greve na PGA.

Esta Segunda-feira acordou mal disposta.
Amanhã é véspera da ponte mais longa do ano. É tempo de zarpar.

domingo, 7 de junho de 2009

Releituras (Eça de Queiroz)



Domingo de eleições
Para além de ter ido ao voto
releio
A Perfeição
Um dos treze contos de Eça de Queiroz
Depois de vencer a guerra de Tróia, Ulisses fez-se ao caminho para regressar a Ítaca, a sua terra natal. O destino, porém, trocou-lhe as voltas, arrastando-o para uma ilha praticamente deserta, onde reinava Calipso, uma das cinquenta nereidas. Ali tudo era perfeito, harmonioso, pacifico. Ao fim de oito anos de lá estar Ulisses cansou-se de tanta serenidade, de passar as horas a divagar sentado numa rocha, a invejar os guerreiros que haviam perecido nas batalhas a que ele resistira. Estava esquecido dos homens e dos deuses, prisioneiro dos amores da deusa, que o tratava garantindo-lhe paz, doçura, abundância e beleza eterna, com o poder de ser, ela própria, filha de Nereu, um deus do mar que reinava no Mediterrâneo.
As folhas das árvores não amareleciam nem caiam, as flores eram, desde o dia em que chegara, sempre belas e viçosas, nem as tempestades apareciam a fustigar-lhe a choupana onde habitava. Tudo era uma harmonia perfeita. O tédio apossou-se do herói. Isso e as saudades de seu filho Telémaco e de sua mulher Penélope angustiavam-no. Saudades tinha, também, da morte que tantas vezes vira de perto.
Um dia apareceu Mercúrio, o mensageiro dos deuses, com uma ordem para que Calipso libertasse Ulisses. Júpiter era o deu dos deuses. A nereida não lhe desobedeceu mas pôs em dúvida que Ulisses não quisesse ficar imortalizado na ilha perfeita, nos seus braços perfeitos. Ele, porém, disse-lhe ter batalhado já muito, que a sua glória entre as gerações estava segura e que só aspirava ao repouso, vigiando os seus gados, concebendo sábias leis para os seus povos. Partiu para regressar a Ítaca.
A despedida:

Mas então recordou que nem beijara a generosa e ilustre Calipso! Rápido, arremessou o manto, pulou através da espuma, correu pela areia, e pousou um beijo sereno na fronte aureolada da deusa. Ela segurou de leve o seu ombro robusto:
- Quantos males te esperam, oh desgraçado! Antes ficasses, para toda a imortalidade, na minha ilha perfeita, entre os meus braços perfeitos…
Ulisses recuou, com um brado perfeito:
- Oh deusa, o irreparável e supremo mal está na tua perfeição!
E, através da vaga, fugiu, trepou sofregamente à jangada, soltou a vela, fendeu o mar, partiu para os trabalhos, para as tormentas, para as misérias – para a delícia das coisas impe
rfeitas!
-.-.-.-.-.-.-.-.-.

A eternidade, a eternidade… só existiu enquanto os deuses duraram!

A dor da saudade...essa, só é dominada por quem não a sente!

sábado, 6 de junho de 2009

Palavras Sábias (Não se faz queixa de um irmão)



Era Sábado
O meu irmão mais velho
e eu.
Tremuno rijo, que é como quem diz jogar à bola, em linguagem mais tratada, no quintal lamacento da nossa casa, com uma redonda de meia, entrapada com pedaços de serapilheira e sumaúma da mafumeira do Kynaxixe à mistura; quando disto não havia, também lá metíamos papel pardo de cartucho com que o Sr. Mário, de alcunha “o porco sujo”, embrulhava a manteiga na mercearia ao lado da Invicta.

Só um instante para dizer porque foi o Sr. Mário assim alcunhado. Andava sempre de avental, atado à barriga e não pendurado ao pescoço, com surro acumulado por nele limpar as mãos depois de as ter tido na lata da manteiga, nos potes da banha, no toucinho, nos torresmos, nos chouriços, nas morcelas, nas barricas da salmoura, nos fardos do bacalhau da Noruega, nos figos secos a granel, na torneira do barril de vinho tinto, nas barras do áspero sabão macaco, nas latas de petróleo para os petromax, no dendem chegado do Caxito, nas curitas para os arranhões, na testa para sacudir o suor, sei lá em que mais (naquela mercearia havia de tudo, como na drogaria, incluindo quinino para as sezões e sulfamidas para as feridas), sem nunca as passar por água e sabão! Às vezes, viram os meus olhos de puto, encarrapitado na ponta mais baixa do balcão, também chegava o avental ao nariz. Eu gostava do Sr. Mário, sempre o tratei assim. Quando lá ia, a mando da minha mãe, buscar manteiga para matabichar e lanchar, dava-me, nunca se esquecia, dois rebuçados que tirava de um frasco redondo de boca larga com aquelas mãos, e uma piscadela cúmplice do olho esquerdo. Que bem me sabiam, a guloseima, com sabor a abacaxi, e o piscar!

