quarta-feira, 13 de junho de 2012

O chicote da escrita


Escrever é uma demora de vento enfurecido.
Mais do que dizê-lo, ele assim pensa.
Solta as palavras.
Umas há que, quando outras as procuram, se sentem violadas na sua intimidade.
Ouve-as, gritando umas para as outras:
- Vocês roubam-nas a nossa circunstância.
Outras, por dá cá um agá ou uma vírgula, envolvem-se em peleja sem fim.
A um canto, num espaço sem sítio, evocando emoções, há as que vão contando histórias já por outras contadas. Certezas desfeitas.
Outras, ainda, a nada pertencem, nada desejam. Não passam de distraídas abstracções.
Baralha-as.
Troca os rios da alma pelos vales e montes do espírito.
Não sabe ele quais vencerão, ou se vencedoras haverão.
Sabe, sim, ser ele o derrotado.


(Ali de cima vieram umas aqui escrever: 
Será o que somos, o que podemos ser?)

domingo, 10 de junho de 2012

The Platters


Morreu Herb Reed (1928-2012), o último dos The Platters.
Eram fabulosos!



(Bom Domingo a todos. A derrota com a Merkelball já lá vai!)

quinta-feira, 31 de maio de 2012

"Não sei se nada sei"


Não é cinzento morto
O céu é azul.
O Sol brilha.
Folhas verdejam nas árvores
Cantando viajam os rios
Sente-se o vento
A noite não toma o espaço
É apenas
Passagem para amanhã
Riem as gentes
Livres as palavras trocadas
Dão-se mãos
Não se dorme ao relento
Ninguém se refugia
Na exiguidade da indiferença
Nem na penumbra
Da renuncia à participação
Não é falso o carinho
No seu recinto
As almas vêem-se
Os espíritos falam-se
O luar a todos veste
Costas dadas ao engano
Passam horas sem medos
Pelo pensamento livre correndo
A Liberdade
Não anda a monte

                                            (Acordou com o medo de andar perdido)

domingo, 6 de maio de 2012

Dia da Mãe


Porque a memória permanece viva:

A última vez que te vi estavas deitada, serena, dada ao sono de que não se desperta. Olhei-te. Invadiu-me uma raiva maior que a dor. Foi dela que eu nasci, disse para mim, em silêncio, agarrado à solidão que se me chegou. Não chorei. Tocaram-me no ombro. Vi taparem-te. Fizeram-me um sinal.
Acompanhei a tua viagem até ao local em que te desceram e te cobriram com uma terra diferente da que te vira nascer. Segurei as lágrimas que teimavam em soltar-se. Aquela mágoa não a quis partilhar. Era só minha! Sofri-a na alma e no meu coração que sangrou.
No suco dos meus olhos vi, então, partes da nossa vida. A tua foi longa, chegaste perto dos 100. Lembrei-me que tempos antes te fôramos visitar, já tu vivias num mundo longe do nosso. Oferecemos-te uma caixa de bombons. Deliciaste-te, eu vi, mas as palavras que então disseste já nada tinham a ver connosco. Estavas noutro local, provavelmente num paraíso para que te transportaras, onde contigo vivias, e nós não habitávamos.
Recordei-me, também, do muito que me ensinaste. Um dia, era eu ainda um catraio que jogava descalço com bola de trapos, fui fazer-te queixa de uma “malandrice” que o meu irmão me fizera – zangado, rasgara-me a camisa. Soubeste da atitude dele, vi nos teus olhos que não gostaste, e logo pensei agora é que ele vai ver! Atiraste-lhe umas palavras, de que já não me lembro, e ele voltou para o quintal. A mim deste-me um ralhete, apontaste-me o dedo e disseste: não se denuncia um irmão!
Aprendi para todo o sempre! Como para sempre em mim ficaram os carinhos das tuas mãos fagueiras, nos tempos em que caminhava pela minha meninice.
No momento em que a última pá de terra sobre ti caiu, subiu um eco trazendo-me à memória silêncios. Silêncios meus, hoje cheios de palavras que gostaria de te ter dito.
Não sei por onde andas agora. Pouco importa. Mas se te voltar a encontrar, dir-te-ei: Mãe gosto muito de ti.
Beijo a tua memória.
( A todas as mães desejo um bom dia.)
 

