sexta-feira, 15 de abril de 2011

Breve ausência

Será uma ausência pequena. Espero estar de volta no próximo dia 27. Deixo-vos já com o toque da saudade, e…

Peço aos políticos que enterrem os canhões e os tanques da sua verborreia, e ponham de lado o mujimbo soez.

Peço aos políticos que deixem que a vida dê vida, a vida que há no povo que somos.

E aos analistas, comentadores, politólogos e jornalistas que não transformem os canteiros onde pode a flor germinar, em espaços de terra queimada, como têm vindo a fazer.

Ordeno aos profetas da desgraça que recolham às suas grutas obscuras, por lá se deixando ficar.

E peço, peço aos cidadãos do meu País que façam as crianças sorrir e as flores desabrochar.

E peço, ainda, a todos, que no próximo Dia 25 de Abril coloquem, em cada janela, uma bandeira do Nosso País, e vão buscar à memória o “Grândola Vila Morena”.

É que…

Se de luto nos vestirmos

Se em vão nos acusarmos

Que vitória conseguiremos

Se vitória não acharmos?

(Inspirado no “Hino à Paz” do povo angolano – 1992)

quinta-feira, 14 de abril de 2011

A blogosfera está de parabéns!

Soube-o por mero acaso, não que ela mo tenha dito, tem a humildade dos grandes. A Maria João, amiga virtual da minha cubata, e comentadora, desde há quase dois anos, autora do blogue Pequenos Detalhes, vai publicar o que creio ser o seu primeiro livro de poesia, com o título “Do Outro Lado do Espelho”. O lançamento será daqui a um mês (14 de Maio), pelas quatro da tarde, no Auditório do Campo Grande, em Lisboa. A apresentação estará a cargo da escritora Mel de Carvalho, também ela nossa companheira na bloga (Noite.De.Mel) e da jornalista Otília Leitão. A editora é a Lua de Marfim.

Conheço muitos dos poemas, e outros textos, que ela tem editado no seu blogue. É-me, por tal, fácil adiantar que o seu livro será um êxito.

Não quis deixar, desde já, de vos dar esta notícia, sugerindo aos que puderem a ida ao lançamento. Quando um bloguista publica é motivo de alegria.

Muitos parabéns, Maria João.

E a todos vós, amigos e visitantes, peço: vão ao blogue da Maria João dar-lhe um abraço.

Devolvo à terra

O saber sedento da água cristalina
A fecunda criação verdejante
A fresca brisa envolta em neblina

Devolvo à vida

A utopia presa em voo alado
O lamento feito choro suplicante
O presente inteiro gasto em passado

Devolvo-te meu amor

O soneto febril, verbo imperfeito
A carícia colada à pele, viajante
O desejo que esculpiste no meu leito

Devolvo-me

Ao prazer de mergulhar em seiva minha
À recusa de saber-me degradante
À triste sorte de me sentir sozinha

Depois…

Lanço a alma ao mar e me liberto
Num acto insano, demente
De querer sorver-te mundo, tão impuro
Renascendo na maré, sentindo gente

(Maria João, Janeiro de 2010)


terça-feira, 12 de abril de 2011

Confrangedor

Passos Coelho andou, durante semanas, a mentir ao País, dizendo que soubera do PEC4 apenas por um telefonema. Em entrevista a Judite de Sousa (TVI) revelou, agora, que fora a São Bento a pedido do PM e que este lhe revelou as medidas que apresentaria a Bruxelas. A comunicação social continua a dar provas de estar bem amestrada. Não se encontra uma única notícia (como noutros casos, sistematicamente, em relação a José Sócrates) a dizer que o presidente do partido de Cavaco Silva mentiu.

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Os partidos da Direita doméstica, mais o PSD do que o CDS, disseram que o último Congresso do PS não passou de um “grande comício”. Numa entrevista à RTP Mário Soares juntou-se-lhes e disse o mesmo. Nessa mesma entrevista, como poderão ler, perguntado sobre se Passos Coelho daria num bom governante, responde: "Isso é como os melões, só depois de abertos é que se percebe"!

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A última aquisição do PSD (Fernando Nobre) tem suscitado alguns comentários. O irrequieto social-democrata Morais Sarmento diz que o presidente da AMI é um “activista” e não tem perfil para Presidente da Assembleia da República. Mário Soares mostrou-se surpreendido e põe algumas “reservas” à capacidade de Nobre para exercer tal cargo, embora nas últimas presidenciais tenha considerado que ele “daria um bom Presidente da República”!

Levando à letra o que aqui se pode ler, Fernando Nobre terá feito um grande negócio!

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Felícia Cabrita, jornalista do SOL, publicou um livro. Título: “Passos Coelho – Um Homem Invulgar”. Escreve a autora, a dada altura, referindo-se ao presidente do PSD: “…os suspiros que o rapaz de cabelo loiro e olhos claros despertava nas raparigas do liceu…”!


domingo, 10 de abril de 2011

Há que abrir a janela....

Os portugueses conheciam o seu trabalho humanitário à frente da AMI, e, antes, nos Médicos Sem Fronteiras. Talvez por isso, e porque entenderam a sua como uma voz de Esquerda ao lado dos desprotegidos, muitos lhe deram o seu voto quando Fernando Nobre concorreu às últimas eleições presidenciais. Para tal contribuiu, também e muito, o apoio de Mário Soares, cuja filha, Isabel, chegou a intervir num comício de apoio ao então candidato presidencial.

Outros portugueses, contudo, quiçá estranhando a viragem para a política, interrogaram-se: Quem é este homem?

O mistério parece esclarecido.

Fernando Nobre abandonou os braços do antigo Presidente da República, para se atirar para os do actual presidente do PSD, Pedro Passos Coelho.

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Eles cazuzam...

Picada de marimbondo

Junto da mandioqueira

perto do muro de adobe

vi surgir um marimbondo

Vinha zunindo

cazuza!

Vinha zunindo

cazuza!

Era uma tarde em Janeiro

tinha flores nas acácias

tinha abelhas nos jardins

e vento nas casuarinas,

quando vi o marimbondo

vinha voando e zunindo

vinha zunindo e voando!

Cazuza!

Marimbondo

mordeu tua filha no olho!

Cazuza!

Marimbondo

foi branco que inventou...

(Ernesto Lara Filho - poeta e cronista angolano - Benguela 1932, Huambo 1977)

Bom fim-de-semana

quinta-feira, 7 de abril de 2011

A propósito...


Falando, um dia, sobre o “Ultimatum” por si escrito, disse o heterónimo de Fernando Pessoa:

«Esta guerra é a dos pigmeus mais pequenos contra os pigmeus maiores. O tempo mostrará quais são os maiores e quais os mais pequenos, mas, de qualquer modo, são pigmeus».