Voltando ao Sábado que aqui me trouxe.


Pontapé daqui, corrida para acolá, mergulho a defender, ora ele, o meu irão, ora eu, chega para lá pelo ombro, como víamos fazer aos seniores; e, claro, o puxar pela camisa para atrasar a chegada à bola, sem que fosse marcada falta pois árbitro não tínhamos, ali só nós, quer dizer, ele, o mais velho, mandava. O meu resmungar de nada servia. E pronto! Zás, um puxão mais forte e lá se foi a camisa com um rasgão de alto a baixo. Pus-me a chorar e fui a correr para dentro de casa, procurar a mãe para lhe dizer que tinha sido ele, o mais velho, a fazer-me aquilo. Mal acabei, ofegante, o que lhe fora comunicar, puxou-me uma orelha e disse-me:
- Não se faz queixa de um irmão. É feio!
Deu-me uma ralha e mandou-me para a celha do banho; indiferente continuou a fazer o que estava, não querendo saber de mais nada. As lágrimas secaram-se-me. A orelha latejante e aquelas palavras entraram por mim adentro, abalaram-me. Eu, inocente, fora castigado. Ele, o rasgador de camisas, que também me pregava rasteiras e me magoava as canelas, embora disto não me tivesse queixado, ficara incólume! Não era justo! Este sentido de injustiça não cedeu, não acalmou, não me deu tréguas. Não fosse eu tão recente na vida e ela minha mãe, teria berrado; fiquei-me por gemidos e lamentos surdos que me tomaram o corpo. À noite, ao deitar-me, olhei para o tecto e pus-me com ele à conversa, quer dizer, conversa conversa não era, dos dois só eu falava, como desde cedo na vida continuo a fazer. Porque me dissera ela o que disse? O que quereria ela dizer que ficara calado? Nunca diz tudo o que pensa...Pois, se calhar, que devia ter resolvido o problema entre mim e ele, lá no quintal, não chegando a ela de lágrimas e dedo acusador. Se calhar… Adormeci. Andei pelos sonhos à busca de entendimentos que não fossem mudos como eu ficara. Acordei convicto: fora sapiente, a mãe, no que dissera, e acertada no “castigo”. É mesmo feio fazer queixa de um irmão. A orelha deixou de doer. As palavras, essas, ficaram, têm-me acompanhado ao longo da vida, continuam cá dentro.

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Eleições (Parlamento Europeu)




Eleições para o Parlamento Europeu
Domingo, dia 7



Cito de memória:
Sentado à mesa da esplanada bebericava um café, ao que me pareceu. Rosto jovem, barba meio crescida. Na rua passava uma campanha eleitoral. Pergunta o repórter televisivo:
- Acha que as campanhas esclarecem os eleitores?
- Não sei, depende de como são feitas, do que os candidatos dizem.
- Tem aí uns prospectos. Já os leu?
- Não, nem vou ler, isto não me interessa.

Opina e depois nem sequer lê o que lhe propêm! Foi pena não ter dito o que lhe interessa, sempre ficávamos a saber.

Noutro local.
A câmara mostra um rosto de mulher já não muito jovem. Não apanhei a pergunta, só a fala da senhora:
- Eles dão alguma coisinha?
Ainda estamos nisto? Somos assim? Mais de 30 anos de Democracia e permanecemos incapazes de ser cidadãos, embora andemos por aí a criticar, muitas vezes com razão, e a clamar por direitos de cidadania?
Não, não acredito, recuso-me a crer e a admitir o direito de crítica a quem não participa.
Sou filho de uma Pátria libertada e adulta.
Portugal está na Europa e esta desenha-se no Parlamento Europeu. Quero lá ter muita gente a pensar como eu, no Portugal que eu quero, para que as coisas mudem.
No dia 7 vou votar.