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Eles, ao xadrez


(Reedição de um post de 2010)
Pelo caminho se meteu. Ao fundo, deu com uma casa meio acubatada, duas tábuas a darem ares de porta. Forçou a abertura, sem o conseguir. Caiu-lhe em cima uma tabuleta. Leu o que escrito estava, em linhas meio enviesadas: “aqui vive Deus, em recolhimento, meditando, não entre.”
Obedeceu.
Três dias depois voltou à estrada. Caminhou pelo primeiro desvio. Deu com um portão de ferro, de cadeado franqueado. “ Reino do demo”, leu numa chapa chamuscada e meio amolgada, “faça o favor de entrar”.
Rejeitou o convite.
De regresso a casa, pôs-se a cismar. Assim ficou sete dias inteiros. Ao oitavo, voltou às andanças, por um carreiro de poeiras, desta feita. Uma vida depois parou. Sacudiu o pó, limpou os olhos. Aquilo não era cubata, nem casa, nem nada de parecido, era só um sítio com um letreiro, de luz aos tremeliques, dizendo: “Aqui vivemos os dois. Entre.”
Entrou.
Numa mesa a levitar, estavam, Deus, com o bordão de peregrino no bolso, e o demo, tridente à cinta, a jogar xadrez. Nos intervalos de cada jogo, antes das peças realinhadas, Deus tentava moldar um pedaço de barro. O demo batia com o sílex nos chavelhos, a ver se deles tirava a faísca para atear o tridente. Palavras não as largava o silêncio.
De confusão se encheu. Voltou para trás. Em casa uma vez mais imaginou, com tenacidade. Findo o torvelinho do pensamento tornou ao sítio do letreiro, que já lá não estava. Caída no chão, apenas uma parra gatafunhada.
“Ele ganhou, mas batotou. Voltarei mais tarde. Quero a desforra. Assinado – demo.”
Ao dobrar da folha, numa das esquinas, estava aposto o carimbo: “Assinatura reconhecida por Deus.”
Ficou sem saber que destino dar aos seus pensares perturbados.
Muita vida depois, foi de novo ao letreiro. Encontrou-o, despido de dizeres, de luz apagada. Claridade, apenas a do tecto brumaceiro descido da Lua, chegando para os ver. Um sem o bordão de peregrino, outro despojado do tridente. O primeiro de testa enrugada, barbas longas e brancas, o segundo de chavelhos caídos. Ambos envelhecidos, mas continuando, em silêncio, de olhos pregados no xadrez.
 

segunda-feira, 30 de abril de 2012

1º de Maio

Não há que esquecer
 A 20 de Junho de 1889, a Segunda Internacional Socialista, reunida em Paris, decidiu convocar anualmente os trabalhadores para uma manifestação pela conquista das 8 horas de trabalho diário. Em homenagem aos trabalhadores “ Mártires de Chicago” (a cidade que era o principal centro industrial dos Estados Unidos naquela época), o dia escolhido foi o Primeiro de Maio. Em 23 de Abril de 1919, o Senado francês aprovou a jornada diária de 8 horas e proclamou feriado o dia 1 de Maio desse ano. No ano seguinte a Rússia adoptou o Primeiro de Maio como feriado nacional, exemplo que foi seguido por muitos outros países. Instituíra-se o Dia Mundial do Trabalho.
Como se chegou aqui:
 Há que retroceder aos primórdios da Produção Capitalista, quando ainda eram comuns práticas selvagens. Não apenas se procurava, desenfreadamente, a mais-valia, através de baixos salários, como até mesmo a saúde física e mental dos trabalhadores era comprometida por jornadas que se estendiam até 17 horas de trabalho diário, prática comum nas indústrias da Europa e dos Estados Unidos no final do século XVIII e durante o século XIX. Férias, descanso semanal, cuidados de saúde, apoio à maternidade e reformas não existiam. Para se protegerem, os trabalhadores criaram vários tipos de organização como as caixas de auxílio mútuo, precursoras dos primeiros sindicatos.Com as primeiras organizações, surgiram também as campanhas e mobilizações reivindicando maiores salários e redução das horas de trabalho diário. Greves, nem sempre pacíficas, explodiam por todo o mundo industrializado. Chicago, um dos principais pólos industriais norte-americanos, era, também, um dos grandes centros sindicais. Duas centrais lideravam os trabalhadores em todo o país: a AFL (Federação Americana de Trabalho) e a Knights of Labor (Cavaleiros do Trabalho). As organizações (centrais), sindicatos e associações, que surgiam, eram formadas principalmente por trabalhadores de tendência socialista, anarquista e social-democrata. Em 1886, Chicago foi palco de uma intensa greve operária. Os trabalhadores reivindicavam melhores salários e a passagem da jornada de trabalho de treze para oito horas diárias. À época, Chicago não era apenas o centro da máfia e do crime organizado, era, também, o centro do anarquismo na América do Norte, com importantes jornais operários como o Arbeiter Zeitung e o Verboten, dirigidos respectivamente por August Spies e Michel Schwab.As entidades patronais controlavam igualmente jornais, onde os líderes operários eram descritos como “preguiçosos e canalhas” que só procuravam a desordem. O Chicago Tribune foi mais longe e publicou em editorial: "Para estes vagabundos esfarrapados, a melhor comida é uma carga de chumbo no estômago". No decorrer da greve, uma passeata pacífica, pela Avenida Michigan, de trabalhadores no activo, desempregados e familiares, vestindo roupas de Domingo, e empunhando cartazes onde se lia "8 horas para trabalhar, 8 horas para descansar e 8 horas para fazermos o que for de nossa vontade", silenciou momentaneamente tais críticas, embora com resultados trágicos no curto prazo. Do alto dos edifícios e nas esquinas a polícia vigiava, fortemente armada. A passeata terminou com um comício. No dia 3, a greve continuava em muitos estabelecimentos. Diante da fábrica McCormick Harvester, a policia disparou contra piquetes de greve e outros operários, matando seis, deixando 50 feridos e deteve centenas. August Spies convocou os trabalhadores para uma concentração na tarde do dia 4. O ambiente era de revolta apesar dos líderes pedirem calma. Os oradores revezavam-se; Spies, Parsons e Sam Filiem, pediram a união e a continuidade do movimento. No final da manifestação um grupo de 180 policiais atacou os manifestantes, espancando-os. Uma bomba explodiu no meio dos guardas. Sessenta foram feridos e vários morreram. Chegaram reforços policiais que começaram a atirar em todas as direcções. Morreram centenas de pessoas: mulheres, homens e crianças. Os acontecimentos ficaram conhecidos como A Revolta de Haymarket. A repressão foi aumentando num crescendo sem fim: o Governo decretou o “Estado de Sítio”, e o recolher obrigatório, com a consequente proibição de circulação pelas ruas. Milhares de trabalhadores foram presos, muitas sedes de sindicatos incendiadas, criminosos e gangsters, pagos pelos patrões, invadiram casas de trabalhadores, espancando-os e destruindo-lhes bens. A justiça levou a julgamento os líderes do movimento, August Spies, Sam Fieldem, Oscar Neeb, Adolph Fischer, Michel Shwab, Louis Lingg e Georg Engel. O julgamento começou a 21 de Junho de 1886 e desenrolou-se rapidamente. Provas e testemunhas foram inventadas.
Mártires de Chicago
A sentença foi lida a 9 de Outubro. Parsons, Engel, Fischer, Lingg, Spies foram condenados à morte por enforcamento; Fieldem e Schwab, à prisão perpétua e Neeb a quinze anos de prisão.
Linng, ao centro na foto, não foi enforcado por ter sido encontrado morto na sua cela.
Gerou-se, então, um movimento de solidariedade internacional pressionando o governo dos Estados Unidos a realizar um novo julgamento, o que acabou por acontecer em 1888. O novo júri, entretanto constituído, reconheceu a inocência dos trabalhadores, admitiu, como provado, que fora um capitão da polícia a mandar rebentar a bomba em Haymarket, culpabilizou o Estado norte-americano e decidiu a libertação dos trabalhadores presos, incluindo os condenados a prisão perpétua.
  