«Pouco importa quem ganha a guerra, pois será ganha, de certeza, por um imbecil. Pouco importa o que dela resultará, pois o que virá será seguramente imbecilidade.”

domingo, 3 de abril de 2011

O Reacender da esperança

Já quase tinha perdido a esperança, mas eis que ela se reacende.

Na sua última intervenção pública o Secretário-Geral do PS, ainda Primeiro-Ministro em gestão, disse que o problema com que o País hoje se confronta é a “agenda ideológica” que o PSD (e logo o CDS) pretende aplicar. Quer se goste ou não dele (admiro a sua combatividade, reconheço que nunca nenhum PM foi tão maltratado pela Comunicação Social como ele, mas não sou seu simpatizante), José Sócrates foi o único político da área da Esquerda a ter a lucidez de chamar os bois pelos nomes, ao falar da “agenda ideológica” do PSD.

Hoje, mais do que nunca, o futuro do País passa por uma definição clara e aprofundada dos pressupostos ideológicos dos partidos políticos, retirando-os, duma vez por todas, das fajãs da política. Sou dos que defende, sem tibiezas, que a vida da Democracia está na existência plural dos partidos políticos.

Como homem de Esquerda, não tenho dúvidas de que o que está em causa é a tal agenda escondida com que o partido de Cavaco Silva e Manuela Ferreira Leite, tendo como presidente Passos Coelho, pretende transformar o nosso Estado Social num ser sem vida. Privatizar o ensino, a saúde, a segurança social, tudo o que o grande capital quiser, incluindo a Caixa Geral de Depósitos (pilar da sustentabilidade financeira do Estado), entregando-a ao capital estrangeiro. E vai mais além, ao pretender retirar da Constituição o despedimento sem justa causa, criando uma geração mais à rasca do que a actual.

Perante este quadro, porque digo que a esperança se me reacendeu?

Porque voltei a acreditar que a Esquerda (PCP, BE e PS), possa ser sacudida pelas palavras de Sócrates, pondo de lado dogmatismos, obsessões e vaidades, e encontrar um caminho, por muito difícil que seja de escavar, que retire o País do rumo para o abismo traçado pelo PSD.

Caminho que deverá passar pela criação de um novo modelo económico assente no desenvolvimento, na reactivação do sector produtivo, na criação de emprego, no combate à pobreza, distribuindo mais equitativamente a riqueza criada. Por outras palavras, pôr o País a produzir aquilo com que se enchem as prateleiras dos super-mercados, e, também, a exportar.

Claro que é um sonho (será!?), mas como eu gostaria de ver Portugal dizer à Europa conservadora e trauliteira: Vamos pagar a dívida, sim, mas, antes, vamos tratar do nosso povo!

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Cântico de Amizade


A minha cubata foi distinguida, honrada, com este selo. A Fê blue-bird, uma amiga virtual, é senhora dum blogue onde sempre se encontra a poesia, acrescida à sensibilidade dos seus textos, versando, a mais das vezes, a realidade em que vivemos. Os poemas que partilha com quem a visita, são autênticas pérolas por ela recolhidas do sonho dum mundo onde os sonhos são a vida, e, habitam os poetas. Eu, que não sou poeta, tenho o direito de gostar de poesia. E gosto! Utilizando um linguarejar da terra africana onde nasci, entro por ela, a poesia, como um garfo desatinado num arroz de cabidela à procura das miudezas. Sempre que toco num poema tremem-me os dedos, talvez receosos de se encontrarem com as confidências da vida de que os poetas nos querem falar. Amiga Fê muito obrigado pela honra que me concedeu ao afirmar-se amiga da minha cubata. Agora ofereço-lhe, a si, e a todos os amigos que por aqui passarem, este poema de Alda Lara, poetisa angolana (Benguela, 1930 – Cambambe, 1962).

Quadras da minha solidão

Fica longe o sol que vi,
aquecer meu corpo outrora...
Como é breve o sol daqui!
E como é longa esta hora...

Donde estou vejo partir
quem parte certo e feliz.
Só eu fico. E sonho ir,
rumo ao sol do meu país...

Por isso as asas dormentes,
suspiram por outro céu.
Mas ai delas! tão doentes,
não podem voar mais eu...

que comigo, preso a mim,
tudo quanto sei de cor...
Chamem-lhe nomes sem fim,
por todos responde a dor.

Mas dor de quê? dor de quem,
se nada tenho a sofrer?...
Saudade?...Amor?...Sei lá bem!
É qualquer coisa a morrer...

E assim, no pulso dos dias,
sinto chegar outro Outono...
passam as horas esguias,
levando o meu abandono...

(Desejo a todos um bom fim-de-semana)

quinta-feira, 31 de março de 2011

Um PEF e um PES contra o PEC

Foram hoje publicadas no Diário de Notícias as linhas gerais do programa de governo (PG) do PSD, elaborado por uma equipa comandada por Eduardo Catroga, que foi ministro das Finanças do III Governo de Cavaco Silva, entre 1993 e 1995. Pode ler-se que o PG nasceu de “inputs internos (trabalhos do GEN, da CRI e do IFSC) e de inputs externos (Thinks Tanks e contributos de personalidades a titulo individual), bem como das conclusões a actas do relevante processo de actualização do Programa do Partido.” A equipa de Catroga assentou o PG em cinco pilares. Neles se propõe um PEF e uma ACCE, e se fala do SPA, do SEE, das PPP e das IPSS. Diz o documento que se o PSD chegar ao Governo aplicará, com urgência, um PEF (Programa de Estabilização Financeira) e um PES (Programa de Emergência Social).

Estou esclarecido! Ó da guarda!

sexta-feira, 25 de março de 2011

De quando o tempo foi assim


É um homem sem dentro, que ali está sentado, a olhar o mergulho do Sol no outro lado da mata.
Desgovernado o suor corre-lhe da testa, inunda-lhe os olhos forçando-lhe as lágrimas. Estas chegam-se-lhe aos lábios neles deixando não o habitual sabor da vida, mas um saibo a fel.

Revive a emboscada. O metralhar das armas, o silvo das balas, a gritaria. Depois o silêncio e o levantar servindo-se da arma como um bordão de fogo sujo. “Não há baixas!”, ouve.
Dá um passo. Quase tropeça num corpo estendido. Baixa-se. Vê uns olhos abertos de medo, un tronco descoberto, umas pernas vestidas de calças esfarrapadas e uns pés nus de planta grossa e encarquilhada denunciando muitas rugas de terra percorridas. Aproxima-se um pouco mais. O corpo diz-lhe:
“Já mataste tudo o que tinhas dentro de ti. Precisas, também, de me matar?”.
Olha, de novo, os olhos de medo, que agora choram. Levanta-se e fala-lhe:
“Vai!”. Deixa-o sair, correndo capim fora.
Já o Sol se pôs. A noite desenha a silhueta das árvores. Nunca, antes, as viu assim. Parecem ter medo do dia de amanhã. No céu as estrelas escrevem a fogo:
“Já mataste tudo o que tinhas dentro de ti. Precisas, também, de me matar?”.

terça-feira, 22 de março de 2011

Mentira, hipocrisia e não só!


