segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Deixa-me desenhar-te!

Estou de visita à rua da minha vida.

Seja o que for que outros nela tenham visto, dela guardava a imagem de um corpo a duas partes. Olho do fim da ladeira, que lhe dá início. Avisto a rua Ele. Não como a recordo. Está diferente.
Dos seus cabelos está a ir-se o negro. Passa-lhes trincha a branqueá-los. Rios correm-lhe pela testa, que se alonga por entradas cavadas. Pequenos ribeiros sulcam-lhe a face. As sobrancelhas encorparam, são agora negras e espessas, dois bosques de pinho bravo e rebelde, crescendo desordenados. Um caminho, ainda escuro, não caldeado pela poeira do tempo, cruza-lhe a barba. Como eram, os seus olhos permanecem grandes, largos, profundos, de brilho saltitante, sempre à procura do olhar cúmplice e companheiro. Os seus lábios movem-se num sorriso a querer chegar ao centro do Mundo. As palavras da sua voz ouço-as mais serenas, repousadas e aconchegantes. Falam do muito que ainda têm para dizer.
Subindo um pouco, é a rua Ela que vejo.
Envolve-a uma brisa elegante, por certo vinda da Primavera, ondulando-lhe o cabelo e o peito, estreitando-lhe a cintura, por ela descendo até pousar suavemente no chão, e por ele caminhar de passo curto e seguro. Os olhos lá cintilam vestidos de verde do mar e de azul do céu, o nariz de graça arrebitada. O riso de menina também. Traços do giz do tempo ajeitam-se-lhes nas maçãs do rosto, alindando-o. Reparo, agora, que a fala se lhe mudou, é mais tranquila, solta as palavras sem pressas, dando-lhes o sentido íntimo de vida a dois. Passa, serena, transportando, na concha das mãos, os afectos e desafectos, para a rega dos dias com que continua a construir a vida.
Rompe a madrugada. Avisto, ao fundo da rua, Ela e Ele caminhando de braço no namoro.
É tempo de terminar a visita. Debruço-me sobre as pedras da calçada, bordejadas por musgo verde. Delas recebo duas flores que se me estendem. Regresso a casa com elas abraçando-me o coração.


(Texto para participação no tema Velhice da Fábrica de Letras)



domingo, 7 de fevereiro de 2010

Vocês conhecem-me?

Este é um desafio, que recebi da ematejoca. Aqui o deixo aberto à paciência dos visitantes, que se disponham a responder. No próximo Sábado, ou Domingo, publicarei as respostas. Vá, então digam lá se me conhecem.

1) A minha escova de dentes é branca e...
a — Laranja
b — Vermelha
c — Azul
d — Roxa
e — Verde

2) Qual destas era a minha personagem favorita das revistas Disney?
a — Tio Patinhas
b — Zé Carioca
c — Minie
d —Pato Donald
e — Pateta

3) Não me convidem para uma refeição de...
a — Sushi
b — Cozido à portuguesa
c — Sardinhas assadas
d — Caldeirada à fragateiro
e — Lampreia

4) Que cidade, que não conheço,mais gostaria de visitar?
a — Chicago
b — Riga
c — Buenos Aires
d — Rejkiavik
e — Palermo

5) De qual destes filmes gostei mais?
a — Casablanca
b — A Vida é Bela
c — Slumdog Milionaire
d — Citizen Kane
e — O Leitor

6) Sonho com...
a —Michelle Pfeiffer
b — Nada de especial
c — Viver até aos 100 anos
d — Viajar pelo mundo fora
e — Tornar-me famoso

7) Os meus piores pesadelos são com:
a — Cobras, lagartos ou crocodilos
b — Aranhas
c — Acidentes
d — Precipícios
e — Monstros

8) Nos canteiros dos jardins gosto de ver...
a — Hortênsias
b — Margaridas
c — Violetas
d — Rosas vermelhas
e — Cravos brancos

9) Dos escritores que se seguem, de quem li quase toda a obra?
a — Agatha Christie
b — Richard Zimmler
c — Günter Grass
d — Émile Zola
e — José Saramago

10) A minha música preferida é...
a — Blues e jazz
b — Gospel
c — Eletrónica
d — Rock and roll
e — Heavy metal

11) Qual é o meu jogo de cartas favorito?
a — King
b — Canasta
c — Sueca
d — Poker
e — Bridge

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

O meu País

Qual tábua de ponte quebrada, o meu País anda enrodilhado por ondas alterosas, que nem as dos mares que naufragaram Ulisses.

Cruzam-se ventos, soprados por consciências pesadas. Espíritos atormentados alçam bandeiras do diz-que-disse. Erguem-se barricadas. Numas e noutras contam-se espingardas, dispara-se artilharia pesada.
A classe política, sentada à boa mesa, troca mimos quase roçando o insulto. Há "bruxas" entre os dirigentes e "inqualificados". A Oposição quer governar. O Governo opõe-se! É o apocalipse, dizem uns!
Na banda a passar vai a comunicação social com "débeis mentais", denunciadores apressados, "Yes-men" acocorados, e outros que não sendo uma coisa nem outra, vão tentando que a tábua se mantenha à superfície.
A Primavera ameaça não querer nascer. O Inverno persiste em medrar.
Agarrado à rocha, continua o mexilhão.
Cresce o mar, sobe a maré. O meu País parece afogar-se.
Estamos todos a precisar de coletes salva-vidas.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Mário Crespo

Estranha história, ou talvez não!
Eduardo Cintra Torres, crítico de televisão do Público e professor da Universidade Católica escreveu a 10 de Janeiro de 2009 naquele jornal: “Crespo é hoje um verdadeiro porta-voz dos interesses informativos do Governo, um operário do agenda setting da central de propaganda.”
A 2 de Maio daquele ano, Cintra Torres voltou a falar de Mário Crespo para explicar que não cometera um erro de avaliação, mas que fora o jornalista quem dera uma cambalhota, por não lhe ter sido dado o lugar que ambicionava em Washington. Escreveu:
«Mário Crespo andou um tempão a servir a agenda do governo no seu programa Jornal das 9. A cadeira dos convidados parecia a cadeira do poder, de tanto que nela se sentaram os ministros Silva Pereira e Santos Silva. No auge desta opção editorial, o jornalista afirmou em entrevista ao Semanário Económico (15.01.09) que nas próximas eleições "provavelmente" votará (ou votaria) Sócrates; e noutra entrevista, ao CM (12.01.09), disse que "provavelmente" irá (ou iria) em breve para Washington por grandes temporadas (por coincidência, foi anunciado esta semana pelo Diário da República que o próximo conselheiro de imprensa em Washington será Carneiro Jacinto, ligado ao PS). Entretanto, a linha editorial de Crespo mudou, e de que maneira, quer no seu programa, quer nos seus artigos de opinião no Jornal de Notícias. Passou a criticar abertamente o poder PS; os ministros políticos do governo já não aquecem a cadeira do Jornal das 9. Crespo não explicou a sua radical mudança editorial (…). Mudar de opinião não é crime, nem para um lado nem para o outro, mas 180 graus é muita mudança.»
Crespo volta, agora, a ser falado por o Jornal de Notícias não ter publicado um texto seu, entendido por si como artigo de opinião, mas que não passa de uma notícia elaborada com base numa conversa de restaurante, que não ouviu, apenas lhe chegou por e-mail. Notícia a carecer de confirmação e de abertura de espaço ao contraditório, em obediência às regras jornalísticas, como lhe esclareceu o director do jornal. Não forneceu quaisquer dados. Para ele a questão era simples: ou o texto era publicado, ou deixaria de escrever para o jornal. Deixou de escrever. Soube-se, depois, que um dos intervenientes na conversa foi Nuno Santos, director de programas da SIC, tendo este afirmado, publicamente, que as coisas não se passaram como Mário Crespo as relatou.
Tudo isto acontece na véspera do lançamento de um livro de crónicas de Mário Crespo. Livro editado por Zita Seabra, antiga militante do PCP e actual deputada do PSD, com prefácio de Medina Carreira, comentador residente do programa Plano Inclinado, que o jornalista apresenta na SIC Noticias.
Curiosamente o texto não publicado pelo Jornal de Noticias veio a público no site do Instituto Sá Carneiro (PSD). Site que o jornalista disse não saber “sequer que existia”. Ainda curiosamente, Crespo não apresentou ontem o Jornal das 9 na SIC. Esteve ausente nas Jornadas Parlamentares do CDS, a convite de Paulo Portas, para, como “especialista em política internacional”, falar do ano de governo do presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, em quem ele não votaria, se fosse norte-americano, como o disse em entrevista.
Estranha história esta! Apenas uma certeza – o lançamento do livro de Mário Crespo vai ser de sala cheia! Tem, para já, o apoio solidário de Manuela Moura Guedes e de José Eduardo Moniz. Muita outra gente aparecerá a comprar o livro de um autor que, como ele próprio diz, deu “…aulas na Independente. A defunta alma mater de tanto saber em Portugal.”