Em Portugal só a partir da Revolução dos Cravos, em 25 de Abril de 1974, é que se voltou a comemorar o Primeiro de Maio, livremente, e este passou a ser feriado nacional. Hoje, as duas centrais sindicais, CGTP (Central Geral dos Trabalhadores Portugueses) e UGT (União Geral de Trabalhadores), assinalam-no, em liberdade, com manifestações e comícios por todo o país. Durante a ditadura salazarista do Estado Novo as comemorações eram reprimidas pela polícia.
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Os Estados Unidos, onde tudo começou, não reconhecem, apesar disso, ainda hoje, o Primeiro de Maio como Dia do Trabalhador. Naquele país também se celebra um Dia do Trabalhador (Labor Day), mas isso acontece na primeira segunda-feira de Setembro. É feriado federal (nacional), estando relacionado com o período das colheitas e com o fim do Verão. A decisão de assim ser foi tomada pelo presidente Stephen Grover Cleveland (Partido Democrata), por recear que a celebração em Maio reforçasse o movimento socialista nos Estados Unidos.
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 Viajar pela História deixa-nos uma certeza: lutando por melhor, é sempre possível mudar.
Nunca desistir é lema que sigo desde sempre.
Recordo, com emoção, o 1º de Maio de 1974 em Lisboa. Nunca vira manifestação como aquela. Vivi-a com o sentimento de ter recuperado esse bem precioso que é a Liberdade. Chorei enquanto desfilava e ouvia os líderes políticos regressados do exílio. Hoje, não fora a ainda impossibilidade de caminhar como quero, voltaria à Manifestação.
Deixo-vos com palavras de Manuel Alegre:

É possível falar sem um nó na garganta é possível amar sem que venham proibir é possível correr sem que seja a fugir. Se tens vontade de cantar não tenhas medo: canta. É possível andar sem olhar para o chão é possível viver sem que seja de rastos. Os teus olhos nasceram para olhar os astros. Se te apetece dizer não grita comigo: não. É possível viver de outro modo. É possível transformares em arma a tua mão. É possível o amor é possível o pão. É possível viver de pé! Não te deixes murchar. Não deixes que te domem. É possível viver sem fingir que se vive. É possível ser homem. É possível ser livre.
( Em Portugal estamos a regressar aos primórdios da Produção Capitalista. Na cena política portuguesa ressurgiram os vendedores de ilusões, que nos pretendem acorrentar de novo)
Volta a ser necessário ouvir e agir:


quarta-feira, 25 de abril de 2012

Abril não desarma



Conhecidas as razões, aplaudo.
Entretanto, a PSP anunciou tolerância zero às manifestações populares.
Cobarde, o governo usa a polícia para atemorizar.
Os portugueses saberão responder.
O tempo é de rotura e não de resignação.
[Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo]
- Sophia de Mello Breyner Andresen -
(Inspirado na leitura do Conversa Avinagrada)