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Tormenta (A morte do Paulo)



3 De Junho de 1992

Era, como hoje, uma Quarta-feira.
O Paulo partiu, andava eu por longe.
Só cheguei a tempo de lhe dar um beijo sem retorno.
Consome-me a ira pela sua morte; não vivera ainda 25 anos.
Dói-me o meu ser, em sofrimento.
Choro a sua ausência, na solidão da amargura, na impotência de o não ter evitado, na angústia de não o voltar a ver, na revolta por ter ficado por ouvir e dizer tudo o que ficou. Choro na minha pequenez incapaz, por ele ter ido sem um último adeus.
O que agora vem à tona é um vazio cheio dele; uma tormenta que me açoita e me persegue. Só a disfarço, nas noites de insónia e no virar dos dias, levando-me ao engano, fingindo.
Não tenho alma nem espírito.
Que ouvidos me ouvem, que olhos me vêem?
Para onde dizer tenho eu, agora, senão para esta cova profunda, e só, que me devora o peito: Olá, Paulo!

Releituras (Álvaro de Campos)




É sobretudo cansaço

Quarta-feira

Andando por aí a esquadrinhar o que sabemos, logo vemos que os povos pagãos da Antiguidade dedicavam este dia a Mercúrio, o astro logo a seguir ao Sol. Os espanhóis puseram-no no calendário chamando-lhe Miércoles e os ingleses Wednesday. Para os romanos Mercúrio era um deus encarregado de levar os recados de outra divindade, Júpiter, de que era filho. Acabou por ser o mensageiro de todos os deuses. Calçava sandálias, que lhe aligeiravam os pés, e usava, de entre outros atavios, um capacete com asas que o tornava o mais veloz, um relâmpago! E foi como Relâmpago que deixou o Olimpo, provavelmente cansado de tanta correria, transitou para a banda desenhada de onde não mais saiu, e ficou conhecido como um dos heróis, aos quadradinhos, da Marvel Comics. Mudança com que pouco ganhou pois aqui também o obrigaram a ser rápido, embora só lhe exigindo que chegasse à velocidade do som. Passou a herói supersónico das minhas leituras aventureiras de jovem.
Mas não foi para andar com o Relâmpago que me meti nesta Quarta-feira.
Preferi ir à estante, olhar para os poemas de Fernando Pessoa, e reler o heterónimo Álvaro de Campos:
O que há em mim é sobretudo cansaço
O que há em mim é sobretudo cansaço
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.
A subtileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto alguém.
Essas coisas todas -
Essas e o que faz falta nelas eternamente -;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.
Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada -
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque eu quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...
E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço.
Íssimo, íssimo. íssimo,
Cansaço...

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Uma rameira (O Tempo)


O Tempo

Já lá vai o tempo em que o Tempo me dava tempo.
Agora, não. Já pouco me cede, e nem por empréstimo se alarga, um nico que seja, antes se encolhe.
Magoa-me, dói-me.

Para além dos padecimentos físicos, põe-se a arranjar-me outros, a ele não lhe falta o tempo para me mortificar, e passa o tempo a dissimular como um fingidor.
Ora me diz que sim, está tudo bem, abrindo-me alentos, ora me amanhece com penares e interrogações, ora me inquieta e desassossega o sono despertando-me com outros oras, roubando-me o tempo do retempero. Quer que eu caminhe sem andar, que ouça sem escutar, que veja sem enxergar, que chore sem lágrimas, que ria sem riso, que grite sem voz, que sonhe sem sonhos, que sofra com dor. Que me zangue sem ira. Que seja inútil e estéril.
Só não diz, nem disfarçando, a que tempo se irá o Tempo.
Mas, o que seria dele sem mim? Nada!
Tenho razão e coração. E ele? Falta-lhe uma coisa, desconhece a outra. Ouço e gosto de ouvir e ver. Olhar o dia, que me traz a luz, os sons e os odores lá de fora, a chegar-me de manhã pela janela semi-cerrada, às vezes de madrugada, e, quando é Primavera, a deixar-me acompanhar o esvoaçar das andorinhas à procura dos beirais, pelo ar aos arrebiques, pintando-me o carro com os seus dejectos ácidos, ou de ver o vizinho que calcorreia, rápido, a rua a caminho da nova pastelaria em busca do croissant acabadinho de sair do micro-ondas. E mesmo no Inverno, quando chove e graniza, ou a luz não é a do Sol mas a de um relâmpago. E ele? Que vê ele?
Quando choro de dor, do magoar que ele insiste em pegar-me, tenho uma mão amiga que me afaga a face, me olha nos olhos e me sustém as lágrimas. E ele?
Quem lhe dá um ombro suave para repousar a cabeça e lhe fala de coisas simples como pagar a conta da água ou do telefone, cada vez mais caras, ou prenuncia a discussão que está para chegar e não atira as zangas para amanhã, das compras a fazer vinda a bonança, ou, ainda, das férias que se hão-de gozar, dando-lhe a consciência de que ainda vive?
Andou ele, alguma vez, por poças de água de caminhos molhados. Deitou-se ele, alguma vez, no capim encharcado depois da chuva? Quando bebeu ele água das lagoas ou rios, depois de neles ter mergulhado, levando-a à boca com as mãos? E o funge, o pirão e o jindungo? Sabe ele o que são? Jogou ele, alguma vez, de pé descalço, com bola de meia enchida de trapos, na lama dos musseques?
Amou ele, alguma vez, arfando de amor?
Ouviu ele, alguma vez, o riso ou o choro de uma criança do mesmo sangue, mais lindos do que os brilhos das estrelas, encostada ao peito, aonde se aconchega para um sono tranquilo e seguro?
Teve ele, alguma vez, tempo para tudo isto? Não, só para me tirar o tempo!
Entre mim e ele corre tudo o que nos separa.
Quem o inventou, quem o trouxe para o meio da gente?
Se tivesse a palavra aqui comigo, e ele fosse ela, chamava-lhe rameira.