(Conheço pessoalmente Mário Crespo. Segui com interesse muito dos seus trabalhos criticando a realidade que nos cerca. Longe estava de imaginar que um dia faria uma notícia, cujo centro é ele próprio, num olhar para o umbigo confrangedor. Notícia que quis transformar em artigo de opinião. Estará a considerar-se um iluminado?)

sábado, 30 de janeiro de 2010

Haiti (O pesaddelo)

A TV transmitiu o que um haitiano disse ao mundo:
- Um dia destes seremos vampiros. Vamos matá-los e comê-los em salsichas!
A ONU afirma que a reconstrução do Haiti vai demorar décadas!
Comida distribuída, violência nascida. Rouba-se e mata-se por um pedaço de pão e um pingo de água! Guerra sangrenta. Quinze mil militares norte-americanos estão lá, de armas na mão, a dar uma “ajuda”, vá-se lá saber a quê, ou a quem!
Um membro do “governo” haitiano afirma, com ar pomposo: “Vamos construir a República de Port-Au-Prince”. O resto, para além da cidade dos senhores, que o leve o mar, ou outro terramoto! A corrupção espreita, ávida.
Médicos de Porto Rico colocam na Internet imagens festivas da sua ajuda humanitária – armas na mão, copos brindando, serrotes de amputações mostrados! Animalizados, os haitianos estão a ser tratados como animais, como troféus de caça!
Já o disse em post: depois do terramoto, o pesadelo. Gostava de me ter enganado, mas não.
Por isso o meu Sábado, nascido calmo, entristeceu, murchou o olhar, entrou em desatino. Anda num traz e leva, num rodopiar, qual pirueta apanhada por remoinho. Abre e fecha gavetas. Olha para o relógio, a querer desmarcar as horas, mas estas, mesmo coxas que estão algumas, não se dão por achadas, não andam para trás. Acumula silhuetas no saco de viagem, mais um livro de poemas.
- Não, não me perguntes nada, não queiras saber (diz-me ele), estou de partida para o Domingo.
E deixa-me, assim, neste vazio, capítulo terminado dum livro que não escrevi, como se o tempo e eu fossemos um só! Sabe ele que não, que o Tempo e eu nos não andamos a dar bem! Mas vai, encostando-me a não sei que sonho, a um tocar em saudade morta.
Saiu, para a paisagem de Domingo, pela escotilha do navio do meu viajar, que hoje fica em doca seca. Logo mais, quando aquele chegar, a ver hei-de ir, se traz o olhar do Sábado.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Sonho do Viajante

Que hei-de fazer
a este tempo todo?
Andei por um sonho de roupas usadas. Nele me encontrei com gente esquisita, bruxas sem piaçaba, dragões apagados, cavaleiros apeados, virgens perdidas correndo pelo vale de um rio seco. No meio de uma mata a Bela e ele, dormindo ambos.
Aquilo era terra sem mar nem ar, nem Sol, nem chuva, e Lua não tinha. Não dava para sonhar, mas continuei.
Também por lá vi uma lâmpada, baça, de génio despejada. Caminhei por uma estrada, em que mais ninguém viajava. Ao fundo dei com uma gruta de portas escancaradas. Lá estavam, não quarenta, mas mais de mil, agarrados a tetas que, adormecidas, se deixavam sugar. Um deles, ser de olhos faulhentos e dentes saídos, intimou-me a sair.
Cá fora havia um coreto. Um maestro nu dirigia, de batuta na mão. Não vi quem tocava, apenas ouvi uma música lânguida e triste. Para lá do caramanchão pastava um rebanho de carneiros por sobre relva amarela. Na terra do lado, tingida de vermelho, espantalhos faziam que dançavam.
Saltei, então, do sonho.
Despertei com iras, tempestades e calmarias inventadas, a um tempo só!
Que hei-de fazer a este tempo todo?
Estou sem paciência para repousar o pensamento.
E vocês, que fariam?

(Creio já o ter dito. O Viajante passou a viver nesta cubata com o Mwata e comigo. Julgo que este sonho o terá tido numa viagem que fez à terra dos lusitanos)

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Testamento (Alda Lara)

Hoje, desperto por uma ida ao blog Mar de Chamas, da Elisa Ramos, e contrariando o costume dos meus últimos posts, trago-vos um trabalho de outrem, da poetisa angolana Alda Ferreira Pires Barreto de Lara Albuquerque (Benguela, 1930 - Cambambe, 1962), conhecida como Alda Lara. Deixo-vos este poema:


Testamento

À prostituta mais nova
Do bairro mais velho e escuro,
Deixo os meus brincos, lavrados
Em cristal, límpido e puro...
E àquela virgem esquecida
Rapariga sem ternura,
Sonhando algures uma lenda,
Deixo o meu vestido branco,
O meu vestido de noiva,
Todo tecido de renda...
Este meu rosário antigo
Ofereço-o àquele amigo
Que não acredita em Deus...
E os livros, rosários meus
Das contas de outro sofrer,
São para os homens humildes,
Que nunca souberam ler.
Quanto aos meus poemas loucos,
Esses, que são de dor
Sincera e desordenada...
Esses, que são de esperança,
Desesperada mas firme,
Deixo-os a ti, meu amor...
Para que, na paz da hora,
Em que a minha alma venha
Beijar de longe os teus olhos,
Vás por essa noite fora...
Com passos feitos de lua,
Oferecê-los às crianças
Que encontrares em cada rua...
(Alda Lara)


segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Pergunto (Respostas)



Ficou dito que as respostas à pergunta do post anterior seriam colocadas em post. Aqui estão elas, por ordem de chegada. Ao editá-las, retirei, por razões de economia de espaço, saudações e o que não tinha a ver, directamente, com a pergunta. Se quiserem ver as respostas, na íntegra, poderão, obviamente, ir à caixa de comentários do post anterior, que elas lá estão tal como recebidas.

Acho que eu estava dormindo!!=)rsrs ,e esta chave eu não sei de onde pode ser... talvez de algum cofre?hum, se for... me conte o que tem dentro! qdo abrir é claro!! =)

A fechar a arca dos sonhos e a abrir a porta do acordar.

brisonmattos (sem link fornecido e de perfil inacessível)
estava a olhar nos olhos grandes e brilhantes da Suzynha, que veio me acordar lambendo a minha cara toda, pensando como é muito bom viver.

Eu estava deitado, com os olhos fechados,e sonhando que me tinha que levantar,porque era quase meio-dia.

Clecilene Carvalho (http://clecilene.blogspot.com/)
De repente as 10:30 uma pergunta me chamou atenção:O que estavas a fazer, quando acordaste?Tentei responder e me perdi ao tentar dizer,Que estava em meio a um lindo sonho...
Onde havia igualdade, respeito, amor, Havia choro, mas era de alegria...Entre os humanos, encontrava-se humanidade da qual não era preciso criar leis para exigi-la. Todos com ela nasciam. Ao acordar pedir a Deus para que tudo não fosse apenas utopia. Então, a meu ver, a chave é de uma grande fechadura, onde Somam-se todos, inclusive eu e você, para juntos em um melhor viver.

Quando acordei, estava a viver no mundo real. Agora, "acordadinha da silva", entrei no mundo da ficção.

...a humanidade ainda caminha dormindo.logo...

Acho que a trouxeste da outra tua casa...aquela que habitas no outro Mundo onde todos vivemos durante a noite.Sabes, eu sonho muito...e muitas vezes sonho com casas e pessoas que conheço como a palma da minha mão.Umas vezes acordo feliz, outras aflita, será porque estou de volta??? será porque era mais feliz ou menos no outro Mundo de onde vim???!!!Quem sabe??? Diz-me tu, amigo!!!