terça-feira, 24 de abril de 2012

Aniversário


Esta cubata faz hoje três anos.
Deixei-a pronta a 24 de Abril de 2009.
Véspera de um dos dias mais felizes da minha vida, o que nasceu da ALVORADA LIBERTADORA DO 25 DE ABRIL DE 1974.
No mundo da blogosfera tem sido uma descoberta de amizades, companheirismo e muito carinho. Senti bem tudo isso, nos momentos difíceis porque já passei, nalguns dos quais mordi os ossos da alma e tive que partir as vidraças das janelas do espírito.
A todos muito obrigado por me acompanharem e se darem ao trabalho de me lerem.
No solo da minha, e vossa, cubata os cravos continuarão a florescer.

[…Enquanto não alcançares a verdade, não poderás corrigi-la. Porém, se a não corrigires, não a alcançarás. Entretanto, não te resignes…]
(José Saramago) 

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Do Mwata (Cocos e Cálculos)

Porque julgo ser o texto que o Carlos me enviou a vós dirigido, aqui vo-lo deixo: 
estafilococos aureus
“Sabe não ser eterna a veste que usa, a carcaça com que se cobre. Dura quanto tiver que durar. Mas há, sob ela, um corpo real que sente. Anda, alheio, na missão que se impôs, quiçá inútil, de desenhar a geografia da realidade, sendo tal, porventura, a razão de um destino. Por isso se pergunta: Onde é que o Universo é ele, a Terra ela é, e ele, ele próprio tem que ser? Não sabe se o destino foi, ou é, fruto de arquitectura trabalhada na forja de deuses ensandecidos ou resultado de uma imbecil incúria médica. Sabe, sim, que a terrível e predadora bactéria que dá pelo nome de estafilococos aureus voltou a implantar-se, enfraquecendo-a, na estrutura óssea que lhe suporta a prótese total da anca esquerda. Na arrecadação do espírito, no sótão da alma, para onde migra de quando em vez, encontrou artes para o combate e foi vencendo, batalha a batalha, incluindo as com o médico que não passa de capataz duma companhia de seguros. Não é uma guerra ganha. Este cocos é recidivante e oportunista. Ataca à mínima debilidade do hospedeiro, como já o fez, por várias vezes, forçando a remoção e substituição de próteses. De há uns tempos para cá tem aparecido enfraquecido (assim parece…), fruto, talvez, das 60 sessões de oxigenoterapia na câmara hiperbárica do Hospital da Marinha. É que, diz quem julga saber destas coisas, o aureus foge do oxigénio como o diabo da cruz. Sustido o cocos, logo irrompeu a litíase renal bilateral. 
cálculo renal
Cerca de três semanas com uma cólica renal violenta. Duas idas às urgências hospitalares. Tudo tentado, nada resultando, cirurgia marcada com utilização de cateter para condução de um lazer com o objectivo de “ir à procura” dos cálculos, no dizer do médico especialista. Dois dias antes as “pedras” forçadas pela pressão do liquido drenado pelo rim, e aproveitando a boleia da força da gravidade, resolveram vir por ali abaixo, rasgando ao som da dor. Três! Uma pequenota, outra com seis milímetros, a terceira com um centímetro de largura – o dobro do diâmetro do uretere! A dor foi passando, o rim desinflamando. Grande rim, verdadeiro resistente! Desmarcada a cirurgia. Não será desta vez que a equipa de urologistas (quatro) irá “à procura” dos calhaus. Vencidos os furacões, tudo está de regresso à normalidade. Muito lentamente, ainda.”
Pediu-me ele para vos dar a explicação da ausência, e, também, a todos um grande abraço. 

sábado, 17 de março de 2012

Do Mwata


Consciência
No céu mortiço de azul baço, nuvens e as suas sombras caminhantes escondendo o horizonte, vê uma borboleta, saída da alma, trazendo a manhã pelas asas.
Não soubesse ele ser ela quem é, diria estar com cara de tempestade vinda para amassar.
Mas, não. O que ela está é masé atarefada, esta sua manhã.
Como mulembeira sarmentosa, de pau novo, plantando os ramos com folhas de um verde recém-nascido, de cujas axilas brotam frutos monandengues ainda, que as pintadas recolherão quando de mucefos caírem.
Dela faria um poema, soubesse ele escrevê-lo!
Na sua cubata, porém, o poeta não mora! Apenas uma flor de embondeiro por ali se vê andar, e dizer numa voz de perfeita imperfeição ser a flor da vida.
 Paleta e espátula na mão, a manhã chegada mistura cores, trabalhando, com afã, no retrato do dia.
Olha-a.
Move-se, para cima e para baixo, como que a querer dizer que lhe segue o pensamento.
Sabe lá ela!
Ainda assim, pergunta-lhe ele:
- Que cores tens tu?
A manhã, que sabe não ser o sentido oculto de coisa nenhuma, responde-lhe, de pronto:
- Que te importam as cores? Só vês o visível!? Ter consciência é mais que ter cor!
Ouvido isto, ele fica a pensar no mistério do que se quer dizer. Ela aquieta-se. Volta à tábua das tintas. Um traço mais. Obra completa. Pronto, está feito o Domingo para ele usar amanhã, que hoje ainda Sábado é. Domingo um pouco muxoxo. As nuvens ronronarão, por elas ximbicará o vento acinzentando-as.
Outros afazeres a chamam. A manhã parte. Não sem antes lhe dizer:
- Não te esqueças, ter consciência é mais que ter cor.

