quarta-feira, 10 de junho de 2009

10 de Junho (Dia de Portugal)

Puseram-no a olhar para as câmaras.
Mostrou-se-me pela televisão.


Vi gente anónima, outra conhecida. Alguma de pé: o PR e a senhora Maria (esta sentar-se-ia cansada, provavelmente, que a idade vai pesando), o PM e mais uns quantos a olharem para o desfile. PR, com um novo ajeitar do cabelo, e PM, com cara de poucos amigos; a senhora Maria não tanto.
Passaram boinas verdes e vermelhas; caras camufladas; blindados e outras armas, muitas, algumas aconchegadas a peitos como crianças de colo; vários caninos de ar enfastiado; peitos empandeirados de medalhas. Lá por cima voaram caças a jacto e helicópteros.
Falaram o presidente das comemorações e o PR que é de todos, como é de bom tom dizer-se, militares incluídos.
Trinta e sete personalidades, como tal as apresentaram, foram condecoradas. Umas mais, outras menos. A Grã Cruz não chegou para todas, houve que trazer as comendas à liça.
Tudo certo, muito certinho, trajando a rigor. Programa cumprido à risca. Tudo na ordem, a andar pelo mesmo carreiro.
Acabou? Não, ainda não.
Sem nada saber que perguntar, como a isso já nos vão habituando, um repórter inquiriu a criança de rosto rosado e olhos brilhantes:

- Vais querer ser militar?
- Não, não quero ser militar.

Caiu o pano, para o ano há mais.
Porque teimam em inventar o nada?
Não tivesse ouvido a criança e teria regressado à vil e triste apatia.
Não, não quero o país cerimonioso, sisudo, encarcerado, que a televisão me pôs na sala. Quero-o uma ave solta a voar sem anilhas. Quero-o a festejar nas ruas. Quero-o a comemorar Camões com alegria, com fraternidade, com igualdade, com amor. Quero vê-lo alegre no bairro, na vilas, nas aldeias, nas cidades, nos convívios jovens, nas colectividades de recreio, nas academias para a terceira idade, nas casas de cada um. Quero ver o meu país orgulhoso de o ser. Num coreto engravatado podem lá pôr-se os discursantes e as ordens honoríficas.
A criança deu-me alento para a leitura deste dia:


Fecham-se os dedos donde corre a esperança,
Toldam-se os olhos donde corre a vida.
Porquê esperar, porquê, se não se alcança
Mais do que a angústia que nos é devida?

Antes aproveitar a nossa herança
De intenções e palavras proibidas.
Antes rirmos do anjo, cuja lança
Nos expulsa da terra prometida.

Antes sofrer a raiva e o sarcasmo,
Antes o olhar que peca, a mão que rouba,
O gesto que estrangula, a voz que grita.

Antes viver do que morrer no pasmo
Do nada que nos surge e nos devora,
Do monstro que inventámos e nos fita.

( José Carlos Ary dos Santos)

2 comentários:

Antonio saramago disse...

Foi se dúvida um engrandecimento para Santarém ter recebido estas comemorações bonitas mas que a mim kuase nada me dizem pk farto de tropa fiquei eu,farto de sofrimento.
Mas fizeram-se obrasna cidade ,alcatrou-se aquele enorme espaço que era de terra e que tanto pó atirava para dentro de minha casa.
Que façam agora o mesmo por outras terras, para terem algum beficio com tanto dinheiro mal gasto..

Carlos Albuquerque disse...

Olá, António
Sempre valeu para alguma coisa! Para si, e ainda bem, menos pó em casa.
Um abraço