Eu estava a sonhar que, finalmente, o sol ia afastar as nuvens que têm ensombrado e encharcado este inverno. E... não é que era verdade?Talvez a tua chave fosse a do S. Pedro, que se decidiu a abrir o azul do céu!

Hoje, quando acordei, estava deitada no sofá à espera...

Eu estava a dormir só com um olho. O outro estava a ver o Open da Austrália...Esta coisa de haver torneios de ténis durante a noite troca-me.

Só sei que essa sua chave é bem uma CHAVE MESTRA, pois até aqui já abriu 11 corações e almas, em lindos comentários. E com ela ficamos a pensar tantas coisas, refletir sobre a vida, o amor, a humanidade, acho que abriu nosso domingo com chave de ouro.Na verdade abriu uma interessante comunicação entre nós, o perguntar e ouvir, interessar-se pelo outro. Isso nos enriquece, nos torna mais sensíveis e humanos. Parabéns por essa chave que nos valorizou a vida e o domingo.

Pergunta pertinente,olha estava a dormir,mas já naquela fase do acorda que se está a fazer tarde,depois ir buscar o pão fresquinho a padaria da esquina e trazer os jornais para a leitura de Domingo,e ver as noticias via TV e internet,e espantosa uma que li?(homem retirado dos escombros passados onze dias eonde comeu pequenas coisas,e bebeu (CocaCola) e ainda tinham que fazer jus a marca,até na mais tenebrosa castratrofe,se olha aos bolsos e à publicidade? como vai o mundo.

À espera de ouvir o "Bom Dia" de meu maridão (como é bom ter alguém ocupando permanentemente nosso coração e nossa vida).Concordo com Ney; essa sua chave abriu muitos pensamentos.

Estava a pensar que, com o solito que fêz de manhã e a hora cedo em que abri os olhos, era o momento ideal para a minha caminhada...A tua chave... tu não queres dizer,mas é do coração de alguém que ta entregou e que agora anda desesperada com um coração fechado dentro o peito...Só tu podes resolver o problema...

Não me preocupo muito com chaves, aliás tenho muita dificuldade com elas. Deixo tudo aberto...Mas esta chave talvez seja a chave dos SENTIMENTOS, que hoje vivem às mínguas, todos guardados a cofres e ninguém quer abrir para dividí-los, por conta de tantos medos e egoísmos, mas como tua chave é uma chave mágica, mestra, com certeza conseguirá descobrir e adentrar neste mundo de EMOÇÕES que os sentimentos reservam.

Acordei com o som dos passaros nas árvores do jardim e o sol entrava pela janela quarto adentro :)(verdade, verdadinha!!!, e ter inveja é feeeeeio)

Recolhendo copos que ficaram pelo chão na noite de ontem.

Eu tinha a marca de um beijo...procurei por todo o apartamento, na varanda e até debaixo da cama, mas não encontrei o autor de tal façanha. Será que me beijo a sonhar...?

A sonhar, Carlos, a sonhar....Essa é a chave dos segredos, aqueles que escondemos nos sonhos e que ao acordar, deixamos de saber onde estão.Não se esqueça de adormecer novamente com ela na mão. É bom sonhar!

Quando domingo de manhã acordei estava deitada na minha cama, ouvindo uma vózinha de criança a chamar pelo meu nome, pedindo-me para lhe ir fazer o pequeno almoço!
CARLOS – MENINO BEIJA – FLOR (http://gvpoeta.blogspot.com/)
Tentando abrir outras gavetas de meu coração,de meu ser.
Memórias de uma simples Maria (http://mariamapola.blogspot.com/)
A utopia a deixou aqui,pela ânsia e sede de justiça...Queria ver um sorriso em cada rosto... Não queria ver ninguém tristeNo fundo... no fundo...Com aquela simples chaveEla abriria o coração do homemEntão ele enxergaria o próximoE ela consertaria o mundo

Filoxera (http://escritoaquente.blogspot.com/)
A ter um pesadelo. Acordei assustada.
/\/\/\/\/\
(Agora, façam o favor de visitar os blogs linkados. Verão que não vos estou a fazer uma má sugestão!)
Um abraço. Boa semana para todos.

domingo, 24 de janeiro de 2010

Pergunto


Ao acordar neste Domingo, de Sol envergonhado, tinha uma chave na mão!
Andei pela casa, de porta em porta, de gaveta em gaveta, nenhuma lingueta de fechadura correu. De onde terá vindo tal instrumento? De onde o terei trazido? Esta e outras perguntas fiz. A curiosidade continua por matar. Desisto de me perguntar. Passo a questão aos visitantes que aqui chegarem:

O que estavas a fazer, quando acordaste?

(Não vale dizer que estavas a dormir...! As respostas deixadas serão colocadas em post)

Bom Domingo

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Prémios (Certificado de Qualidade)

Recebi esta distinção da Teresa Santos (http://blogcronicasdateresa.blogspot.com/).
Delicadeza que me envaidece e agradeço. Como diria o Mwata, se aqui estivesse, bué de feliz me deixaste! Obrigado Teresa, por mais este alento. Quer a Teresa que passe o “Certificado” a cinco blogs (fá-lo-ei mais tarde) e responda, “numa forma saudável de conhecimento” (não o faz por menos!), às perguntas que aqui deixo, com as respectivas respostas:
a) Tens medo de quê?
Chegado aonde cheguei, com tanta cinza deixada para trás, sou hoje um espaço sem medos. Quando sustos aparecem, a quererem fazer-se medos, converso com eles, elevando a voz, se necessário for. Espanto-os e continuo.
b) Tens algum guilty pleasure?
Alguns: tabaco, pão com manteiga e vinho tinto.
c) Farias alguma "loucura" por amor/amizade?
Já fiz e continuarei a fazê-lo.
d) Qual o teu maior sonho? [Não vale responder Paz, Amor e Felicidade;)]
Que um dia não haja crianças com fome. Que acabe a tortura do destino que lhes tem sido dado.
e) Nos momentos de tristeza, abatimento, isolas-te ou preferes colo? (Não vale brincar)
Um colo, uns ombros e uns lábios que me reanimem. Por vezes, só mesmo uma conversa com o silêncio da solidão.
f) Entre uma pessoa extrovertida e outra introvertida, qual seria a escolha abstracta?
Nem no campo do abstracto escolho as pessoas por este critério. Devo acrescentar, contudo, que não gosto de gente átona.
g) Sentes que te sentes bem na vida, ou há insatisfações para além do desejável?
Insatisfações para além do desejável, nenhuma. Não consumo bagatelas. Sinto-me bem na vida.
h) Consideras-te mais crítico ou mais ponderado? (mesmo sabendo que há críticas ponderadas)
Mais selectivamente crítico. Não critico por tuta-e-meia, nem sou de criticas hiperacesas. Ao mesmo tempo, ponderado.
i) Julgas-te impulsivo, de fazer filmes, paciente ou... (define o que te julgas no geral).
Se filme é “fita”, não, não faço. Impulsivo, sim.
j) Consegues desejar mal a alguém e eventualmente concretizar? (Responder com sinceridade) Não, de todo! Mas de quando em vez, vem a tentação. Lá dou comigo a “desejar” que aquele bronco tropece e parta o nariz, para deixar de cheirar o que não deve!
k) Conténs-te publicamente em manifestações de afecto (abraçar, beijar, rir alto...)
Por regra. Sou socialmente contido. Detesto “afectos” simulados. A gargalhada alarve incomoda-me.
l)Qual o lado mais acentuado? Orgulho ou teimosia?
São ambos sócios, a cinquenta por cento. Tenho uma prateleira no peito, nela coabitam os dois.
m) Casamentos homossexuais e/ou direito à adopção?
Que se casem…! Adopção? Ainda não acabei a discussão comigo próprio.
n) O que te faz continuar com o blogue?
Coisas como esta, de estar aqui a responder a perguntas de A a Z!
o) O número de visitas ou de comentários influencia o teu blogue?
O número sabe bem, mas não influencia. O interessante é ver quantos comentários (e de que tipo) recebe cada tema colocado em post! Por vezes há surpresas, digo eu, ou talvez não!
p) A tua blogosfera pessoal e ideal, como seria ela?
Um campo de interactividade participada, apelativa, geradora de solidariedades, proporcionadora da discussão despida de linguagem grosseira e sem crivos censórios.
q) Deviam haver encontros de bloguistas? Caso sim em que moldes e caso não porquê?
Apresentar o virtual ao real, talvez fosse interessante…Em que moldes não sei, ele há tantos!
r) Sabes brincar contigo mesmo e rir com quem brinca contigo? (Não vale responder com ironias)
Todos os dias ao acordar, olho a ver se é verdade. Confirmado o despertar, chamo o menino que há em mim e digo-lhe vamos brincar. E brincamos! Quanto a quem brinca comigo, depende, o meu sentido de humor tem reservado o direito de admissão!
s) Já agora, qual ou quais os teus principais defeitos?
Talvez a teimosia, se defeito se lhe pode chamar! Teimosia na maneira como não sou dado a tolerar a falta de educação, a mentira, o grosseirismo e a violência. Detesto chicos-espertos!
t) E em que aspectos te elogiam e/ou achas ter potencialidades e mesmo orgulho nisso?
Tenho recebido elogios por ser solidário, o que muito me orgulha.
u) Entre uma televisão, um computador e um telemóvel, o que escolherias?
Computador. Televisão, às vezes. Telemóvel dispenso.
v) Elogias ou guardas para ti?
Elogio o, ou quem, me pareça merecer. O elogio estimula, revigora e é um reconhecimento.
w) Tens a humildade suficiente para pedir desculpa sem ser indirectamente?
Em absoluto!
x) Consideras-te, grosso modo, uma pessoa sensível ou pragmática?
Hipersensível. Igualmente pragmático. Entendo que uma coisa nada tem a ver com a outra.
y) Perdoas com facilidade?
Sempre tive dificuldade em perceber o que é o perdão… Desculpo, mas nem sempre.Já rompi conhecimentos por não querer desculpar.
z) Qual o teu maior pesadelo ou o que mais te preocupa?
O que mais me preocupa é a sedução do ser humano pelo abismo…