segunda-feira, 12 de março de 2012

Os Kalús e o Milagre


De quando eu era um Kalú reguila

 Éramos seis putos, andando pelos sete e os oito anos, companheiros na Escola 8 de Luanda.
Sempre que apanhávamos um intervalo maior, uma «borla» por falta de professor, a escola encerrada por força de uma daquelas chuvadas fortes, que caíam sem aviso prévio desventrando a terra, ou ainda porque nos apetecia gazetear, lá voltávamos costas às aulas, correndo para a Lagoa do Kynaxixe, na altura o limite da cidade. Depois dela, era o mato. Para lá íamos em algazarra ululante de miúdos kalús.
Com as sandálias, de pano e sola de pneu velho, ensacadas nas mochilas, seguíamos descalços tocando de mansinho a terra com as palmilhas dos pés, todas brancas. Até mesmo as dos negros e mulatos o eram, o que então muita confusão me fazia porque cor igual em todos também, só nas palmas das mãos e no sangue que via, assustado, quando algum de nós se arranhava numa das piteiras que estendiam os braços de picos eriçados por entre o capim. Aquilo deixou de me afectar, quando um dia aprendi que nos reproduzíamos todos pela mesma cor – a vermelha do sangue –, e nos amávamos e matávamos igualmente com a mesma – a branca da palma das mãos.
Da Escola 8 à Lagoa eram para aí novecentos metros, mil, contas ajeitadas, sempre a correr pelo capim, galgando um ou outro arbusto. Fazíamo-lo não se nos ouvindo um único resfolgo. O cansaço só mais tarde nos colhia. De súbito, estávamos ali, junto da água barrenta, alguma da chuva, outra, talvez a maior parte, vinha de baixo, das veias da terra, ou fosse lá de onde fosse, trespassando pedras e areia fina.

No Cacimbo, aquela água chegava a ser transparente e conseguíamos ver um ou outro bagre pequeno, esse estranho peixe que consegue sobreviver na lama, indo buscar oxigénio a reservas que ele próprio constrói dentro de si, por alquimias secretas. No Calor, como era o tempo em que ali estávamos, ela ficava turva, do tom da terra vermelha da zona, e, também, mais alta. A Lagoa enchia, prenhe das chuvas grandes do nosso fascínio.

Sempre que aquelas águas caíam e andávamos por ali à solta, os calções e as camisas juntavam-se às sandálias nas sacolas escolares. Todos nus corríamos de um lado para o outro, caras viradas para cima. Bocas abertas, bebíamos o céu deixando a água fresca tanger-nos as gargantas e voltar a sair, correndo-nos pelo peito, excitando-nos o coração de meninos mais valentes do que os heróis das histórias do Mosquito.
Éramos capitães de um só medo: pisar a água da Lagoa sem antes ouvirmos o Velho. Só ele sabia se a surucucu andava por ali naquele dia, ou não.

E, outras coisas!
O Velho, – o Mwata de nome Milagre –, homem de servir em casa dos meus pais, no Largo da Tendinha. Também ele se evadia para a Lagoa, sempre que podia, para falas com os «mininos da Escola». Magro e seco como um abacateiro, igual aos que nas roças crescem esguios até ao Sol, lá abrindo a copa maior que um capacete colonial parecido com o que o meu avô usava, protegendo com a sua sombra os cafeeiros de muitos braços carregados de ouro negro, que faziam a riqueza de uns quantos e, aprofundavam a escravidão e miséria de muitos outros. O Milagre era alto como as mangueiras da Funda, e velho como um embondeiro. Tal como este, já nem sabendo a idade ou mesmo se menos velho alguma vez tinha sido. O meu Mwata nascera já assim, por certo: com idade crescida, e sábio.
Com o Milagre, ficávamos até o Sol avisar serem horas do regresso a casa. As suas mãos secas de dedos finos e compridos como os dos artistas, esculpiam no ar histórias de encantamentos, que escutávamos seduzidos. De quando em quando interrompia-se, quedando-se em silêncio a fumar um cigarro enrolado com a parte acesa virada para dentro da boca, como fazia a lavadeira da minha casa enquanto esfregava a roupa com o filho dormitando agarrado às costas por um pano envolvendo-lhe o peito.
Às vezes, o Milagre alçava os braços.
Não entendia porque o fazia.
Pareciam-me impulsos do coração do Velho, em busca de mistérios perdidos ou de acontecimentos para anunciar, lá por cima, nas terras dos deuses. Olhava-o, a ver se sim, mas permanecia inescrutável. – Não resisti. Um dia, perguntei-lhe:
- Porque te chamas Milagre?
Virou-se para mim. Ameigou-me o queixo e o cabelo com as mãos. Levantou-me suavemente a cabeça. Deixou repousar os seus olhos nos meus, e respondeu:
- Porque Deus me fez, e a minha mãe me disse assim!

quinta-feira, 8 de março de 2012

Dia da Mulher

Neste Dia Internacional da Mulher chegou-se-me à memória uma mulher que conheci há muitos anos, andava eu em serviço por Angola. Dela falei num texto aqui publicado em Novembro de 2009. Reedito-o.
 
