sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Do Mwata


Momentos
Únicos!

Almoço de família. Mesa cheia. Ouve-se a voz do neto caçula:
- Quero fazer chichi!
Logo outra se escuta, a da prima mais velha, sentada a seu lado:
- Queres que te ajude?
Resposta do caçula:
-Não! A minha pilinha sabe fazer chichi sozinha!

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Porque não?

No post aqui deixado pelo Mwata, intitulado NÃO, em que se fazia referência à greve geral do próximo dia 24, a Maria João, amiga muito estimada desde que cheguei à blogosfera, do blogue Pequenos Detalhes, de leitura imprescindível, imperdível (visitem-na …) deixou este comentário:
“Estou em todas as palavras, solidária com o seu pensamento.
A minha revolta cresce, dia a dia, na mesma proporção da indignação e do sentimento de injustiça.
Sou, portanto, pela manifestação colectiva deste estado de espírito e desta indignação, pois quanto maiores forem os gritos mais elevados e fortes os seus ecos.
O que não sei, no momento presente, é se esta manifestação deva ser feita debaixo de um protesto de greve efectiva ao trabalho. Porque independentemente das responsabilidades e culpas, o certo é que o país está em falência económica e, nesta conjectura, não me parece que seja essa a melhor forma de nos pronunciarmos enquanto cidadãos de um país que amamos tanto, apesar de tudo.
Porque não uma mega manifestação em todo o país, a um sábado ou domingo, onde as pessoas de cada freguesia, cada cidade, cada concelho, viessem para a rua gritar o quanto estão tristes, insatisfeitas e revoltadas com tudo o que lhes foi e será sonegado?”
Estou inteiramente de acordo. A greve geral, convocada pelas centrais sindicais, vai acontecer. Com que adesão, com que participação? Nunca o viremos a saber. Depois da greve seguir-se-á a costumeira e azucrinante guerra de números entre os sindicatos e o Governo. Pegando na ideia da Maria João, daqui lanço um apelo aos sindicatos, como fortes mobilizadores da vontade popular, e à sociedade civil em geral, para que depois da greve todos se empenhem numa mega manifestação, duma ponta à outra de Portugal, sem esquecer as regiões autónomas. Num Sábado, num Domingo, ou mesmo por todo um fim-de-semana. Deixemos as peregrinações aos centros comerciais, os passeios, as idas aos restaurantes, as tardes de cinema, o doce nada fazer do sofá, o recolhimento ao só, o encolher de ombros que tolhe e diminui. De braço dado com filhos e netos, outros familiares, homens ou mulheres, companheiros e amigos, percorramos o chão do País, gritando bem alto a nossa indignação, com cada um erguendo uma bandeira branca com a palavra NÃO.

domingo, 7 de novembro de 2010

Do Viajante

A Corrupção mata

"Dos seis mil milhões de habitantes do planeta, cinco mil milhões são pobres. Partindo desta realidade, cada vez mais associações se mobilizam, em redor da OIT e da UNICEF, para pôr fim a um dos mais revoltantes escândalos do nosso tempo e para exigir o direito sagrado de todas as crianças a uma vida decente.
Essas associações dirigem-se em primeiro lugar aos chefes de Estado e de Governo de todo o mundo. E verificam que, mesmo ao mais alto nível, vários desses dirigentes políticos, na altura da mundialização, se deixam apanhar pela febre do dinheiro fácil e da especulação, sucumbindo à corrupção
."

Li isto no blogue da São. Não pude deixar de pensar que a Humanidade continua violenta no seu caminhar, indiferente aos que sofrem, atirando para a morte, pela doença e pela fome, milhões de vidas. Em que saco irão cair apelos como este? Em Angola fui testemunha de situações que, lamentavelmente, continuam a ocorrer por todo o mundo. Deixo-vos à reflexão:
(…) Os 16 anos (1975 a 1991) do primeiro grande conflito armado entre os angolanos, deixaram o país exaurido e com o aparelho produtivo reduzido a zero. O três caminhos-de-ferro destruídos. A rede das rodovias alcatroadas, das estradas de terra batida e das picadas estava intransitável, por força do grau de destruição provocado por bombardeamentos, pela passagem das lagartas dos carros de combate e, ainda, pela erosão resultante da falta de assistência. E, porque ocupadas nos seus nós estratégicos de ligação, ora pelas FALA da UNITA, ora pelas FAPLA do MPLA, ninguém se atrevia a circular. A tudo isto acrescia a malha de minas colocadas em todo o País (portuguesas, sul-africanas, russas, cubanas e angolanas), barrando os caminhos que as populações percorriam a pé, nas suas trocas comerciais: as do Litoral com sal, peixe, óleo alimentar e sabão; as do Interior com produtos da terra e carvão. Estimativas da ONU apontavam para a existência de 10 milhões de minas. Uma por cada habitante!.

Foi então montada a mais gigantesca operação de abastecimento por via aérea do mundo. Recebidos de doadores internacionais e da Comunidade Europeia, alimentos e outros bens de primeira necessidade começaram a ser transportados regularmente para as províncias, em enormes cargueiros de fabrico soviético (Tupolev e Antonov) e norte-americano (Boeing). Registaram-se, durante semanas, 17 voos diários, com origem em Luanda, outros ocorrendo a partir do aeroporto da Catumbela, a Sul, entre Lobito e Benguela, aproveitando o desembarque, no porto do Lobito, de produtos doados.

Agências especializadas da ONU (PAM e UCAH) coordenavam os envios das doações, que eram entregues no destino a organizações humanitárias como a Cruz Vermelha e a Caritas. Estas, por sua vez, responsabilizavam-se por fazê-las chegar às populações carenciadas. Para custear o transporte de cada tonelada entre a entidade que a recebia e os necessitados, os doadores entregavam também 100 dólares. Contas da altura: transportando cada avião, em média, 20 toneladas, os 17 voos traduziam-se em 340 toneladas diárias, equivalente a qualquer coisa como 34 mil dólares. O que era feito com aquele dinheiro? Esbarrando em silêncios e sistemáticas indisponibilidades das fontes de auscultação indispensável (PAM e UCHA), resultaram frustradas quaisquer investigações. Foi-me apenas possível saber, junto das organizações humanitárias de destino, que estas nunca tinham ouvido falar de verbas para transportes.

Outra situação nada clara: a venda, em alguns mercados paralelos, de produtos de consumo, como leite, azeite, óleos alimentares, farinha, açúcar e sabão, em embalagens da ajuda humanitária. Visitei vários desses mercados, um deles no Huambo (antiga Nova Lisboa) acompanhado por dois elementos do PAM e por um oficial do Comando da Polícia local, a quem manifestei e minha estranheza e pedi uma explicação. Obtive sorrisos, encolher de ombros e um uníssono «foram roubados».

Ficou-me, para sempre, a certeza de fortes conivências das autoridades angolanas e dos agentes humanitários, na candonga dos bens recebidos dos doadores internacionais para os mercados paralelos, onde eram vendidos a preços que a maior parte das pessoas não podia pagar. E outra certeza: a de que a caridade internacional ajudava a engordar a fortuna de alguns, e a prolongar a agonia da morte de muitos outros. As denúncias que então fiz, nas minhas reportagens, de nada valeram. Tudo continuou na mesma (…)
(In Angola a Cultura do Medo, edição Livros do Brasil, 2002)


sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Do Mwata

NÃO
O descontentamento, a revolta e a indignação são uma constante no quotidiano dos portugueses. Hoje, para subsistirmos, tornamo-nos subservientes da Europa dos poderosos e dos mercados. Impõem-nos leis, políticas e até o OE.
Se o hoje continuar como está, que amanhã teremos?
Há culpas portuguesas? Por certo que sim. A incompetência e a incapacidade da classe política que, de há décadas, tem estado à frente dos destinos do país são por demais evidentes para que possam ser negadas. Incompetência e incapacidade para se opor e controlar os abusos do poder económico e financeiro dos poderosos e dos sacrossantos mercados. Basta recordar, por exemplo, a destruição do aparelho produtivo das pescas e da agricultura que nos foi imposta, a troco de uns tostões, no tempo em que o actual PR era Primeiro-Ministro.
Culpas também nos pesam pelo medo, apatia e resignação do povo que somos.
E não só. Sobre nós pende o anátema da mesquinhez, da inveja, da insinuação, dos pequenos ódios. Dos especialistas do mal-dizer. Do regabofe do consumismo que nos cega. Da sedução pela corrupção. Queremos, creio, ser um povo de corpo inteiro. Mas querer ser não pode ser deixarmo-nos ir como um rebanho. Queremos ter o direito à opinião. Tenhamo-lo, sem nos aquartelarmos na exiguidade da indiferença, sem pensarmos que a dignidade se conquista com a renúncia à participação.
Há dias, no debate parlamentar sobre o OE, a deputada Manuela Ferreira Leite (ex-líder do PSD) defendeu a necessidade de “acalmar” os tais mercados que, na sua opinião, não devem ser atiçados já que, acrescentou, “quem manda é quem paga”! Virando-se para o Governo e para os deputados do partido que o apoia (o PS) prescreveu a terapia: “Finjam, finjam que estamos todos muito amigos”!
Quando o maior partido da Oposição, amanhã eventualmente no poder, entende que o grande milongo para os nossos males é o fingimento, o que nos resta? Dizer que não, certamente! Basta de hipocrisia!
As duas centrais sindicais (CGTP e UGT) marcaram uma greve geral para o próximo dia 24. Paralisar o país para dar um abanão nos políticos, despertando-os para a realidade, forçando-os a corrigir erros, é o objectivo. A esmagadora maioria dos portugueses parece estar de acordo com a greve, embora apenas uma minoria nela esteja disposta a participar, talvez por receio de represálias, ou, tão só, por mera fuga à responsabilidade de cada um, aquele permanente encolher de ombros, aguardando que outros façam por nós o que a cada um de nós cabe. O manifesto da indignação pode não ser gratuito, mas o não só será efectivo se colectivo for.


quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Prémio Dardos

«O Prêmio Dardos é o reconhecimento dos ideais que cada blogueiro emprega ao transmitir valores culturais, éticos, literários, pessoais, etc... que em suma, demonstram sua criatividade através do pensamento vivo que está e permanece intacto entre suas letras, e suas palavras.

Esses selos foram criados com a intenção de promover a confraternização entre os blogueiros, uma forma de demonstrar o carinho e reconhecimento por um trabalho que agregue valor à Web».

Como referido na banda lateral desta minha cubata, já por duas vezes recebi o Prémio Dardos. Desta feita chega-me da Malu (Infinito Particular) e da Carla Farinazzi (pequenos barulhos internos). Vindo de quem vem não o podia recusar. A Malu é professora no Estado de São Paulo, Brasil. Os seus posts são de uma escrita elaborada e sensível, provocando-nos o comentário. Nem sempre o faço, porque, confesso, nem sempre me chegam as palavras para tal. Mas aqui digo à Malu, e a todos os que queiram ir visitá-la, que não perco a leitura de um único dos seus textos. Agradeço, sensibilizado, esta distinção que muito me alegra e honra. Obrigado, Malu.

As regras:

- Exibir a imagem do Selo no blogue;

- Revelar o link do blogue que me atribuiu o Prémio;

- Escolher 10, 15 ou 30 blogues para premiar.

Estando as duas primeiras já cumpridas, respeito a terceira:

http://mariaescrevinha.blogspot.com/

http://cronicasdorochedo.blogspot.com/

http://conversavinagrada.blogspot.com/

http://blogcronicasdateresa.blogspot.com/

http://mundocatso.blogspot.com/

http://beijinhosembrulhados.blogspot.com/

http://rubraacacia.blogspot.com/

http://pensasentimentos.blogspot.com/

http://lusibero.blogspot.com/

http://em-prosa-e-verso.blogspot.com/

http://euquicas.blogspot.com/

http://zambezianachuabo.blogspot.com/

http://agulheta.blogspot.com/

http://devaneios-marilu.blogspot.com/

http://naquintadorau.blogspot.com/

Podiam ser mais, tantos são os blogues a que reconheço qualidade, mas hoje fico por estes.

Um abraço a todos.

(À Graça Pereira (zambeziana) e à Fernanda Ferreira (naquintadorau): não consigo entrar nos vossos blogues para vos comunicar a atribuição do prémio. Esta impossibilidade é, aliás, responsável pela minha não presença nas vossas caixas de comentários. Continuarei a tentar)

domingo, 31 de outubro de 2010

Do Mwata

OE.

Para que não haja confusões, OE quer dizer Orçamento do Estado. Fica a explicação para que não surjam leituras, estranhas à boa linguagem, clamando que OE mais não é do que Ocidental (e lusitana) Estupidez.
Não é, não senhor! Veja-se a gritaria que por aí vai: Ufa, até que enfim há acordo!
A vaga habitual de analistas, comentaristas e politólogos (a mais recente estirpe dos faladores) alagou jornais, rádios e televisões. Todos, sem excepção, se extraviaram em jogos semânticos, anunciando vencedores e perdedores, azucrinando-nos o juízo. Tempo perdido, trabalho inútil.
Vencedor há apenas um. O leite achocolatado!
O PS do engenheiro José Sócrates, partido que apoia o Governo e que se diz de esquerda (gandas malandros!) sempre disse que o leitinho com chocolate era coisa para endinheirados. O PSD do Dr. Passos Coelho, partido de matiz neo-liberal, que se esgadanha contra o Governo, dizia que não, aquilo é um bem de consumo adquirido pela classe média, havia que não o subir de preço.
Entre os 23% de IVA pretendidos pelo Governo e os 6% exigidos pelo PSD, a vitória foi para os últimos. Ganhou o leite achocolatado!
Mexe aqui, toca ali, foi o acordo assinado, logo aparecendo o ministro das Finanças a gritar que o entendimento tinha aberto um buraco de 500 milhões de euros no OE. Não encontro no ministro características de alfaiate, quero com isto dizer que não estou a vê-lo pegar num pedaço de ganga de umas calças já muito roçadas, a um passo do lixo, e com ele remendar o rasgo orçamental. Como também não me parece que o ministro seja ser de fugir com o peito às balas (pelo menos até agora), não me custa admitir que nos próximos tempos andará por aí numa correria desenfreada à procura de um Norte que lhe traga a solução.
Tenha calma, senhor ministro. Não se afadigue.
A solução está à mão. Devolva um dos submarinos à senhora Merkel, sim, essa que quer ser imperatriz da Europa, tendo por bobo da corte o senhor Sarkozy, que toca piano e fala francês. Mete ao bolso os 500 milhões. O OE flutuará e Portugal também, nem que seja por uma ou duas semanas, logo se verá. Não se importe que digam submarino ao fundo. E depois? Pedimos uns dongos aos angolanos, não há salalé que lhes dê. Se a coisa der para o torto, não se preocupe, cá nos desenrascaremos. Não são os portugueses um povo desenrascado como não há igual?
Mas, pelo sim pelo não, não vá o diabo tecê-las, arranje aí uma quinhenta de jeito. Mande comprar uns coletes salva-vidas e distribui-los à rapaziada.
E agora, senhor ministro calce as pantufas, chegue-se à lareira e beba um leitinho com chocolate, bem quentinho. Deixe-se estar. Nas eleições que aí vêm escolheremos outros. Poderá, então, tirar a tal fotografia que queria ao lado do Dr. Catroga, o seu "adversário" nas conversações, ambos por nós colocados na reforma. Quando a um e outro perguntarem a profissão, responderão apenas: pensionistas.
Entretanto cá a populaça continuará no tinto carrascão, mesmo que lhe ponham 23% de IVA às costas.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Do Mwata

O OE e os cabelos brancos


Dizia o povo português: “Velhos são os trapos”.
Passando pelo tempo em que assim se falava, escreveu Saramago:

“(…) Velhos seriam, claro, mas não inúteis, não incapazes de meter a sovela no lugar certo do sapato, ou de guiar a a relha do arado com que andassem lavrando. A vida tinha uma coisa má: era dura. E tinha uma coisa boa: era simples. Hoje continua a ser uma coisa dura, mas perdeu a simplicidade (...)”