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Haiti (depois do terramoto)

O pesadelo.

Pilhagens, saques e violência sucedem-se. Assaltos a armazéns do WFP (Programa Alimentar Mundial), já ocorridos. Grupos armados (quem os armou!?), provavelmente ainda resquícios dos "tontons macoutes", a guarda pessoal do corrupto e sanguinário ditador que foi Papa Doc, assaltam as pessoas roubando-lhes o pouco dinheiro que lhes resta. Há notícias de que poderão estar a ser atirados para as valas comuns corpos ainda com vida.
A ajuda solidária internacional chega, é um facto, mas o Haiti não tem governo, infraestruturas, ou o que quer que seja que permita montar uma logística de distribuição adequada. É o pandemónio, sem que os poderosos do mundo, os deuses, consigam pôr-lhe fim, virados que estão, certamente, para outras bandas de diferentes interesses.
Triste espectáculo está o mundo a dar!
França e Estados Unidos quase se pegaram de razões. Paris a não querer perder a influência na região, Washington a enviar para o terreno milhares de militares. A propósito do auxílio norte-americano, o Governo de Sarkozy fez saber à ONU: “ajudar não é ocupar, mas recuperar a vida”.
Helicópteros norte-americanos voam a baixa altitude, lançando alimentos e água. Em terra luta-se, violentamente, por apanhá-los. Porque não avança uma esquadrilha com contingentes armados (que já lá estão) e se cria uma zona para distribuição segura da ajuda humanitária? Não, os haitianos são tratados como cães a que se lança um osso.
Feira de vaidades!
Bill Clinton, antigo presidente dos EUA foi a Port-au-Prince, falou com os médicos e enfermeiros ,que ali, abnegadamente, trabalham e disse lamentar, mas não lhe foi possível arranjar material de anestesia (!!!). Cirurgias e amputações continuam a fazer-se a sangue frio!
O espectáculo mediático.
Fazendo-se filmar, repórter da CNN pega numa criança a sangrar, corre com ela ao colo, dizendo que a leva “para a barricada”, para a salvar. Fez-se protagonista, foi ele a notícia que correu mundo! Vouyeurismo puro, não jornalismo!
Repórter de uma televisão portuguesa aponta para um local e diz: “ali é uma lixeira de cadáveres”! Os mortos são lixo!
Que jornalismo é este?
Por onde pára a dignidade?
Quanto à ajuda humanitária, temo que venha a acontecer o que vi suceder durante a segunda guerra civil em Angola – que os tentáculos da corrupção e da candonga dela se apoderem, fazendo engrossar a fortuna de uns quantos (em Angola nem os chamados agentes humanitários ficaram de fora, documentei-o, escrevi-o e publiquei-o em livro!), e aumentar a tormenta de muitos, muitos outros. O povo haitiano vai continuar a alimentar-se das práticas vodu, neles instiladas pelos sucessivos dirigentes corruptos e incapazes, e pelos ferozes ditadores que o têm comandado desde a independência, em 1804, perante a quietude e o silêncio cúmplice dos poderosos do mundo.
Milhões e milhões de euros estão a ser doados para a reconstrução do país. Se o mundo do Bem se não levantar, erguer-se-ão mãos a acenar com “luvas”, e enfileirar-se-ão empresas na busca do lucro fácil. Já vi tal acontecer!
Desde 1991, ano em que os capacetes azuis foram para o Haiti, como força de estabilidade e segurança, a ONU continua impotente e incapaz. Vai aumentar os contingentes.
Depois da catástrofe, o pesadelo.
Os haitianos continuam, e continuarão, a sofrer. Um deles, ouvido por uma televisão disse:
- Tenho que sair daqui, aqui já não há vida!

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Do Mwata


Bela e carinhosa
Vem da terra mussequeira, saltitando pela encosta do pó, vida cantando.
Cabelo alindado com o rubro das acácias, rosas de porcelana ao peito. Veludo de pitanga madura nos lábios, brincos de semente de tamarindo, na boca o odor de caju mucefe. Mãos acolchoadas por fios de sumaúma. Cintura balançando, roçando as ancas pelos sopros da brisa. Saia de mateba encaracolada. Pés descalços descendo para o mundo da Baixa. Traz no coração um bater novo, sentido ao despertar.
Espreitando por entre os flocos das nuvens que a chuva deixou, entrelaçados, na mandioqueira do quintal, chega-se ele, moadié ladino.
Quedes calçados, pintados a Blanco, calção de dobra feita. Camisa de seda, de banga fazer, fralda ao dependuro, dois botões descasados. Cabelo em popa de brilhantina lustrada, cantarolando a moda da última rebita. Ponta dos pés para dentro, um arrastando, outro arqueando, ele lá vem pelo alcatrão quente.
Duas estradas se cruzam.
Chocam-se, ela e ele. Olham-se, sem palavras dizerem. Apenas se metem a beber os olhares. Dão as mãos. Passam a ponte, dobram o tempo dos anos.
Andam, agora, por sobre os beijos do mar à praia sedenta. Seguem até para lá do farol. Aninham-se sob o escuro, dão-se os lábios, deixam que ternuras e carícias por eles passeiem sentires. Amam-se, com demoras, no silêncio comovido dos dois, silêncio que os envolve, só quebrado pelo tremular das ondas. Trocam-se como flores. Por cima deles as estrelas escrevem com os grãos brilhantes da areia fina que lhes serve de leito. Não se percebe bem o que lá fica dito, elas não o revelam, mas, pelo que se espia, parece ser a palavra Vida.
Guardados pela Lua, adormecem na noite, embalados pelo canto do mar.
Da madrugada acorda a manhã, com um Sol de gaivotas. Ele desperta. Olha-a. Murmura-lhe ao ouvido:
- És bela e carinhosa, minha velha!
Um dedo, enrugado, pousa-se-lhe nos lábios, suavemente.
(Quando o Mwata me deu esta história a ler, e me disse para a pôr aqui na cubata, apeteceu-me ouvir isto: )


Um abraço e desejos de bom fim-de-semana.




quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Terramoto no Haiti

Deuses cobardes

Passei já por três guerras. Andei por campos da morte. Vi a tragédia, a dor e o sofrimento a meu lado. Tudo o que de pior o homem é capaz. Por anos e anos assim foi. Julgava estar blindado.
Mas não!
Terramoto no Haiti.
As imagens que a TV me mostrou, e as notícias que as acompanharam são aterradoras.
Centenas de milhar de mortos, três milhões de pessoas afectadas. Sangue e destruição por toda a parte. Sei, sei que a solidariedade internacional está já a movimentar-se (em Portugal a AMI – sempre ela – está de partida para o campo necessitado de ajuda), mas a minha consternação é profunda. Apegou-se uma dor.
Que mão poderosa, grosseira e inumana se mexeu no fundo do mar do Haiti?
É a força da Mãe-Natureza a mostrar-nos o quão pequenos e frágeis somos, dir-me-ão. Sim, mas isso não anula a minha dor e revolta. Que mãe-deus é esta que mata e destrói para que lhe vejamos o poder!? Estou, do mesmo modo, furioso com os deuses que, cobardemente, continuam a abandonar o povo do Haiti. Povo sofredor, onde as crianças comem terra para enganar a fome!