domingo, 31 de maio de 2009

Cogitações (Comer automóveis)




Coma
um
automóvel!




A notícia tem uns dias. Em Espanha, o governo oferece 1.500 euros a quem comprar carro novo. Poderá chegar aso 2.000 se as autarquias de residência dos cidadãos acrescentarem 500. Algumas, como a de Madrid, já disseram que não estão para isso. Objectivo da ideia do Governo: apoiar a indústria do sector, a passar, como muitas outras, por dias difíceis trazidos pela tal crise global desencadeada por patologias mórbidas que infectaram os sistemas financeiros e as economias, a partir da ganância, avidez e ausência de escrúpulos made in United States of América.
O executivo castelhano ter-se-á inspirado, ou não, vá lá saber-se, no livro “El hombre que compró un automóbil” do escritor, humorista e critico galego, Wenceslao Fernández Florez (1885/1964). Um diálogo extraído do livro:
“ A tua decisão de comprar um automóvel parece-me plausível – disse Garcés – e honra-te muito que a tenhas tomado. Os automóveis são as pernas dos homens modernos. Se não tens um automóvel não és nada. Não te envergonha ser um pobre peão?
- Sim; às vezes envergonha-me – balbuciei.
- Naturalmente. A Humanidade considerou sempre como um estigma o ter que andar a pé, e desde os tempos mais remotos procura redimir-se disso, ora montando a cavalo, ora movendo as alavancas de um avião, ora afrontando o ridículo em cima de uma bicicleta. Se andas a pé és um pária. Falta-te, desde logo, algo para seres um homem do teu tempo. Completa-te com um automóvel”.
Em nome da defesa de milhares de postos de trabalho assegurados pela indústria automóvel, como por outras, torna-se cada vez mais necessária a mão interventiva e fiscalizadora dos estados por muito que isso possa parecer, aos neo-liberais de lucros sempre garantidos, uma via socializante, uma afronta ao capitalismo. Mas haverá, certamente, outras formas de o fazer que não a de se andar por aí a dar dinheiro às pessoas para comprarem automóveis novos, em mais um apelo ao consumo desenfreado, que já levou as famílias a estarem como estão, com a corda na garganta! E é certo e sabido que a carne é fraca e a tentação grande.
Que dirá um qualquer dos milhões de cidadãos do mundo que não tem a que deitar a mão para comer, tecto para se abrigar, cavalo para montar, avião para viajar, bicicleta para pedalar, e muito menos um automóvel na malga da sopa dos pobres, quando a há e lhe pode chegar, só lhe restando pés para andar?
No mundo inumano que se anda a construir à mesa farta de uns quantos, a Zapatero, Berlusconi, Sarkozy, e outros, não haverá Wenceslao Fernández Florez que lhes valha!
Ainda nos vai restando algum alento para, apesar de tudo, olharmos com ironia e até com algum humor para o que nos rodeia.


Não tenho na minha biblioteca o livro de Florez. Dei com ele ao passar pelo blog A Cova do Raposo, cujo autor contactei e : "por suposto, podes reproducir o que queiras".

sexta-feira, 29 de maio de 2009

O Pensador (Que fazer?)