Os cabelos brancos não se entenderam. A vida continuará a ser ainda mais violentamente severa. No lugar dessa coisa tão simples que é a simplicidade, plantaram um nó de sarilhos.
E aqui chegado, deixo-vos com uma pergunta de Almeida Garrett:

“E eu pergunto aos economistas políticos, aos moralistas, se já calcularam o número de indivíduos que é forçoso condenar à miséria, ao trabalho desproporcionado, à desmoralização, à infância, à ignorância crapulosa, à desgraça invencível, à penúria absoluta, para produzir um rico?”

sábado, 16 de outubro de 2010

E agora?

Até quando?
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O PM comunicou aos autarcas da sua área política (PS) que as verbas para as autarquias vão ser reduzidas em 5%. Aos jornalistas, disse um dos autarcas, cito de cor: temos que cortar nas gorduras. Como sabem há deslocações em autocarros e almoços para idosos, de quinze em quinze dias. Isso custa dinheiro, vamos ter que cortar nas gorduras. Quem assim falou é presidente de câmara, tem à porta do município, para seu uso, um automóvel de fabrico alemão, quase topo de gama, com motorista às ordens. Porque não manda vendê-lo, bem como os dos vereadores, e comprar outros mais baratos? Porque não determina que dia sim, dia não (para que o emagrecer não seja brusco) ele e a vereação andem de transportes públicos. Com a poupança já não tinha que cortar os passeios e almoços dos idosos, que bem os merecem. E, já agora, uma linguagem de respeito para com os idosos não lhe ficava mal. Faltou-lhe o chá, em pequenino, está visto!
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Farinhas, margarinas e óleos alimentares vão ser taxados em 23% de IVA, o valor máximo do imposto. São três bens essenciais, senão mesmo vitais, na dieta alimentar de gente que vive no limiar da pobreza. Porquê tanta violência sobre os mais frágeis e carenciados?
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Uma sociedade livre, justa e solidária, com observância do direito à dignidade humana. É o que queremos. Em seu lugar, porém, vivemos no reino da hipocrisia. Os nossos dias vão sendo cada vez mais marcados pela impaciência e pela falta de respeito mútuo entre os cidadãos, que advêm de constantes ataques à ética e a preceitos morais nos diversos sectores do poder político tutelar do poder público e no poder financeiro tutelar do poder privado.
O desbaratar do dinheiro dos contribuintes, a par de uma violenta agressão tributária, alargam o espectro da fome e da miséria, numa ameaça, já realidade, de desestruturação das famílias.
Entramos numa era de caos, desordem nas instituições públicas e privadas, na família, na sociedade em geral. Confrange que o notemos, mas que apenas critiquemos, critiquemos, alheando-nos da consciência do papel que cada um de nós, por si e em conjunto, deveria desempenhar no resgate de sentimentos e comportamentos indispensáveis a um ideal de vida.
A crise não pode servir de desculpa. Não deve acomodar-nos ao encolher de ombros. Há que exigir justiça e verdade na gestão da coisa pública. Aos que governam há que exigir, sem tibiezas, que terminem com a ineficiência e a ineficácia do aparelho estatal, que ponham fim à corrupção e ao tráfico de influências, que deixem de ser capatazes de um latifúndio para amigos.
Os portugueses estão prestes a gritar viver para quê?!
Antes que o façamos, clamemos a nossa indignação. Não é necessário que sejamos super-homens, basta não deixarmos que o ruído das querelas político-partidárias dos que se dizem pertencer ao chamado arco do poder, abafe as nossas vozes.
Há que resgatar, quanto antes, o sentimento da esperança, fugindo à morte de desânimo pela vida.
E hoje, que o meu país assim está, com um PM que se chama José e um Pedro que PM quer ser, chegou-se-me à memória o poema José, de Carlos Drummond de Andrade. Extractos:

“E agora José? A festa acabou, a luz apagou, o povo sumiu, a noite esfriou, e agora, José? (...) a noite esfriou, o dia não veio, o bonde não veio, o riso não veio, não veio a utopia e tudo acabou e tudo fugiu e tudo mofou, e agora, José? (...) Com a chave na mão, quer abrir a porta, não existe porta; quer morrer no mar, mas o mar secou. (…) José, e agora? (...) Sozinho no escuro qual bicho-do-mato, sem teogonia, sem parede nua para se encostar, sem cavalo preto que fuja do galope, você marcha, José! José, para onde?!

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Desafios

Partidas e chegadas...

O que faz você feliz?

Chamando-lhe brincadeira a Acácia Rubra convidou-me para este desafio. Convite aceite, resposta dada:

Entre partidas e chegadas sopram, por vezes, ventos desencontrados, horríveis. Terá sido, provavelmente, um desses ares agitados que fez das areias de Ogígia e dos braços e colo da bela nereida Calipso uma chegada para Ulisses. Chegada de que o mais sublime dos homens, como lhe chamou Eça, não gostou. Sete anos, para ele longos e vazios, partilhou, forçado, o leito da ninfa do mar dela recebendo um amor quase divino, um bastão de príncipe dos povos e a promessa de vida eterna. Nada o fez feliz. A tudo reagiu com uma indiferença persistente. Perdeu o fulgor. Enclausurou-se em si próprio, passando o tempo de olhar perdido na distância. Calipso não conseguiu arrebatar-lhe o coração.
Ulisses desejava uma outra partida para uma nova chegada. Assim aconteceu. Sete anos depois partiu de regresso a Ítaca para a chegada feliz, finalmente, aos braços da sua amada Penélope.
Entre as muitas chegadas e partidas porque passou, só a chegada ao amor o fez feliz!
Estou com Ulisses!
E as minhas amigas e amigos?

(Dizem as regras para copiar o selo e colocar o link do blogue desafiador. Já feito. Por fim passar o desafio a cinco blogues. Quebro a regra. Acho o desafio interessante. Assim, lanço-o a todos os que por aqui passarem. Vá, peguem nele e dêm largas à imaginação. Ah, outra regra, se aceitarem o desafio devem vir comunicar-mo. Valeu?)

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

É tempo

É tempo de percebermos que políticos, salvo excepções que disso não passam, banqueiros e economistas não vivem senão o sentido doente porque o mundo e eles próprios caminham.
É tempo de nos libertarmos da confusão entre o que nos faz falta e o que querem que desejemos. De virarmos costas ao engano.
É tempo de entendermos que políticos, banqueiros e economistas são homens vulgares, mas que dentro de cada um deles pode existir um homem fatal.
É tempo de nos precavermos, de nos deixarmos de ir atrás.
É tempo de, um a um, nos irmos ensinando a ser o povo que queremos.
É tempo de abrirmos a janela ao vento revolto.
É tempo de passarmos a ser.

domingo, 10 de outubro de 2010

Perguntando


Este Domingo
10-10-10
Dia 10.
Mês 10.
Ano 10.

Como vamos de superstições?
E de crenças?

sábado, 9 de outubro de 2010

Do Viajante

(Consultas a serem comparticipadas pelos Serviço Nacional de Saúde, que há quem queira implantar em Portugal)
Um abraço e bom fim-de-semana para todos.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Do Mwata