[“Era uma vez um belo dia de Sol. Parti para o destino da reportagem - um campo de leprosos a Norte de Luanda. À chegada o Sol perdera a perfeição com que nos cativa o espírito, estava já a entregar-se ao adormecer da tarde.
Um fileira de casas de pau-a-pique, carcomidas pela idade e pelo abandono, algumas palhotas e um casebre, destelhado, onde gente de uma ONG angolana preparava refeições para distribuir.
Tinham-me avisado para me “preparar para o choque”. Fizera pouco caso. Já vira horrores de três guerras, sentia-me blindado. Avancei por aquele espaço onde tudo era sombra. Olhei por portas meio caídas, entrei numa e noutra palhota. Vi restos de gente, quase sem rosto, arrastando-se, corpos ansiosos aguardando o pão que, sabiam, estava para chegar. Como sabiam que nada mais lhes caberia do que ali ficarem, ostracizados, entregues à ferocidade do destino. Saí com o coração a doer-me e lágrimas a chorarem. Respirei fundo. Prossegui.
Alguns metros à frente parei junto de uma porta. Ali estava sentada uma velha com o que lhe restava das mãos sobre os joelhos. Olhámo-nos. Os seus olhos, grávidos de tristeza, rodaram, como a ensaiar um gesto. Disse-me alguém que me acompanhava: “Ela quer um cigarro.”
Baixei-me, de joelhos, frente a ela. Acendi um cigarro e levei-o ao que, outrora, teriam sido os seus lábios. Aspirou o fumo. De novo os seus olhos me procuraram, agora esvaziando uma lágrima a sorrir. Ia levantar-me quando o que das mãos lhe restava se encostou às minhas. Ouvi-lhe um sussurro:
- M´adesculpa, só. T´agradeço.
Levantei-me em silêncio, não sabendo o que dizer. Regressei, coração gelado, trazendo aquele olhar grávido comigo.
As mãos, que ela tocou, são estas com que hoje escrevo.”]
(ainda hoje me encontro com aquele olhar)

quarta-feira, 7 de março de 2012

Do Mwata

A Flor da Vida
Barba mergulhada entre as mãos.
Pensamento prisioneiro do silêncio, parecendo o encarcerado por Calipso em Ogígia.
Alma de face esmaecida, voz cava, prolongada, perdida, vagando. O que avista não é o seu mar. Este tem espumas de sombra. Lá, num longe que já não alcança, está o seu mar da Kyanda, de quietude serena, com ondas brincando às pedrinhas com diamantes lapidados pelo Sol. Lá, naquele longe, está o canto da Kyanda ao entardecer e nas noites em que a Lua desce para amar o mar, deixando que, junto às casuarinas, todos se amem.
O espírito, esse, não gosta que a vida se arraste pelo silêncio. Pode ser que os deuses, os mortais e os que o não são, os quimbandas, ou até mesmo as kuxingilas, o queiram, ele não.
Decide, então, partir em viagem no seu dongo, a caminho da cacimba do velho embondeiro. Leva o pungue para chamar a árvore, e a quinda para trazer o tesouro que tem de trazer para a alma voltar a sorrir.
Sabe ele, o espírito, que antes das múcuas nascerem o embondeiro poderá deixar cair as flores da vida sobre a água. É uma delas que ele procura.
Hoje, pelo capinzal, abriu-se caminho. A neblina, forro da cacimba, levantou-se. Uma flor ele vê. Recolhe-a. Trá-la. Oferece-a à alma, dizendo-lhe:
- Dá-lhe amor a comer e carinho a beber. Desta flor brotará vida.
Ilumina-se a face da alma, desenhando-se-lhe de novo o sorriso.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

A seca e a fé


Há seca em Portugal.
Os meteorologistas não hesitam. Reportagens televisivas mostram-na. Nalgumas regiões do país corre-se o risco de escassez de água, ou mesmo falta, para consumo humano. Os pastos estão secos e os bebedouros para o gado vão desaparecendo. Os agricultores e pastores apreensivos.
Declarar estado de seca? Pedir ajuda aos fundos específicos da União Europeia? Sim, ou não?
Assunção Cristas, a ministra do MAMAO (Ministério da Agricultura, do Mar, do Ambiente e do Ordenamento), foi à Comissão Parlamentar de Agricultura dizer aos deputados que “que não pode pedir ajuda apenas com base em percepções de que há seca.” E acrescentou:

“Devo dizer que sou uma pessoa de fé, esperarei sempre que chova e esperarei sempre que a chuva nos minimize alguns destes danos. Como é evidente, quanto mais depressa vier, mais minimiza, quanto mais tarde, menos minimiza. Se não vier de todo, não perderei a minha fé, mas teremos obviamente de actuar em conformidade».