Líbia

- Um avião militar F-15 Eagle, dos EUA, despenhou-se na Líbia, segundo fonte das forças armadas norte-americanas - .

(Informação da inglesa BBC e da francesa AFP)

Destapa-se a mentira: os norte-americanos estão mesmo directamente envolvidos nas operações militares, e não apenas em apoio de rectaguarda a partir de uma base sua na Alemanha.
Fica-se a saber, por outro lado, que se joga no tabuleiro da semântica: os norte-americanos despenham-se, os líbios são abatidos!
A reter (Os novos cruzados):
Afeganistão:
- Militares americanos posaram com civis mortos como “troféus” –.


sexta-feira, 18 de março de 2011

Para que os canteiros voltem a florir

Que as ruas sejam pequenas!


Do Mwata

Regresso após uma ausência forçada por um deslize de saúde, que não passou de uma, mais uma, pedrita no caminho. Coisa de somenos de mim não afastando a crença de que ainda há vidas para viver. As alheias, e a que é minha. Tão só! Simples, como a realidade de ser.
Retorno na véspera da noite em que a Lua será mais cheia, mais luminosa e estará mais próxima do que é costume. Encostar-se-nos-ás mais do que é seu hábito. Sempre imaginei a Lua como um ser plural, tal como o Universo. Talvez por isso acredite que ela agora se nos chegue um pouco mais, querendo ver o que por cá andamos fazendo, quiçá, também, querendo saber o que verdadeiramente somos. Que assim seja. Não será por isso que me agarrarei a novas crenças ou a diferentes ânsias.
Por mim, aproveitarei a oportunidade para lhe perguntar se ela, como eu, ouviu isto:
“Importa que os jovens deste tempo se empenhem em missões e causas essenciais ao futuro do país com a mesma coragem, o mesmo desprendimento e a mesma determinação com que os jovens de há 50 anos assumiram a sua participação na guerra do Ultramar”.
Extracto de um discurso feito na última Terça-feira, por ocasião dos 50 anos da guerra colonial, pela criatura que parte dos Portugueses recolocaram em Belém como PR.
O ditador que, qual pigmeu, foi derrubado por uma cadeira enjoada e cansada de o ter sentado, não diria melhor.
Acredita a juventude de agora que os jovens dos anos 60 (um milhão) partiam para a guerra colonial com DESPRENDIMENTO, felizes e contentes, como licença para matar no bolso, coração para serem mortos, e vontade de serem heróis, deixando ao abandono forçado famílias, estudos e trabalho?
À Lua vou perguntar, sobre o senhor de Belém:
Sabe ele o que é, que alma tem, se é que alguma tem?


sábado, 12 de março de 2011

À Rasca (2)

Terão sido trezentos mil, em protesto por todo o País.

Em Lisboa
Cartazes:

1) – Empunhado por uma jovem:
“Licenciada, em caixa do Pingo Doce”;
2) – Nas mãos de mulher com cara de mãe de família:
“ Jovens à rasca.
Pais à rasca.
Avós mega à rasca.
Famílias à rasca.”

Vozes:

1) – De homem com filho ao colo:
“Vamos ver o que podemos fazer pelo nosso país.”
2) – De mulher, a caminho de ser idosa:
“ Faz-me lembrar o 25 de Abril. Sabe-me bem!”.
///////

E agora?

sexta-feira, 11 de março de 2011

À Rasca

“Estou à rasca!”.
Gritará amanhã uma voz, na Praça Tahrir cá do burgo. Lá ao fundo, emergindo das águas gélidas do Tejo, uma outra responderá, cansada:
“À rasca estou!”.
A meio da avenida, um microfone captará o comentário: “É por isto tudo e muito mais que faz sentido esta manifestação pela demissão de toda a classe política, que julgo será no próximo Sábado.”
Num banco dos passeios alguém sentado parece indiferente. Mas, não o está. Vai olhando para quem passa e balbuciando: “Será que estão a dormir? Será que haverá amanhã quem capaz seja, ou se atreva a escrever o que isto poderia ter sido?”.
Em Belém, o PR, que resolveu ter rasca na ossadura, apronta-se. Já lhe vestiram o avental emprestado, empunha o megafone alugado, e, ensaia frente ao espelho: “Avante jovens, foi por vós que me recandidatei, vamos a eles!”. Senta-se no sofá, olhos na TV, dando a mão à Dona Maria, que está, como sempre, a seu lado e não atrás, e, hoje, de folga dos netos.
Pergunta-lhe a senhora, baixinho: "Então...!?".
Responde-lhe ele, uma oitava acima: "Então o quê...!?".
Os deolindos interrompem a marcha, em compasso de espera…

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A propósito do dia de hoje, em que se assinalam 36 anos de uma data importante na História da Democracia Portuguesa, proponho aos meus amigos e seguidores a leitura do que escreveu Carlos Barbosa de Oliveira no seu "Crónicas do Rochedo".

sábado, 5 de março de 2011

Dia da Mulher

Por não querer juntá-lo ao dia de Carnaval, assinalo-o hoje republicando o meu texto (reescrito) de 2010.

A ti, que não precisas de ti para existires, e és, muitas vezes, flor sem haste.
A ti, que todas as manhãs saúdas o Sol sem nunca lhe dizer adeus.
A ti, que de impulso em impulso, de ousadia em ousadia, venceste sonhos e pesadelos, viveste amores alucinados, desvarios, paixões desfeitas, sentires sossegados e dores de mágoa, ultrapassaste fúrias, não te perdeste em abismos, e te fizeste árvore frondosa, guardiã de jardins de cores e sons.
A ti, guerreira teimosa, amazona de rédea solta, cavaleira do sol e da lua, da chuva e dos ventos, reverdescendo os trilhos por onde passas neles libertando o aroma da vida.
A ti, virgem, mulher, amante, menina velha, prostituta.
A ti, que rezas e maldizes.
A ti, que dás vida, trazes a aurora em voo livre. A ti, seiva.
A ti, que de sorriso florido, ou de beleza escondida em olhos tristes, qualquer que seja a cor da tua pele, o traço do teu rosto, e desenhem o que desenharem as linhas da tua mão, é vermelho o sangue que te banha as veias e te alaga o coração.
A ti, Mulher Menina da minha terra longínqua, que de filho às costas, moringa na mão e quinda à cabeça calcorreias descalça as passadeiras da ilusão procurando paz e pão.
A ti, virgula, pausa retemperadora, têmpera do aço em que a vida escreve o seu livro, fêmea prenhe, mãe do Universo, ponteiro das horas do Mundo.
A ti, que iluminas becos escuros, rasgas avenidas e alamedas, e percorres caminhos levando a vida pela mão.
A ti, que choras, sofres, morres e ressuscitas.
A ti, que danças em salão, no coreto, na rua, ou apenas no teu sonho.
A ti, sedução, amor, traição, ciúme, revolta, tempestade, saudade gritada, bonança.
A ti, flor e espinho, sabor dum instante, momento de fulgor, carícia dum presente, choro dum desencanto, esperança dum futuro.
A ti, companheira, mãe e avó, colo e seio de aconchego, ombro de repouso, porto de abrigo, sal de destemperos, ninho de amor. Presença sempre.
A ti, Mulher, ofereço a flor que ali está.