A Kuxingila

São já muitos os caminhos andados por Paulo à procura de Sabrina. Com ele deambula também André, o seu amigo negro, pisteiro de caminhos difíceis, pesquisador de destinos.
Hoje, entram numa sanzala onde Paulo conhece um soba de carapinha branca, homem de grandes ciências, diz-lhe André, a que, porque é sábio, juntou outro, o da sua matriarca, a kuxingila que anda sempre de saquito de pele de bambi à cintura, cheio de poderes mágicos como pós de fumo e cheiro e um manipanço, e vazio de ilusões, estas, coisas para ela desconhecidas. A velha, porque de mulher antiga como a vida se trata, aparece-lhes enrolada num pano das cores da mata em redor, com o tal saquito pendurado numa trança de mateba envolvendo-lhe a cintura, voltas de missangas ao pescoço, que parecem rir ou chorar, consoante o ângulo de que se olhe para elas, de onde se dependuram, também, dois dentes de javali, e argolas feitas de fios metálicos, entrelaçadas em pele de um qualquer bichano do mato, do tornozelo até meio das pernas.
De entre todos na sanzala é com ela que têm de falar, pois só ela conhece o tempo certo em que os pós de fumo devem queimar para que os chamamentos resultem, não se falando, é bom dizer-se, da sua capacidade de mezinhar para atrasar a ida do corpo para as terras do sono sem despertar, e das palavras raras, para outros segredos, de seu conhecimento exclusivo, quase em desuso no mundo que se conhece, e sem as quais não há madjau ou mariábu – como por ali chamam aos sortilégios –, que valham.
Sentada num cepo à beira do crepitar de uma fogueira, a matriarca ouve o que André lhe transmite na língua falada por ambos. Adquire uma postura de estar perdida, provavelmente não isso, mas achada noutras paragens. Só as mãos se lhe movem lançando pós para as chamas dançantes.
Ao vê-la assim, sabendo já o que sabe, Paulo pergunta a André, se ele acredita que a Kuxingila tem, de verdade, arte para chamar e usar poderes.
- Ché, meu irmão! Não sei se acredito. Te juro sim que os mais velhos falam que ela tem uma data de sabedorias, que não faz nada à toa, que é mesmo capaz de andar de ligações com um ser que tudo sabe – um ou mais, agora sou eu que te digo, sei cá!
- Então, André, não é mesmo uma quinhenta de conversa fiada?
- Ué! Para quê saber tanto? A nossa África não gosta que lhe perguntem.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Fotomaton

A República apaga as velinhas do bolo.
O tempo pôs-se a caminho. São cem, os anos percorridos…

“A globalização é um totalitarismo. Totalitarismo que não precisa nem de camisas verdes, nem castanhas, nem suásticas. São os ricos que governam e os pobres vivem como podem.”
(José Saramago)
“Aos ricos, o favor da lei, aos pobres, o rigor da lei.”
(José Saramago)

Retrato do meu país, em fotomaton, tirado hoje depois das cerimónias do centenário da República:

Políticos incapazes e um povo indiferente…

(Para que não haja mal entendidos, ou quaisquer distorções – SOU REPUBLICANO)

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Presente!

O porquê do silêncio.

Os seguidores e leitores do Conversas Daqui e Dali ter-se-ão, eventualmente, interrogado sobre o silêncio a que me remeti desde o dia 25 do mês passado, data do meu último post, bem como sobre a ausência nas caixas de comentários de cada um. Alguns já me enviaram mails a quererem saber. Porque como amigos virtuais vos tenho, devo-vos uma explicação.
Não desertei da blogosfera. Se, porventura, tivesse pensado em desistir do blogue, tal vos teria já comunicado. Sucedeu, apenas, que um contratempo, um transtorno de saúde, já ultrapassado, me bateu à porta. Não tendo sido nada de por aí além, a verdade é que os meus neurónios se meteram por um lapso do tempo, correndo a aconchegar-se no repouso. E por ali ficaram como bonecos articulados a que de repente se tira a pilha – paralisados! Nem um ténue feixe de energia lhes encontrei para vos ir visitar e dizer um olá que fosse.
Passado que está o percalço aqui estou. Presente!
São muitas as visitas por fazer, mas a partir de hoje voltarei aos vossos blogues, reiniciando, igualmente, a edição de posts.
Sei, pelo contador de visitas, que muitos por aqui têm passado. A todos muito obrigado.
Um abraço.

sábado, 25 de setembro de 2010

Recordar

Lembram-se disto?



Bom fim-de-semana.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Do Mwata

Outono

Na terra linda, menina e morena, do mar da Kyanda, que os homens tão mal viriam a tratar, raiava o dia mais lindo dos dias de Cacimbo. Foi quando, naquele lugar sem Outono, o deixaram para nascer. Rápido se fez adolescente, que a parca o tempo para ser menino lhe roubou. Mais rápido, ainda, conheceu o andar de homem com que se pôs a percorrer as picadas da vida, sem nunca o Outono ter conhecido.
Um dia, outras paragens o chamaram. Para elas foi, levado por um equinócio.
Terra estranha! Cinzento era o céu, embora, a espaços, por ele espreitassem olhos azuis. O ar perscrutava, cirandando num vento frio e húmido, mordendo-o por dentro da roupa, gretando-lhe os lábios. Por isso, quiçá, deu-se ele a pensar, as pessoas não andavam como na terra da sua nascença, mas corriam dum lado para o outro, parecendo apressadas em chegar. Aonde? Provavelmente, a lado nenhum, vá lá saber-se!
Árvores de troncos e galhos despedidos do verde, humedecidos pelo chorar das nuvens, tendo por chão não terra e capim, mas tapetes de folhas amarelecidas, viu pela primeira vez, surpreso. Daquele chão, feito húmus, subiram-se-lhe odores só agora sentidos, aconchegando-se-lhe como aromas de um tempo novo. Diferentes, é certo, mas igualmente aprazíveis, dos das terras vermelhas e quentes molhadas pela chuva, deixadas para trás. Ao partir da tarde, agasalhou-se, deixando o coração liberto… Assim se entregou à chegada do sono.
Na manhã seguinte viu o Sol pintar o céu com azul de matizes mil, e dar luz aos cinzentos e brancos da terra, trazendo, também, um braçado de frio fino. O dia cresceu com amarelos e outras cores por si vistas pela primeira vez. Cores de uma paleta nova, que ele não sonhara existirem, dando vida a gentes e coisas, tirando-as das sombras. Por elas se encantou.
No repousante recanto da noite, antes do novo leito de amor o ter chamado, aprendeu a escolher as pinhas, a caruma e a lenha para acender a lareira de onde se libertou, qual mimo de mãe, calor acariciante. E ao borralho disseram-lhe toma, come, é uma castanha assada, quente e boa, e bebe, é vinho do porto. O que fez a um tempo, logo perguntando que tempo é este? Outono, responderam-lhe.




segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Do Mwata

Aberturas e Fechaduras

Ali por baixo, na base do monte onde na praia-mar as águas largam o espumar de zanga das ondas, vê um tridente apontando. Segue o sinal, que o conduz até à boca duma caverna. Sendo, embora, o que não parece, depara-se-lhe uma porta fechada. A um dos lados, na pele curtida de um qualquer bichano apanhado numa saída incauta das profundezas quentes da terra, está escrito: Casa do Demo, encerrada para obras. Não force a entrada. Volte daqui a sete dias.

Respeita a recomendação, dá meia volta, segue encosta acima. Ao entardecer, queixam-se-lhe os pés do farto e duro caminhar. Encosta-se a uma rocha, nascida de dentro do mato. Em frente descobre um portal. Da soleira desce uma placa de pechisbeque, segura por um cordão de mateba. Nela lê: deuses em retiro, não perturbe. Tente no próximo milénio.

Resignado deita-se, aninhado sobre si próprio.

Acorda-o uma manhã de sol promissor. Deita mão ao seu bordão de caminhante. Parte em busca do pico da montanha. Passa anos entre tempestades e bonanças. Vagabundeia por planícies vazias. Vence medos. Vive silêncios. Vê nascer e morrer o Sol, a Lua, e as estrelas. Descansa em sombras de confiança. Encontra gentes de cuja existência jamais suspeitara. Aprende outros falares. Conhece diferentes sentires e viveres. Não crendo que a terra seja maior do que ele próprio, prossegue. Chega, finalmente, sendo certo que, onde a terra termina, começa ele agora, conquistador, erguendo-se, olhando em redor. Nada havendo a dizer-lhe que não, abre a porta meio escondida entre nuvens.