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Ao xadrez

Assinatura reconhecida
Pelo caminho se meteu. Ao fundo, deu com uma casa meio acubatada, duas tábuas a darem ares de porta. Forçou a abertura, sem o conseguir. Caiu-lhe em cima uma tabuleta. Leu o que escrito estava, em linhas meio enviesadas: “aqui vive Deus, em recolhimento, meditando, não entre.”
Obedeceu.
Três dias depois voltou à estrada. Caminhou pelo primeiro desvio. Deu com um portão de ferro, de cadeado franqueado. “ Reino do demo”, leu numa chapa chamuscada e meio amolgada, “faça o favor de entrar”.
Rejeitou o convite.
De regresso a casa, pôs-se a cismar. Assim ficou sete dias inteiros. Ao oitavo, voltou às andanças, por um carreiro de poeiras, desta feita. Uma vida depois parou. Sacudiu o pó, limpou os olhos. Aquilo não era cubata, nem casa, nem nada de parecido, era só um sítio com um letreiro, de luz aos tremeliques, dizendo: “Aqui vivemos os dois. Entre.”
Entrou.
Numa mesa a levitar, estavam, Deus, com o bordão de peregrino no bolso, e o demo, tridente à cinta, a jogar xadrez. Nos intervalos de cada jogo, antes das peças realinhadas, Deus tentava moldar um pedaço de barro. O demo batia com o sílex nos chavelhos, a ver se deles tirava a faísca para atear o tridente. Palavras não as largava o silêncio.
De confusão se encheu. Voltou para trás. Em casa uma vez mais imaginou, com tenacidade. Findo o torvelinho do pensamento tornou ao sítio do letreiro, que já lá não estava. Caída no chão, apenas uma parra gatafunhada.
“Ele ganhou, mas batotou. Voltarei mais tarde. Quero a desforra. Assinado – demo.”
Ao dobrar da folha, numa das esquinas, estava aposto o carimbo: “Assinatura reconhecida por Deus.”
Ficou sem saber que destino dar aos seus pensares perturbados.
Muita vida depois, foi de novo ao letreiro. Encontrou-o, despido de dizeres, de luz apagada. Claridade, apenas a do tecto brumaceiro descido da Lua, chegando para os ver. Um sem o bordão de peregrino, outro despojado do tridente. O primeiro de testa enrugada e barbas longas, o segundo de chavelhos caídos. Ambos envelhecidos, mas continuando, em silêncio, de olhos pregados no xadrez.

(Estória aqui trazida pelo meu amigo Viajante, que passou a partilhar esta cubata com o Mwata e comigo.)

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Desafios (Manias)

A Austeriana e o Pedro desafiaram-me a revelar cinco manias minhas, e passar o desafio a cinco blogs. Manias? Mas eu só tenho manias! Cinco? Deixa ver…

1 - Pensar que amanhã não haverá crianças a morrer de fome;
2 - Que conseguiremos banir as palavras guerra, pobreza, inveja, ódio, solidão e crueldade.
2 - Ter a secretária em desalinho. Se ma arrumam perco-me;
3 - Tomar café em jejum e fumar um cigarrito. De seguida continuar a escrevinhar a vida;
5 - Ter sempre livros ao alcance da mão
--
Vizinhos a que passo:
http://resteadesol.blogspot.com/

http://beijinhosembrulhados.blogspot.com/

http://mautristeefeio.blogspot.com/

http://ematejoca-ematejoca.blogspot.com/

http://cronicasdorochedo.blogspot.com/



(PS- A maior mania que tenho é a de não ter compromissos com a vida, a vida é que se comprometeu. A ter-me!)

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Aisha e Ipundi

Ninguém vai te levar de mim!
Na praia do Morro da Cruz, de mar de águas azuis, com dois rochedos gémeos dele emergindo, areias brancas e mangais perdidos, Aisha e Ipundi ergueram a palhota, casa dos seus amores. A ela chegam, cada sete luas, vindos da sanzala no meio da mata, do outro lado da estrada, a meio dia de caminho. Quando o cansaço os pega param sob a mafumeira, ali se sentando, em busca de descanso, Aisha recolhendo as flores que do alto caiem em chuva, abrindo-se em sumaúma sobre o seu colo, nele fazendo almofada para Ipundi repousar. Encostam o veludo das bocas rubras, gorjeiam cantares de tecelões amarelos.
Dum e doutro trocados os sonhos, falados os pensamentos, repetidas as juras, sossegado o amor, Ipundi entra pelas águas azuis, nelas nadando como as pétalas dos nenúfares do lago da sua sanzala. Adiante mergulha entre os rochedos, regressando do fundo com os bivalves que oferece a Aisha. Esta abre-os, deles retirando as pequenas pérolas que guarda numa rede pendurada em galho seco de mandioqueira, espetado a um canto da palhota. São o olhar do seu amor para o futuro dos dois, diz ela, correndo os dedos pelo colar de missangas feito pelo seu homem, que lho pôs ao pescoço, naquela noite quente em que os corpos de ambos, fumegantes, se entregaram pela primeira vez, rebolando pelos montes e vales da areia, e em que ela disse ninguém vai te levar de mim.
Um dia as águas borbulharam, Ipundi ficou lá no fundo, sem vir. Aisha esperou sentada, encaracolando a areia com as duas mãos num coração. O dia foi. A noite trouxe Lua cheia, praia-mar e vento frio, mas não Ipundi. O bater do mar emudeceu. Triste, chorando a saudade, Aisha esperou, voltou a esperar. Dias correram. Então, sem que o pranto lhe parasse, decidiu regressar à sanzala. Sentou-se sob a mafumeira. As flores não choveram no colo vazio. Só tinha os seus lábios. Voltou para trás, era de noite, outra vez.
Na palhota despiu-se. Soltou a alma. Retirou as pérolas da rede, enfeitando o corpo com elas. Duas pô-las entre as missangas. Deitou-se com o Oceano a beijar-lhe os pés, olhos quentes fitando as estrelas, braços abertos sobre a areia da praia, que se foi alagando com as suas lágrimas. Disse ninguém vai te levar de mim. Cerrou o olhar.
Ao amanhecer, o Sol afastou nuvens a meterem-se no dia, espevitou os espreita-mares por entre as folhas húmidas dos mangais, chamou os flamingos cor-de-rosa, que logo vieram com o seu ballet encantado pousar ao redor da palhota. A cruz do morro alçou os braços. Os dois rochedos fundiram-se. O mar devolveu, de jeito mansinho, numa jangada de ondas suaves, o corpo de Ipundi, deixando-o, num abraço, sobre o de Aisha, como se de um só se tratasse, ficando os dois ali, repousando para sempre.
No caminho da sanzala a mafumeira chorou uma única flor de onde rolaram duas pérolas brilhantes.