terça-feira, 1 de março de 2011

Libia

Armas de destruição massiva!?
A Europa diz-me muito preocupada…:

"Obviamente que esse assunto causa grande preocupação, para além de tudo o resto relacionado com a situação na Líbia, mas é preciso não esquecer que quando falamos de armas de destruição massiva, essa não é uma responsabilidade única da Europa, há outras organizações internacionais com competências mais adequadas para tratar do assunto, mas sim é uma situação muito preocupante".

Palavras da porta-voz da representante da União Europeia para a Política Externa, Maja Kocijancic, em declarações à Antena 1.


Onde é que eu já ouvi isto?
Cheira-me a esturro…!



terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Do Viajante

Não sabe se o seu lugar é no mundo ou, apenas, na franja do infinito porque caminha.
Umas vezes vai de pé, tocando o tecto da solidão. Outras, de cabeça roçando o chão, vendo que este é de palavras amordaçadas e portas fechadas.
Ouviu, quando se meteu a caminho, que naqueles montes, ali, a que ele quer subir, as árvores não crescem. Lá a noite é mais antiga que o dia. As auroras já nem sequer vaga ou lentamente se atrevem.
Prossegue, indiferente. O cansaço, porém, estorva-o. Senta-se encostado a uma Mafumeira, a árvore da vida como lhe chamam na terra longínqua onde um dia nasceu. Deixa que a brisa lhe fale de notícias. Escuta-as. Então, num de repente, a brisa é já vento, vendaval, trazendo-lhe um grito:

“(…)
Tirem esse lixo da minha frente!
Metam-me em gavetas essas emoções!
Daqui pra fora, políticos, literatos,
Comerciantes pacatos, polícia, meretrizes, souteneurs,
Tudo isso é letra que mata, não o espírito que dá a vida.
O espírito que dá a vida neste momento sou EU!
Que nenhum filho da …. Se me atrevesse no caminho!
O meu caminho é pelo infinito fora até chegar ao fim!
Se sou capaz de chegar ao fim ou não, não é contigo,
É comigo, com Deus, com o sentido-eu da palavra Infinito…
Prá frente!
Meto esporas!
“(…)”
(Fernando Pessoa)

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

A Vida Desta Cubata

Erguida a meio da tarde de 24 de Abril de 2009, com folhas de palma, entrelaçadas por matebas mergulhadas no aroma dos cajus e dos maboques, com um pé de caxinde à entrada, e um quintal de afectos, esta minha cubata vai a caminho dos dois anos de vida. Neste momento, são duzentos os seguidores inscritos (duzentos e dois, na altura em que escrevo este post). Longe, tão distante como o Mar da Quianda, deixado na terra longínqua, onde me largaram para nascer, e em que as casuarinas dançam e cantam quando o luar por elas passa a espreitar os enamorados, estava eu de imaginar que os meus escrevinhares pudessem merecer tanta atenção. Há quem não ligue a isto. Não é o meu caso. Estou agradecido e sinto-me honrado e feliz.
Inúmeros têm sido os prémios e selos recebidos, o que muito me apraz. Agora chega-me este, reproduzido acima, por mãos da Fê-blue bird (Só te peço 5 minutos) e da Brown Eyes (Just a Woman). Muito obrigado, a ambas, pela gentileza. Vem com regras:

NOME: Os meus padrinhos não conheciam, por certo, esta teoria, nem tinham posto os olhos nisto, ou ido até aqui. Outros eram os ventos daquele passado em que a Internet e a nossa Santa Bárbara Wikipédia não sabiam, sequer, que viriam a existir. Seja como for pegaram em seis letras, juntaram-nas como lhes apeteceu, e disseram a quem me trouxe à vida: O seu nome é CARLOS. Com tal nome fiquei, sem ter sido tido nem achado. Quando um dia percebi o que podia fazer com as letras, pus as do meu nome ao contrário, e deu nisto: SOLARC! Logo alguém me disse: é melhor ficares com o outro, este tem todo o jeito de apelido extraterrestre!
MÚSICA: Não tenho uma preferida. No momento em preencho estas regras apetece-me ouvir “Solo Le Pido a Dios”, cantada por Mercedes Sosa.
HUMOR: Não sei fazê-lo, mas gosto desde que não me chegue carregado de gestos e palavras de baixo vernáculo, ou vestido com linguagem obscena.
ESTAÇÃO: Primavera e Outono.
COMO PREFIRO VIAJAR: De avião, sempre! Em alternativa, de automóvel conduzido por mim.
COR: Bege e castanha.
SERIADOS: Aprecio alguns. O último que vi, e de que gostei, foi “The Tudors”.
FRASE: Não sendo, exactamente, uma frase aqui deixo: "Se tens um coração de ferro, bom proveito. O meu, fizeram-no de carne, e sangra todo o dia". (José Saramago)
O QUE ACHOU DO SELINHO: Uma simpática forma de interacção blogosférica.
A todos os meus visitantes: levem o selo que me foi oferecido e publiquem-no, respeitando as regras, se assim o entenderem. Ah, e é vosso, também, o cravo vermelho, tirado do meu ramo que não murchou nem murchará. Um abraço a todos e um bom fim-de-semana. Eu sei, eu sei, que não respeito as regras do novo acordo ortográfico. Não há, por enquanto, nada a fazer, tenho mau feitio!

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Dia dos Namorados

Para o assinalar, no jeito que tenho de ser, reponho o post editado há um ano.
"O amor dá forma ao sonho mais belo que é a vida.
Sem ele tudo não passaria de um mar morto."
(digo eu)

Namoro

Mandei-lhe uma carta em papel perfumado
E com letra bonita eu disse ela tinha
Um sorrir luminoso tão quente e gaiato
Como o sol de Novembro brincando
De artista nas acácias floridas
Espalhando diamantes na fímbria do mar
E dando calor ao sumo das mangas

Sua pele macia – era sumaúma...
Sua pele macia, da cor do jambo, cheirando a rosas
Sua pele macia guardava as doçuras do corpo rijo
Tão rijo e tão doce – como o maboque...
Seus seios, laranjas – laranjas do Loje
Seus dentes... – marfim...
Mandei-lhe essa carta
E ela disse que não.