Numa estopa meio esfarrapada, talvez fruto de maus-tratos de mãos por si passadas, tombada num chão de cascalho solto, lê, a custo: vedada a entrada a humanos.

domingo, 19 de setembro de 2010

Recordar Saramago

“(…) Diz-se que o mal não atura, embora, pela fadiga que traz consigo, pareça às vezes que sim, mas o que nenhuma dúvida se tem, é não durar o bem sempre. Está um homem em suavíssimo torpor, ouvindo as cigarras, não foi a comida fartura, mas um estômago avisado sabe encontrar muito no pouco, e além disso temos o sol, que também alimenta, eis senão quando ressoa a corneta, se estivéssemos no vale de Josafá mandávamos acordar os mortos, assim não há outro remédio que levantarem-se os vivos (…) “
(in Memorial do Convento, edição exclusiva do Círculo de Leitores 1988, pagina 213)

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Palavras emprestadas

Tenho procurado por elas. Avaras, escondem-se. Umas, em terras e mares distantes deste mundo. Outras, num dongo vazio no fundo dum rio que deixou de correr. Vi algumas, mas quando as chamei mostraram-me uns olhos cansados. Fugindo ao encontro seguiram num caminhar tímido e arrastado, sem sequer um adeus, um sorriso que fosse. Dobraram a esquina, não olhando para trás. Então, porque sem palavras estou, peço emprestadas:

Poética

De manhã escureço
De dia tardo
De tarde anoiteço
De noite ardo.

A oeste a morte
Contra quem vivo
Do sul cativo
O este é meu norte.

Outros que contem
Passo por passo:
Eu morro ontem

Nasço amanhã
Ando onde há espaço:
– Meu tempo é quando.
(Vinícius de Moraes)

Um bom fim-de-semana para todos.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Do Mwata

A teia
Numa noite lenta, dormindo sem sono, caminhou pelas margens de um sonho, de dentro do qual um vestido comprido, e, no interior deste, um corpo nu olharam para si.

Sendo já muzangala, entendeu que não, não era cedo para se pôr a pensar no que é isso de ser homem de ter mulher. Deste pensar falou ao Mwata, seu confidente de intimidades, quando estas se lhe chegam. Ouviu:
“O amor nasce espontâneo, como os trevos, o caluqueta, ou a erva da pedra para o chá dos rins, entre o capim, mas, tambula, a felicidade não vem com ele. Felicidade é coisa da gente fazer com cuidado para não avariar.”
E continuou:
“Quando um homem e uma mulher se ligam, não é por uma corrente só, um cabo. Nada disso. São vários os baraços, da alma e da consciência, a uni-los, terminando cada um deles, de um e de outro lado, em pontas finas, frágeis, que é preciso ir reforçando com o tempo, pois por elas entram e saem as forças da vida, as cores da felicidade, a compreensão, a partilha, a verdade, o afecto, a amizade, o carinho, os segredos comuns e a fidelidade.
Parte-se uma daquelas pontas e é um problema. Se pelo fio passar o carinho, este volta para trás, transforma-se em azedume, por vezes em ódio; se for a linha do afecto, ele recua do mesmo modo, transfigura-se em ciúme, desconfiança. A verdade passa a artimanha, a fidelidade a silêncios, e assim sempre sendo. As pontas de que te falo, uma vez desfeitas, não se conseguem atar de novo, perdem-se. Deslaçadas todas, acaba-se tudo. É aqui que a felicidade sofre danos e se avaria. Os dois separam-se, ficam afogando-se. A seguir bate o disparate e o arrependimento mordendo com dentes de víbora venenosa.
Entendes?”
Disse que sim. A partir dali fez, com desvelo e saberes que foi aprendendo, um novelo de fios das sedas de que o Mwata lhe falou. Quando um dia a encontrou, com ela teceu a teia da sua felicidade, uma casa grande onde as portas não rangem e os postigos não batem. Uma teia que todas as noites luzes descidas dos céus vêm beijar.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Recordar Saramago

“Ao contrário do que em geral se pensa, tomar uma decisão é uma das decisões mais fáceis deste mundo, como cabalmente se demonstra pelo facto de não fazermos mais nada que multiplicá-las ao longo de todo o santíssimo dia, porém, e aí esbarramos com o busílis da questão, elas sempre nos vêm à posteriori com os seus problemazinhos particulares, ou, para que fiquemos a entender-nos, com os seus rabos por esfolar, sendo o primeiro deles o nosso grau de capacidade para mantê-las e o segundo o nosso grau de vontade para realizá-las.”
(in O Homem Duplicado, 2º edição (2003), pag. 273)



quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Do Mwata

À saída do sonho

Desperta ao ouvir o silêncio da noite correr para o chilreio da madrugada. O dia chega, de manhã soalheira pela mão. Deixa a esteira do sono. Passa a porta da cubata, caminhando pela solidão áspera do seu pensamento.
E vai ao outro lado da estrada procurar o mar, seu companheiro confidente de todas as horas, amigo e amante. A ele se entrega, sempre que ali chega, oferecendo-lhe o corpo da cor da blusa do mar em noite sem Lua, deixando que lhe cheire o odor a caju, dando-lhe a beber a boca com sabor a maboque, que lhe escorre por entre os lábios.
Hoje, porém, desvia-se um pouco. Com o olhar de brilho vivo procura o trilho que a há-de levar, sabe ela, ao sítio a que os tempos se recolhem, ao local onde a terra se dilata de dentro das águas, para lá do morro de onde os escravos eram enviados para o outro lado do mar. Ela conhece a história, sangue de escravos corre por si. Não quer que a terra e o Oceano dela lhe falem, que a façam olhar para trás. Deseja, apenas, que a libertem, que lhe devolvam o pensamento solto de agruras. Porque hoje, entende, é o início de ser ela.
A terra em silêncio, e o mar de voz recolhida, escutam-na.
O tempo corre. Chega-se agora o entardecer, e, com este, uma onda maior colocando a seus pés uma flor de pétalas brilhantes. Debruça-se, recolhe a corola de cores até então para si desconhecidas. Olha-a e sorri, grande e doce, como nunca ali antes visto.
Regressa à cubata. Sem bagagem, parte no dia seguinte para não mais voltar. Com ela leva uma flor e a vontade de encontrar a pessoa nascida no sonho.

(Para Fábrica de Letras, desafio de Setembro)

domingo, 29 de agosto de 2010

Os meus selos


Chá e Amizade

Para além de uma chávena de chá, que com muito gosto aceitei, a Teresa Hoffbauer (ematejoca) ofereceu-me, também, este selo, enviado de Düsseldorf. Distinção que me apraz registar. Obrigado, Teresa. Acompanharam-no regras, a primeira das quais referir quem mo ofereceu. Já o fiz. Depois dizer qual o meu chá preferido. À cabeça o chá preto, de seguida o de Caxinde e o de Lúcia-Lima. É preciso que diga, igualmente, quantas colheres de açúcar costumo utilizar. Pois bem! Duas a três! Não me peçam para explicar o porquê, não saberia fazê-lo, a verdade é que bebo café sem açúcar, mas dele não prescindo no chá!
Agora, sendo o selo já meu, ofereço-o a todas as amigas e amigos que por aqui têm por hábito passar. É igual a amizade e mesma a simpatia por todos. Gostaria que nele pegassem e o colocassem nos vossos blogues, respondendo às perguntas e dizendo de onde o levaram, sem esquecerem, peço-vos, de referirem que o recebi da Teresa.
De momento apenas tenho chá de Lúcia-Lima. Vai uma chávena?
Obrigado a todos.

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Do Viajante


À Janela do Tempo

Não se lhe pergunte a idade, a resposta poderá ficar por se ouvir. À força de insistência acabará por dizer, tenha-se por mais certo, não sei, ela muda todos os dias. Saiba-se, apenas, que está ali, sentado naquele banco pintado de verde mais parecendo debruçado sobre uma janela do tempo, tal a posição a que se dão tronco e mãos.
Repare-se, está de testa franzida, olhar viajando. Estranha postura? Vá lá saber-se! Nem sempre o que parece é, mas o ser dele, hoje, denota, com uma observação mais cuidada o podemos observar, que um turbilhão o envolve – um tropel de ideias e sentimentos cirandando por si adentro!
Das ideias retém a de que não deve permitir que a ordem de seguir a ordem das coisas se lhe imponha. Não quer mergulhar no caos organizado. Desalinhar as pedras do xadrez, salvaguardando os peões, com que quem comanda a vida com ele quer jogar, está ele agora a imaginar, pode levá-lo a lances de um xeque vencedor. Tem por ideia que, se o fizer, não deixará atar-se pelas suas próprias mãos.
Dos sentimentos repele os ditados por palavras aos solavancos, atropelando-se, preenchendo horas vazias, gritando silêncios impertinentes. Sabe ele: muitas vezes as emoções pouco ou nada têm de sábias, embora se vistam de tal, apontam para caminhos errados.
Ditas as coisas deste modo é admissível pensar ter ele estado à conversa com o turbilhão. Deixemos que o pensamento assim se mantenha.
Está agora de testa já não franzida e de olhar regressado. Movem-se-lhe os lábios. Esgueirando-se por entre a folhagem das árvores que o circundam, a brisa sopra e traz para que se ouça:
Porque te chegaste hoje, nostalgia? Quando partires não me leves nem o pensamento nem as palavras. Um e outras são o que ainda de meu vou tendo.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Soprar no Tempo!