(Participação em "Beleza" - Fábrica de Letras)

domingo, 3 de janeiro de 2010

A fingir, de novo

Está difícil ser lusitano!
Pouco me importa, a minha esperança bate-se bem com os obstáculos. Ela é menina ainda, eu sei, como sei, igualmente, que se fará mulher valente, guerreira. Continuo a gostar de trazer ao peito o passado, o presente e o futuro do povo que sou, que nenhuma noite obscura apagou, que sente e que vive, que chora e ri.
Escrevinhadas estas linhas, peço desculpa pelos três dias de ausência. É que tenho andado aturdido com a paulada que me deu a mensagem de Ano Novo do PR que o meu povo tem. Não, não vou meter-me a analisá-la. Tal é trabalho para comentadores e analistas encartados, que disso fazem o seu abono de família. O que aqui vai ficar não passa de um alinhavar ao meu jeito, desajeitado, portanto.
A prosa do PR nunca é brilhante nem luminosa. É pobrezita, a atirar para o banal. Não obstante ter vindo com alguma ironia e humor, embora negro, a última não fugiu à regra. Disse ele que vivemos uma “crise dupla”, “económica e de valores”. As coisas que ele sabe! A gente anda de bolso vazio e alma nua, ao frio, e ainda não tinha dado por ela! 2010 é um ano potencialmente “explosivo”, falou! Tivesse a mensagem durado um pouco mais e chamaria ao recém-chegado terrorista infiltrado da Al-Qaeda!
A Lusitânia caminha para uma “situação explosiva”, proclama o PR lá do alto do seu monte Hermínio. Receita: pôr os do Governo e os que o não são, mas querem sê-lo, num ringue fechado, mais o PS e os outros partidos com bancos no Parlamento, a querelar. Ele não, ficará de fora, equidistante, a “lutar”!? A gritar (para quem será?) “não tenham medo”, “temos de continuar a lutar”. Acrescentou, como um caseiro, “…continuarei a lutar pelo futuro desta nossa terra”.
Uma pausa só para dizer que me ocorreram, agora, as palavras do Presidente do Brasil, Lula da Silva, sobre a OPEP – “ Se o petróleo sobe a OPEP diz que não é culpa dela, se baixa, também não. Então para que é que é que ela serve?”.
Escutado o PR, os senhores da Oposição gritaram, lá de dentro do ringue, estarem disponíveis para o diálogo, e os do PS para entendimentos! Ó senhores, PR e os outros, já chega de conversas de caixeiro-viajante!
Pois é, 2010 nasceu com fralda suja! Não lha mudo, vou deixá-la secar, o mau cheiro passará. A minha esperança menina far-se-á mulher valente, guerreira e cuidará deste Novo Ano, abrindo o cárcere para onde levaram o povo que sou. Venham cá poetas e escritores, músicos e compositores, enfermeiros e professores, operários e camponeses, advogados de causas justas, médicos cumpridores do juramento, engenheiros de pontes para o futuro, seres vulgares como eu. Venham cá gentes do povo que sou, libertadoras de sonhos. Venham cá!

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Os meus selos

Um Mimo de Selo

A minha vaidade chega de atravessar-me. Vem com roupa de marfim, da cor de pinhão fresco, embriagada pelo Sol alourado da manhã, cachimbo fumegante entre os lábios, nervos tamborilando os dedos sobre o teclado, como a querer escrevinhar um poemeto que seja, mas não, está demasiado envaidecida. E digam lá senão tem razão, depois de receber um mimo destes – “Selo dos blogues com qualidade que não têm preço” –, oferecido pela Teresa Santos!
O meu Mwata virou candengue, lhe meteu-se no dongo dele e kubazou de ximbica no Mar da Kyanda lhe falar: estou cheio de banga!
Obrigado, Teresa.
Agora, diz a Teresa, há que nomear cinco blogues para atribuição do selo. Me desculpas, amiga, vou-te baçular a ordem. É Ano Novo de chegar já. Então a minha cabeça de pensar se lembrou vou-lhe dar o selo a todos os dikambas do meu kimbo. Dikambas, tambula conta, lhe levam o selo, mas lhe põem nas vossas cubatas dizendo onde lhe foram buscar e também, de jeito igual, onde é a sanzala da Teresa. Não quero raviangas, não!
Vá, lhe vamos no fazer! Cada vez tem dikamba que não percebe. Então, pergunta, o Mwata explicará, explicado mesmo.
Meus queridos dikambas lhe peguem no copo do marufo, do cachipembe, ou da kissangua, se não têm lhe deitem mão no champanhe. Vamos brindar – Feliz Ano Novo!
Um Kandandu para todos.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Afectos

Afectos
Não, não é verdade que só o mar de outras terras é o mais belo. O meu, este onde agora de novo navego, plantado de ilhas cheias de gente boa, é o mais belo. É ele que faz com que não me esqueça de viver.
Pelo menos até meados de Fevereiro (que os deuses se não esqueçam que promessas são para cumprir…), aqui estarei à conversa convosco. Vou tentar, até que o teclado me solte queixumes dos dedos, ir a casa de cada um, queridos amigos, desejar-vos um Bom Novo Ano. Antes, porém, permitam-me que visite o Ficus, a Lúcia-Lima e os Caluquetas da minha janela. O Ficus está um palmito mais crescido, já traja à homem, todo virado lá para fora, comedor insaciável de Sol, apanhador de brisas, enxotador de nuvens molhadas tapadoras de luz, se me aproximo faz-me cócegas na cara, é um brincalhão sem remédio! A Lúcia-Lima deitou folhas muitas, verdinhas, arrebitadas, chá garantido para os próximos tempos. Os quatro pés de Caluquetas estão feitos num bosque. O desta ponta deitou-se todo para cima das folhas vizinhas, ameigando-as, assim a jeitos de estar a contar-lhes histórias ao ouvido… Digo-lhe, então!? Não é muito nítido o som da resposta, mas se fosse de juras, juraria que o murmúrio rezingão disse assim : Que difícil é ser eu! Deixa-me! Tudo o que desejo é habituar-me a viver!
Mete-se a Lúcia: Larga os caluquetas e ouve o que tinha aqui guardado para o teu regresso.


Pois..., sabes o meu fraquinho pelo Chico…, mas quero dizer-te que não vou puxar assunto discutindo futebol. Não sabes que o meu Benfica é agora treinado por um Jesus? Estás a ver-me a discutir com Jesus?
Mas faz, faz mais doces com açúcar e muito, muito afecto, e manda-os a cada um dos amigos da nossa cubata, a nossa casa de afectos, com desejos de um 2010 cheinho de tudo o que é bom.

domingo, 27 de dezembro de 2009

Hei-de ter! (Folhas Brancas)

Folhas Brancas
Hei-de ter uma árvore de folhas brancas
De que os frutos não sejam pergaminhos ocultos, secretos
Com espáduas de afectos e carícias cobertos
Pés enxutos, calçados a flores vermelhas de odores macios
Ramos rasgando o nevoeiro, interrompendo silêncios
Sorvendo vendaval de Liberdade, sem lábios famintos

Hei-de ter uma árvore de folhas brancas
Crescendo para além da bruma dos deuses
Avistada no tudo da lonjura, na distância da noite
Correndo-me pelas veias, do meu coração fazendo bandeira
Cantora de praças de gente, de fraternidades sem esquinas vazias
Da tolerância amante, ganhadora de destinos sonhados

Hei-de ter uma árvore de folhas brancas
A cidade que chore e interrogue e grite e revolte e destrua solidões
Sem silêncios comovidos nem horizontes de pontos vagos
Sem gente sempre a tremer sempre a fugir por chão inseguro estéril
De rios raiados pelo Sol, prateados pela Lua, coloridos por estrelas
Desaguando no cais da vida extinguindo labaredas inflamadas

Hei-de ter uma árvore de folhas brancas
Crescendo nas anharas do Universo
Embalando no ventre o conteúdo da vida
Guerreira heroína no combate ao Carnaval dos homens
Esgrimista de palavras vivas não tristes, não doridas
Não chorosa de lágrimas mortas, inúteis, secas

Hei-de ter uma árvore de folhas brancas
Da noite escura faiscando amanheceres de luz feitos
Raízes desventrando a terra procurando rastos desfeitos
Emprenhando o húmus de verdades e girassóis
Fada sem malícia, saída do lodo do pântano, dando-me um livro
Lendo-me um poema de amores-perfeitos

Hei-de ter uma árvore de folhas brancas
Que os canhões do ódio e da mentira não tombem
De sementes sãs, delas outras nascendo num pomar sem fim
Estrangulando chamas vis em crepúsculos ensanguentados
Emudecendo tanques, e outras armas, dando voz à razão
E cante um hino Universal com palavras outras