Domingo na Praia Norte


Ali está o mar

a abrir portões

não sei para onde

Bravo, indomável, doce e fagueiro quando para tal lhe dá. Molha terra rochosa, de piso áspero, com gentes como outras quaisquer.
Olho-o. Indigno-me, encrespo-me como ele. Fica-me o corpo em pedra-pomes.
Grito, no meu silêncio, à espera que as pedras, ali atrás, escurecidas e enrugadas por sóis, ventos, águas e noites ao desatino, façam eco.
Mas não! O som, no silêncio, por mudo se fica.
Regresso às águas. Foram elas, as ondas de espuma branca, a razão do meu clamor por me terem mostrado restaurantes cheios de gente com marcação, outra à espera; ali almoçam quatro por um quarto do salário mínimo nacional; noutros, um inteiro não chega.
Levanta uma gaivota, desfaz-se uma onda. E agora, diz o mar, amansando as vagas, estás a ver ali? Pessoas, muitas, arrumadinhas em filas à espera que abra o novo shoping para o lotarem, consumindo, gastando, numa orgia sem fim. E, sabes quanto ganha um, ou uma, operador de caixa numa daquelas coisas, mesmo nas daquele que aparece na televisão todos os dias, sim, esse que fez uma operação ao estômago em Paris? Arroxeavas-te de vergonha!
Repara agora, insiste o Atlântico: vês os stands? Só utilitários, não é? Os outros? Os topos de gama (posso dizer assim, ou preferes que diga de luxo?) foram-se, já os compraram.
No Algarve, no México, em Cuba, na República Dominicana, e mesmo em sítios por descobrir, está tudo esgotado.
Escuta. Agora passa pelas rádios, televisões e jornais. Escândalos por todo o lado. A banca…a banca…! Só um está preso! Mas, então, as notícias não falam de fraudes e de outras falcatruas, jogos escuros, negócios fora da lei, nesta, naquela e naqueloutra instituição bancária, no tal sistema financeiro?
E nos centros de saúde? Isso mesmo, aí, tratam-te como perro. Perdoa mas o vocábulo espanhol soa-me mais brando, não quero ferir-te os ouvidos, já basta o que te vai carcomendo o coração e enegrecendo o espírito. Por isso é que o Benfica é terceiro, em espanhol. Dói menos e o Quique recebe euros e palmas, em português.
E os pedófilos? Viste-os condenados? Na Casa Pia continua o regabofe, troam as notícias. Aquilo está infectado até à medula. A ex-provedora gritou fechem-na! Para ela, porém, ouvidos de mercador.
Uns senhores jovens, outros não tanto, vão todos os dias às televisões. Há crise, dizem.
Alguns, à parte, mais andados na idade, uns meio gagos, outros com as palavras a enrolarem-se-lhes na boca com espuma branca de saliva a colar-lhes os lábios, proclamam com ar professoral que daquilo (crise) sempre houve. E continuará assim: os ricos aumentam a riqueza e os pobres a miséria. No meio fica o mexilhão destapado, que se lixe! Isto sou eu que o digo, com palavra menos cuidada.
Ah! E ali no banco emissor? Não querem os administradores, que já ganham mais do que os seus pares na América, aquela dos Estados Unidos, a tal do Obama, aumentos e retroactivos dos mesmos?
A gaivota, lá de cima, grita-me bem alto: nas ruas, nas ruas, tens visto? São aos montes, polícias, professores, operários, agricultores, estudantes, abastados disfarçados de o não serem (dá jeito para engrossar as massas), indigentes, sei lá que mais, numa gritaria, que se ouve muito mais do que a tua, a pedirem que saiam ministros, que o governo vá para cura lá fora e por lá fique. Nos passeios patrões a aplaudirem. E nas saunas dos health, vês quem lá está? A banda dos políticos lamechas, a fazer que desintoxicam para depois se meterem a dizer mal uns dos outros, especialmente dois – ambos com um par de óculos. Giram e giram, maldizendo-se, a pegarem-nos fogo à razão.
E chegam os bombeiros com a história da menina russa.
A ave, baixa, pousa num calhau perto de mim, olha-me de frente e glotera a meia voz: ajuda-me, não sei que fazer, tenho o compromisso de jantar todos os dias com um desempregado, mas já passam do meio milhão. Faltar-me-á, por certo, vida para tanto, o que vou eu fazer?