Pois é!

Este vosso amigo já tem mais uma folha do Tempo virada, menos uma para escrever. Foi uma canseira para aqui chegar, andei sei lá por onde! Travei, e travo, batalhas sem conta! Porque águas revoltas naveguei! Em quanto choro e riso mergulhei! Venci adamastores! Quantas calmarias abracei! Quanto amor nasceu! Inúmeros ses ficaram pelo caminho...Mas, pronto, cá estou, disposto a continuar a caminhada, de bordão na mão, como peregrino da vida. Não vos vou falar do que ela tem sido. Que importa isso?! Hoje rufam os tambores no quimbo, para a festa que acontecerá na minha cubata. Logo mais, a tribo dos catorze que já somos, sentar-se-á à mesa. Dir-me-ão para soprar nas velas assinalando o Tempo vivido. Cantar-me-ão amor, carinho e fraternidade. Os netos caçulas, uma ela e um ele, mandar-me-ão (eles mandam, pois...!) reacender as velas para, também eles, as apagarem com um sopro, porventura mais forte e certeiro que o meu.
Depois o amanhã chegará, por certo com uma manhã de sol de Agosto, como a de hoje. Agora, se os meus amigos e leitores o permitem, vou ouvir Vinicius, na voz de Bethânia.

Um grande abraço para todos!

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Morte na auto-estrada

Dois acidentes em cadeia numa auto-estrada, a A25, um em cada sentido.
Seis mortos, entre eles duas crianças, setenta e dois feridos, muitos em estado grave, doze viaturas carbonizadas, mais de cinquenta danificadas (números disponíveis até ao momento em que escrevo). Cento e cinquenta bombeiros mobilizados para o socorro, ambulâncias, o INEM improvisando um hospital em plena auto-estrada! O país viu, estupefacto, as imagens pelas televisões. E interrogou-se: como é que isto foi possível?! De quem é a culpa?!
Logo vozes se ouviram: das condições meteorológicas – chuva e nevoeiro cerrado.
Discordo!
Mais uma vez o encolher de ombros, o olhar para o lado e o assobio. A culpa nunca é nossa, é sempre dos outros, neste caso da Mãe Natureza, que tão maltratada é a cada dia. Outras vozes, culpam as autoridades e os políticos, porque aquelas e estes deveriam ensinar civismo às pessoas, educá-las para comportamentos adequados, e não o fazem!
Continuo a discordar!
Recordo-me que, há bem pouco tempo, o Governo (foi o actual, poderia, e bem, ter sido outro) fez aprovar uma lei fixando uma percentagem mínima de sal no fabrico de pão. Medida aconselhada pela Organização Mundial de Saúde, visando, tão só, proteger a saúde dos consumidores. Todos sabemos que o excesso de sal na alimentação é maligno. Quiseram ensinar-nos a melhor nos alimentarmos. Caiu o Carmo e a Trindade! Lá apareceram nas televisões os analistas e comentadores (intelectuais de pacotilha), dizendo-se asfixiados, perorando: agora até o direito de comer o que queremos nos querem tirar!
Com a esmagadora maioria dos automobilistas passa-se algo de parecido. De que vale dizer-lhes conduza com prudência, reduza a velocidade, mantenha a distância de segurança do carro da frente, preserve a vida, há nevoeiro e chuva! Não adianta falar-lhes de civismo, de respeito por si e pelos outros, de acatamento das regras de trânsito, de tolerância. Não remedeia pôr um carro da GNR, ou da PSP, a fiscalizar cada um deles, logo arranjarão modo e jeito de uma finta engendrarem. Que importam os radares detectores dos excessos de velocidade? Dá-se outrem como condutor, pagam-se as multas e está o assunto arrumado!
O que queremos é continuar a ser o que somos – gente de oportunidade perdida. Oportunidade perdida de sermos gente melhor!
Outras mortes continuaremos a chorar se não quisermos, e não formos capazes de fabricar, cada um por si, em casa, no emprego, na roda de amigos, e todos em conjunto, as fechaduras que abram portas para ruas limpas, desprovidas de becos sem saída.


segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Recordar Saramago

“Talvez a história do homem seja um enorme movimento que nos leve à humanização. Talvez não sejamos mais que uma hipótese de humanidade e talvez se possa chegar a um dia, e esta é a utopia máxima, em que o ser humano respeite o ser humano. Para chegar a isso se escreveu o Ensaio sobre a Cegueira, para perguntar a mim mesmo e aos leitores se podemos continuar a viver como estamos vivendo e se não há uma forma mais humana de viver que não seja a da crueldade, da tortura e da humilhação, que são o pão desgraçado de cada dia.”
(José Saramago)

[“Escribí para saber si hay una forma más humana de vivir que no sea la crueldad”, La Voz de Lanzarote, Lanzarote, 25 de Junho de 1996].

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Gente pequena

Portugal transformou-se num país de gente pequena, proclamando-se sabedora. Gente que sabe de tudo. Gente apregoando muito saber, mas que, falando, é nada o que se lhe ouve. Que gente é essa, afinal? Ela responde: especialista!
São os médicos das companhias de seguros, quais capatazes de latifúndios, a cujas mãos vão parar sinistrados. A primeira coisa que fazem, antes mesmo de olharem para qualquer exame rotineiro a garantir diagnóstico, é afirmarem que a culpa, a responsabilidade portanto, não é da seguradora, mas do acidentado que não soube evitar o acidente. Doutores da mula ruça!
Sãos os jornalistas de trazer por casa, encostados a economistas de vão de escada e a juristas e analistas último modelo, topo de gama, válvulas à cabeça, falando, falando, dizendo zero, só nos azucrinando o juízo, feitos profetas da desgraça!
São os que se apresentam sabendo mais de combate aos incêndios do que quem anda de peito aberto, dando vida por vida, numa luta sem tréguas, abnegada, para os suster. Os bombeiros não há meio de chegarem, afirmam, os meios não vieram, continuam, mas não curam de evitar o lixo à volta das casas, nem de limpar o pedaço de mata que lhes pertence. E, logo mais, atirarão uma beata incandescente pela janela do automóvel e ajudarão a lançar foguetes de um qualquer arraial.
Sãos os que perante o infortúnio alheio encolhem os ombros, olham para o lado e assobiam, indiferentes à dôr que, por ora, lhes não toca.
Sãos os juízes que, a propósito de tudo e de nada, lançam a Justiça para uma mesa de ping-pong. Ora apanha lá esta puxada, se és capaz! E o Sindicato dos Magistrados, gente fina, que luta sabe-se lá porque direitos. Contra quem? Os magistrados. Contra quem? Os juízes. Contra quem? A Justiça!
Sãos os políticos, com algumas excepções, que dizem que a culpa é sempre dos outros, nunca deles. Falam de tudo, até de futebol, com assento garantido em mesas de comentadores, a troco de um cheque que lhes engorda a conta bancária. Sobre o que nos interessaria ouvir fazem silêncio!
São, são muitos mais. Enxameiam as rádios, jornais e televisões, roubando-nos o ar para respirar. Tornam o meu país cada vez mais pequeno.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Do Viajante