Hei-de um dia ter uma árvore de folhas brancas
Que me acorde num despertar humano não se perca não me deixe
Que se levante num jardim sem mastins escondidos
Sombreando cascatas onde as águas não caiam desiguais
Abrindo janelas para quintais da existência liberta de punhais
E me vista um manto de folhas verdes

(Escrito horas antes de novo internamento hospitalar, de que espero regressar dentro de uma semana)

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Conversa com a Estrela

A noite passada quase me deixava adormecer e se me fechavam os olhos à chave. Um repente sacudiu-me, despertou-me, e vi-a chegar. Não me pareceu uma estrela entre estrelas. Provavelmente, nem estrela seria. Mas que se despegou do manto tricotado a luzes, lá em cima, e veio rodopiando cá para baixo, é verdade!
Tive-a, sentada, a meu lado. Perguntei-lhe ao que vinha. Cumprir uma ordem, disse. Uma ordem? Que ordem? Uma ordem, e basta, replicou, seca, denotando ser senhora de personalidade conflituosa.
Não são muito de fiar, as estrelas que falam. Desconfio que aquela, pois que fosse estrela e não um qualquer objecto desassossegado e perdido, sem nome, seria a do anúncio do nascimento de um Menino, a querer dizer-me que amanhã seria Natal. És tu, não és? Carregou-se-lhe o olhar, crispou-se-lhe a face. Disse não dispor de tempo para conversas, a noite poderia esgotar-se rapidamente. Não desfez a minha desconfiança.
Falei-lhe que não, que não queria que nascesse outro Menino, o fizessem crescer e depois o pregassem vivo a uns paus cruzados, ali o deixando até a morte o desamarrar da dor e do sofrimento. Não, insisti, já bastam os milhares de outros meninos e meninas que todos os dias morrem de fome, pregados aos braços de mães moribundas. Não, teimei, já bastam os milhares de outros meninos e meninas que, todos os dias, as guerras mutilam, aniquilam. De outros milhares, que todos os dias são atirados para as ruas apodrecidas da prostituição, ou devorados pela pedofilia predadora. De outros milhares diariamente acorrentados a trabalho escravo. De outros milhares a quem todos os dias põem armas na mão, maquinando-os para o mal, dizendo-lhes vão, vão matar.
Não, não quero que faças nascer outro Menino! Não quero que ergas mais cruzes.
Quero que ensines os botões de flor a sorrir, o mar a cantar e o vento a embalar sonos livres. Quero que mates a fome, cures a doença, pares a guerra e apagues a violência. Quero que não roubes almas, mas lhes dês forma e beleza, as enchas de valores e as forres de Natal. Quero que cuides de todos aqueles meninos e meninas, e não faças nascer outro Menino. Quero que corras, com o chicote que já usaste, as mentiras dos homens.
Sem me olhar e nada dizer, cabisbaixa, envergonhada me pareceu, a estrela regressou. Foi, por ali acima, esconder-se por detrás das nuvens, deixando-me só, a olhar para a negritude do céu.


(Participação em Fábrica de Letras)

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

De regresso

Olá, Amigas e Amigos, estes são os meus braços e mãos a estenderem-se-vos num amplexo saudoso. Abraço-vos, reconhecido e com amizade, a todos agradecendo as palavras gentis, os votos de recuperação que, com carinho, aqui foram deixados.
Quanto vos queria dizer!
Desculpem, no entanto, ser parco na escrita. Interrompi um internamento hospitalar de 15 dias, durante o qual nem tudo correu bem, mas o que lá vai lá vai,regressando à minha cubata para, no calor da tribo, nela consoar os risos dos meus netos, o carinho dos meus filhos, o amor com com quem casei e vivo há quase 50 anos, éramos (e somos) ainda miúdos. Voltarei ao hospital no dia 27. Nada de complicado, apenas a continuação dos preparos médicos para uma segunda cirurgia que me devolverá o andar, livre de dores e sem o recurso às canadianas.
Quanto vos queria dizer!
As palavras, porém, tardam em chegar. A maior parte permanece colada ao tecto do quarto do hospital, por onde os meus olhos viajaram nas últimas duas semanas, cavando caminhos. Das que já vieram, umas estão ainda desfocadas, outras tropeçam, a cada escrevinhar, como naufragas à procura de letras perdidas. Outras, poucas ainda, mais inconformadas, navegaram pelas águas revoltas, desaguando, ofegantes, na praia saudosa do vosso convívio. São elas que vos escrevem neste anoitecer de Quarta-feira. São elas, que agora andam por mim e vos dizem: Muito obrigado, bem hajam!
Desejo a todos, signifique ele o que significar para cada um, um Bom Natal! Que o novo ano, que está ali à porta a pedir para entrar, vos traga tudo de bom!
Permitam um agradecimento especial à Brites, ao Sebastião e ao Carlos, que vivem no
http://cronicasdorochedo.blogspot.com/, por num post, em sua casa, me terem desejado rápido restabelecimento.
Um grande abraço.

domingo, 6 de dezembro de 2009

Até já!

Até já!

É chegado o momento.
Avanço na busca do meu outro eu, que deixou de reparar em mim, e se perdeu seguro a um silêncio calado, dorido. Hei-de trazê-lo e, com ele, os dias de novo nítidos, amanheceres renascidos, palavras com voz. Hei-de, afinal, trazer este nada, que é o meu tudo!
Estou a caminho de um internamento para ser submetido a uma cirurgia, a primeira de duas que terei de fazer, e que me reterá no hospital por quinze dias, provavelmente. Vou, já com saudades vossas. Sentirei a falta de todos, Amigas e Amigos.
Conto regressar ao vosso sempre desejado convívio a 22 ou 23, a tempo, ainda, de convosco consoar. A todos um abraço. Mais não vos digo porque…, desculpem…
Até já!

100 Seguidores!



100 Seguidores!

Nascido num dia do último Abril o meu e vosso blog, entrou, gatinhando, no oitavo mês de vida. Existência curta, ainda desabrochando, mas já com 100 Seguidores! Há quem não ligue a isto. Não é o meu caso. Estou feliz, vaidoso e agradecido!
Quantos, chegados daqui e dali, entraram, porta dentro, por cá ficando à conversa! Conversa de bem, em fala de amigos. Palavras deixadas, não para enfeitarem, mas para dizerem, umas vezes concordantes, outras não, mas sempre largando a semente do conhecimento, que se foi acumulando, e da amizade, que despontou.
A todos, Amigas e Amigos, o meu abraço de gratidão por me terem vestido com o orgulho de estar entre vós, por me estarem a enriquecer com a vossa amizade.
Permitam, agora, que aqui coloque mais um dos prémios que recebi, bem como um selo assinalando o aniversário de um blog amigo.
De: Renata Maria Parreira Cordeiro - http://blogrenataeuedai.blogspot.com/, dizendo assim: "Para o irmão Carlos." De: Elaine Barnes - http://nasasasdacoruja.blogspot.com/

Como se diz na terra onde nasci, um kandandu muito grande para todos.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Barbas