Raciocínio profundo e complexo, este!
Percepções diz a ministra do MAMAO. Onde é que os nossos meteorologistas tiraram os cursos!?
Depois da história das gravatas, a ministra do MAMAO vai, por certo, actuar, impondo novas regras no seu ministério, como a da dança da chuva. Começará pelo canto. Os seus funcionários aprenderão a imitar o vento, os trovões, a tempestade e o barulho da chuva. Há quem diga (não consegui confirmar) que a ministra Cristas trouxe um par de chocalhos duma das visitas que fez ao interior, mais um de chavelhos, para com eles, agitando-os, chamar os espíritos da chuva que, pelos vistos, resolveram emigrar.
Se os funcionários se aplicarem e a fé da ministra não resolver ir de abalada não tarda será o dilúvio! Isto porque também se diz por aí que com a ajuda do ministro da vespa, passar-se-á a rezar pela chuva.
Que gente é esta que nos governa?
Que seca!
 

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Do Viajante

A Força e o Sonho
A noite espreita pelas portas abertas da janela. 
Olhando-se-lhe vê-se ser ela lenta, já velha, trazendo pela mão ventos que agitam o pensamento. Ventos de força. De que força?
Não sabe se está desperto. Como certeza tem apenas o não ter conseguido deixar-se no sono.
O para lá da janela diz-lhe que o luar quer, também, mostrar-se. A força, contudo, não o permite. Força? Que força?
Rompe. Lança as mãos pela janela. Segura a Lua, agarra-a e trá-la. Mas, ó desencanto! A Lua está vestida de paz podre, e é apagada a sua luz, envolvida por uma quietude triste. As estrelas dela se desligaram.
A força…Que força?
Que força é esta que o quer vergar? Onde está o seu rosto para que a possa ver?
Abre então os olhos. Deles se liberta o sonho cativo.
A força e o sonho bater-se-ão.
Ao que a força ao sonho fala, responde este:
- Não, sonhar não é desprezar-me.
 [“Pasmo sempre quando acabo qualquer coisa. Pasmo e desolo-me. O meu instinto de perfeição deveria inibir-me de acabar, deveria inibir-me até de dar começo. Mas distraio-me e faço. O que consigo é um produto, em mim, não de uma aplicação de vontade, mas de uma cedência dela. Começo porque não tenho força para pensar; acabo porque não tenho alma para suspender.”Bernardo Soares, Livro do Desassossego]
E porque o sonho e a força se bateram, o sonho diz para a força:
- És cobarde.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Do Viajante


A Sombra
Para onde me levas, caminho?
O silêncio diz-lhe nada.
Esguio e sujo, o desvio da picada condu-lo por entre piteiras.
Agora está ali agachado no escuro daquela sombra. Sombra que ele não sabe porque o é, já que o Sol hoje deixou-se mangonhar, não apareceu.
É estranho, murmura, esta sombra tem voz! Voz a querer saber:
- Porque estás assim tão silencioso, com ar tão penoso?
Ele responde:
- Porque no meu país só se brinca tristemente.
De repente tudo se fundiu na sombra.

domingo, 19 de fevereiro de 2012

Desafio


Em comentário ao meu post anterior, a Teresa do ematejoca azul escreveu:

“O título do meu post de hoje, é uma espécie de resposta a este seu profundo texto, meu caro amigo.
Qual dos dois domingos é o mais profano, o religioso ou o carnavalesco?
Aceito respostas!”

Gosto de quem agita as águas. A Teresa é uma agitadora, e a sua pergunta um desafio provocador. Eu, cá por mim, vou andar às voltas em busca de uma resposta. Antes, porém, revisito Eça de Queiroz:

“Oh deusa, tu és impecável: e quando eu escorregue num tapete estendido, ou me estale uma correia da sandália, não te posso gritar, como os homens mortais gritam às esposas mortais: - Foi culpa tua, mulher! “ 

E vocês, amigas e amigos, respondem à Teresa?

sábado, 18 de fevereiro de 2012

Amanhã é Domingo

E então!?