Hora de medos

É tempo de silêncio sem fundo, hora de medos.
Fugindo de olhares, a Lua tapa-se. As rãs calam o seu coaxar. Não se escuta o pio do noitibó. Está por se ouvir o refilar da noite. Do capim alto esvoaçam os pirilampos, rendilhando o espaço com luzes faiscantes.
As águas barrentas da lagoa encostam-se ao capim das margens procurando o manto perdido, a capa prateada que não desceu. Reina o mutismo entre as árvores de galhos por hábito faladores. Nem o vento se lhes chega para fazer rir as folhas.
Ele está ali, no escuro sem sombra, só no meio do silêncio, sentado numa raiz da mafumeira, rompida da terra para se ir banhar na cacimba. Sabe que, logo mais, será manhã, mas tal não o preocupa. O que o inquieta é esta hora de medos.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Do Viajante

Hora vulgar (II)
Deixa os ninhos dos bicos-de-lacre na amoreira do quintal, deitando, lá de cima, a sombra protectora sobre a pitangueira medrando arrimada ao muro. Leva os passos para a fita de alcatrão, o seu caminho de ir e voltar, a rua que, suavemente, passem os buracos das últimas chuvadas, um aqui outro além cobertos por lama crestada, vai ao encontro da esquina ao fundo. Dobra a acácia, deixando-lhe um passar de mão que, sabe ele, ela recebe como cumprimento. Por um carreiro de areia faz agora seguir o seu andar, até ao largo de terra batida. Hoje, porque é cacimbo, anda a chuva por outras bandas, a crosta do largo está solta, levantada em poeira pelo vento que sopra e lhe faz mover repetidas vezes as pestanas, parecendo persianas em correria.
Pouco lhe importa. Vai ao encontro do tamarindeiro, ali erguido, conhecido desde o tempo em que a vida ainda não tinha dado tantas voltas por ele, tantas, mas poucas. Sempre o encontra, como se a árvore estivesse a aguardar, sabe lá o quê. Não é a primeira vez que se pergunta: de que estará ela à espera?
Não sabe ele, mas sei eu, que daqui o acompanho, há mais de uma hora, desde que saiu de casa, onde deixou, para além do que já se disse, ainda uma papaieira à esquerda da entrada do portão ladeado pela buganvília vermelha, um pé de caxinde no canteiro das escadas da varanda, e outras formosas criações da flora do seu jardim.
Disse que sei. Não faltei à verdade. O tamarindeiro espera que ele se lhe encoste e ali fique. Deixemos os dois.
O encontro está hoje a ser diferente. Senta-se. Dá as costas ao peito da árvore. Sucede o que nunca antes acontecera – escuta o gemer da seiva do tamarindeiro, correndo por ele acima, na tarefa urgente de dar verde às folhas, de tornar mucefes os tamarindos já crescidos. Ao som da corrente do sangue da árvore, vai ele pensando que os amigos com quem ontem falou têm razão. Esta terra vai ser de gentes livres, todas as gentes, incluindo as dos musseques. Vai nascer um homem novo trazido pela bandeira da Liberdade. Vai ser assim!
Mas não foi!
Muitos cacimbos depois soube ele, estando já em paragens distantes, que, afinal, o tal homem novo ficara por chegar. No país que seria o da Liberdade tudo era velho, a alvorada fizera-se noite, só havia solidão, desistência e predadores. Uns passaram a alimentar-se de outros. A História voltara a fingir. Sofreu, então, a grande desilusão da sua vida.

(Esta a história que ele escreveu para a hora vulgar que o fez despertar, como prometido ficou num dos posts anteriores)

Recordar Saramago (II)

“…Diz-se que o mal não atura, embora, pela fadiga que traz consigo, pareça às vezes que sim, mas o que nenhuma dúvida se tem, é não durar o bem sempre. Está um homem em suavíssimo torpor, ouvindo as cigarras, não foi a comida fartura, mas um estômago avisado sabe encontrar muito no pouco, e além disso temos o sol, que também alimenta, eis senão quando ressoa a corneta. Se estivéssemos no vale de Josafá mandávamos acordar os mortos, assim não há outro remédio que levantarem-se os vivos…”

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“…Deitaram-se. Blimunda era virgem. Que idade tens, perguntou Baltasar, e Belimunda respondeu, Dezanove anos, mas já então se tornara muito mais velha. Correu algum sangue sobre a esteira. Com as pontas dos dedos médio e indicador humedecidos nele, Blimunda persignou-se e fez uma cruz no peito de Baltasar, sobre o coração. Estavam ambos nus. Numa rua perto ouviram vozes de desafio, bater de espadas, correrias. Depois o silêncio. Não correu mais sangue.
Quando, de manhã, Baltasar acordou, viu Blimunda deitada a seu lado, a comer pão, de olhos fechados. Só os abriu, cinzentos àquela hora, depois de ter acabado de comer, e disse, Nunca te olharei por dentro…”

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“…Além da conversa das mulheres, são os sonhos que seguram o mundo na sua órbita. Mas são também os sonhos que lhe fazem uma coroa de luas, por isso o céu é o resplendor que há dentro da cabeça dos homens, se não é a cabeça dos homens o próprio e único céu…”

(Extractos de Memorial do Convento)

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Do Viajante


Hora vulgar

Acorda a esta hora, como tantas outras, uma hora vulgar. Apenas uma hora de agora, sem história, a não ser a que lhe possa escrever, se o vier a fazer. Pela janela vê tudo à volta ainda escondido no cacimbo. Cacimbo diferente, este. No biombo de nuvens em dança, são mais as brancas do que as cinzentas. O pingar miúdo e frio, soprado pelo vento, pica como fogo molhado, pior do que a mosca que lhe pousa sobre a mão, fugindo de seguida, enxotada por um mexer de dedos. Gesto para espantar, apenas para tal serviu.
O cacimbo, do tempo e do homem, é um sem sol, esmaece o traço e estreita o arco das cores da vida. Apesar de assim ser, ainda deixa perceber um sorriso no recém-acordado. Fosse este um crente de poderes divinos e, por certo, aquele sorriso seria uma aquiescência: tudo parece bem, como os deuses querem. Como o não é, desfaz-se do desenho dos lábios, boceja e diz esta manhã bem podia ter-se apresentado com outra compostura, não aparecer assim, a querer agarrar-me à toa, feita belzebu, desassossegando-me o jeito!
O enfastiar-se de pronto se lhe vai. Não se deixa acorrentar. Não só os deuses as têm, ele também é senhor de algumas artes, como a de virar o cacimbo às avessas, dando-lhe cor.
Sai para a rua a procurar a história que há-de escrever para a hora vulgar que o despertou.

sábado, 7 de agosto de 2010

Fado

A primeira vez que ouvi o fado que hoje vos trago, foi há muitos anos atrás. Cantarolava-o, baixinho, um colega meu. Andávamos ambos em reportagem de guerra, nas matas de Sandongo no Leste de Angola, acompanhando um grupo de guerrilheiros que combatia o governo de Luanda. Um jornalista, em reportagem de guerra numa mata perdida em terras longínquas, ignorada do mundo, onde de manhã à noite se ouviam tiros e explosões, que nos obrigavam a um constante atirar para o chão, a cantar o fado?! Pois é verdade! Como verdade foi que gostei de ouvir a sua voz roufenha, eu que, confesso, não sou grande apreciador de fado. Porque quis saber, disse-me ele que cantava aquele fado por o ter como uma homenagem à mulher! Como eu, o meu colega era, e é, um romântico dado à poesia e ao belo da vida.
Não me perguntem porque vos falo hoje disto. Foi um fragmento das minhas recordações que me visitou. E quando as memórias chegam, não há nada a fazer, apoderam-se de nós!
Pergunta tenho eu para vos fazer: também acham que este fado é uma homenagem à mulher? Não sejam frugais no alimentar do pensamento. Respondam, por favor.
Um abraço e desejos de bom fim-de-semana.

Não Venhas Tarde
Voz: Carlos Ramos
Composição: Anibal Nazaré e João Nobre

“não venhas tarde!”,
Dizes-me tu com carinho,
Sem nunca fazer alarde
Do que me pedes, baixinho
“não venhas tarde!”,
E eu peço a deus que no fim
Teu coração ainda guarde
Um pouco de amor por mim.

Tu sabes bem
Que eu vou p’ra outra mulher,
Que ela me prende também,
Que eu só faço o que ela quer,
Tu estás sentindo
Que te minto e sou cobarde,
Mas sabes dizer, sorrindo,
“meu amor, não venhas tarde!”