Mandei-lhe um cartão
Que o amigo Maninho tipografou:
"Por ti sofre o meu coração"
Num canto – SIM, noutro canto – NÃO
E ela o canto do NÃO dobrou

Mandei-lhe um recado pela Zefa do Sete
Pedindo, rogando de joelhos no chão
Pela Senhora do Cabo, pela Santa Efigénia,
Me desse a ventura do seu namoro...
E ela disse que não.

Levei à Vó Chica, quimbanda de fama
A areia da marca que o seu pé deixou
Para que fizesse um feitiço forte e seguro
Que nela nascesse um amor como o meu...
E o feitiço falhou.

Esperei-a de tarde, à porta da fábrica,
Ofertei-lhe um colar e um anel e um broche,
Paguei-lhe doces na calçada da Missão,
Ficamos num banco do largo da Estátua,
Afaguei-lhe as mãos...
Falei-lhe de amor... e ela disse que não.

Andei barbudo, sujo e descalço,
Como um monangamba.
Procuraram por mim
"-Não viu... (ai, não viu...?) não viu Benjamim?"
E perdido me deram no morro da Samba.

Para me distrair
Levaram-me ao baile do Sô Januário
Mas ela lá estava num canto a rir
Contando o meu caso
às moças mais lindas do Bairro Operário.

Tocaram uma rumba – dancei com ela
e num passo maluco voamos na sala
qual uma estrela riscando o céu!
E a malta gritou: "Aí Benjamim!"
Olhei-a nos olhos – sorriu para mim
Pedi-lhe um beijo – e ela disse que sim
E ela disse que sim
E ela disse que sim.
(Viriato da Cruz - poeta angolano, Porto Amboim 1928, Pequim 1973)

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Egipto

Sim, talvez, logo se verá, foram dizendo os dirigentes europeus, cautelosos e excessivamente tímidos, como sempre, revelando ao mundo uma confrangedora falta de liderança política, inteligente e credível
Não o queriam os falcões israelitas, outros ditadores árabes, e a direita norte-americana de pensamento trauliteiro e conservador.
Mas, quis o povo egípcio, que se manifestou nas ruas tendo apenas a palavra como arma no clamor da indignação contra a ditadura que há trinta anos o oprime.
E Hosni Mubarak caiu!
Dezoito dias depois de iniciada a contestação popular, tempo que Mubarak, mais do que a agarrar-se ao poder, terá passado a negociar e a garantir o seu futuro, o Egipto fora libertado. Logo se fez a festa nas ruas, como não há memória.
Por toda a parte, em especial pelo Mundo Ocidental, se pergunta agora: O que virá a seguir? A pergunta radica no receio, não desprezível, de que o Egipto possa optar por um regime islâmico. Receio alimentado, igualmente, pelos que dizem serem os árabes e os muçulmanos incompatíveis com a Democracia.
Um dado a considerar é que, ao longo dos dezoito dias, em nenhuma das muitas imagens mostradas pelas televisões, ou nas inúmeras notícias que foram chegando, de agências e de enviados especiais, se viu um único sinal de presença islâmica, cujo radicalismo não tem por hábito esconder-se.
O mundo não é o que era há vinte e quatro horas atrás, está em constante mudança. Os mundos Árabe e Muçulmano não serão excepções. Estão já anunciadas manifestações para a Líbia, Argélia e Marrocos. A História está a escrever-se a uma velocidade que se não compadece de quem a não queira entender.
No caso do Egipto a História registará como heróis ninguém mais do que os jovens, que abertos ao acesso à formação, ao conhecimento e à comunicação universal, hoje imparável, se cansaram de viver sem trabalho e liberdade, e querem uma vida com dignidade e justiça.
O que virá a seguir? A pergunta continua, pertinente e mordente. Esperemos e desejemos que o que está a acontecer no Egipto seja a abertura de uma janela para a Democracia, e que os egípcios a consigam construir sem preconceitos.



quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Do Viajante

Pousou sobre a terra do chão o prato vazio de natureza.
Passou em redor os olhos, quais dois lagos revoltos a transbordar, em busca do sentido intimo e avaro da sua vida. Depois, pelo tecto sem tecto, olhou para o brilho da Lua, trazendo dela a luz para o ver.
Ele lá estava, como sempre nos últimos dias, deitado de tronco nu, tremendo, testa alagada pelo suor que ela sabia de sabor amargo, por tê-lo dado a provar aos seus beijos.
Olhou-o e disse com palavras amadurecidas no último arco-íris: A esteira é tua, já volto.
Esperou pelo amanhecer.
Cruzou a porta da cubata e partiu segura, bela, mas triste no seu caminhar descalço com os pés sentindo a terra dura e já quente do carreiro a caminho do mercado, quinda à cabeça, e um medo agarrado ao peito. Na quinda levava o vestido de flores com que se aperaltara no dia em que ele a fora buscar ao seu quimbo distante.
Chegada pediu, a quem antes ali se postara, um pedaço de sombra. Sob ela se sentou cruzando as pernas. Ao colo pôs a quinda, o medo deixou-o estar.
Feita a venda foi à drogaria comprar comprimidos, de medo ao peito. Voltou a casa pelo trilho da noitinha. A Lua escondera-se atrás duma nuvem. Acendeu um coto. Ele lá continuava, deitado, de tronco nu. Mas, já não tremia nem o suor lhe banhava a testa. Só o corpo estava. O resto dele partira.
Os lagos dos olhos rasgaram-se em águas de vida perdida, sem brilho, enchendo-lhe o prato, alagando-lhe a quinda.
Hoje, ela vive, vazia de si, apenas habitada pela memória.