Porque Domingo será, haverá quem irá molhar os dedos em pias de água benta. E antes de uma ave-maria cantarolar ou de um padre-nosso balbuciar, haverá quem fique com o peito a arfar ao ver passar quem passará. Olhos tímidos, mas sedentos e não desatentos, pousarão em vestidos, outros em fatos. Cruzar-se-ão, alguns, trocando correspondência de desejos por encontrar, para além de disfunções da razão. Outros perder-se-ão como a Lua entre as nuvens. Ouvidos escutarão um recém ordenado com anéis e barretes cardinalícios dizer que “ a mulher deve ficar em casa”, logo acrescentando “o trabalho da mulher a tempo completo não é útil ao país”. Terminada a incumbência, para uns necessária, para outros urgente, e ainda para outros nem carne nem peixe, muito menos um estrangeirado hambúrguer ou uma nata do Álvaro, o povo sairá. Nas escadas à porta da casa estará, como sempre, uma mão estendida sem anéis e de cabeça não almofadada por barretes.
À esquina estará montada uma banca. Sentado estará Moisés, terminada que estará a sua licenciatura em angariação de fundos. Alguém lhe perguntará:
- Que fazes aqui, Moisés!?
Ele responderá:
- Estou em trabalhos de expiação.
E então!?
Amanhã é Domingo
Depois irão começar os dias que se arrastarão por seis virares de páginas. E quando o sétimo chegar não haverá descanso. Ficará perdido, provavelmente, no Livro das Horas.
E então!?
Amanhã é Domingo.
 

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Por detrás da ironia


A Teresa, do ematejoca azul, ofereceu-me o selo que ali está, a mim e a outros dois blogues. Diz que a palavra alemã liebster significa o "mais querido". A razão da oferta é que nos considera, aos três, “grandes amigos do povo alemão”. Escreve na caixa de comentários do seu blogue que se tratou de uma “maldadezinha” sua mas que, independentemente disso, os nossos blogues lhe “são mesmo muito queridos”.
Confesso não ter encontrado na atribuição do selo qualquer maldade pequena ou grande, ou mesmo assim-assim. A Teresa saberá, por certo, porque utilizou o vocábulo.
Vi-lhe, numa primeira leitura, uma certa e mordente ironia de recorte político, ou ideológico. Mais atento, nem isso, encontrei nas suas palavras apenas um simples dizer, daqueles que nos saem, de quando em vez, vá-se lá saber porquê!
Devo dizer, em verdade, que a oferta e as palavras da Teresa me fizeram sorrir. E como o sorriso é um espanta-coisas-más, e um atavio de que muitas vezes a alma precisa, fez-me bem. Aqui coloco o selo com todo o gosto.
A Teresa não me parece ser pessoa que se distraia. Desta vez, porém, aconteceu. É que este selo é apenas para ser atribuído a blogues com menos de duzentos seguidores.
Obrigado, Teresa, amiga de longe

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Ngala Namorados!

"O amor dá forma ao sonho mais belo que é a vida.
Sem ele tudo não passaria de um mar morto."
(digo eu)

Namoro

Mandei-lhe uma carta em papel perfumado
E com letra bonita eu disse ela tinha
Um sorrir luminoso tão quente e gaiato
Como o sol de Novembro brincando
De artista nas acácias floridas
Espalhando diamantes na fímbria do mar
E dando calor ao sumo das mangas

Sua pele macia – era sumaúma...
Sua pele macia, da cor do jambo, cheirando a rosas
Sua pele macia guardava as doçuras do corpo rijo
Tão rijo e tão doce – como o maboque...
Seus seios, laranjas – laranjas do Loje
Seus dentes... – marfim...
Mandei-lhe essa carta
E ela disse que não.

Mandei-lhe um cartão
Que o amigo Maninho tipografou:
"Por ti sofre o meu coração"
Num canto – SIM, noutro canto – NÃO
E ela o canto do NÃO dobrou

Mandei-lhe um recado pela Zefa do Sete
Pedindo, rogando de joelhos no chão
Pela Senhora do Cabo, pela Santa Efigénia,
Me desse a ventura do seu namoro...
E ela disse que não.

Levei à Vó Chica, quimbanda de fama
A areia da marca que o seu pé deixou
Para que fizesse um feitiço forte e seguro
Que nela nascesse um amor como o meu...
E o feitiço falhou.

Esperei-a de tarde, à porta da fábrica,
Ofertei-lhe um colar e um anel e um broche,
Paguei-lhe doces na calçada da Missão,
Ficamos num banco do largo da Estátua,
Afaguei-lhe as mãos...
Falei-lhe de amor... e ela disse que não.

Andei barbudo, sujo e descalço,
Como um monangamba.
Procuraram por mim
"-Não viu... (ai, não viu...?) não viu Benjamim?"
E perdido me deram no morro da Samba.

Para me distrair
Levaram-me ao baile do Sô Januário
Mas ela lá estava num canto a rir
Contando o meu caso
às moças mais lindas do Bairro Operário.

Tocaram uma rumba – dancei com ela
e num passo maluco voamos na sala
qual uma estrela riscando o céu!
E a malta gritou: "Aí Benjamim!"
Olhei-a nos olhos – sorriu para mim
Pedi-lhe um beijo – e ela disse que sim
E ela disse que sim
E ela disse que sim.
(Viriato da Cruz - poeta angolano, Porto Amboim 1928, Pequim 1973)
(Neste como noutro qualquer dia é sempre tempo para namoro. Viriato da Cruz escreveu o que de mais belo os meus olhos algumas vez leram. Pelo terceiro ano consecutivo trago este poema à minha cubata.)