“não venhas tarde!”,
Dizes-me sem azedume,
Quando o teu coração arde
Na fogueira do ciúme.
“não venhas tarde!”,
Dizes-me tu da janela,
E eu venho sempre mais tarde,
Porque não sei fugir dela

Tu sabes bem

Sem alegria,
Eu confesso, tenho medo,
Que tu me digas um dia,
“meu amor, não venhas cedo!”
Por ironia,
Pois nunca sei onde vais,
Que eu chegue cedo algum dia,
E seja tarde demais!

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Hiroshima e Nagasaki



Foi, apenas, há 65 anos.

A 6 de Agosto de 1945, no final da Segunda Guerra Mundial, o presidente dos Estados Unidos, Harry Truman, ordenou que fosse despejada uma bomba atómica sobre a cidade japonesa de Hiroshima e, três dias depois, outra sobre Nagasaki.
Disse Washington que o objectivo era forçar a rendição do Japão. O argumento não colheu. Depois da rendição da Alemanha nazi e da Itália fascista, Tóquio estava isolada, preparava já a rendição do império nipónico. Calcula-se que, em resultado imediato dos bombardeamentos desnecessários, e por efeitos posteriores, tenham morrido mais de trezentas mil pessoas, no que a História regista como um dos maiores ataques a uma população civil já ocorridos. Ficou evidenciado que os bombardeamentos fizeram parte de uma demonstração do poderio das armas nucleares dos Estados Unidos, sobretudo perante a então União Soviética.
Analistas, incluindo norte-americanos, afirmaram que Hiroshima e Nagasaki foram escolhidas por se situarem entre vales, localização que facilitaria a avaliação dos estragos causados pela nova tecnologia bélica, que nunca até então tinha sido usada e nem se sabia quais seriam as suas consequências.
Em Abril de 1959 (seis anos depois de deixar a Casa Branca), discursando na Universidade de Columbia, em Nova Iorque, Harry Truman afirmou: “A bomba atómica é apenas mais uma poderosa arma no arsenal da Justiça.”
Correu o pano sobre um crime!
Ao evocar esta data pretendo que ela não seja esquecida, desejando que os actuais senhores do mundo não caiam em semelhantes tentações.
Ocorre-me um texto de José Saramago – O Planeta dos Horrores – de que extraio a seguinte passagem:
“…Gosto da luz do dia, da claridade, do aperto de mão de um amigo, de uma boa palavra reconfortante, gosto da esperança, amo o amor, amo a beleza das coisas e das pessoas (que todas são belas) – mas tudo isto me pode ser tirado de um momento para o outro. Em todo o mundo há mísseis apontados para todo o mundo, por cima do mundo cruzam-se aviões com bombas nucleares capazes de derreter o mundo, em certos sítios do mundo estão guardadas bactérias suficientes para exterminar a vida em todo o mundo. O planeta dos horrores de mr. Hyde é este, amigo leitor, confiante leitor, talvez ingénuo leitor…”


quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Recordar Saramago

O Rogério e a Fernanda tiveram a iniciativa de homenagear José Saramago, convidando-nos a divulgar nos nossos blogs, durante as próximas semanas, textos ou pensamentos do escritor, com o objectivo de vencer o silenciamento e a omissão que se instalou em Portugal depois da morte do Nobel da Literatura. A ideia foi, de pronto, acolhida pelo Carlos. Aqui estou, também, a abraçá-la e a convidar os amigos do meu blog a que o façam, igualmente.
Diz o Rogério: interpretem isto como um apelo, uma sugestão, ou um imperativo de consciência. Pouco importa. O importante, é mesmo manter viva a memória de Saramago.
Pois bem, aqui deixo hoje um extracto da crónica As Palavras, de José Saramago.

“…Porque as palavras deixaram de comunicar. Cada palavra é dita para que se não oiça outra palavra. A palavra, mesmo quando não afirma, afirma-se. A palavra não responde nem pergunta: amassa. A palavra é a erva fresca e verde que cobre os dentes do pântano. A palavra é poeira nos olhos e olhos furados. A palavra não mostra. A palavra disfarça.
Daí que seja urgente mondar as palavras para que a sementeira se mude em seara. Daí que as palavras sejam instrumento de morte – ou de salvação. Daí que a palavra só valha o que valer o silêncio do acto.
Há também o silêncio. O silêncio, por definição, é o que não se ouve. O silêncio escuta, examina, observa, pesa e analisa. O silêncio é fecundo. O silêncio é a terra negra e fértil, o húmus do ser, a melodia calada sob a luz solar. Caem sobre ele as palavras. Todas as palavras. As palavras boas e más. O trigo e o joio. Mas só o trigo dá pão.”

[In Deste Mundo e do Outro – Crónicas – 2ª Edição (1985), p.56]

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

De regresso




O entoar da azinheira

O sol abrasava, inclemente. O corpo quis, os pés deixaram que os passos fossem. Naquele banco, debruado a ocre, sentei-me a respirar a sombra da azinheira. Um golpe de vento, e chegou-se-me um som vindo de cima. Olhei. Lá estavam, tremelicando, as pequenas e verdes folhas aconchegando, protegendo num gesto de sabedoria profunda, as bolotas que hão-de crescer para a dieta dos porcinos que, por sua vez, alimentarão os humanos. Os galhos mais franzinos balançavam. A azinheira cantava!
Não era, propriamente, um canto, mas um entoar de memórias. Por ali fiquei, um tempo, a ouvi-la, enquanto para lá da sua copa a luz do sol ia passando sobre os campos. A dada altura a azinheira mostrou-se-me com feição de gente. Gente fraterna e solidária, mas também sombreada pelo medo, avermelhada pela brutalidade desde sempre sobre ela exercida. Deixou-me ver foices ceifando searas, costas vergadas ao peso do trabalho da recolha dos frutos de terra, e dedos encrespados premindo gatilhos, roubando vidas a mando da ganância e da imbecilidade da espécie humana. Pareceu-me, ainda, observar-lhe um sorriso trazido da última Primavera, rir de menina, tímido e receoso de que a mudança anunciada não passe de novo fingimento da História.
Instantes depois, não sei se muitos se poucos, que por aqueles sítios o tempo não é de medida comum, a azinheira transfigurou-se revelando-me um rosto de mulher adulta, esquecida dos medos, caçadora de sonhos, a querer mudar o curso errado do Destino, fugindo das armadilhas armadas pela cegueira da História. Deixei o banco. Metemo-nos a caminho do vizinho povoado branco e acolhedor, refulgente de sol, a aldeia de Vaiamonte tomada aos mouros por D. Sancho II em 1240, para logo a doar à Ordem de Santiago. Parámos à porta da “Tasca do Chico”. Entrámos para tomar uns cafés.
- Normais? Perguntou, simpático, quem estava do lado de dentro do balcão.
O espaço era pequeno, mas nele cabia a idade da aldeia. Corpos secos, rostos sulcados de alto a baixo, testas rugosas como casca de sobreiro deixando ver páginas e páginas dos livros daquelas vidas, chapéus nas cabeças. Mãos dadas, umas a copos de vinho, outras a garrafas de cerveja. Olhares trocados em silêncio, falando do que as palavras, por certo poucas e baixas, não seriam capazes: a surpresa de ali verem entrar um casal estranho pedindo, apenas, dois cafés.
Palavras, disse-as eu à saída: Boa tarde!
De regresso à zona do banco da azinheira perguntei o que havia para ver. Aqui nada há para ver, mas muito, tudo, para desfrutar. Foi o que, em boa hora, fizemos, viajando pelo Alto Alentejo. Ao voltarmos para a beira da lezíria, na bela Região do Oeste onde vivemos, viemos com uma grande saudade das gentes e terras daquele pedaço de Portugal onde nada é longe nem perto, é tudo já ali, embora o ali seja, a mais das vezes, para lá do sol posto!
Para trás ficaram as azinheiras entregues à meticulosa tarefa de irem desenhando e escrevendo a paisagem alentejana, elas que, diz quem sabe, vivem mil anos!