sábado, 5 de fevereiro de 2011

A propósito do post de ontem

Depois de publicado o post de ontem, sobre o 4 de Fevereiro de 1961 em Luanda, recebi alguns e-mails de leitores habituais do meu blogue, e telefonemas de amigos. Não entraram para comentar, mas pediram-me para falar da Jamba. Surpreendido pelo interesse que, tantos anos depois a Jamba ainda suscita, correspondo ao que me foi pedido.
Durante as sanguinárias guerras civis que, após a independência, dilaceraram o povo angolano, a Jamba ocupou um lugar proeminente no imaginário dos portugueses, em especial dos que nutriam (e nutrem) simpatias pela UNITA. Terra mítica a que o então carismático líder daquele movimento (hoje activo, embora minoritário, partido político angolano), Jonas Savimbi, chamou o bastião da sua resistência contra o Governo de Angola, considerando-a «uma conquista política sobre o imperialismo, como foi Londres, sob o comando de Wiston Churchill, sobre o nazismo, e que nunca fechará sobre a história de Angola», o que era, afinal, a Jamba?
Tendo lá estado, por mais de uma vez, assim a descrevi em Junho de 2002:
“…Situada no extremo Sudeste de Angola, para lá de Mavinga, nas chamadas «Terras do fim do Mundo», encravada entre a Zâmbia e a Faixa de Caprivi, a Jamba que eu vi, que a UNITA me mostrou, em visitas sempre acompanhadas, era um conjunto de pequenas sanzalas circulares, cada uma com seis ou sete palhotas e um Jango central (casa de reuniões), distantes alguns quilómetros entre si, interligando-se por um conjunto de picadas limpas e cuidadas. Num dos cruzamentos da mini-rede rodoviária, estava colocado um polícia-sinaleiro. — O célebre sinaleiro da Jamba, tão filmado e fotografado. A este ponto, iam dar a estrada do aeródromo e duas outras: uma da Namíbia, a 80 quilómetros de distância; outra da Zâmbia, a 60. Pela da Namíbia, ocupada pelas tropas sul-africanas até 21 de Março de 1990, chegavam os alimentos, bebidas, tecidos, medicamentos, armas, combustíveis e todo o material de apoio logístico, em colunas organizadas pelo regime do Apartheid, desde sempre apelante incondicional de Jonas Savimbi. Era, também, uma das vias por onde o Exército de Pretória entrava em Angola, sempre que a UNITA pedia o seu auxílio…”
Podem continuar a leitura aqui.
Espero ter correspondido ao interesse dos que me levaram a falar sobre a Jamba.
Um abraço e bom fim-de-semana.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Cinquenta anos depois

Em Luanda, na madrugada de 4 de Fevereiro de 1961, um grupo de angolanos armados com catanas e varapaus, atacou a Casa de Reclusão Militar e a Cadeia Civil, iniciando a insurreição contra o regime colonial português. Vesga e incapaz de entender que a História iniciara, de há muito, de forma imparável, a escrita do livro das independências dos povos, a ditadura salazarista respondeu “rapidamente e em força”, alimentando pela força das armas, e não pela da razão, uma guerra de 14 anos. Durante anos Salazar instilou a mentira: em Angola não se travava uma guerra, mas o combate a um grupo de terroristas que punha em causa a nação lusíada.
A 11 de Novembro de 1975 os três movimentos de libertação (MPLA,UNITA e FNLA) proclamaram a independência de Angola, embora em cidades diferentes: Luanda, Huambo (antiga Nova Lisboa) e Ambriz, respectivamente. Só a do MPLA foi reconhecida e aceite pela Comunidade Internacional, incluindo a Organização de Unidade Africana. O Brasil, no tempo do presidente Ernesto Geisel, foi o primeiro país a fazê-lo. Portugal só tardiamente o fez.
Muito se tem dito e escrito sobre a guerra colonial, e, igualmente, sobre as guerras civis que se lhe seguiram, alimentadas pelos dois senhores do mundo de então: Estados Unidos e União Soviética. Eu próprio publiquei um livro em 2002: Angola – A Cultura do Medo. Não venho, por agora, nada acrescentar. Angola é hoje um país independente, em paz desde 2002. É certo que o caminho seguido não tem sido o desejado pela “Nação Crioula do MPLA”: Uma Democracia Plena com respeito pelos direitos humanos, activista contra a corrupção, reconhecimento e harmonia inter-racial, respeito pelas minorias; um verdadeiro Estado de Direito. Estou convicto, contudo, que os angolanos lá chegarão.
Hoje, ao recordar a data, passei pelos meus arquivos. Peguei num livro. Tem como título “ A Última Grande Oportunidade Para a Paz em Angola”. Foi escrito em Maio de 1999 (depois de mais um acordo de paz entre o Governo de Angola e a UNITA), pelo embaixador norte-americano Paul Hare que conheci pessoalmente, e foi representante especial dos Estados Unidos no processo de paz em Angola, entre 1993 e 1998.
Diz o embaixador, a abrir o seu livro:
«Os angolanos contam habitualmente a seguinte história do seu país: no princípio, quando Deus criou o mundo, ofereceu a Angola as partes melhores, mais belas e mais ricas, e o resto do mundo ficou a lamentar-se. Mas a história da criação de Deus continua. De acordo com os angolanos, Deus lançou uma maldição sobre Angola: a de que esta Terra Prometida nunca passaria de uma ficção. A razão para esta infelicidade é o mau carácter do povo angolano que, de forma figurativa, Deus terá retirado do fundo do barril e condenado à miséria e a disputas constantes».
Conheço bem os angolanos. Sei que, como nós, são pródigos em ironizar sobre si próprios. Aquela facécia, porém, nunca a escutara nem lera. Surpreende que um diplomata tenha aceite, que no princípio Deus andou por aí, de cajado empunhado, em trabalhos de criação, fazendo umas terras, abençoando-as, mas amaldiçoando-lhes os povos que por lá deixava. Outras, erguendo-as, para logo de seguida as anatematizar, enquanto lhes santificava as gentes, numa espécie de carambola divina.
O que dirá o Sr. Hare, se um dia escrever um livro sobre o seu país?

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Do Mwata

Avistou-a, no lado de lá da rua, ao sair do restaurante. Braços nus, uns, alçados, a quererem afastar uma nuvem que, pairando num céu mortiço, tapava o sol, assim lhe pareceu; outros abraçando-se. Foi vê-la de perto. Apesar de despida ela estava altiva. Passou-lhe as mãos pelo corpo rugoso. Os dedos detiveram-se num pequeno inchaço, mais macio que o resto em redor, parecendo uma lágrima que, vertida de cima, por ali tinha parado, porventura já sem forças para se deixar cair até ao solo.
Alguém lhe disse ter ela sido podada há pouco. Intoleráveis e intolerantes, os homens despojaram-na da liberdade de crescer como queria.
Já no carro, voltou a olhar para ela, juntando à certeza de que a terra grita, uma outra: as árvores choram.
Mas, ao contrário dos homens, dos de outrora, dos de agora, e, por certo, dos próximos, que insistirão em caminhar por passos velhos, o choro das árvores não verte nem o ódio, nem a maldade, tão pouco a vendeta. Unicamente uma dor que não se sente, se não ouve, apenas se vê.
Quis com aquela árvore falar. Não o conseguiu. Lembrou-se, então, das lianas das árvores da sua África. Quando cortadas, embora magoadas, jorram a água da vida, deixando que os sequiosos com ela se dessedentem. Depois, as árvores saram, e delas outras lianas persistem no nascimento.
Na Primavera irá procurar a árvore do outro lado da rua do restaurante. Encontrá-la-á, certamente, com os braços vestidos de verde, dada à tarefa de os florir. Crescendo, não como ela desejaria mas, apesar disso, com altivez, não se deixando vencer pela intolerância. Continuará a existir, orgulhosa da simplicidade do seu viver, não se furtando a abrigar sob a sua sombra quem dela precisar, não interrompendo a passagem do luar pelos seus ramos.

sábado, 29 de janeiro de 2011

Devaneios

Agora, que uns dias já passaram, roda-se o quício da azia, e abre-se a janela para um devaneio.