O avô, por parte da mãe, o outro nunca o conheceu, era um artífice da vida. Reformado da Companhia das Águas, criava canários e jardins encantados. Num mar de gaiolas, na varanda traseira, moravam os cantores, alimentados também com gema de ovo cozida e pingos de Vinho do Porto, para que, dizia ele, a cantoria fosse mais sonora e afinada. Nos jardins da frente cresciam cravos, rosas, dálias, amores-perfeitos, e outras flores de cores invulgares, matizadas, que ele apurava com enxertias delicadas.
Lembra-se de o avô o levar a passear por entre as plantas cujas corolas, sorridentes, pareciam ter vida, quase falavam! Por vezes, quando o passeio acontecia já à noitinha, julgava ver estrelas a bailarem sobre as flores. Ele era menino, mas sabia, de um saber só dele, que aquilo era magia saída das mãos incansáveis do avô. Nunca lhe viu cansaço, o mais certo, pensava ele, é que o avô vivia o cansaço a sós. Assim, aprendeu a fúria de sonhar.
O reformado era um homem feliz, pai de muitos filhos, avô de inúmeros netos. Quando lhe falava ficava pregado às suas palavras. Escutava-as com avidez. Foi dele que um dia ouviu:
- O mais importante da vida é a felicidade, temos é que ser dignos, e não a deixar avariar!
Na quadra natalícia o avô mudava de afazeres. A consoada era em sua casa. No quintal das traseiras, sob um tamarindeiro lá residente, que enfeitava e iluminava, pondo-o a fazer de Árvore de Natal, não se esquecendo da Estrela nem do Presépio, mandava montar a mesa, acrescentada com umas tábuas sobre barris, para que toda a família coubesse. Não o largava. Acompanhava-o nas suas andanças da mesa para a cozinha, e desta para aquela.
O avô espreitava as travessas das rabanadas e das filhoses, os pratos da aletria, do leite-creme, e as terrinas das sopas de cavalo cansado. Perguntava se já tinham chegado a batata-doce, a mandioca, as mangas e os abacaxis, e se também havia cajus. Destapava a panela onde fervia o bacalhau, provando a água com o dedo, a ver se o peixe fora bem demolhado. Chamava a atenção para que as couves e os ovos não cozessem demais. Depois, enquanto outras mãos recheavam a mesa, deixava junto aos pratos dos netos, como era de seu costume, rebuçados e chocolates. Ainda dizia para a avó, não esqueças que o que hoje não for comido ficará para a roupa velha de amanhã.
Em celhas encostadas ao tamarindeiro mandava colocar as bebidas, refrescos para os gaiatos, outras para os adultos, tudo coberto com pedras de gelo. Sentada a família, era o último a tomar lugar, à cabeceira.
Iam consoando. Um pouco antes da meia-noite notava que a cadeira do avô ficava vazia. Lá foi ele outra vez, pensava. Então, alguém gritava chegou o Pai Natal! Traquina, desalinhada e aos gritos, como o avô a gostava de ver, a meninada saltava das cadeiras.
De trás do tamarindeiro, que também fazia a vez de chaminé, surgia um senhor alto, de bata e capuz vermelhos, com uma barba branca quase até lá abaixo, arrastando um saco de serapilheira, enorme. Sentava-se num banco, ali aparecido sem que se tivesse apercebido, saco entre as pernas. Tocava uma sineta. Punha-se a chamar a miudagem pelos nomes, entregando prendas. E era um rasgar de embrulhos, pinotes, e uma algazarra que chegava à rua. Pouco depois, por cima do barulho, ouvia-se a voz forte do avô, então meninos, vamos acabar a consoada. Voltava à mesa e via, de soslaio, que o senhor do capuz vermelho, bem com o banco, tinham desaparecido! No tamarindeiro a estrela brilhava, de lampadazinha às costas.
De regresso a casa, abraçado às prendas, sentado no banco de trás do velhinho Chevrolet de seu pai, ia pensando, eu sei, eu sei quem é o Pai Natal!
Hum… mas o meu avô não tem barba!



(Participação no desafio Natal da Fábrica de Letras)

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

O meu país não é cinzento

Não há muitos dias, li na coluna de “opinião” dum jornal diário, qualquer coisa como isto (cito de cor): …este é um país triste, cinzento e, ultimamente, até mal frequentado… Não digo, por pudor, o nome do jornal nem do autor de tais palavras.
É certo que a fome e a miséria ainda cá estão, que os cuidados de saúde continuam por chegar a todos, que o desemprego está onde está, que o vendaval do desentendimento, que se abateu sobre a Educação, tarda em desaparecer. Que nos tabuleiros do xadrez da Justiça os reis avançam nus, as rainhas meio despidas, e os peões, esses ,vão ardendo e tombando como pedras de dominó.
É certo que à maioria dos políticos, no poder e na oposição, falta um olhar para ver e um ver para reparar, como diria Saramago. Deste estar certo nasce a tristeza, é verdade, mas brota, também, a esperança de que a tristeza deixará, um dia, de o ser. Assim saibamos afastar os profetas da desgraça, que enxameiam os media, e peroram, alguns, no Parlamento, regando a terra com sal e vinagre, matando a semente antes que dela brote o porvir. É gente de coração enrugado, de alma mirrada, de espírito tacanho, que se esconde atrás do medo e da inacção, gente de que não gosto. A gente do meu país, ressuscitado numa madrugada de Abril, não é assim. Aquela é invasora, vinda do passado.
Cinzento, o meu país!?
Não, não é. Passe o cinzentismo de alguns que se arvoram em pensadores e educadores das massas. A juventude já de mim se despediu! Agora, vejo os jovens do meu país, alguns incertos, inseguros, não nego, mas muitos deles, senão a maioria, agarrados ao sonho, ao fulgor com que querem escrever o futuro! Riem, choram, revoltam-se, interpelam, questionam, exigem, apontam! Eles são as sementes germinando na terra fecundada com o húmus das estrelas. Sei que eles não querem que o meu país volte a mergulhar na noite escura em que, por décadas, o enjaularam. Bem hajam os jovens do meu país, que lhe dão cores vivas e quentes. Com eles reaprendo o caminhar e a esperança!
Ultimamente mal frequentado!
Não, não, e não!
Que alegria me dá, quando saio à rua, cruzar-me com gente de outros povos, de uma cor de pele que pouco tem a ver com a que nasci, de sorrisos e risos diferentes, de trajares exóticos, dum jeito de estar que não é o meu, de prantos e orações desconhecidas, de certo linguajar que mente e fala verdade! Que, como a minha, rouba, esconde, e até mata! Que alegria me dá ver essa gente por cá, pelo meu país! Com ela aprendo outros pensares, outros sentires, nem todos me agradam, é certo, mas o que é verdade é que fico mais rico! Mal frequentado foi, de facto, o meu país, durante quase cinquenta anos, mas isso a História já guardou.
Perigos!? Por certo. Mas não foi viajando pelo perigo da aventura que a minha gente de então dobrou o Bojador e deu novos mundos ao mundo, lançando-lhe o fermento que o fez crescer? E não foi com as suas lágrimas que o mar se salgou e ficou como hoje o temos e dele gostamos? Venha, venha mais gente para o meu país! Quero vê-lo continuar a erguer-se por entre perigos e aventuras. Como diria Ulisses, se aqui estivesse, quero que o meu país não deixe de procurar as imperfeições perfeitas.
Prefiro o perigo, a viver só na noite obscura das mentes que erguem fronteiras, que matam a liberdade, que tolhem o pensamento, que calçam botas remendadas.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Vestida de gente

Chega vestida de parca, guarda-chuva e luvas, a minha manhã.
Deixou o Sol envergonhado recolhido atrás das nuvens, como chamazita tremelicando com o frio da noite passada. Vem por entre o chapinhar da chuva. Não de água, forte, mas de gotejar fino que, pacientemente, e batido pelo vento, tudo molha, não só os tolos.
Sol envergonhado ficou dito.
Pois está. Com que timidez o vejo a querer sair das nuvens! Agora, finalmente afoito, desvia-se dos pingos que caiem, põe um calor acariciante na minha janela, que a Lúcia Lima, os caluquetas, o bambu e o Ficus muito agradecem.
Até me viram as costas, pondo as folhas a olhar lá para fora, de tão inebriados estão!
Acreditasse eu, e diria que se meteram à conversa com o Sol e a chuva. Estarão, provavelmente, eu é que os não entendo! Hoje, porque ainda ontem, bem me lembro, respondi às perguntas que me fizeram. Sim a água tem as vitaminas, as folhas amarelas já as tirei, e os galhitos secos também. Nem as deles nem as minhas foram palavras inúteis. Percebi que lhes matei os desassossegos.
Os habitantes da minha janela têm traços humanos, provocam estranhas sensações. Talvez por isso tenham decidido fazer, hoje, o que fizeram!
Arrependidos? Afigura-se-me que sim, pelo menos os caluquetas, os mais faladores deles todos, estão para ali aos gritos.
- Anda cá, vê!
Escapado das nuvens um raio de Sol leva-me o olhar até lá abaixo. Cruzam-se, vindos de pontos diferentes, dão vida às ruas, procuram o quente das pastelarias ou do “take away”, uns apressados, outros não, parecendo quererem levar a chuva pela mão. De pata alçada um canito rega o pneu do carro do vizinho, não tarda chegará a vez do meu!
Afinal, a minha manhã veio vestida de gente!