Meter é um verbo chato!

“Não metas a foice em seara alheia!"
- Deita-lhe a mão.
“Não metas o nariz onde não és chamado!”
- Essa agora! Cheira, cheira, que é bom.
“Olha, mete-o no c.!”
- Irra que é estúpido!
“Meter? Nem a brincar!"
- Olha, então vou carregar a sério!
“Mete aqui!”
- Querias…
“Mete aqui a tua mão!"
- Não meto, ponho!
“Não metas o carro à frente dos bois!”
- Põe!
“Mete mais do que pode!”
- Este verbo é mesmo parvo!
“Mete a quarta!”
- Isso é que era bom! Hoje é Sábado, minha!
“Mete a isca no anzol!"
- Não metas, põe! Se a meteres podes ficar sem anzol, sem isca e sem faneca!
“Mete-te em má cama!”
- Mete, mete e vais ver como a noite se faz longa!
“Não se hão-de meter os tormentos todos num buraco!”
- Pois não, não cabem. Se os puseres, com jeito, vais ver que os arrumas todos.
"Não metas a mão na massa!"
- Põe-lhe as mãos, coze-a e papa-a!
“Mete a viola no saco!”
- Viste o que aconteceu ao Benfica? Se tivesses dito põe-na de lado…

ADENDA: Em comentário aqui deixado, fala-me a amiga Fê-blue bird de:

"Meter o rabo entre as pernas"
- Põe lá o dito, põe, e logo vais ver como te saltam para cima.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

sábado, 22 de janeiro de 2011

Dia de Reflexão



…Faz de conta que ainda é cedo
Tudo vai ficar
Por conta da emoção
Faz de conta que ainda é cedo
E deixar falar
A voz do coração...
Desejo a todos um bom fim-de-semana (escrito assim, ainda como diz o defunto Acordo Ortográfico). E, não se esqueçam de ir amanhã pôr o voto na urna. Vão, não vão? Um abraço.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Presidenciais


“Portugal não aguenta mais três semanas de campanha”. Nada de segunda volta, isso teria custos acrescidos para todos os portugueses, “desde logo pela via da contenção do crédito e pela subida das taxas de juro”. Como ele toca, com malabarismo, nos mexericos! Se não votarem em mim, chamo o lobo mau.
O que mais virá?

Disse ter recebido telefonemas ameaçadores, mas que isso não o fará desistir. Gritou bem alto para quem o quis ouvir: “Não é possível demover-me da minha intenção. Só há uma maneira: dêem-me um tiro na cabeça, porque sem tiro na cabeça eu vou para Belém”.
E esta!?
Tadinda da gente!

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Presidenciais (Interlúdio)

Dentro da jaula estava um homem de chicote na mão.

Deitadas no chão, a toda a largura da jaula, espreguiçavam-se leoas com ar enfastiado.

No cimo dum escadote, que mais parecia a montra de um lojista, estava um leão sentado.

O homem brandia o chicote, forçando as leoas a mexerem-se e a fazerem carrapitos delas próprias.

Depois virava-se para o leão, levantando o chicote. O felino erguia-se, rugia e voltava a sentar-se.

Um dia o leão não se levantou. Deu um salto e comeu o homem do chicote.

Fora da jaula, as pessoas aplaudiram.

A leoa mais velha, que tinha um fraquinho pelo homem do chicote, não gostou e comeu o leão.

As pessoas aplaudiram.

A filha da leoa mais velha, pegada de amores pelo homem do chicote, ficou desagrada e comeu a mãe.

As pessoas bateram palmas.

A prima da filha da leoa mais velha, que andava a ver se fisgava o homem do chicote, achou aquilo um horror e comeu a filha da leoa mais velha.

As pessoas aplaudiram.

A última das leoas, que se fazia passar por virgem, abriu a porta da jaula e comeu as pessoas que aplaudiam.

O dono do circo apagou as luzes, fechou a feira, e passou a noite com a última das leoas.

Presidenciais

Diferenças…!

Numa arruada, o candidato escuta uma senhora, reformada, de 78 anos, que lhe fala da sua pequena pensão. Diz a senhora, depois do protesto:
- Peço-lhe perdão!
Replica o candidato:
- Dê-me um abraço (e beija-a nas faces). Não peça perdão, não. A senhora fez o que tinha a fazer. Gritou a sua indignação.

Presidenciais

“O casaco fofinho”

domingo, 16 de janeiro de 2011

Presidenciais

“Os funcionários públicos, que tão duramente foram atingidos nesta crise, talvez nalguns casos com alguma injustiça, porque outros, com muito maiores rendimentos, não foram chamados a dar o seu contributo. A eles não lhe foram pedidos sacrifícios como foram pedidos aos funcionários públicos”.

Não, estas palavras não são de qualquer dos dois candidatos de esquerda, mas do candidato Cavaco Silva. Surpreendidos!? Eu ficaria, se elas não cheirassem a demagogia e a populismo. Só tenho uma dúvida: a que “outros” estava o candidato a referir-se? Às figuras do PSD e do CDS, gestores de empresas, alguns seus amigos? Aos banqueiros?

Não se ficou por aqui. Num outro comício, disse:

"Eu não sei se as imagens desta maré humana que me tem acompanhado chegam a casa dos portugueses através da comunicação social, ou se estão ou não a ser escondidas. É qualquer coisa que eu não sei, porque não acompanho hoje o dia-a-dia da comunicação social".

Não sabe, mas proclama que podem estar a ser escondidas…!
Há uns anos, quando era Primeiro-Ministro, dizia que não lia jornais e que nunca se enganava. Agora, hoje, afirma não acompanhar o dia-a-dia da comunicação social, certamente assoberbado pelos afazeres da campanha. E os seus assessores? E os seus conselheiros? Duma coisa parece não ter dúvidas: as imagens da sua campanha estão a ser escondidas!
Quem anda a querer iludir quem?


sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Presidenciais

Lembro-me do PR de sorriso espontâneo e livre, que se emocionava e comovia em público, assim, como qualquer um de nós. Aquele PR que disse haver vida para além da sebenta das finanças. Ainda há dias o vi, com o mesmo sorriso e um pé na emoção, a anunciar o seu apoio a um candidato. Hoje, outros são os tempos. Do PR, que quer continuar a sê-lo, já não nos chega um sorriso, mas um esgar de ameaça, de que tudo vai mal, conversa para surdos e mudos ao jeito do que os interesses que o alimentam tanto gostam.
A tristeza é vil, como sempre o foi. Mas, agora, a jocosidade, forçada pelo fingimento de tudo fingir, o que será? Faz-se o escárnio, escreve-se a sátira, canta-se o mal dizer.
Soltam-se o sorriso e o riso à medida, forçados. O aplauso fácil, mecânico, robótico.
Cá de política não percebo nada, isto é tudo uma cambada, pá! És o maior, ou você é o maior, consoante.
Batem-se palmas a quem escarneça, satirize ou mal diga. Assim, numa espécie de vingança do eu para com o eu. Recolhemos ao fácil, escondemo-nos no comodismo estéril. Sentamo-nos à sombra do nada fazer. Que continuem os fingidores. O que há para construir por edificar ficará. Assim fugiremos ao trabalho de pensar, deixando-nos levar pelo acaso das circunstâncias.
Depois, fechado o sorriso, recolhido o riso, gastas as sátiras, consumido o cuscar, o que fica?
Um triste e solitário vazio. Então, apagam-se as velas do velório. Ao que parece, gostamos de assim ser.
Será que gostamos mesmo?

O Analfabeto Político

O pior analfabeto
É o analfabeto político,
Ele não ouve, não fala,
nem participa dos acontecimentos políticos.

Ele não sabe que o custo de vida,
o preço do feijão, do peixe, da farinha,
do aluguel, do sapato e do remédio
dependem das decisões políticas.

O analfabeto político
é tão burro que se orgulha
e estufa o peito dizendo
que odeia a política.

Não sabe o imbecil que,
da sua ignorância política
nasce a prostituta, o menor abandonado,
e o pior de todos os bandidos,
que é o político vigarista,
pilantra, corrupto e o lacaio
dos exploradores do povo.
(Berthold Brecht)

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Presidenciais

Numa reportagem televisiva o candidato Cavaco Silva afirmou, a propósito de ter comprado acções do BPN:

«Eu era um mísero professor. Acha que eu, como professor, e com a minha mulher, que andámos a acumular as poupanças para a velhice e para deixar aos nossos filhos, não podemos recorrer a qualquer banco quando não temos qualquer responsabilidade política?»

Não fosse poder escapar-me o significado de mísero, fui ao dicionário. Como adjectivo quer dizer: Desgraçado, miserável, pobre; avaro. Como substantivo masculino: Pessoa infeliz.
Como é que um mísero professor conseguiu poupar mais de 100 mil euros para comprar as tais acções!?

Portugal vendeu ontem títulos de dívida pública. A operação correu bem, com juros um pouco abaixo do esperado. Acendeu-se uma pequeníssima luz de esperança em dias melhores. Poucas horas depois o candidato Cavaco Silva encarregou-se de a apagar:

«Nós não podemos de facto excluir a possibilidade de ocorrer uma crise grave em Portugal, não apenas no plano económico e no plano social, mas também no plano político».
Por isso, acrescentou, é preciso ter na PR alguém com experiência para lidar com «situações complexas, muito difíceis e situações que neste momento ninguém consegue prever».
A experiência do candidato, enquanto professor, a vir ao de cima. De facto, quem é que podia prever que um mísero professor conseguiria poupar 100 mil euros para investir em acções que, ainda por cima, deram um lucro de 140%!?

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Presidenciais

“O Presidente da República não pode comportar-se como um aluno bem comportado, de forma acrítica, porque não quero Portugal de joelhos, eu quero Portugal de pé, quero Portugal na Europa mas com uma voz crítica, defendendo a igualdade entre todos os Estados soberanos”.
A força de Portugal “não está na economia nem no poder militar, mas na História, na cultura e na língua portuguesa”.
“Precisamos de um Presidente que não confunda Portugal com um manual de finanças. A economia é importante, mas um país não é só economia, porque o país não é uma sebenta de finanças”.

- Palavras de Manuel Alegre, num comício em Faro –

Entretanto, as tropas soaristas tomam posições, abrindo o caminho ao avanço do exército cavaquista. Para um comício de Fernando Nobre foi Edmundo Pedro, fundador do PS com Mário Soares, aconselhar o voto dos socialistas no presidente da AMI. Em Almada Victor Ramalho, soarista de alma e coração, responsável pela distrital de Setúbal do PS, tudo fez para esvaziar a presença de Manuel Alegre. Depois de ter posto o socialismo na gaveta, Mário Soares não esquece, nem perdoa, o ter sido derrotado por Manuel Alegre nas últimas presidenciais. Parece querer agora ajustar contas, engavetando o poeta.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

De regresso

Mais do que um susto, foi uma das embirrações a que a minha máquina se dá, de quando em vez, como se mais nada tivesse para fazer do que andar a meter-se comigo. Enxotado o sobressalto, ultrapassada a embirração, estando a máquina melhor, regresso após dez dias de ausência, que justificada vos deixo com as palavras atrás escrevinhadas.
Regresso importunado com o que ouvi ao candidato presidencial Cavaco Silva.
A propósito da compra e venda de umas acções do BPN disse ele com pose estática e numa manifestação de soberba robótica que ainda há-de nascer duas vezes quem seja mais honesto que ele!
Não conheço a vida, página a página, dos candidatos presidenciais para me interrogar sobre a honestidade de cada um deles. Mas gostava, sinceramente gostava, que o candidato Cavaco Silva explicasse o que o levou, apenas dois anos depois de ter comprado as tais acções a vendê-las com um lucro de 140%!

sábado, 1 de janeiro de 2011

2011 - O Dia Um

Por todo o mundo as boas-vindas a 2011. Mostrou-as a televisão. Muito fogo de artificio, champanhe, alegria e folguedo como sempre. Assim deve ser. Aqueles são momentos para o esquecimento do que de menos bom houve, e para desejar que o futuro, que hoje começa a escrever-se, seja diferente para melhor.
Todos o desejamos. Cabe a cada um de nós fazer com que assim seja.
Hoje, a meio da manhã. Reportagem televisiva. Fim de ano numa urgência hospitalar. Pessoal médico, de enfermagem e auxiliar envolvendo os doentes, todos idosos. Um deles, senhora de cabelos brancos, de que a vida, provavelmente, irá em breve despedir-se, respondeu ao médico: “Não, não quero ir para casa, não tenho lá ninguém.” Os outros, presumo, terão dito algo de semelhante, porque acamados os continuei a ver, de olhar distante e fixo no tecto da enfermaria.
Senti um aperto no coração, e, confesso, as lágrimas chegaram-se-me.
Não é momento para abrir portas à tristeza, eu sei. Por isso vos peço desculpa por aqui deixar este meu sentir.
Desejo a todos um Bom Ano Novo. Que cada um de nós consiga o gesto, por pequeno que ele seja, para fazer de 2011 um ano feliz.
Por aqui nos continuaremos a encontrar. Na minha cubata continuarei a recebê-los com muito prazer. As vossas visitas e comentários muito me honrarão.
Um grande abraço a todos.